Alair Ribeiro/MidiaNews
O local onde funcionou o Museu de Pedras Ramis Bucair, que está fechado desde 2011
Quase 60 anos após a inauguração e quatro depois de seu fechamento, o Museu de Pedras Ramis Bucair deve permanecer com as portas abaixadas por muito mais tempo. Ao menos no que depender da vontade do filho mais velho do idealizador, o engenheiro Ramis Bucair Júnior, que se sente desmotivado em reabrir o local.
Ele acredita que um dos fatores principais que contribuíram para o fechamento do museu, no Centro Histórico de Cuiabá, foi a falta de reconhecimento da sociedade com os feitos de seu pai.
Ramis Bucair foi um agrimensor, espeleólogo e pesquisador que realizou diversas expedições em Mato Grosso ao longo de décadas. Em suas andanças, ele descobriu 39 grutas e cavernas até então nunca pisadas pelo homem. Durante essas expedições, coletou objetos que compuseram o acervo do Museu de Pedras.
O museu foi inaugurado em abril de 1959, na Rua Galdino Pimentel, no Centro, como uma forma de homenagear Cuiabá. No entanto, o local fechou as portas em 20 dezembro de 2011, no dia da morte do explorador.
Após a morte, seu filho não conseguiu mais reativar o museu. Segundo ele, por ser particular, os órgãos públicos nunca disponibilizaram nenhum tipo de ajuda e isso desanimava Ramis Bucair nos últimos momentos de sua vida.
“Nos cobravam IPTU. Se não pagava a água, cortavam; energia era mesma coisa. Só tivemos isenção de IPTU quando o Centro Histórico foi tombado. Meu pai ficou cansado de tudo isso. Uma das grandes tristezas do meu pai foi essa situação”, afirma o engenheiro.
Além disso, o filho também acredita que os mato-grossenses não souberam dar o valor ao pesquisador. Isso também influenciou para o fechamento do museu.
“Nós já fizemos exposição Brasil a fora. O museu já foi reconhecido no Japão, Canadá, Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra, menos aqui no Mato Grosso. Acho que o grau de escolaridade, a cultura de um povo, induz a essa situação. Eu acho que é a hipótese mais condizente com essa situação de não ter esse reconhecimento”, afirmou.
Apesar disso, em 2015, o filho mais velho elaborou um projeto de reestruturação do espaço. Nesse plano, apresentou novas medidas de armazenamento e exposição do acervo, além de um novo local para comportar as 4 mil peças.
Uma novidade seria a divisão do espaço em três categorias. A primeira seria o Museu de Pedras Ramis Bucair, com as peças arqueológicas; a segunda parte seria totalmente dedicada a Marechal Rondon com objetos inéditos; e a última contaria a história de vida do idealizador.
O projeto foi apresentado para o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, cuja diretoria disse que faria desde que tivesse a concessão do museu por 20 anos.
“Não aceitei, jamais iria aceitar. Esse é um dos motivos pelo qual o museu está fechado até hoje”, disse Júnior.
Alair Ribeiro/MidiaNews
Engenheiro Ramis Bucair Júnior, filho mais velho do explorador, busca soluções para reabrir museu
Aventuras na mata
Ramis Bucair nasceu em Poxoréu, no dia 13 de junho de 1933. De família libanesa, ele se mudou para a Capital quando seus pais abriram um armazém na cidade.
“Meu avô tinha um tino comercial. Ele veio para cá e montou um bolicho, um armazém onde se vendia de tudo: secos e molhados, arroz e feijão. Ficava na Rua General Melo, próximo ao Pronto Socorro”, relembrou o engenheiro.
Contudo, Bucair sempre teve gana por exploração. Desde os 20 anos, o pesquisador já se lançava na selva mato-grossense e chegava a passar cerca de um ano fora de casa.
“Era um pesquisador nato. Acho que ele nasceu para pesquisar. E era apaixonado por pedras e índios”, recorda o filho.
Por causa dessa grande paixão, Ramis se formou em Agrimensura e Espeleologia – estudo das cavernas e grutas. Com isso, o explorador iniciou suas aventuras pelo interior do Estado.
Nessas explorações, as equipes eram compostas de cerca de 40 homens, sendo dois caçadores, dois pescadores e um escritor. Bucair sempre se preocupava em deixar todos os seus passos documentados e fotografados, acervo que hoje compõe o museu.
