Bem mais que a semi-vitória do líbio Khadafi sobre os interesses petroleiros de Estados Unidos, França e Inglaterra, a raridade de Realengo tomou conta do noticiário nacional.
A morte de 12 crianças por Wellington Menezes de Oliveira (23 anos), na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, concentrou atenção e despertou debates nos últimos dias.
A cobertura da mídia comercial caracteriza-se, como já era de se esperar, por sensacionalizar o fato e potencializar ainda mais sua violência.
Há defensores de que os colégios se transformem em presídios, com detectores de metais, aumento de câmeras, catracas eletrônicas, intensificação de rondas militares... As empresas que vivem do estímulo ao pânico urbano agradecem.
Outra voz corrente é a que sataniza o rapaz que assassinou as crianças, como se isto fosse puni-lo.
Para quem ressalta essas visões constituem-se informações menores a constatação de que Welligton era psicótico, sua mãe (falecida há um ano) tinha demência e ele havia sofrido bullying na infância.
Portanto, é preciso enxergar a situação de forma mais ampla. Dado importante nessa tentativa: 8,6 milhões de armas ilegais “correm as ruas” do país, conforme o Ministério da Justiça.
Número que aponta a necessidade de uma política pública capaz de diminuir essa circulação desmesurada e – a meu ver – restringir a venda dos armamentos.
Aí, a gente mexe com os ricos fabricantes de armas, que têm tentáculos em vários países do mundo e bons contatos no Congresso Nacional brasileiro. Por isso, é bom que se chegue às profundezas do problema.
Outra esfera a ser considerada corresponde às formas de lidar com os preconceitos, os estereótipos, as diferenças, e isto na escola, na família, na igreja, no trabalho...
Pois negligência, intolerância, violência e tortura emocional também podem ser responsáveis em certa medida por desfechos como o que aconteceu em Realengo.
É por essas e outras que não qualifico Welligton como um assassino. Não que ele não tenha cometido assassinatos, posto que praticou uma ação que mereça a referida qualificação. Contudo, ele não era um assassino “por ofício” ou alguém contumaz no tipo de conduta.
Para além de conclusões que santifiquem as crianças mortas e queimem no inferno o autor dos disparos, temos que refletir sobre condições em sociedade que se pautem pela atenção especializada, o respeito incondicional e o afeto ao ser humano.
GIBRAN LACHOWSKI é jornalista, blogueiro e professor universitário em Rondonópolis.