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Nos bares de SP, garçons lamentam morte de Reginaldo Rossi

Fãs ou não, profissionais comparam música com as próprias experiências.

DO G 1
As fotos nas paredes já estão desbotadas, mas a memória de Fernando Bernardo Ferreira, de 73 anos, é bastante vívida. “Uma figura sensacional”, resume o dono do “Bar dos Cornos”, na zona oeste de São Paulo, ao falar sobre a visita do cantor Reginaldo Rossi ao local, há cerca de dez anos. Ele e outros donos de bares e garçons lamentaram a morte do Rei do brega, dono do sucesso "Garçom", composto com lamentos pinçados de mesas de bar.
Fotos nas paredes lembra a visita de Reginaldo Rossi ao 'Bar dos Cornos', em São Paulo (Foto: Fabiana de Carvalho/G1)Fotos nas paredes lembram a visita de Reginaldo

“Ele cantou com garçons, claro, e no meio das mesas. Brincou com todos. Se sentiu em casa, este bar era a cara dele”, conta, ao explicar que o artista acompanhou a equipe de um programa de TV. Orgulhoso, Ferreira exibe fotos nas quais Rossi aparece ao lado dele e de uma de suas filhas. O empresário diz que estava acompanhando notícias sobre a saúde do cantor e tinha consciência de que o caso era grave. Na sexta-feira (20), por volta do meio-dia, recebeu da mulher a notícia sobre a morte. “Só nos resta rezar agora”, lamenta o fã, que já admirava o artista antes da visita. “As músicas dele são bregas e eu gosto por isso mesmo”, assume.
morte de reginaldo rossi

Quem concorda com o patrão é o garçom Marcio Luiz Terondi, de 36 anos, que trabalha há cinco anos no bar e lamenta não ter tido a chance de conhecer Rossi. “Eu gosto das músicas dele, e os clientes sempre brincam com a gente também. Fora que eu já vi muito cliente chorando mágoa porque perdeu a mulher para outro, casos tipo o da música mesmo”, diz. “Esse bar era realmente a cara dele”. Na sexta, a dupla Thiago e Ravell abriu sua apresentação no “Bar dos Cornos” homenageando o cantor, com o público acompanhando em coro o refrão de “Garçom”. Rodrigo da Silva Soares, de 30 anos, o Ravell, admite que a música sempre foi um dos maiores sucessos do repertório da dupla, onde quer que se apresentem.
Marcio Luiz Terondi, 36 anos, garçom do 'Bar dos Cornos', em São Paulo (Foto: Fabiana de Carvalho/G1)Marcio Luiz Terondi, 36 anos, garçom do 'Bar dos
Cornos' em São Paulo
“Logo que eu comecei a cantar, há uns 12 anos, percebi que tinha que aprender essa. É a que mais pedem em qualquer bar ou festa. É uma daquelas músicas que não vão morrer nunca”, avalia o cantor, que admite ser mais fã de outros gêneros, como o sertanejo, mas garante ter um “respeito enorme” por Rossi.

Além da dupla, o bar costuma ainda ter como atração às quintas-feiras o cantor Baroni. E, de acordo com Ferreira, um fato curioso aconteceu na véspera da morte de Reginaldo Rossi. “Sem nenhum motivo especial, o Baroni cantou várias músicas dele ontem. Ele sempre canta uma ou outra, mas ontem passou a noite cantando Reginaldo Rossi. Parece até que foi algum tipo de aviso”, diz.
Antônio Calixto, 72 anos, garçom do bar Genésio, na Vila Madalena, em São Paulo (Foto: Cauê Muraro/G1)Antônio Calixto, 72 anos, garçom do bar Genésio,

Garçom desde 1962, Antonio Calixto, 72, confirma a autenticidade da letra do hit de Reginaldo Rossi: na mesa do bar, ele “cansou de escutar centenas de casos de amor”. “Comigo, isso já aconteceu umas mil vezes”, brinca. “Já ouvi muito corno chorar na mesa.” Calixto está plenamente de acordo com os versos de “Garçom”, escrita pelo Rei do brega, morto nesta sexta-feira (20). “Eu me senti homenageado com a música, tem muito significado. Fala da realidade”, avalia o garçom, que trabalha há 12 anos em um bar na Vila Madalena, em São Paulo (SP).

