ENQUETES

A que você atribui a renovação da Assembleia e da Câmara neste ano em MT?

PUBLICIDADE

Entrevista da Semana / PRÓXIMA GESTÃO
07.10.2018 | 19h48
Tamanho do texto A- A+

Analista: reduzir máquina já não basta; é preciso arrecadar mais

Alfredo da Mota Menezes desenha quadro de dificuldades para o próximo gestor do Estado

Alair Ribeiro/MidiaNews

Clique para ampliar

O analista político Alfredo da Mota Menezes, que prevê dificuldades para o próximo governador

THAIZA ASSUNÇÃO E CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

Encontrar uma saída urgente para o incremento na receita será o principal desafio do próximo governador de Mato Grosso, segundo o analista político Alfredo da Mota Menezes. Para ele, se não conseguir dinheiro novo, qualquer um dos três que ganhar vai "capengar".

 

Em entrevista ao MidiaNews, o analista, que é formado em Direito e História, com PhD em História da América Latina pela Tulane University (EUA), afirmou que junção de secretarias, cortes em cargos comissionados e redução dos repasses aos Poderes não vão adiantar para resolver o problema financeiro do Estado.

 

No total, o Estado contará com um orçamento de R$ 19 bilhões em 2019. Noventa e nove por cento desse dinheiro, porém, já está comprometido, ou seja, sobra apenas 1% para investimentos nas áreas da saúde, educação e segurança, por exemplo.

 

Alfredo da Mota disse ver apenas uma solução: uma revisão na lei de incentivo fiscais - benefícios relacionados à carga tributária que são concedidos pela administração pública para algumas empresas -  e da Lei Kandir - que isenta de ICMS os produtos primários de exportação.

 

Alguém vai acreditar que toda campanha está sendo feita apenas em cima do financiamento público de campanha? Não acredito

Os dois, segundo o especialista, consomem R$ 8,6 bilhões do orçamento do Estado.

 

Na entrevista, Alfredo da Mota fez uma avaliação completa das eleições no Estado, no País, destacando que os ataques entre os candidatos fazem mais sucesso que as suas propostas, além da certeza da existência de caixa 2.

 

"Alguém vai acreditar que toda campanha está sendo feita apenas em cima do financiamento público de campanha? Não acredito", disse.

 

Leia os principais trechos da entrevista: 

 

MidiaNews - Na opinião do senhor, quais devem ser as primeiras medidas do futuro governador?

 

Alfredo da Mota Menezes – Eu vou falar o mais rápido possível porque esse assunto é longo. O orçamento que está na Assembleia Legislativa para 2019 é de R$ 19 bilhões. Desse valor, R$ 12 bilhões são para folha de pagamento, encargos sociais e Previdência. Outros R$ 2,4 bilhões são para os Poderes. Aí você tem que pagar a dívida do exterior, dívida de Brasília, tem que manter a máquina e tudo mais. Sobra apenas 1% para investimento. Praticamente nada!

 

Os candidatos estão dizendo que vão atuar em duas frentes, no geral, que é diminuir secretarias e demitir servidores comissionados. Mas 94,5% dos servidores, segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE), são efetivos. Sobram apenas 5,5%, que dá em torno de 6 a 7 mil servidores.

 

No entanto, conforme o TCE, 73% dos cargos comissionados são ocupados por servidores de carreira, ou seja, no total sobram apenas 1.700 e poucos cargos para mandar embora. E no geral são os cargos que o grupo que ganhar - se não continuar o mesmo governador - vai colocar o seu pessoal.

 

Se mandar embora todos os 1.700, vai dar menos de R$ 100 milhões de economia por ano, uma vez que a média salarial é de R$ 3,6 mil.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes 04-10-2018

"Eu sou a favor do incentivo fiscal, mas se não passar um pente-fino [...] não vai ter dinheiro para investir"

Os candidatos também estão dizendo que vão diminuir repasse para os Poderes. A Assembleia Legislativa recebe em torno de R$ 550 milhões. Vamos supor que os deputados concordem em retirar R$ 100 milhões. O Tribunal de Contas recebe R$ 350 milhões. Vamos supor que os conselheiros concordem em retirar R$ 50, 60 milhões. Não acho que vão mexer com o Ministério Público. Não acho que vão mexer com o dinheiro do Judiciário e da Defensoria Pública. Então, vai economizar R$ 150 milhões, que é um bom dinheiro, mas não resolve o problema.

