Aniversário Varzea Grande
Obras inacabadas. Ruas e avenidas esburacadas. Bairros escuros. Esgoto a céu aberto. Pessoas morrendo à espera de atendimento nos postos de saúde e residências sendo assaltadas diariamente. Esses são alguns dos problemas vivenciados pela população de Várzea Grande, há alguns anos.
A segunda maior cidade de Mato Grosso em número de habitantes completa 149 anos neste domingo (15) e, em meio a tanto descaso, é difícil ter o que comemorar.
Várzea Grande foi fundada em 1867 por José Vieira Couto Magalhães.
Nos últimos anos, a cidade se transformou em um canteiro de obras da Copa do Mundo de 2014 e o que era uma esperança da população para melhorar a mobilidade urbana da cidade se transformou em pesadelo.
A implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), por exemplo, destruiu uma das principais avenidas do município, a da FEB - que liga a cidade à Capital do Estado.
Empresários enfrentam, até hoje, problemas nas vendas dos seus produtos. A sociedade, por sua vez, sofre com o que foi deixado no local, dificultando
Marcus Mesquita/MidiaNews
Avenida da FEB, em Várzea Grande: o VLT não tem data definida para ser concluído
o trânsito para os motoristas e pedestres.
A construção do novo modal está parada há mais de um ano e não tem data definida para ser concluída.
“O Governo do Estado está matando os comerciantes. É uma vergonha essa obra ainda estar desta forma”, afirmou um empresário ,que é locatário de um dos imóveis da Avenida da FEB. Ele preferiu não se identificar na reportagem.
Outro empresário, que também pediu para omitir sua identidade, lembrou das demissões que precisou realizar, em 2013 e 2014, devido às interdições para implantação do VLT, que impediam os clientes de chegarem até os estabelecimentos.
“Até quando essa avenida vai ficar dessa forma?”, questionou.
Não fosse o bastante, a outrora “Cidade Industrial” passou a ser considerada uma “cidade-dormitório”, tendo em vista que a maioria da população sai de sua residência para trabalhar e estudar em Cuiabá, e somente retorna para dormir.

Os várzea-grandenses também buscam na Capital momentos de lazer, já que a cidade não conta com nenhum tipo de parque bem estruturado, além de boates, bares e restaurantes diferenciados.
Nem o Aeroporto Marechal Rondon, localizado na cidade, é reconhecido como se fosse de Várzea Grande, mas sim de Cuiabá.
Somente no ano passado, a cidadeo ganhou seu primeiro shopping center, o Várzea Grande Shopping.
Essa transição prejudica a economia do município, que perdeu o posto de segunda cidade do Estado para Rondonópolis (215 km ao Sul da Capital).
Além disso, a situação política de Várzea Grande atrasou os avanços. Cassado, o prefeito eleito em 2012, Walace Guimarães, foi substituído por Lucimar Campos (DEM), no dia 7 de maio no ano passado. A instabilidade vem desde a gestão passada, quando quatro prefeitoscomandaram a cidade.
Mas, apesar de tantos problemas, os várzea-grandenses continuam acumulando esperança e sonham com uma cidade melhorar para morar, trabalhar, estudar e ter momentos de lazer.
Marcus Mesquita/MidiaNews
O engenheiro Márcio Campos criticou governantes e pediu consciência a população
A reportagem do MidiaNews saiu às ruas para saber da população o que falta para VG ser uma cidade boa para se viver – e ouviu o clamor por saúde, educação de qualidade, assim como, iluminação e transporte público.
O engenheiro Márcio Luiz Campos, de 42 anos, disse que a população precisa cobrar dos seus governantes mais investimentos nos setores básicos.
“Nós já tivemos dois governadores (Júlio Campos e Jayme Campos)e eles esqueceram da cidade. Nós não temos infraestrutura, não temos educação de qualidade, não temos transporte público, ou seja, não temos nada”, afirmou.
“Mas a cidade não está assim somente por causa dos antigos prefeitos, a representatividade que temos na Câmara é muito falha, não existe cobrança. O Ministério Público também deixa muito a desejar”, completou.
Cuiabano, mas várzea-grandense de coração, Márcio afirmou amar a cidade e seu povo, e por isso, não “arreda” o pé de lá. Ressaltou, porém, que não é por isso que tem que aceitar a falta de infraestrutura, segurança e saúde.
Ele pediu para o cidadão que, também ama Várzea Grande, votar consciente nas eleições de outubro.
“Espero que ninguém venda o seu voto porque, se vender, não poderá reclamar de nada”, ressaltou.
