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Entrevista da Semana / FILME DE R$ 3 MI
12.05.2018 | 07h55
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“Imaginei menos dificuldade para sensibilizar empresas de MT”

Diretor cuiabano diz que pagou 70% do filme. Faltam, ainda, algo em torno de R$ 600 mil

Alair Ribeiro/MidiaNews

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O cineasta cuiabano Bruno Bini, diretor do longa-metragem

DOUGLAS TRIELLI
DA REDAÇÃO

Com as filmagens de seu primeiro longa-metragem encerradas, o cineasta e publicitário mato-grossense Bruno Bini luta para completar os R$ 3 milhões em investimentos previstos para a conclusão e lançamento de “Loop”.

 

Em entrevista ao MidiaNews, Bini afirmou que não esperava encontrar tanta resistência de empresas locais para investir no filme, que terá projeção nacional, alcançando, no mínimo, 100 salas de cinema. Até o momento, ele levantou 70% dos recursos do orçamento do filme. Faltam, ainda, algo em torno de R$ 600 mil.

 

“Não sei se é um receio, porque lida com uma questão tributária, se há algum receio de que o investimento leve o Fisco a ficar de olho. É uma coisa, para mim, inexplicável. Eu acho muito importante que as empresas da nossa região contribuam de alguma forma. É uma contribuição social. Eu imaginei que teríamos menos dificuldade em deixar isso claro e sensibilizar o setor empresarial”, afirmou.

 

Ainda na entrevista, o cineasta classificou como “leviandade” algumas críticas feitas à Lei Rouanet, de incentivo à Cultura. Afirmou que setores aceitam incentivo ao agronegócio, mas “se arrepiam” quando se fala em ajudar a Cultura.

 

Lamentou o domínio norte-americano nas salas brasileiras e defendeu que haja uma cota para filmes nacionais. “Defendo cota. Em qualquer outro lugar do mundo, que não seja nos Estados Unidos, existem cotas. Na França existe cota, na Itália existe, em vários países europeus existem cotas e funcionam bem. Não é para doer”.

 

Por fim, avaliou o desempenho da Secretaria de Cultura Estadual e Municipal.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Bruno Bini

"Vamos lançar o mais rápido possível. Fazer o circuito de festivais e depois ir para o cinema"

Leia os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – “Loop” é o nome dado ao seu primeiro filme de longa duração e terá como protagonista o ator global Bruno Gagliasso. Existe alguma data para finalização do filme?

 

Bruno Bini – Ainda não. Mas a gente quer manter o deadline próximo. Vamos lançar o mais rápido possível. Fazer o circuito de festivais e depois ir para o cinema. A gente quer que a primeira exibição dele ocorra esse ano. Seria muito bom se conseguíssemos isso. Mas é possível que seja no primeiro semestre de 2019. O problema é que tem campanha eleitoral no meio do ano.

 

MidiaNews – E você vai participar da campanha?

 

Bruno Bini – Eu sempre faço campanha. Campanha é um mergulho. Não tem jeito, ainda que seja mais curta. Mas como é um produto audiovisual que é direcionado para o mercado comercial. Então, não vamos ficar muito tempo em festival. É interessante para ter um primeiro contato com o público, para ver se é bem recebido, como é recebido pela crítica. E isso tudo acaba mensurando qual a melhor forma de distribuir o filme.

 

MidiaNews – Tem ideia de quantas cópias?

 

Bruno Bini – A gente tem contrato com distribuidora que estabelece no mínimo 100 cópias. Ele vai estar bem distribuído no Brasil. Vai ter pré-estreia no Rio de Janeiro e São Paulo, acordadas por contrato, e aqui em Cuiabá, obviamente.

 

MidiaNews – Acha que deveria haver uma política de atração para produção de filmes para Mato Grosso e em Cuiabá?

