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29.12.2018 | 19h40 Tamanho do texto A- A+

“Mendes receberá terra arrasada e terá que ir para o confronto”

Analista Onofre Ribeiro diz que democrata precisa ter respaldo da sociedade para governar

Alair Ribeiro/MidiaNews

O analista político Onofre RIbeiro disse que missão de Mauro Mendes não será fácil

THAIZA ASSUNÇÃO
DA REDAÇÃO

Uma terra arrasada. É assim que o jornalista e analista político Onofre Ribeiro vê o cenário recebido pelo governador eleito Mauro Mendes (DEM) ao assumir a gestão, no dia 1º de janeiro de 2019.

 

Para mudar essa realidade, efeito da crise financeira que assola o Estado, Onofre afirmou que Mendes terá que partir para o confronto, principalmente com os servidores públicos e com os poderes: Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Ministério Público e Tribunal de Contas. 

 

“O Governo Mauro me lembra muito o Governo do Frederico Campos, que pegou a primeira gestão do Estado depois da divisão em 1979 e foi até 1985. O Frederico pegou uma terra arrasada. Ele teve que reconstruir o Judiciário, reconstruir o Legislativo, o funcionalismo público", disse Onofre. 

 

"O Mauro também irá pegar uma terra arrasada. Mas, para ser justo, não podemos colocar a culpa exclusiva no [governador] Pedro Taques. O Brasil de modo geral está arrasado. A ele [Mauro] compete aterrar a terra arrasada e construir o futuro para essa terra arrasada”, afirmou. 

 

Onofre frisou que Mauro Mendes terá que conquistar o respaldo sociedade para poder governar de forma dura contra os privilégios do funcionalismo e dos poderes. 

 

“Vai ter que confrontar todo mundo pelo convencimento, pela força e pela atitude. E aqui fora manter a esperança da sociedade. Se ele não estabelecer com a sociedade um diálogo muito forte, ele não governa. Vai ficar igual ao Pedro Taques, vítima de uma máquina corrosiva”, afirmou.

 

Na entrevista, Onofre ainda fez uma análise sobre o secretariado anunciado por Mauro Mendes, afirmou ser contra a taxação do agronegócio e fez uma avaliação do Governo Pedro Taques. 

 

Leia os principais trechos da entrevista: 

 

MidiaNews -  Qual sua expectativa para o Governo Mauro Mendes?

 

Onofre Ribeiro – O Governo Mauro me lembra muito o Governo do Frederico Campos, que pegou a primeira gestão do Estado depois da divisão em 1979 e foi até 1985. O Frederico pegou uma terra arrasada. O velho Estado de Mato Grosso não existia mais. Ele foi fracionado para criar o Mato Grosso do Sul. Lideranças, processos, foram todos para lá ou ficaram parte aqui. Ele teve que reconstruir o Judiciário, reconstruir o Legislativo, o funcionalismo público. Refez projetos porque não havia projeto nenhum. Então tinha a terra arrasada, mas tinha o futuro para construir. Se ele ficasse no discurso da terra arrasada, o Estado ficaria com a terra arrasada. Mas ele preferiu construir o futuro e fez isso muito bem. E é esse o papel do Mauro Mendes agora.

 

 

MidiaNews – Para o senhor, o governador eleito está pegando uma terra arrasada?

 

Onofre Ribeiro – Sim, está pegando uma terra arrasada. Para ser justo, não podemos colocar a culpa exclusiva no Pedro Taques. O Brasil de modo geral está arrasado. Então, ao Mauro Mendes compete aterrar a terra arrasada e construir o futuro para essa terra arrasada. Tem que ter projetos para essa terra arrasada. Eu fico muito preocupado ao ver o Mauro preocupado só com a terra arrasada: gestão financeira, gestão financeira, gestão financeira. Isso não é solução.

 

MidiaNews - O que achou do secretariado anunciado até agora?