 

Tem uma alternativa, que é muito difícil de mexer tendo em vista o orçamento que está na Assembleia. R$ 3,6 bilhões são de incentivos fiscais, que são dividido em duas partes.  A primeira [é de incentivo] para indústria e a segunda é para o chamado não-programáticos, que incluem frigoríficos, material para construção, etc. A Federação das Indústrias fez um trabalho mostrando que de cada R$ 1 de incentivo fiscal da indústria, R$ 1,20 retorna para o Estado. Mas sobre os não-programáticos não há esse estudo.

 

Além disso, tem R$ 5 bilhões da Lei Kandir, de renúncia fiscal. Soma R$ 5 bilhões com mais R$ 3,6 bilhões, dá R$ 8,6 bilhões, quase metade do orçamento de R$ 19 bilhões.

 

Eu sou a favor de incentivo fiscal. Mas se não passar um pente-fino para diminuir em pelo menos 10% ou coisa parecida, não vai ter dinheiro para investir.  

 

Lá no Mato Grosso do Sul, na Lei Kandir, uma parte da soja ou do milho fica internamente. Ficando internamente o que acontece? Você cobra ICMS e o restante exporta. Aqui não, tudo exporta [sem cobrança do imposto]. Tem gente que diz - mas eu digo isso com maior cuidado - que alguém diz que vai exportar 10 mil toneladas, recebe o incentivo fiscal de 100% da Lei Kandir e internaliza 10%. Com isso, não paga o ICMS.

 

Por isso eu digo: o local que eu acho que pode ter alguma coisa seria nos incentivos fiscais e na Lei Kandir. E tem um gancho: o Governo Temer quer criar ainda neste ano algo que diminua o tanto de renúncia fiscal que o Governo Federal tem com uma lei para que, em 10 anos, diminuía algo em torno de 10% daquele total de R$ 306 bilhões de incentivo fiscal da União. Se Brasília fizer isso, eu creio que Mato Grosso deve aderir.

 

MidiaNews – Para o senhor, quando os candidatos falam em diminuir secretarias, cortar comissionados, eles demostram um desconhecimento das contas do Estado?

 

Alfredo da Mota Menezes  Não. Eu acho que tem conhecimento, mas em plena campanha tem que falar o que se chama atenção. Eles estão dando exemplo que vão cortar na carne. E mesmo que esses exemplos sejam poucos, já sinalizam alguma coisa. Porém, no duro da cebola - isso que quero dizer - é que lá na frente não vai sobrar dinheiro para resolver.

 

 

MidiaNews - Que avaliação o senhor faz da campanha para o Governo neste ano? Foi a campanha dos ataques ou houve propostas?

 

Alfredo da Mota Menezes  As duas coisas. As campanhas ultimamente no Brasil, não só aqui em Mato Grosso, funcionam mais com chute na canela do que com proposta. Tem dois assuntos que sobressaem. O primeiro é saúde, porque já chegou na cozinha das pessoas e a classe política sabe que dá e tira voto. O outro é essa questão de enxugar a máquina e etc. O restante é acusação: o que você fez ou deixou de fazer, você praticou isso, praticou aquilo. Dói dizer, mas parece que isso funciona mais, perante o eleitor, do que falar em propostas.

 

Dou um exemplo que aconteceu lá atrás: Dilma e Aécio no segundo turno [de 2014]. Alguém lembra da Dilma e do Aécio discutindo proposta para a Educação, para a Saúde? Não. Foi só acusação. O eleitor aceita mais apontar o dedo para a ferida do outro do que a apresentação de propostas.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes 04-10-2018

"O eleitor aceita mais apontar o dedo para a ferida do outro do que a apresentação de propostas"

MidiaNews - Como o senhor viu o avanço das redes sociais em detrimento do horário eleitoral gratuito?