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O taxista Severino Rodrigues diz que está satisfeito com serviços da cidade
Mais sossegado com a vida, o taxista Severino Rodrigues, de 64 anos, que tem um ponto na Praça Aquidaban, disse estar satisfeito com as políticas públicas da cidade. Para ele, a prefeita Lucimar Campos (DEM) tem feito um bom trabalho.
“Desde que a dona (Lucimar) entrou aí, as coisas têm caminho muito bem, já arrumou muito asfalto. Até os carros estão gostando (risos) porque estava uma buraqueira danada”, contou.
Nascido em Várzea Grande, o taxista, que é casado e tem uma filha advogada, afirmou que é preciso que a sociedade dê um voto de confiança à esposa de Jayme Campos.
“Depois que os Campos saíram daí (Prefeitura), as coisas começaram a desandar demais, só agora que tudo está melhorando, de novo”, disse.
A advogada Kessia Nayane Amaral, de 23 anos, porém, defende o surgimento de novas lideranças política para comandar Várzea Grande.
“A cidade tem tudo para crescer. Nos últimos anos, ficamos parados no tempo com essa troca-troca de prefeitos. É necessário gente nova para governar o Município e fazer com que ele volte a ter desenvolvimento”, afirmou.
A advogada criticou o monopólio existente no transporte público municipal. Reclamou da sujeira dos bairros e também da falta de iluminação, que gera insegurança na população.

“Por que não tem concorrência? Esse monopólio prejudica muito a população”, disse.
Um novo rumo
Ao MidiaNews, o analista político e econômico Onofre Ribeiro afirmou que é necessário que os várzea-grandenses acordem e montem um novo projeto político e econômico para cidade. Senão, o Município acabará virando um subúrbio de Cuiabá.
Conforme o analista, os problemas de Várzea Grande, que até 40 anos atrás era considerada “Cidade Industrial”, surgiram a partir do projeto político-familiar criado pela família Campos, em 1972, no comando do ex-prefeito Júlio Campos.
“Os Campos não estabeleceram um ‘projeto de cidade’ para Várzea Grande, como Rondonópolis, Sinop e Primavera do Leste e, com o passar do tempo, acabou ficando para trás de todos esses municípios do interior”, disse.
Onofre ressaltou, que além de não construir um “projeto de cidade”, os Campos não deixaram florescer mais nenhuma liderança no município.
“Passado os últimos anos, a família Campos foi perdendo a importância e, como toda oligarquia, eles não deixaram surgir nenhum outro projeto. Todos que surgiram, sumiram rapidinho”, afirmou.
“Agora, Várzea Grande, é uma cidade que não tem projeto, que possui muitos problemas, que só empobreceu, porque ela (cidade) serviu para um projeto político familiar, e não para a população”, avaliou.
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Analista Onofre Junior afirmou que população precisa acordar e montar um projeto político longo
“Se a sociedade local, o setor econômico, comercial e institucional não perceberem que acabou aquele projeto politico familiar e que é preciso a sociedade se organizar, e fazer um projeto político e econômico longo, o Município vai cada vez mais empobrecendo e virando cada vez um bairro de Cuiabá”, completou.
“A única saída é essa, a cidade é responsabilidade de quem vive nela. Agora, se quem vive nela não está nem aí, não tem futuro”, afirmou.
Para o analista, a atual prefeita, Lucimar Campos, não é a pessoa mais adequada para reerguer o município.
“A dona Lucimar, que nunca foi politica, assumiu agora a Prefeitura para cumprir um resto de um mandato. Se ela resolver se candidatar, ela pode se reeleger, mas ela nunca fez parte do projeto político familiar, ela não é a pessoa mais adequada porque ela não tem vocação ser continuadora do projeto”, disse.
Grande Cristo Rei – uma cidade dentro de Várzea Grande
Fundada em 1937, por Abe Flardo Ribeiro de Azevedo, o "Belinho", que cedeu ao Município uma área de terra, distribuída para o povo para a formação de uma colônia de trabalhadores que no século XIX foi chamado de Capão de Negro, o Cristo Rei é hoje o distrito mais populoso de Várzea Grande.
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Cristo Rei é a região mais populosa de Várzea Grande
Segunda maior região comercial do município, o bairro abriga lojas de departamento, de eletrodomésticos, supermercados e concessionárias.
Além de bancos, o bairro conta também com um Hospital Metropolitano, um posto da Guarda Municipal, a 5ª Companhia Independente de Polícia Militar, os Correios e a Universidade de Várzea Grande.
