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Em carta, índios relatam mortes e acusam fazendeiros

Saída de não-índios da região teve início na segunda-feira; houve confronto

Felipe Milanez

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Cacique xavante Damião: "Dormimos tranqüilos, sonhamos bonito com a vitória da nossa terra"

CAROLINA HOLLAND
DA REDAÇÃO
Os índios xavantes da Terra Indígena Marãiwatsédé divulgaram, na segunda-feira (10), uma "carta aberta à sociedade brasileira", na qual afirmam que, há pelo menos 20 anos, desde quando começou a luta pela terra, eles são alvos de agressão por parte de grandes fazendeiros.

Em meio aos conflitos entre os não-índios que terão que ser retirados da reserva indígena, no Vale do Araguaia, e as forças de segurança, os índios, considerados pela Justiça como os verdadeiros donos da terra, resolveram se manifestar .

Na carta, protocolada na sede do Ministério Público Federal, em Cuiabá, e assinada pelo cacique xavante Damião Paridzane, a comunidade fala sobre a luta pela terra, que começou há 20 anos, durante a Eco 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento), ocorrida no Rio de Janeiro.

“Os anciões esperaram há muito tempo para tirar os não-índios da terra. Sofreram muito. A vida inteira sofrendo, esperando tirar os fazendeiros grandes”, diz trecho da carta.

Os xavantes relatam que, antes de 1960, só havia duas casas em São Félix do Araguaia (1.200 km a Nordeste de Cuiabá), e que, após a retirada dos índios para a terra indígena São Marcos, o território foi destruído pelos brancos.

Na carta, os indígenas acusam os fazendeiros da região de assassinarem xavantes e os chamam de bandidos. “Mataram com tiro. Morreu Tseretemé, Tserenhitomo, Tsitomowê, Pa’rada, Tseredzaró, tudo morto com tiro. Não vamos trair o espírito deles”, diz a carta.

Os índios falam ainda sobre Ariosto da Riva, dono de uma empresa colonizadora paulista que adquiriu as terras antes da petrolífera italiana Agip.

“Quando o povo de Marãiwatsédé morava aqui quem apareceu primeiro foi Ariosto da Riva. Ele fez foto com o nosso povo. Ele enganou os xavantes, destruiu nossa terra. Não pediu para o povo xavante se podia destruir a floresta. Foi ele que fez invasão do nosso território. Os mais velhos lembram, o piloto dele era o Nelson”.

Na carta, os índios agradecem à Força Nacional, ao Exército, à Polícia Federal e a presidente Dilma Rousseff “porque sabem que a terra é dos xavantes de Marãiwatsédé”.

Pelo menos, 10 pessoas ficaram feridas ontem, data de início da saída dos posseiros da região. Leia mais AQUI.

A área

A área indígena Marãiwatsédé está localizada na região Nordeste de Mato Grosso, tem mais de 165 mil hectares e é alvo de uma disputa entre a comunidade indígena e produtores rurais.

A Justiça reconheceu a área como de uso do povo xavante.

As famílias obrigadas a deixar suas áreas em cumprimento à decisão judicial estão resistindo, desde segunda-feira, ao processo de desintrusão.

Confira abaixo a íntegra da carta protocolada no MPF:

Carta da comunidade xavante à sociedade brasileira


“Na eco 92, começamos a lutar pela nossa terra de Marãiwatsédé.

Nesse território, os ancestrais, nossos bisavós viviam em cima da terra. Esse território é origem do povo de Marãiwatsédé. Nessa terra amada foi criado o povo de Marãiwatsédé.

Agora a desintrusão já começou. Os anciões esperaram muito tempo para tirar os não-índios da terra. Sofreram muito. A vida inteira sofrendo, esperando tirar os fazendeiros grandes.

A lei federal, a constituição, as autoridades estão do nosso lado. As autoridades da Força Nacional, exército, polícia federal estão do nosso lado porque a presidente Dilma sabe que a terra é dos xavantes de Marãiwatsédé.

Agradecemos as autoridades e todas as entidades que nos apóiam nessa luta da verdade contra a mentira. A desintrusão é ótima.