 

Alfredo da Mota Menezes  Eu li uma boa matéria esses dias, de pessoas da área, que dizia o seguinte: o primeiro derrotado nessa eleição foi o tempo de programa eleitoral na televisão e no rádio. O candidato à Presidência Geraldo Alckmin teve 42% do tempo, enquanto os demais, como o Jair Bolsonaro, não tiveram nada. E esse tempo não funcionou. Isso porque as pessoas não estão assistindo mais ao horário eleitoral gratuito. Ou desliga, ou passa para um canal de TV a cabo ou vai fazer outra coisa.

 

A mídia social é uma arma extraordinária. Um exemplo: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está enfrentando a maior mídia nacional, o New York Times, com Twitter!

 

Há algo novo no ar, há algo diferente no ar, sem dúvida alguma. A mídia social chegou para ficar. Claro que tem problemas, como as fake news. Tem estudo feito no Estados Unidos que mostram que a notícia falsa propaga muito mais do que a notícia verdadeira. Apareceu aí uns três, quatro dias atrás uma matéria mostrando que o País do Mundo que mais aceita notícia falsa é o Brasil, com 62%. Em seguida vêm Arábia Saudita e a Coreia do Sul, com 58%.

 

MidiaNews – O senhor acredita que os candidatos aqui do Estado souberam usar de forma inteligente as redes sociais?

 

Alfredo da Mota Menezes   A divulgação, na verdade, funcionou muito mais em grupos de WhatsApp entre familiares e amigos do que pelo candidato em si. Quando uma pessoa pega um material de campanha de mídia social de um candidato e posta lá nos grupos, têm uma propagação maior do quando o próprio candidato, sua assessoria, enfim, o faz.

 

 

MidiaNews - Como avalia essa ruptura no grupo de Pedro Taques, que permitiu que surgisse a candidatura de um ex-aliado, Mauro Mendes?

 

Alfredo da Mota Menezes  Não sei se a população irá concordar, mas Pedro Taques não foi mal administrativamente. Se nós olharmos, ele melhorou os salários dos professores, manteve a RGA [Revisão Geral Anual], cumpriu as progressões salariais aprovadas no Governo Silval Barbosa, diminui um pouco a violência na Capital e Várzea Grande. Além disso, o Ideb [Índice de Desenvolvimento de Educação Básica], que mede a questão da educação no País, mostrou que em 2016 e 2017 a educação em Mato Grosso melhorou mais do que aquilo que era previsto pelo Ministério da Educação. As estradas, ele não deixou de fazer; pagou os salários mesmo tecnicamente “atrasado”. Ou seja, administrativamente perante uma crise que teve, ele foi bem. No entanto, ele não conseguiu mostrar isso para a sociedade. Ele foi "ok" administrativamente, mas não foi "ok" politicamente.

Ele [Taques] foi "ok" administrativamente, mas não foi "ok" politicamente. Não soube conversar com a sociedade

 

Não soube conversar com a sociedade. Ele tinha que massificar esses dados positivos, como o do Ideb e não deixar tudo agora para a eleição. Faltou diálogo com a mídia, faltou diálogo com a sociedade. Quando deixa para mostrar isso só na campanha, o eleitor pensa mesmo que é só propaganda.

 

Se fizesse isso há um ano, um ano e meio, chegaria numa posição melhor agora. Mas resumindo, não estou elogiando, nem falando mal, mas o Pedro foi melhor administrativamente do que politicamente.

 

MidiaNews – O senhor atribuiu essas “falhas” ao estilo dele de governar?