Proprietária de uma ótica no Cristo Rei, a empresário Roberta Cássia disse que optou por abrir o estabelecimento na região, ao invés do centro da cidade, devido ao crescimento populacional local.
“Vi aqui uma nova oportunidade para poder crescer, porque o centro já contava com várias óticas, e aqui, não”, disse.
Além da grande população, o Cristo Rei tem uma localização privilegiada, com proximidade, as Avenidas 31 de Março, FEB e Júlio Muller,e importante ligação do município a Cuiabá, através da Ponte Nova e da Ponte Sérgio Motta.
Pontos turísticos
Bonsucesso
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Bonsucesso é um dos principais pontos turístico de Várzea Grande
Distribuído em ruas estreitas que se estendem pelas margens do Rio Cuiabá, o distrito de Bonsucesso tem pouco mais de mil habitantes e é um importante ponto turístico em Mato Grosso, atraindo inúmeros visitantes.
As terras pertenciam a Justino Antônio da Silva Claro, cujos herdeiros habitam a região até hoje.
Nelas, ribeirinhas produzem rapadura, aguardente e açúcar de barro, contando também com o cultivo do fumo e horticultura .
Lá, a reportagem do MidiaNews conheceu o senhor Flavio Ferreira, produtor de rapadura há 40 anos.
Nascido e sempre residentes no município, Flávio aprendeu o ofício com o pai que já mantinha a família com esta atividade e se preocupou em passar para os filho tudo o que sabia.
Toda a família trabalhava na produção e realizavam, desde o plantio da cana-de-açúcar até a
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Produtor de rapadura de bonsucesso, Flávio diz ter vida tranquila fora da cidade
produção e venda da rapadura.
Dentro desta produção não há geração de lucros exorbitantes, mas para Flávio é o suficiente para sustentar a esposa e os dois filhos de 15 e 18 anos.
“Aqui não tenho o estresse da cidade, é só alegria”, afirmou.
A única preocupação de Flávio é quanto à falta de interesse dos filhos em aprender a o ofício. Ele busca preservar a cultura e a produção de saberes com o trabalho associado ali existente.
Outra atividade, modesta, porém intensa no povoado, é a pesca profissional e amadora que dão formas de sobrevivência econômica e cultural, em que buscam seus moradores, através da Associação dos Pescadores, a realização de eventos festivos, atraindo para Bonsucesso, turistas dos mais diversos lugares do País.
O distrito dá inicio à famosa Rota do Peixe, seguidos dos bairros Souza Lima (antigo Sovaco), Capão Grande, Pai André, Praia Grande, Capela do Piçarrão e Limpo Grande.
Passagem da Conceição
Marcus Mesquita/MidiaNews
Igreja de Nossa Senhora de Conceição, na Passagem de Conceição
A localidade de Passagem de Conceição situa-se nos extremos dos limites de Cuiabá e Várzea Grande e é considerando o segundo distrito de paz do município.
Sua história inicia-se com a chegada de Manoel Antônio da Conceição, o famoso “Conceição”, que, além de lavrar a terra, fazia a travessia do Rio Cuiabá prestando serviço para aumentar sua receita .
Mais tarde, outras pessoas começaram a se interessar pela região, acostumando-se com expressões do tipo “pedir passagem ao Conceição” ou ir pelo “porto da passagem do ‘Conceição’”, que acabou por emprestar seu nome a localidade, adaptando-se para o feminino em virtude da posterior construção da Igreja com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em 1910.
Somente em 1953, cinco anos após a criação do município de Várzea Grande, Passagem da Conceição foi anexada como distrito da cidade industrial.
Atualmente, a região é palco de grandes festas católicas. Nos finais de semana concentra centenas de pessoas em busca de calmaria e um bom peixe frito.
Outro lado
Por meio de sua assessoria, a prefeita Lucimar Campos afirmou que vem fazendo de tudo para poder “salvar Várzea Grande”.
Entre as ações elencadas, está a reforma do Pronto-Socorro Municipal, o recapeamento das principais avenidas e bairros da cidade, além de construção de creches.
"Em um ano de mandato, estamos entregando à municipalidade vários serviços na Educação, Saúde, Assistência Social, ,como a recuperação do asfalto desta avenida, e de diversas ruas e bairros. Estamos empregando recursos próprios e de Programas Federais. O Grande Cristo Rei tem recebido atenção especial da administração pública, por abrigar grande parte da nossa população. Tenho me empenhado para que Várzea Grande seja uma cidade melhor para todos”, disse, em nota.
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