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DIA DA MULHER
08.03.2019 | 14h30 Tamanho do texto A- A+

Mecânica há 16 anos conta experiência de ser única em oficinas

Ezineide Queiroz é de Rio Branco; ela passou a exercer a atividade aos 15 anos, consertando caminhões

Ezineide Queiroz/Arquivo Pessoal

Mecânica trabalha atualmente em uma empresa de ônibus em Cuiabá

Mecânica trabalha atualmente em uma empresa de ônibus em Cuiabá

BRUNA BARBOSA
DA REDAÇÃO

Quando tinha 15 anos e ainda morava na casa dos pais em Rio Branco, no Acre, a mecânica Ezineide Queiroz Ricardo, hoje com 31 anos, entrou em uma oficina pela primeira vez. Foi escolhida pela profissão, a princípio, pela necessidade de ajudar a família financeiramente. Mais tarde se apaixonaria pelo ofício que exerce até hoje.

 

“No começo foi por necessidade. Era muito difícil arrumar emprego lá [em Rio Branco], queria muito trabalhar e ainda morava com minha mãe e meu pai. Com o tempo fui me apaixonando pela profissão”, contou.

 

Na época, Ezineide conhecia o proprietário de uma oficina mecânica de caminhões na cidade e, como estava precisando de um emprego, resolveu pedir uma oportunidade a ele.

 

“Fazia tudo, até ‘serviço pesado’ em caminhões. Fui aprendendo com ele, que me ajudou muito. Me colocava para trabalhar mesmo, não tinha pena. Minha mão de obra era barata e eu queria muito aprender”, lembrou.

 

Ezineide Queiroz/Arquivo Pessoal

MECANICA

 Ezineide já trabalhou como mecânica de caminhões, ônibus e carros

Ezineide trabalhou durante três anos no primeiro emprego. Quando atingiu a maioridade, conseguiu o tão sonhado trabalho de carteira assinada.

 

O proprietário de outra oficina da capital do Acre, onde a mecânica morava na época, decidiu fazer uma proposta depois de vê-la trabalhando em 2008.

 

“Ele [proprietário da oficina] falou queria começar a trabalhar com mulheres, me viu trabalhando e me fez uma proposta. Foi a primeira vez que assinaram minha carteira de trabalho. Na época, nem tinha uma ainda”, contou.

 

No segundo emprego, Ezineide era responsável pelo conserto de carros pequenos. Ela trabalhou durante um ano no local, onde teve oportunidade de aprender sobre as técnicas de mecânica dos veículos.

 

No primeiro emprego de carteira assinada, a mecânica ganhava em torno de R$ 580 por mês.

 

“Foi muito bom, aprendi muita coisa lá [no segundo emprego]. Meu chefe, na época, me ensinou mecânica mesmo, de verdade. Aprendi a mexer com carros pequenos, coisa que não sabia, porque na outra oficina só consertava caminhões”, disse.

 

Ezineide relembrou que, naquela época, era a única mulher que trabalhava como mecânica na região.

 

Com o passar dos anos e o acúmulo de conhecimento na área, a mulher acabou recebendo outra proposta de trabalho, dessa vez para trabalhar com o conserto de ônibus rodoviários.

 

Ela ficou dois anos trabalhando como mecânica na empresa de ônibus rodoviários de Rio Branco.

 

“Lá [empresa de ônibus] acabou fechando e voltei para o meu primeiro emprego, onde consertava caminhões. Depois, quando outra empresa de ônibus assumiu a que tinha fechado, fui contratada e fiquei nela durante cinco anos”, lembrou.

Ezineide Queiroz/Arquivo Pessoal

MECANICA

 Ela contou ter sido bem recebida pelos mecânicos do emprego atual

 

Mudança para Cuiabá

 

Depois de trabalhar cinco anos no conserto de ônibus rodoviários, Ezineide decidiu pedir demissão para ir embora do Acre, já que as condições de vida no Estado não estavam favoráveis.

 

“Decidi vir porque lá onde morava [em Rio Branco] é muito perigoso, estava muito difícil no quesito emprego. Estava tudo muito escasso na região”, avaliou.

 

Corajosa, a mecânica e mulher dela decidiram se mudar para Cuiabá há seis meses. Quando chegou à Capital de Mato Grosso, começou a buscar por oportunidades de trabalho. 

 

No segundo ato de coragem, colocou o endereço de uma empresa de ônibus no GPS de seu celular e seguiu até o local com seu currículo em mãos.

 

“Fui lá [na empresa onde ela trabalha atualmente] pedir emprego. Como não era daqui de Cuiabá, não conhecia nada. Coloquei o endereço no GPS e segui”, lembrou.

 

Chegando à empresa, Ezineide buscou conversar com os funcionários do local até conseguir uma entrevista com o encarregado da manutenção.

 

De acordo com ela, o homem ficou surpreso por ver uma mulher buscando emprego como mecânica. Ela disse que ele passou a fazer perguntas técnicas para checar o conhecimento da mulher.

 

“Ele me chamou, fez umas perguntas e ficava olhando para mim de um jeito surpreso, como quem não acredita no que está ouvindo”, contou a mecânica, que acha a história engraçada.

 

No final da conversa, segundo Ezineide, o encarregado da manutenção teria dito: “Vou ser sincero, nunca vi mecânica mulher, mas você sabe mesmo”, relembrou.

 

Ela foi contrata pela empresa, onde trabalha atualmente, e também é a única mulher mecânica do estabelecimento.

 

Ezineide Queiroz/Arquivo Pessoal

MECANICA

Com 18 anos, Ezineide foi vista trabalhando como mecânica por proprietário de uma oficina no Acre

Ezineide contou que, desde o início, foi bem recebida pelos funcionários do local, que em sua maioria são homens.

 

“Me aceitaram super bem, apesar de também nunca terem visto uma mulher mecânica quando cheguei lá [na empresa]. Ficaram até assustados, diziam só ter visto na televisão. É um emprego muito bom”, disse.

 

Assédio

 

Nem todas as experiências da mecânica foram agradáveis como seu emprego atual. De acordo com ela, os assédios foram frequentes durante seu primeiro emprego, quando Ezineide tinha apenas 15 anos.

 

“Sofri muito assédio por parte de colegas de trabalho, por ser a única mulher. Não foi uma experiência muito boa [nesse sentido]”, contou.

 

Ela contou que chegava a ficar sobrecarregada de serviços, já que os outros mecânicos não tinham “pena” dela.

 

“Às vezes colocavam até mais serviço para mim do que para eles, porque eles tinham preguiça de fazer”, afirmou.

 

Em 2017, uma pesquisa realizada pelo Datafolha e divulgada pelo jornal "Folha de São Paulo" apontou que quatro em cada dez mulheres brasileiras revelaram já terem sofrido algum tipo de assédio sexual.

 

No Brasil o índice é de 42%, de acordo com a pesquisa. A pesquisa entrevistou 1.427 mulheres com 16 anos ou mais, em novembro daquele ano. A margem de erro é de dois pontos percentuais. 

 

Ainda segundo a pesquisa, 15% das entrevistadas relataram já terem sofrido assédio no ambiente de trabalho. 

 

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