 

Alfredo da Mota Menezes  Ele diz que faltou recurso, que tentou priorizar isso e aquilo. Mas tem um pouco sim da maneira dele ser, da personalidade dele. Não estou dizendo se isso é bom ou ruim, se é certo ou errado, mas faltou esse diálogo. Por exemplo: fazer encontros do partido nos polos regionais - Cáceres, Barra dos Garças, Sinop - com os prefeitos e vereadores, conversando... Não que o Pedro Taques seja ruim, não saiba fazer, mas a maneira dele ser não é, digamos, igual ao Dante de Oliveira, ao Julio Campos, que é mais dado a esse tipo de relacionamento com a sociedade e com seu próprio partido.

 

MidiaNews -  Como o senhor avalia o desempenho do Wellington Fagundes e do Mauro Mendes nesta eleição?

 

Alfredo da Mota Menezes  O Mauro Mendes está capitalizando voto em cima da rejeição do Pedro Taques. Ele fala muito da saúde, que foi um problema na gestão do Pedro Taques, mas não fala da educação que foi bem, não entra na questão da segurança e nem das estradas.

 

Já o Wellington está tentando bater nos dois para ir ao segundo turno. Para mim, o Wellington já é vitorioso de qualquer maneira. Ele entrou numa campanha que lá atrás muitos pensavam que não ia decolar, uma vez que os partidos com os quais ele contava resolveram apoiar Mauro Mendes. No entanto, ele conseguiu manter a sua candidatura. Se não for para o segundo turno, numa próxima campanha já estará com o nome feito.

 

 

MidiaNews - Qual a projeção que o senhor faz de um eventual governo Taques, um eventual governo Mauro e um eventual governo Wellington? Em que eles se diferenciariam?

 

Alfredo da Mota Menezes  É simplista a resposta que eu vou dar, mas não tem outra. Depende da personalidade de cada um. Wellington é assim, Pedro é daquela forma que eu já disse, pode até mudar um pouco, ser mais político. E o Mauro é daquele estilo dele. Eu acho que os três têm que se preocupar com o fato de como arrumar mais dinheiro, porque, independente da personalidade de qualquer um, se não arrumar mais dinheiro para a saúde, por exemplo, não vai adiantar. Os três, independente de quem vai ganhar, têm que lutar para ter mais dinheiro. Se não conseguir dinheiro, os três vão capengar.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes 04-10-2018

"Os três, independente de quem vai ganhar, têm que lutar para ter mais dinheiro. Se não conseguir dinheiro, os três vão capengar"

MidiaNews – Então, quem ganhar a eleição vai encontrar uma situação financeira complicadíssima...

 

Alfredo da Mota Menezes  Não tenha dúvida. São R$ 19 bilhões de orçamento, mas tudo comprometido. O governador eleito vai chegar lá com todo gás para fazer, vai diminuir secretaria, cortar gastos ali, aqui, mas não vai sobrar [dinheiro]. E não adianta esperar nada do Governo Federal. Então, é como conseguir mais recurso e de acordo com a personalidade de cada um. Um é mais de diálogo, outro é menos de diálogo.

 

MidiaNews - Essa foi uma campanha atípica por causa das novas regras eleitorais. O que já é possível avaliar sobre esse novo formato?

 

Alfredo da Mota Menezes  As mudanças foram bastante fortes, sem dúvida nenhuma. Mas essa de diminuir o tempo do horário gratuito, o fundo eleitoral e o fundo partidário e tudo mais... É a classe política que está no poder, principalmente deputados e senadores, para continuar no poder.

 

Se você diminui o tempo, o candidato novo tem menos tempo para se mostrar. O que já está lá já é mais conhecido e com isso tem mais vantagem. Quem vai controlar o dinheiro que vem de Brasília, do fundo, são os caciques políticos. Eles que vão distribuir. Então os benefícios são todos deles. Essa eleição vai ter uma das menores taxas de não reeleição, porque já foi tudo montado para isso.

 

Outra coisa: dinheiro público e não de CNPJ [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica]. Nós não somos inocentes para acreditar que não está tendo caixa 2, que a eleição está sendo feita só com o dinheiro que veio de Brasília. Conversa fiada!