 

Ele vai estar bem distribuído no Brasil. Vai ter pré-estreia no Rio de Janeiro e São Paulo, acordadas por contrato e aqui em Cuiabá, obviamente

Bruno Bini – Eu sou presidente da Associação Mato-Grossense de Cinema e Audiovisual. A gente tem estado em uma conversa estreita com a Secretaria de Cultura, Municipal e Estadual, justamente para buscar uma implantação efetiva da Film Commission, que é uma entidade, uma organização estatal, que justamente atua oferecendo suporte para produções que vem de fora. Por exemplo, um lugar para locação adequada para determinado roteiro, relação de fornecedores de profissionais. Então, isso está próximo de acontecer. Já tivemos dois eventos importantes. Um de apresentação para Secretarias de Turismo e Infraestrutura. Explicar como funciona e qual sua forma de organização. Já teve, também, um evento sobre a implantação dela. Está próximo de ter isso acontecendo.

 

Temos, por exemplo, uma série da HBO sendo produzida aqui com a direção do Bruno Barreto e eles já poderiam estar aproveitando a estrutura da Film Commission como suporte para filmagem. Ainda não deu. A nossa ideia é que a partir de 2019 isso dê certo e tenhamos essa estrutura para começar a tornar Mato Grosso mais atraente e viável. E principalmente garantir que essas atrações que venham para cá deixem algo, no sentido de contratar profissionais locais, de lidar com as empresas locais. Tivemos a Copa aqui, diversas empresas audiovisuais vieram para cá, foram embora e nada aconteceu.

 

MidiaNews – E isso ajuda a divulgar o Estado?

 

Bruno Bini – Sim. Você tem a divulgação institucional do Estado. Mato Grosso é um dos Estados do Brasil com o céu mais bonito. Temos um potencial fotográfico que é único. Inclusive, estávamos conversando sobre onde irÍamos rodar o "Loop". Existia a psosiibildiade de rodar algumas cenas em São Paulo, no Rio de Janeiro. E eu disse que queria fazer tudo em Cuiabá. O Fernando Meirelles [diretor de "Cidade de Deus"], que é o supervisor artístico do filme, deu uma olhada e disse que tínhamos o melhor pôr do sol do Brasil e que era aqui que tínhamos que fazer mesmo. Então é um diferencial.

 

MidiaNews – A Film Commission é o primeiro passo para, um dia, termos um polo cinematográfico?

 

Bruno Bini – São duas coisas diferentes, mas que se complementam. A Film Commission oferece a logística para as produções. O polo vai oferecer a estrutura. O polo pode ter um estúdio, uma sala de som, equipamentos de última geração que podem ser locados. Para o nosso filme, tive que trazer câmera e lentes de fora. Alguns refletores também. O polo é mais estrutural.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Bruno Bini

"Nós temos 77% dos recursos captados. São R$ 3 milhões no total. Temos R$ 2,3 milhões captados, faltam pouco mais de R$ 600 mil"

MidiaNews – É cedo para se falar em polo, então?

 

Bruno Bini – Não é cedo, porque estamos há 15 anos falando nisso. É tarde. Mas como a gente sempre esbarra na vontade da gestão pública, é algo que ainda precisamos transpor. A compreensão de que um investimento nisso pode ser muito benéfico para o setor.

 

MidiaNews – Quanto à captação de recurso para o filme, quanto já tem e quanto precisa para fazê-lo?

 

Bruno Bini – Nós temos 77% dos recursos captados. São R$ 3 milhões no total. Temos R$ 2,3 milhões captados, faltam pouco mais de R$ 600 mil. E é curioso pontuar que desse recurso que conseguimos levantar, praticamente nenhum investimento financeiro foi feito por empresa privada local. A gente conseguiu apoio, temos parceiros locais, que ofereceram locação, bebidas, um apoio, seja pequeno ou emocional. Mas é triste constatar que desse recurso levantado, não temos investimento, via lei de incentivo, de nenhuma empresa local.

 

MidiaNews – Ninguém topou?