O filho conta que Bucair era um sobrevivente por suportar ambientes tão hostis nos confins de Mato Grosso.
“A equipe saía com 40 homens. E uns 10 voltavam. Muitos não sobreviviam aos ataques de animais e a doenças, como tifo e malária. Todos que iam sabiam dos riscos”, revelou o filho, que ainda tem de cabeça o número de vezes em que o pai contraiu malária: 22.
Histórias com índios
Ainda com esses trabalhos, o desbravador manteve contato com povos nativos, com quem aprendeu a falar três idiomas indígenas. Assim como uma de suas inspirações - Marechal Rondon -, ele conseguiu conquistar a admiração e o respeito de muitos líderes indígenas.
No entanto, a boa relação não era com todos os índios.
Em uma dessas expedições para mapear o Estado, dois repórteres acompanharam Bucair. Em determinado momento, eles precisavam atravessar um córrego, próximo de onde hoje é Alta Floresta, e perceberam que minutos antes um grupo de indígenas havia estado ali.
“Os índios paravam no córrego, assavam milho e o enrolavam na folha de pacova, que parece uma bananeira. Ali o milho se conservava durante dias. Meu pai chegou instantes depois e viu que ainda havia grãos de milho no chão”, explicou.
Diante do perigo, o líder pediu que a equipe recuasse. Porém, um dos repórteres insistiu em seguir para tirar fotos, contra a vontade de Bucair.
“Meu pai não queria que ele fosse porque sabia que os índios estavam próximos e poderia acontecer alguma coisa. Esse repórter resolveu ir por conta própria. Meu pai recuou com a equipe uns 4 quilômetros. Acamparam lá, ficaram quase um dia e meio esperando que os índios fossem embora”, relatou Ramis Bucair Júnior.
Horas se passaram e o repórter ainda não tinha retornado. Então todos começaram a se preocupar. No dia seguinte, o fotógrafo ainda não tinha aparecido e seu companheiro estava desesperado.
“O outro repórter queria ir atrás, mas meu pai não deixou. Dois funcionários tiveram que segurá-lo. Mas meu pai sentia que os índios tinham pegado o fotógrafo”.
Quando os homens voltaram para a região do córrego, encontraram o corpo do jornalista a cerca de 100 metros do local. Estava com mais de 20 flechas pelo corpo e diversas marcas de agressão na cabeça.
Já em 1959, o pesquisador estava em uma aldeia e presenciou uma chacina contra indígenas. Nessa época, a extração de borracha estava em seu auge em Mato Grosso. Porém, os seringalistas consideravam os nativos um obstáculo.
Em uma dessas situações, os extratores de borracha teriam invadido a tribo para executar todos os habitantes. Quando viu a invasão, Bucair se escondeu e fotografou toda a ação.
A fotografia mais marcante dessa chacina registrou uma menina amarrada de cabeça para baixo pelas pernas e sendo cortada ao meio. Depois disso, Bucair registrou uma denúncia na Organização das Nações Unidas (ONU).
Arquivo Pessoal
Antiga fachada do Museu de Pedras, na Rua Galdino Pimentel
Explorador de cavernas
Após os trabalhos de mediação e demarcação de milhares de lotes de terras, Bucair passou a se dedicar às cavernas e grutas de Mato Grosso.
Durante esse processo, ele descobriu, identificou, pesquisou, topografou, fotografou e catalogou 39 cavernas e grutas no Estado, todas registradas no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Foi aí que ele começou a fazer a coleta desses materiais que hoje compõem o acervo do Museu de Pedras. Bucair encontrou fósseis, alguns machados da época neolítica, pinturas rupestres e diversos outros materiais arqueológicos.
Porém, não foi uma tarefa fácil. Os equipamentos eram muito rudimentares nessa época. Muitas vezes, algumas escaladas eram feitas até sem equipamentos de proteção.
“Para fazer rapel, era sem esses equipamentos, era na corda e na mão seca mesmo. Às vezes ele ficava preso dentro de uma caverna e pegava o machado e ia quebrando para sair. Há fotos documentando tudo isso”, afirmou o filho do pesquisador.
Os dois filhos mais velhos também participaram de algumas das aventuras nas cavernas enquanto ainda tinham oito e sete anos.