 

Como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os tribunais regionais eleitorais vão controlar o caixa 2? Hoje não chega mais um monte de carros adesivados no posto de gasolina. Chega lá o empresário que vai pagar o posto de gasolina.

 

O que nós deveríamos fazer hoje no Brasil, o que é difícil, mas vou sonhar, é o Congresso Nacional votar leis novas para dar força à Justiça Eleitoral para controlar o caixa 2 e controlar o desmando nas eleições. Com as leis que estão aí, não acho que a Justiça Eleitoral possa pegar grandes coisas. Pega um aqui, outro ali, mas não pega o grosso da coisa não. A coisa é muito pior.

 

Assisti esses dias ao filme "Prenda-me Se For Capaz", com Leonardo Di Caprio, onde ele era o “bandido” e o FBI consegue prendê-lo e depois o coloca para pegar outros bandidos. Eu acho que pegar pessoas com experiência da vida eleitoral do cotidiano para ajudar a Justiça Eleitoral, porque os caras passam longe, sei lá. Dessa maneira aí não pega não.

 

 

MidiaNews – O senhor acredita que então que o caixa 2 está sendo praticado de forma intensa nessas eleições?

 

Alfredo da Mota Menezes  Não posso apontar dedo para ninguém, mas tenho certeza que há caixa 2. Alguém vai acreditar que toda campanha está sendo feita apenas em cima do financiamento público de campanha? Não acredito. Provar não posso, não tem jeito. Mas que o caixa 2 - e não estou dizendo só em Mato Grosso - está funcionando, está! Porque é um caixa que existe, mas não existe. É uma empresa que tem um caixa 1 para pagar os tributos, etc e outro que é para pagar outras coisas. Então ele não existe em tese, mas é dali que sai o dinheiro. Como vai controlar? Eu acho que tem nessa campanha sim, sem nominar, sem nada, o caixa 2.

 

Com as leis que estão aí, não acho que a Justiça Eleitoral possa pegar grandes coisas

MidiaNews – Voltando para as contas do Estado, o rombo da Previdência Estadual será de R$ 1 bilhão em 2018. O que o próximo governador deve fazer para enfrentar este problema?

 

Alfredo da Mota Menezes  Tem que ser feito um trabalho imediatamente para diminuir esse rombo, porque a Previdência Estadual está crescendo R$ 140 milhões por ano. Pode ocorrer, daqui um tempo, o que ocorreu no Rio de Janeiro, onde os idosos estavam sem receber, ou recebiam R$ 100, R$ 200 por semana, conforme ia entrando dinheiro no caixa. É preciso encontrar uma solução concreta para que isso não aconteça aqui. Vai vender ativos? Vai criar um fundo? Esse assunto deveria ser debatido claramente entre os candidatos. Quem saiba num eventual segundo turno isso aconteça para ver as propostas de cada um.

 

MidiaNews – A impressão que o senhor tem é que os candidatos não têm propostas para a Previdência?

 

Alfredo da Mota Menezes – Exatamente. Não é só para isso não. É para muita coisa (risos).

 

MidiaNews -  No plano nacional, como o senhor enxerga essa polarização entre bolsonaristas e petistas?

 

Alfredo da Mota Menezes -  Criou-se um grupo anti-PT. Antes a população apoiava o PSDB para fazer esse enfrentamento contra o PT. Mas muitos acreditam que o PSDB não fez esse enfretamento como devia. Um exemplo é aqui mesmo em Mato Grosso Em todas as eleições o PSDB ganhou aqui no Estado [para presidente]. Mas, agora, o Bolsonaro está na frente do Alckmin. Isso mostra claramente que aquelas pessoas que apoiavam o PSDB desejam algo mais radical para enfrentar o PT. Eu acho que a disputa é contra e a favor do PT.

 

 

MidiaNews – Esse ódio criou uma ruptura na sociedade brasileira?