 

Bruno Bini – Não. Procuramos várias empresas. Temos uma parte do aporte, algo em torno de 6%, vindo da Secretaria Estado de Cultura, via edital. Temos 12% do Município, também pela Cultura. O resto é Fundo Setorial do Audiovisual e Ancine, Globo Filmes e Canal Brasil. E nós procuramos diversas empresas que acreditávamos que teriam potencial de investir, mas, infelizmente, nada virou. Aqui não falta projeto e o "Loop" é um exemplo disso. O que falta é a leitura, vontade de se investir. O "Loop", por exemplo, não é um projeto com pouca visibilidade. É um projeto de parceiros importantes, tem um elenco de peso. A Globo tem uma página de filmes que estão em produção e o nosso foi o mais curtido na última semana. A gente está tratando de um projeto que vai ser visto no Brasil inteiro, mas parece que isso não ficou claro para o mercado empresarial local. Ainda estamos em busca e acredito que vamos conseguir. Estou otimista, embora esteja difícil.

 

MidiaNews – Isso se deve a quê? Não acreditam em você, no seu projeto, ou é uma cegueira cultural?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Bruno Bini

"O que falta é a leitura, vontade de se investir. O Loop, por exemplo, não é um projeto com pouca visibilidade"

Bruno Bini – Não sei se é um receio, porque lida com uma questão tributária, se há algum receio de que o investimento leve o Fisco a ficar de olho. É uma coisa, para mim, inexplicável. Eu acho muito importante que as empresas da nossa região contribuam de alguma forma. É uma contribuição social investir em um filme que trata, também, de questões importantes e que dá emprego para gente daqui, fomenta. Só de profissionais daqui, vamos ter quase uma centena de pessoas que estão envolvidas. Eu imaginei que teríamos menos dificuldade em deixar isso claro e sensibilizar o setor empresarial.

 

MidiaNews – Sempre que se fala em financiamento público à Cultura e mecanismos como a Lei Rouanet há resistência por parte de alguns setores. O que pensa dessa lei e sobre as críticas a ela?

 

Bruno Bini – Existem formas de se criticar. Uma coisa que não se pode abrir mão quando se discute Lei Rouanet ou leis estaduais similares, é que quando se mexe com dinheiro público, a responsabilidade dobra, triplica. O dinheiro público, antes de tudo, precisa ser bem aplicado, depois precisam ser prestadas as contas, passar por uma avaliação de como foi aplicado. Eu enxergo muita leviandade sendo dita em relação à Lei Rouanet e leis apoio e incentivo à Cultura por pura falta de informação. Como quaisquer mecanismos de incentivo público, como o setor público em si, é passível de críticas.

 

Você vai pegar um projeto do Luan Santana, um blog da Maria Bethânia, são projetos que podem e devem ser questionados. No entanto, tem lá 95% de projetos que possuem relevância cultural, social e humana muito grande. Por causa de um, dois ou três projetos que, repito, podem e devem ser questionados, você não pode invalidar todo um trabalho que acontece que é muito importante. Considero a Lei Rouanet como um mecanismo de fomento que é imprescindível para produção cultural. Eles têm uma relação muito próxima com a evolução e o registro de quem nós somos enquanto nação. São produções que estamos fazendo que daqui alguns anos vão ser resgatados para nos dizer quem somos hoje. E isso tem uma relação muito forte com a educação. Não se pode relegar a Cultura  ao segundo plano. Lógico que é preciso investir em Habitação, Segurança Pública, Saúde. Mas existe também uma forma de se aplicar tudo isso. Todo ano os governos sentam para discutir como serão aplicados os recursos que eles têm disponíveis. E a Cultura sempre fica com o mínimo. É garantido por lei que se investia, se não me engano, ao menos 1% com Cultura, e o número de Municípios que garantem isso é muito pouco. Nem Cuiabá nem o Estado de Mato Grosso investem essa porcentagem.

