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A pichação

Na história das pichações, a ira e a inveja são vibrações negativas da desrazão humana

EDUARDO MAHON

Há muitos tipos de pichação. Há aquelas que são óbvias e toscas. Geralmente, realizadas pelos lunáticos que agridem o patrimônio alheio, objetivando a honra. Ou simplesmente por vingança, esse sentimento cancerígeno da alma. Há tantas formas de pichação que até virou forma de arte, com sofisticados grafites, fazendo do que era um pesadelo, uma renovação para muitos bairros de várias cidades do mundo.

Mas a pior pichação não é a oriunda da lata de spray. É uma, de outro matiz e quase impossível de ser flagrada, porque é uma pichação sussurrada. Essa sim, é uma pichação covarde, indecente. Tantos homens são pichados - um, como lobista, outro como esnobe, o primeiro como viciado, o segundo como acometido de estrelismo, o terceiro como corrupto. A pichação de traidor é uma das mais dolorosas. A pichação de medíocre é demolidora. Enfim, essas pichações são perniciosas, invisíveis e imorais.

Justo por isso que sempre devemos nos pautar por questões institucionais e não pessoais. Tantas coisas já são sabidas na comunidade mato-grossense e, sobretudo, na cuiabana. Já tive oportunidade de escrever um artigo "todo mundo sabe que todo mundo sabe". Mas, nem por isso, nos é dado o direito de imiscuir-nos nas vidas alheias, revirando entranhas a baixar o nível dos debates públicos.

Em Roma, já havia pichação. Otávio era pichado como homossexual, porque, dizem os historiadores, envolveu-se com um dirigente oriental. Até Júlio César e, depois de sua morte, Marco Antônio foi pichado como bêbado e traidor. Cleópatra era uma conhecida pichada. Em Veneza, havia a pichação institucional, com as famosas "bocas de leão", onde os cidadãos denunciavam anonimamente outros cidadãos. O Tribunal do Santo Ofício, instituição católica, guiou seus trabalhos por pichações de uns contra os outros. A História do Brasil inclusive está cheia de pichações das mais tristes e divertidas, envolvendo Jânio, Juscelino, Getúlio e outros bem mais recentes.

Há a pichação jornalística de encomenda. Aquela que "acompanha" determinado fato com tanto interesse que faz notícia fatos absolutamente banais. São pequenos rancores pessoais que se transformam em verdadeiras coberturas jornalísticas. São pichações de encomenda, de natureza política. Chegam a criar jornais, blogues, grupos de discussão na internet para pichar alguém e fazer dele um alvo político para objetivos dos mais nocivos e criminosos. Há jornais subsidiados para pichar e para deixar de pichar.

Quando cheguei a Cuiabá, quase 30 anos atrás, ouvi uma deliciosa história que mais parece lenda sobre uma pichação em um caso político. Achei impossível isso ter acontecido numa cidade provinciana como era a nossa querida Cidade Verde; estava completamente enganado. Alguns anos atrás, eu mesmo vi uma pichação de caráter pessoal do mais baixo calão sobre duas personalidades políticas que abateu a família de ambos. Foi duro golpe que até hoje repercute.

Há a pichação artística, aquela que acabou com a carreira de Simonal, tachado como delator. Leonardo Da Vinci pichou muito o trabalho de Michelangelo, por exemplo. Compositores arranham-se em pichações, como Noel Rosa e Wilson Batista, este chamando Noel de Frankenstein da Vila Isabel, sendo respondido "quem é você que não sabe o que diz/meu Deus do céu, que palpite infeliz", numa das memoráveis canções da música popular brasileira. Essas pichações rendem até bons resultados.

Vamos lembrar aqui a pichação de Herivelton Martins contra Dalva de Oliveira, na época da separação: "atiraste uma pedra no peito de quem te fez tanto bem", e outra canção de doer a alma: "não fale dessa mulher perto de mim (...) respeitem ao menos, meus cabelos brancos", devidamente respondidas por Dalva que cantou a ferina Errei Sim de Ataulfo Alves : "Errei, sim/Manchei o teu nome/Mas foste tu mesmo o culpado/Deixavas-me em casa/Me trocando pela orgia/Faltando sempre/Com a tua companhia/Lembro-te agora/Que não é só casa e comida/Que prende por toda vida/O coração de uma mulher/As joias que me davas/Não tinham nenhum valor/Se o mais caro me negavas/Que era todo o teu amor/Mas se existe ainda/Quem queira me condenar/Que venha logo/A primeira pedra me atirar".

Deveras, são pichações e pichações. Algumas positivas, românticas até, motivadas pelo amor não correspondido, outras amargas como o fel. A maioria das pichações são aquelas oriundas da inveja, esse sentimento corrosivo que machuca muito mais o invejoso do que o invejado. São pichações maldosas, tantas vezes falsas, mas repetidas à exaustão, tornam-se uma verdade nazista. Na grande maioria da história das pichações públicas e privadas, são a ira e a inveja as vibrações negativas das desrazões humanas. Quem picha, merece cuidado, tratamento e oração.

EDUARDO MAHON é advogado em Mato Grosso e Brasília e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.




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