 

Onofre Ribeiro – O Mauro Mendes está seguindo o mesmo caminho do Pedro Taques. Os secretariados até agora não são tão inexperientes, mas o Mauro está considerando ao modo do Pedro Taques e ainda de maneira inconsciente talvez ou mais próximo do perfil dele. Não existe mais equipe com chefe, tem coordenador de equipe. Quando o sujeito é coordenador de equipe, essa equipe tem que ser plenamente capaz, ou seja, filtrar toda problemática da gestão, da economia e da sociedade e levá-la até ele. E ele apenas decide, devolve para a equipe e a equipe capilariza nas pontas. Isso é linguagem de chegada e uma linguagem de volta, onde o governador não é o chefe, é o coordenador. O Mauro está construindo um perfil de chefe e isso será tão desastroso quanto foi o do Pedro Taques.

 

 

 

MidiaNews - Acha que a situação econômica tende a melhorar ou vai piorar?

 

Não é confronto de demitir, nem confronto de não pagar salário. É de responsabilização. Isso é complicado demais. Isso não leva um ano, não leva dois, leva mais de três

Onofre Ribeiro – O Mauro vai enfrentar dois governos, dois Mato Grossos. Um Mato Grosso do Estado, Estado que falo em instituições. Esse é a terra arrasada. E outro Mato Grosso, uma sociedade extremamente promissora. Ele não pode governar nem para um, nem para o outro. Ele tem que governar para os dois. Daí a importância da equipe. Tem que ser um governo muito estratégico, na inteligência e planejamento, capaz de criar projetos para a terra arrasada e outros projetos para o Estado promissor. Se ele ficar só em um ou no outro, não terá sucesso.

 

Como que se lida com a terra arrasada? É o confronto. O Dante de Oliveira já fez esse confronto lá em 1987.

 

MidiaNews – Confrontar inclusive o servidor público?

 

Onofre Ribeiro – Especialmente o servidor público.

 

MidiaNews – De que forma? Não concedendo a Revisão Anual Geral (RGA)?

 

Onofre Ribeiro – Não. A questão da RGA é apenas uma fachada que judiou muito do Pedro Taques e serviu para cartelizar o serviço público no Fórum Sindical, que é um cartel de sindicatos. É uma força política que o Pedro Taques deixou construir em 2016. Se ele tivesse tido uma interlocução política, não teria havido aquela crise e não teria cartelizado o funcionalismo no Fórum Sindical. O funcionário acabou sendo colonizado pelo Fórum e pelos sindicatos. Entrou num discurso de direitos, direitos, direitos e esqueceu os deveres e do seu papel estratégico dentro de uma máquina que tem que ser tocada para atender nós aqui de fora.

 

Então, tem que recolocar o funcionalismo no lugar. Como faz isso? Não é confronto de demitir, nem confronto de não pagar salário. É de responsabilização. Isso é complicado demais. Isso não leva um ano, não leva dois, leva mais de três.

 

E ao mesmo tempo, ele terá que lidar com os poderes, que são corporações internas voltadas para si mesmas, ambiciosas e egoístas. É outro confronto.

 

E ele não vai conseguir convencer a sociedade aqui fora se ele não fizer isso. E uma vez que ele faça isso, o Estado ganha funcionalidade e o resto a economia faz. Mas hoje o Estado trava a economia. O Estado de Mato Grosso não tem segurança jurídica. Como se investe num Estado que não tem segurança jurídica? O Mauro precisa fazer a funcionalidade do Estado para dar o mínimo de segurança jurídica. É muita responsabilidade num Governo só.