 

Eu enxergo muita leviandade sendo dita em relação à Lei Rouanet e leis apoio e incentivo à cultura por pura falta de informação

Vejo que a crítica aos meios de fomento passa por muita desinformação. Para mim é incompreensível que alguém possa questionar a necessidade de se investir em Educação e Cultura. Beira o absurdo. Muitos dizem que essas coisas não acontecem em outros países, mas pelo contrário. Na França, por exemplo, a Educação está sob o guarda-chuva da Cultura. Tem um Ministério da Cultura e dentro dele, tem o setor de Educação, Esporte e outros. Porque há uma compreensão de que a Cultura compreende Educação. E isso deveria ser óbvio.

 

Se você for pegar a indústria do cinema dos Estados Unidos, ela se sustenta, mas porque há incentivo. Vários filmes de arte, com temática social, são bancados. E até os grandes filmes se fazem valer de isenções fiscais, como é o caso do último "Transformers", rodado em Detroit. Eles conseguiram R$ 20 milhões de isenção  para levar o filme até a cidade. Pagaram menos de hospedagem, alimentação e todos os custos. Então, vejo que a isenção fiscal, os mecanismos de fomento, são uma possibilidade de fazer com que a Cultura seja produzida. Ir contra isso me parece inexplicável.

 

MidiaNews – Apesar de haver incentivo, o cinema americano é autossustentável. Gera riqueza. Acredita que tenhamos condições de chegar próximo a esse ponto algum dia?

 

Bruno Bini – Quando se fala em cinema, temos uma diferença de mercados. Veja o último filme "Avengers: Infinity War "["Os Vingadores: Guerra Infinita"]. Não me interpretem mal, eu adoro, fui ver. Mas esse filme, sozinho, ocupou mais de 74% das salas de cinema do Brasil inteiro. Existe uma competição isonômica aí? Não existe.

 

MidiaNews – Então você defende cota nacional?

 

Bruno Bini – Defendo cota. Em qualquer outro lugar do mundo, que não seja nos Estados Unidos, existem cotas. Na França existe cota, na Itália existe cota, em vários países europeus existem cotas e funcionam bem. Não é para doer. É para ser uma coisa normal. Porque, no final das contas, o investimento que se faz em um filme pequeno americano, é muito maior do que o investimento que se faz em um filme grande brasileiro. Então, estamos lidando com realidades que são muito díspares. Você tem um mercado que é muito maior que o brasileiro, com uma capacidade para gastar muito mais, para investir muito mais. Nós chegamos a um nível que o brasileiro se acostumou a ouvir português na sala de cinema, mas se desacostumou a se ver. O brasileiro não se vê no cinema. Eu digo isso porque está acostumado a ver as ruas americanas, a arquitetura urbana americana, o tipo físico americano. Vão doutrinadas a encontrar isso. Então, é uma competição longe de estar igualitária.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Bruno Bini

"Defendo cota. Em qualquer outro lugar do mundo, que não seja nos Estados Unidos, existem cotas"

Lógico que as distribuidoras querem lucro. E com tudo isso, a produção brasileira acaba ficando em segundo plano. Temos produção de filmes, tipo "Bingo", que foi um dos escolhidos para indicação ao Oscar, um filme que tem muitos méritos, mas não conseguiu ficar muitas semanas em cartaz e fez uma bilheteria de menos de 300 mil pessoas. Enquanto qualquer filme americano que vem para cá passa de 500 mil, 1 milhão, com facilidade. Porque existe um investimento em marketing. Tem a produção do filme em si e praticamente o mesmo valor aplicado no marketing. Então, se "Vingadores" custou R$ 300 milhões para ser feito, mais ou menos isso foi usado em marketing no mundo todo. É uma disparidade absurda. Daí, as cotas. Temos cotas em vários outros setores da economia. Tem cota no agro, cota de exportação e importação. Por que pode ter incentivo fiscal no agro, mas na hora que fala da Cultura todos arrepiam os cabelos? Vamos abaixar a guarda. Vamos entender que o cinema pode e deve ser enxergado como indústria. 