 

Alfredo da Mota Menezes  Creio que a palavra ruptura seja muito forte, mas há pessoas que se conhecem, se gostam, que estão caindo na “porrada” por conta dessa divisão esquerda e direita. O pior disso é: quem ganhar no ano que vem vai ter problema. O lado que perder vai querer atrapalhar a governabilidade. E isso tudo em um momento em que vivemos com 12 milhões de desempregados, buraco fiscal, um déficit de R$ 159 bilhões. Então tem que arrumar isso, tem que fazer a reforma da Previdência, tem que fazer a reforma tributária, a reforma política. Fica o receio de que a coisa não ande e, não andando, como ficam todos esses problemas? O ano que vem vai ser complicado.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes 04-10-2018

"Há pessoas que se conhecem, se gostam, que estão caindo na “porrada” por conta dessa divisão esquerda e direita"

MidiaNews – Como o senhor vê um eventual governo de Bolsonaro? E de Haddad?

 

Alfredo da Mota Menezes – Até simples colocar isso, não sei se eles vão fazer. Bolsonaro: mais liberalismo econômico, mais capitalismo, menos presença do Estado na economia.

 

Haddad: nós já sabemos que a esquerda tem uma presença mais estatizante, ele está dizendo que irá entrar nas questões dos bancos, rever a reforma trabalhista, aquela coisa toda.

 

Quando as pesquisas mostram que Bolsonaro cresceu, a Bolsa de Valores sobe e o dólar cai. Quando é o inverso, que o Haddad estava subindo, a bolsa cai e o dólar sobe. Mostrando que o mercado quer mais o liberalismo econômico do Bolsonaro e não a parte estatizante do Haddad.

 

MidiaNews - O senhor compartilha da ideia de que nenhum dos dois lados têm capacidade – e até mesmo interesse - de unir o Brasil de novo?

 

Alfredo da Mota Menezes  O atual momento do País, com o movimento anti-PT, Lava Jato e etc, faz emergir esses tipos de candidatura. Não tem jeito. Alguns falam para deixar o Meirelles lá, que ele vai arrumar a economia. Mas o momento não pede isso, pede radicalização, seja de um lado, seja o do outro. Se Napoleão Bonaparte aparecesse hoje, se elegeria o Napoleão? Não. Ele apareceu no momento certo, foi o momento que o fez. Mas claro,  o melhor seria o anti-radicalismo, o melhor para o Brasil que está aí com 12 milhões de desempregados seria mais moderação para fazer as reformas, aquela coisa toda, mas ninguém pode mudar esse momento.

 

MidiaNews – O senhor disse que caso Bolsonaro ou Haddad ganhe terá muita dificuldade para governar. De que forma isso pode atingir Mato Grosso no sentindo econômico?

 

Alfredo da Mota Menezes  Vai atingir Mato Grosso e o Brasil inteiro. Claro que Mato Grosso está crescendo, claro que o agronegócio está vendendo, mas se a economia não crescer no patamar que se imagina que deva crescer, o que vai acontecer?  Vai diminuir o repasse do Fundo de Participação dos Estados. O Estado vai receber menos. Vai diminuir o repasse do Fundo de Participação dos Municípios. Os Municípios vão continuar capengando. Ou seja, Brasília, por causa do fator econômico, vai deixar de repassar esses fundos, porque o repasse é de acordo com a arrecadação.

 

Se por outro lado a economia crescer, vão vir mais recursos, como vinham antes.

 

 

MidiaNews – Apesar do que o senhor diz - da crise, da falta de recursos -, os três principais candidatos ao Paiaguás vendem um futuro promissor nesta campanha. Há uma falta de conhecimento do que está por vir?

 

Alfredo da Mota Menezes  Sim. Olha só: a renda que nós tínhamos em 2013 pode ser retomada só em 2023. Uma década perdida! Se isso é um fato do plano nacional, vai afetar todos os Estados. São números que estão sendo mostrados, isso é real. Claro que nós temos um motor danado que é o agronegócio, mas vamos continuar com problemas.

 

MidiaNews – Os candidatos não deviam jogar limpo sobre isso com a população?