Nascido em Solonópolis (CE), Calixto não era propriamente fã do artista, mas respeitava – e cita Altemar Dutra como um favorito. “O Reginaldo Rossi era brega, mas eu gostava. Era um bom cantor.” Ele se recorda que estava no bar – excepcionalmente na condição de cliente – quando o escutou “Garçom” pela primeira vez. “Foi no Atlântico, que ficava na Avenida Ipiranga. Ouvi no rádio.” Diz ainda que houve uma época em que se identificava mais com a voz da música do que com o personagem do garçom. "Sempre bebi muito, fui da boemia. Não sei se posso falar, mas sempre fui apaixonado pelas quengas da madrugada", confessa, rindo. Se depender da previsão de Calixto, a música volta a ser executada: “Agora que morreu, estoura de novo”.

Cochilos na mesa
Na letra de “Garçom”, há uma passagem em que o protagonista canta: “Se eu pegar no sono, me deite no chão”. Funcionário de um bar na região da Avenida Paulista, Rogério de Carvalho Ferro, 29, garçom há sete anos, admite que jamais atendeu um pedido assim. “Mas já vi o cara beber e dormir na mesa”, conta. “A gente deixa um pouco, e depois acorda.”

No estabelecimento vizinho, Jefferson Francisco da Silva, 30, garçom faz uma década, conta que foi uma colega quem deu a notícia da morte. A primeira reação foi de descrença: “Eu falei: ‘É mentira!’. Fiquei baqueado, lógico. Não era fã dele, mas gostava da música”. E por quê? À medida que responde, Silva canta (afinado) trechos da canção e sintetiza: “Era uma música bonita e falava a verdade”. “Ele está se abrindo para o garçom, conversando, desabafando. Você tem de imaginar a cena”, sugere.

Em seguida, o garçom elenca as queixas mais comuns de quem vai ao bar para “tomar todas” e “se embriagar”. “Tem três coisas: ou é relação com mulher, ou é dinheiro, ou é futebol.” Jefferson Silva afirma que já testemunhou situações mais embaraçosas que um cochilo eventual induzido pelo álcool. “Já vi dormir, sim, mas já vi até vomitar. A música mostra alguém que chegou ao limite, mas não a esse ponto.”
Jefferson Francisco da Silva, 30 anos, e Janaína Silva do Nascimento, 26 anos, garçons de um bar na região da Avenida Paulista, em São Paulo

Foi Janaína Silva do Nascimento, 26, garçonete há dois anos, quem contou a Silva que Reginaldo havia morrido. Admiradora de MPB (Marisa Monte, Maria Rita, Djavan, Jorge Vercilo) e rock (The Doors, Ramones, Led Zeppelin, Janis Joplin), ela gosta de escutar “Garçom”. Mas depende da situação. “Na zueira, tirando um barato, bebendo com os amigos, eu ouvia. Mas nada contra também”, corrige.

Na opinião dela, a música fala de alguém “que está com dor de corno”. Alertada de que os versos não mencionam nominalmente uma traição, argumenta: “O cara está com dor de cotovelo. Cada um entende como quer. E muitas vezes o Reginaldo Rossi fazia show com chapéu de boi...” A interpretação de Janaína, ela assume, tem a ver com as histórias que ouve de clientes que não se incomodariam de cantar “Garçonete...” no lugar de “Garçom”. “Tem várias histórias de homens que contam: ‘Eu pagava as contas dela, e ela estava com outro!’.” Mas e se fosse para alguém escrever “Garçonete” de verdade, que poderia se encarregar da missão? “Falcão”, ela responde, depois de dizer que enxergava Reginaldo Rossi como “brega e humorista”.



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