 

O "Loop" tem um contrato com o fundo setorial ao qual tenho que devolver o dinheiro aplicado. Quando o filme for para o cinema, e começar a ser vendido para TV, ir para video on demand, internet, quando o dinheiro começa a entrar, tenho que devolver. Então, é indústria. E não é pequena. O audiovisual, nos últimos anos, tem movimentado uma média de R$ 25 bilhões por ano. Boa parte disso não tem nada a ver com lei de incentivo, é da cadeia de cinemas, da produção de TV. Temos que conseguir enxergar que a produção cultural é importante e não deve ser menosprezada, sob pena da gente se perder enquanto quem somos, quais histórias existem no nosso País. E outra, realizando produtos culturais, estamos fazendo uma indústria girar o recurso, os mercados, ajuda a empregar gente, a colocar comida na mesa, e a esquentar a economia. Eu só vejo motivo para investir e nenhum para o contrário.

 

MidiaNews – Como vê a política cultural do Governo Pedro Taques e Emanuel Pinheiro?

 

A partir do momento que se coloca a burocracia em primeiro lugar, deixa de fora projetos que podem ser brilhantes

Bruno Bini – [Longo silêncio] É preciso parar para pensar. Com o Taques, tivemos o Leandro Carvalho, que ficou um longo período, o Kleber Lima, que ficou pouco tempo, e agora o Gilbert Nasser, que acabou de assumir. Então, vou falar só do Leandro. O que eu sinto é que apesar de alguns avanços, e de eu ver uma seriedade e vontade de realizar, existiram duas questões que travaram muito o processo. Uma delas foi a enorme burocracia que se instalou na Secretaria. Tivemos editais, seja no audiovisual, literatura, em que praticamente 50% dos proponentes foram inabilitados. Isso é uma coisa absurda. Claro, todos devem cumprir o edital, mas será que o edital não está exageradamente burocrático, exigindo coisas que podem ser solicitadas em outro momento? Qual a prioridade? Ter projetos culturais ou saber se o cara pagou os boletos do Imposto de Renda? Porque se é ter projeto, coloca as análises desses projetos culturais em primeiro plano e os selecionados, na hora da contratação, que apresentem todas as certidões para demonstrar que estão em dia e podem contratar com o Governo. A partir do momento que se coloca a burocracia em primeiro lugar, deixa de fora projetos que podem ser brilhantes. Essa burocracia foi contra tudo o que acontece no País inteiro. Veja os editais da Ancine, em que você inscreve seu projeto, os contratos dos profissionais que vão trabalhar. Aí, você é avaliado e tem um prazo para entregar as certidões para contratação. É a melhor forma de se fazer as coisas, senão trava tudo.

 

Quando se mexe com dinheiro público, é preciso ter responsabilidade. E o artista precisa saber que vai ter que prestar contas, precisa ter suas certidões em dia, para participar de seleções públicas. No entanto, isso não pode travar o processo. É preciso ter um equilíbrio. Eu acho que faltou esse equilíbrio. Priorizou-se a burocracia, a formalização exacerbada do processo. O gestor público precisa entender com o que está lidando. Não é uma obra, não está comprando brita, por metro cúbico. Ele vai ter uma análise que se baseia em questões de qualidade criativa, de currículo. E esses devem ser os protagonistas da seleção, não o comprovante de endereço de dois anos atrás. E isso foi doloroso de ver. E não teve abertura para correção nesse sentido.

 

A outra questão é que apesar da boa vontade, e existiram alguns avanços, houve pouca ousadia para enfrentar temas que são urgentes e espinhosos. Falamos de apoio do empresariado local. Temos a lei “Hermes de Abreu”, que está praticamente esquecida, mas que poderia abrir uma janela a mais para possibilidade de financiamentos de projetos culturais, como a renúncia fiscal de impostos estaduais. Mas isso não se debateu. E isso passa também pelo esvaziamento de funções do conselho, que deixou de analisar projetos, debater políticas públicas. E eu não entendi as razões disso. O conselho é, dentro da Secretaria, uma estrutura fundamental, mas foi colocada em escanteio. Esses foram os pecados da gestão.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Bruno Bini