 

Alfredo da Mota Menezes  Se eu ou você fossemos candidatos, nós falaríamos? Os candidatos do Psol [Moisés Franz] e da Rede [Arthur Nogueira] vão por esse viés da verdade, mas aqueles que estão melhor nas pesquisas não falam. Mas vamos ser sinceros: a culpa é deles? Ou nossa? Como que o eleitor aceita isso? Nos Estados Unidos, os eleitores não permitem que os candidatos mostrem números mentirosos porque os eleitores têm conhecimento daqueles números.

 

A boa parte do eleitor brasileiro tem uma vida difícil, pega dois ônibus para ir trabalhar, outros dois para voltar, não tem grau de escolaridade. Então ele não quer e nem tem tempo para ficar preocupado com esses números. Eu estou falando isso com maior respeito aos eleitores. Mas os candidatos sabem disso e aí eles chutam o balde e não falam a verdade.

 

 




Clique aqui e faça seu comentário


7 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

João Gilberto  12.10.18 17h20
Para um ex-funcionário público federal aposentado, este ex-professor de história tem loucura por corte de gastos públicos. Claro, ele era funcionário federal. O salário dele era federal. Na esfera estadual, o discurso de redução da máquina estatal sempre esteve ligado ao leilão de cargos comissionados com moeda de troca eleitoral. Por isto não há mais em Mato Grosso qualquer tentativa de elaboração de políticas públicas estaduais, para nada (educação, ambiente, nada). Essas centenas de servidores temporários que Pedro Taques colocou na gestão dele foi para atender aos pedidos de seus apoiadores. Nâo há mais no funcionalismo estadual equipes técnicas especializadas e aptas a fazer nada. Os que forem sair em janeiro serão substituídos por outros, indicados pelos políticos que apoiam o governador eleito. Portanto, o discurso de encolhimento da máquina pública só faz sentido quando se aponta o que de fato acontece na política estadual. Este perfil de funcionário público contratado por indicação nunca tem qualificação o suficiente para produzir qualquer política neste estado de Mato Grosso. A contratação não é por currículo ou mérito. Apenas indicação política. Não é por acaso que em qualquer governo que tenhamos vivido não se nota nenhuma capacidade até mesmo de aumento da arrecadação estadual. No comércio em Cuiabá, que é a capital, praticamente nenhuma loja emite cupom fiscal ao consumidor, e não se vê qualquer ação da Secretaria de Fazenda em dotar o estado de um sistema de arrecação mais eficiente. Cuiabá e Várzea Grane hoje respondem por metade da economia do Mato Grosso inteiro, com base em comércio e serviços. O trabalho a ser feito é modernizar o sistema de arrecadação. Mas empresário instalado em Mato Grosso, principalmente em Cuiabá, não gosta de pagar imposto. A equação do governo é relativamente fácil. Para não dizer que se trata apenas de questão política, se trata de o futuro governador querer modernizar o estado. Dinheiro circula, e a arrecadação estadual precisa dotar-se de um modo eficiente de arrecadação. Se o leitor tiver dúvida, tente comprar um presentinho de Natal no comércio em Cuiabá, seja no shopping ou na rua, e veja se emitem a nota fiscal. Provavelmente, não.
0
0
CALEB MIGUEL DA PAIXAO  09.10.18 13h03
O Pedro Taques só não foi reeleito por que não soube tratar bem os servidores. Só pagou o RGA por que fizeram greve, se não jamais teriam recebido. #elenuncamais!
3
3
Jair  07.10.18 09h52
Gostaria de saber porque interesse do analista político em defender os comissionados
16
10
Thiago  07.10.18 08h25
Arrecadar mais? Piada! Tem que gastar menos, muito menos. Estado inflado demais.
25
7
Aroldo nunes  07.10.18 06h50
Só se derrubar a Lei Kandir
20
0
1999-2018 MidiaNews - Credibilidade em Tempo Real - Tel.: (65) 3027-5770 - Todos os direitos reservados

Ver em: Celular - Web