Será que a terra é dos brancos? Será que os pais, os avós, os bisavós dos fazendeiros nasceram aqui? A gente sabe, a comunidade de Marãiwatsédé sabe. Não nasceram! Quem sempre ocupou a terra foi o índio. O xavante de Marãiwatsédé. Hoje a comunidade espera tranqüila a desintrusão.

Quem ocupava a terra eram nossos pais, nossos avós, nossos bisavós, que nasceram aqui, cresceram aqui, fizeram festa para adolescente. Lutaram muito, faziam ritual dentro do território de Marãiwatsédé. Nem fazendeiro e nem posseiro viviam aqui antes de 1960.

Era só índio, os anciões lembram, só tinham duas casas em São Félix do Araguaia. Quando fomos retirados para TI São Marcos, já criaram os municípios e o nosso território foi destruído.

Quem destruiu, foi o índio ou foi o branco? A gente sabe mesmo, foi o branco que destruiu a floresta, essa não é a nossa vida. Nossa vida é preservar a terra, a natureza, os rios, os lagos. É assim que a gente vive, nosso povo respeita nossa mãe e nossa mãe é a natureza. Esperamos tranqüilos a nossa vitória. Dormimos tranqüilos, sonhamos bonito com a vitória da nossa terra.

Antes da retirada de nossa terra, mataram muitos xavantes. Os fazendeiros daquele tempo é muito bandido. Mataram com tiro. Morreu Tseretemé, Tserenhitomo, Tsitomowê, Pa’rada, Tseredzaró, tudo morto com tiro. Não vamos trair o espírito deles.

Eles só foram tombados em cima dessa terra. Será que os fazendeiros vão pagar indenização?

Quando o povo de Marãiwatsédé morava aqui quem apareceu primeiro foi Ariosto da Riva. Ele fez foto com o nosso povo. Ele enganou os xavantes , destruiu nossa terra. Não pediu para o povo xavante se podia destruir a floresta. Foi ele que fez invasão do nosso território. Os mais velhos lembram, o piloto dele era o Nelson. A comunidade xavante de Marãiwatsédé quer ter a terra de volta. Ela foi reduzida.

A diferença do xavante de Marãiwatsédé com os outros xavantes é porque os xavantes de Marãiwatsédé estão sempre preservando a floresta. Não é só o cerrado. A floresta (Amazônica) é a principal para nossos bisavós que viviam aqui.

É a mata misteriosa que só os xavantes de Marãiwatsédé conhecem seus segredos. Por isso, os antepassados sempre preservaram a floresta, porque ela é da nossa cultura.

Essa terra é nossa origem. Os Xingus também protegiam nossa terra, os antepassados dos Kalapapos eram amigos dos antepassados dos xavantes de Marãiwatsédé.

Os animais não podem sofrer mais com tanta destruição da natureza. Quando a terra for devolvida para o nosso povo, a floresta vai viver novamente, vão voltar os animais e plantas. Nossa mãe vai ficar muito forte e muito bonita, como sempre foi. É assim que tem que ser.

Damião Paridzane
Cacique da Aldeia Marãiwatsédé"




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19 Comentário(s).

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alzite  12.12.12 10h59
alzite, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
fabio  12.12.12 02h27
em sao paulo e no rio de janeiro tbem existiam indios no descobrimento do brasil se a desculpa e essa vamos devolver p eles tbem
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eliezer  11.12.12 21h07
eliezer, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
Agnaldo Miranda  11.12.12 17h18
O que está acontecendo nessa região é uma afronta aos direitos constitucionais dos produtores rurais, em sua maioria pequenos e médios. Quero ver, o que esses indios vão produzir! Ou seja, até ja sei: NADA
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Carlos Vinc  11.12.12 16h22
Quantas atrocidades o execito brasileiro fez na epoca da ditatura militar, isso que estamos vendo é o reflexo do exedo rural patrocinado pelos militares,quantas e quantas pessoas que tinham seu pedaço de chão e diveram que sair para ir morar em cidades grandes,nas COHABS..etc. Os indios estavam no que eram deles e agora mais do que justo a reitregação de posse.
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