“Eu ficava alucinado, assustado com toda essa situação e achava emocionante. Eu não tinha a visão do que era aquilo e achava que tudo era uma festa. E também não media o grau de periculosidade. Cansei de descer com ele várias vezes o Portão do Inferno, o Véu de Noiva e várias outras grutas, descendo com uma corda na cintura”, relembrou Júnior.
Mesmo sendo considerado um pouco maluco pelo primogênito, o explorador preserva uma imagem grandiosa na memória da família e dos amigos.
“Ele era um homem sério, perspicaz, de opinião firme. E ele tinha um quesito de jamais desistir daquilo que estava fazendo. Era muito perseverante e extremamente meticuloso no planejamento de suas missões, sempre primava pela segurança da sua equipe”, finalizou.
Comentários (17)
Por diversas vezes visitei o Museu do Ramis. Muito interessante e importante. Como sugestão: Há necessidade de se fazer um projeto para modernizar as instalações, com boa refrigeração, sala de exposição, visita guiada, funcionários bem capacitados, após reforma uma mega (re)inauguração . Para a manutenção é importante que se cobre ingresso.
enviada por: Roberto Vaz Data: 30/04/2018 07:07:27
Boa noite. Nasci em Cuiabá e nunca ouvi falar Ramis bucair, em todas as escolas que estudei em Cuiabá nunca mencionaram o nome dele. E muito triste isso pois um cidadão de grande importância para o estado e o mundo não ter o seu trabalho divulgado em seu proprio estado.
enviada por: Ricardo Data: 29/04/2018 18:06:49
" Museo Ramis Bucair" Triste saber, que história verdadeira de Mato Grosso deixada ao esquecimento por descaso de quem responsável, que o Poder Público!
enviada por: Lisandro Peixoto Filho Data: 29/04/2018 18:06:21
Contraponho o comentário desse cidadão de codinome Emilio Nardes Gaiva, que tece seus comentários na mais absurda ignorância. Como amigo de longa data (65 anos) do Paguimegera Curireu Dr. RAMIS BUCAIR, sempre soube que uma verdadeira fortuna foi gasto em pesquisas, construção e manutenção da estrutura do museu antes e durante os 60 anos da sua fundação, e que sempre seus dois filhos o acompanharam desde muito jovens em busca de seu sonho na construção desse acervo tão valoroso. Sei também do seu imenso descontentamento e decepção pelo não reconhecimento desse patrimônio histórico/cientifico, porque assim me confidenciava, que alem de prestar um serviço de utilidade publica, inclusive mundialmente reconhecido, nunca teve isenção de imposto e outros tributos, ao contrário do que acontece em outros países civilizados. Saiba, Sr. Emilio que devido a isso e por sua vontade, o museu já havia paralisado as suas atividades quando ainda em vida. Alias, sugiro a família que faça um leilão mundial desse acervo e encerre de vez essa polêmica, porque lá fora existe quem dê valor a esse imensurável patrimônio.
enviada por: Pedro Campos Data: 29/04/2018 16:04:45
Nosso irmão Ramis Bucair é uma lenda, foi um grande benfeitor em todas as áreas . Seu trabalho é base de muita coisa boa surgiu e surge em Mato Grosso . E é exatamente por seu desapego a reconhecimentos e ajudas governamentais e políticas que hoje é reverenciado, aclamado e respeitado por todos os cidadãos de todas as idades desse Estado e até mesmo de fora dele. Concordo com o Emilio Nardez, nosso colega de reuniões sabáticas matinais no Chopão em ouvindo as incontáveis e impagáveis narrativas do nosso grande Ramis Bucair.
enviada por: Epifânio Arruda Paes Data: 29/04/2018 13:01:26
Uma vergonha para Mato Grosso! Um Museu de extrema importância para nosso Estado não pode permanecer fechado. Um homem como Ramis Bucair, deve e merece ter seu legado reconhecido e valorizado. Um absurdo o Goverjo de Mato Grosso não fazer nada. Triste realidade.
enviada por: Gabriela Data: 29/04/2018 11:11:53
Um homem brilhante que marcou a história do nosso Estado, merece todo reconhecimento por lutar e desbravar, não podemos deixar isso acabar!
enviada por: Marcia Silva Data: 29/04/2018 11:11:35
Saudoso Ramis Bucair, conhecí todos os familiares desde a época em que seus genitores possuiam o armazém na rua Gal.Melo bem próximo à santa casa de misericórdia onde alí eu quando criança fazia compras. Esse legado de Ramis tem que ser reativado e que os orgãos relativos ao Centro Histórico tenham um pouco de respeito para com a história deste ilustre personagem de nosso estado com reconhecimento até no exterior.