"Quando se mexe com dinheiro público, é preciso ter responsabilidade. E o artista precisa saber que vai ter que prestar contas. No entanto, isso não pode travar o processo"

Na questão municipal, ainda estamos vendo. Houve uma mudança. O Francisco Vuolo entrou recentemente, que é um cara que tem proximidade com o setor. Está trabalhando com limitações de estrutura, orçamento. Estamos avaliando. Está tudo muito voltado para a Cuiabá dos 300 anos, que é importante, sim. É uma data emblemática. Mas vejo, dentro do trabalho realizado, queestá acontecendo um trabalho, está andando. Ainda tem dois anos pela frente e não me sinto tão à vontade de fazer uma análise de algo que começou há pouco tempo. Diria que, tanto para o gestor estadual quanto municipal, o que faz a diferença na Cultura é o diálogo aberto. Quanto mais aberto eles estiverem para dialogar e entender as demandas, mais retorno vão ter.

 

MidiaNews – Disse, anteriormente, que as pessoas aceitam o incentivo ao agronegócio, mas arrepiam com benefício à cultura. Por qual razão isso ocorre?

 

Bruno Bini – Quem tem que explicar isso é quem se arrepia. Acho que a agricultura deve, sim, ter o incentivo dela. Reconheço no setor agrícola do Estado o quanto é importante. Mato Grosso é líder dessa produção. E isso com certeza gera recursos importantes, faz girar a economia. Só não acho que se deve ter essa seletividade. Deve ter incentivo para todos os setores, agricultura, cultura, indústria, educação. Não estou antagonizando. Mas há, sim, uma resistência que eu não consigo entender. Para mim é normal que setores públicos batalhem para achar saídas de fomento para quem quer trabalhar. O produtor rural está querendo trabalhar, o dono de empresa também, o que produz um filme e o que faz uma peça de teatro também querem trabalhar. Está trabalhando, gerando emprego, girando a economia. Vamos começar a enxergar as coisas de um mesmo jeito. Se fala tanto de transformar Cuiabá em um polo turístico, mas o turista vem e vai ter o que de atração cultural? Tem muita gente querendo produzir aqui. Não podemos perder essa oportunidade. Temos um mercado de produção cultural que é repleto de pessoas com vontade de fazer. Não aproveitar isso é deixar passar uma oportunidade.




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8 Comentário(s).

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Elton Bicalho  14.05.18 16h16
Não se trata de falta de sensibilidade ou má qualidade do seu trabalho nobre cineasta. O principal motivo é esse período recessivo. Atualmente as empresas estão vivendo um período muito delicado, mesmo quem tem dinheiro sobrando no caixa, está com medo.
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Anderson Maciel Ciriaco  14.05.18 08h03
Baita entrevista Bini. Este modelo mental dos empresários locais é ultrapassado. Cultura é a manifestação prática dos valores da empresa, ora, porquê não investir?
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Nelsinho   13.05.18 10h59
Paulo, o patrocínio é feito usando o imposto. Ao invés de pagar para o governo, a empresa investe no projeto. Ele explica na matéria. Leia lá.
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7
Milton Guapo  13.05.18 09h56
Falou tudo Bruno, aliás corroborou com a mina colocação quando disse que o Agronegócio não gosta da nossa cultura, visto que eu estou há quase 2 anos com meu último CD chamado Pantanal Sinfônico, gravado pela Orquestra de MT e, preciso de apenas 12 mil Reais pra fazer o CD e não consegui ate hoje, mesmo ofertando e blindando a empresa que topar fazer, com 300 cópias, colocando a logomarca dela nos mil CDs e nada resolveu até hoje. Estou pensando seriamente em lavar dinheiro com uma nota da minha empresa para o Narcotráfico e resolver o problema, por que sei que com eles "o papo é reto" e fim de conversa.
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Alexandre Júnior  13.05.18 07h57
Se os filmes brasileiros fossem bons, não precisavam de cota.
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