enviada por: waldomiro lopes Data: 29/04/2018 11:11:21
Cheguei em Mato Grosso em 1977 para trabalhar como geólogo em empresa de mineração. Naquela época ainda não eram disponíveis mapas topográficos do IBGE e DSG. Muitas vezes recorremos ao Museu Ramis Bucair. Lá ele dispunha inúmeros mapas - layouts q foram extremamente úteis. Sugiro aos filhos q façam um termo de cooperação com a Geologia - FAGEO - UFMT em uma retomada do museu. O acervo sobre Mato Grosso é muito bom. INFELIZ O PAÍS, ESTADO OU MUNICÍPIO, QUE NÃO RECONHECE O TRABALHO DOS SEUS FILHOS!!!!
enviada por: Ricardo Weska Data: 29/04/2018 11:11:14
Excelente matéria, não podemos esquecer dos que aqui chegaram quando existiam estradas, seo Ramis, Dr Paraná, seo Fiote, seo Sinjão Capilé e quantos outros, graças à eles hoje temos a estrutura rica do agronegócios, lembro bem da propaganda nos anos 79/80 venha ajudar abrir MT. Não desista da luta, Ramis Júnior, temos muitas histórias a contar, morei próximo à casa de vocês e lembro bem o quanto vosso pai trabalhou em prol dos índios e conflitos de terras, o povo matogrossense conhece pouco das lutas, vamos lembrá-los.
enviada por: Flávio Capilé Rivera Data: 29/04/2018 11:11:13
GRANDE SR RAMIS! O poder público precisa promover ações para viabilizar a reabertura deste local valioso para a história de Mato grosso
enviada por: Everaldo Data: 29/04/2018 11:11:10
Mato Grosso deve muito a Ramis Bucair. Deve, a informação da ocupação fundiária; deve mapas, dos quais mantenho exemplares antigos, com cuidado reverencial. A História é feita de personagens como Rondon, Bucair.. O nosso tempo não começou ontem.Vamos reverenciar Bucair.
enviada por: rui alberto wolfart Data: 29/04/2018 11:11:03
Grande e saudoso Ramis, das melhores estórias, presente em todos os momentos decisivos para Mato Grosso desde que nasceu. Tenho certeza que, se vivo estivesse, daria uma bronca em seus filhos e netos por questionarem a falta de recursos públicos para manter seu legado. Você nunca foi assim; você aplaudiria de pé a atitude da família de Roberto Marinho em montar um museu em sua casa sem pedir nem aceitar nenhum incentivo financeiro, fiscal ou logístico de governo algum.Assim era o nosso Ramis. Acho que, em memória de nosso grande amigo Ramis Bucair , sua família e familiares deveriam repensar o que dizem nessa matéria e alinhar o pensamento ao do patriarca que gerou tudo com seu trabalho, muito amor e desprendimento.
enviada por: Emílio Nardez Gayva Data: 29/04/2018 10:10:44
Uma vergonha para Cuiabá, para Mato Grosso. Bucair nunca terá o devido reconhecimento pelo estado.
enviada por: Robélio Orbe Data: 29/04/2018 09:09:43
Nossa, estou aqui em MT há 12 anos e não tinha ouvido nessa personalidade fantástica e intrigante. Espero que consigam reabrir o museu. Que biografia maravilhosa!!
enviada por: JORGE P D PEREIRA Data: 29/04/2018 09:09:23
Tive o prazer de conhecer o Sr. Ramis e Nazir Bucair, em todas as oportunidades que tive parei para escuta-los. Sempre gostei da historia de nosso Estado. Também tive o prazer de escutar as histórias de Lenine Povoar, não sou cuiabana, mas tenho paixão pela cultura e história matogrossense!!!
enviada por: Rosalva Alves Data: 27/08/2021 17:05:45
Conheci pessoalmente Ramis Bucair na década de 70, através de meu pai, que também tinha negócios de consultoria agrária em Cuiabá. Eram amigos. Eu ainda era criança, mas me lembro bem do seu escritório em Cuiabá; talvez onde é o museu hoje.
enviada por: Sérgio Serafini Júnior Data: 13/04/2020 00:12:53