 

E é por isso que me preocupo com a equipe dele. O Mauro vai precisar ter duas equipes. Essa equipe funcional, Casa Civil, secretaria disso, daquilo. Mas ele tem que ter aqui fora uma interlocução com a sociedade muito grande. Qual sociedade? Setor produtivo, mas é para ouvir mesmo. Ele vai ter que lidar com uma nova forma de democracia, que é uma sociedade opinando, porque a sociedade não aguenta mais sustentar um Estado inútil, caro e descompromissado. Então o Mauro vai ter que alimentar paralelamente uma gestão fora, ouvindo a sociedade efetivamente, e ajudar a organizá-la para dar a ele o respaldo com o confronto interno, porque sozinho ele não aguenta. Ele vai ter que lidar com corporações muitos poderosas, ambiciosas e egoístas: Poder Legislativo, Poder Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, Fórum Sindical e funcionários.

 

 

MidiaNews – Ele vai ter que confrontar com todo mundo?

 

Onofre Ribeiro – Vai ter que confrontar todo mundo pelo convencimento, pela força e pela atitude. E aqui fora manter a esperança da sociedade. Se ele não estabelecer com a sociedade um diálogo muito forte, ele não governa. Vai ficar igual o Pedro Taques, vítima de uma máquina corrosiva. Eu não estou vendo conselheiros próximos dele nessa direção. O Mauro não tem interlocutor intelectual para gerar ideias, ele tem que buscar na sociedade.

 

MidiaNews – O senhor está muito preocupado com o destino desse Governo?

 

Onofre Ribeiro – Torcendo e preocupado. Antigamente era muito simples governar. Hoje não. O arcabouço jurídico do País é profundo, complexo. O Estado se transformou num emaranhado completamente impossível de ser administrado. Para governar hoje você tem que ter um respaldo de fora para conseguir vencer o gigante de dentro. O Estado virou para dentro, tanto é de que cada R$ 100 arrecados, sobra apenas R$ 1,86 para investir na sociedade. O resto o Estado põe para dentro. E não quer perder isso, privilégios, vantagens, direitos, trabalhar pouco ou não trabalhar nunca, não ser demitido, ser vitalício, não poder ser transferido. Então, se o Mauro não resolver esse dilema, me lembra muito aquela linha de pescar lambari: enroscou joga fora, porque não desenrola. Tem que passar o canivete, corta e faz uma nova linha. Ele não fará esse corte se não tiver o apoio aqui de fora. E eu não estou vendo ele construir esse apoio.

 

MidiaNews – O senhor acha que sem esses confrontos, com apoio obviamente, aos privilégios dos poderes, ele vai cair na mesma vala de Taques?

 

Onofre Ribeiro – Vai. De novo frustra esperanças. E a sociedade que já anda indignada, vai se indignar mais ainda. Quando o Pedro entrou, não tinha uma carga de indignação como agora contra o Governo dele. Agora a sociedade vai potencializar a indignação do Pedro com uma eventual indignação do Mauro. Aí é insuportável o ambiente.

 

MidiaNews – Como é o perfil do Mauro Mendes em relação ao debate?

 

Onofre Ribeiro – Eu aprendi na minha infância que a dor ensina a gemer. Ele precisa aprender a gemer.

 

 

MidiaNews – Como o senhor analisa os quatro anos do Governo Pedro Taques?

 

Onofre Ribeiro – O governo Taques e todo o governo vem dentro de um contexto, de um momento. O contexto dele foi de sair da política tradicional para uma política mais qualificada, digamos assim, porque tiraria aquele ranço da ação direta dos partidos e dos políticos dirigentes. Ele colocou um quadro técnico, sem interferência de partidos e lançou uma tese de que faria um Estado de transformação. Mas ele não tinha discurso para isso. Era só um slogan. Ele não conseguiu sair do slogan e nem construir um governo. Pedro Taques não construiu um governo.

 

MidiaNews – Ele pelo menos deixa algum legado? Ou não há legado no Governo Taques?

 

Onofre Ribeiro – Ele deixa um legado diferente dos governos anteriores. Ele não deixa um legado em obras, não deixa legado em conceito. Ele deixa um legado de crise. Crise no Estado, crise do Executivo, crise dos poderes, crise no funcionalismo público, crise com os fornecedores do Estado.

 

Então, na verdade, ele deixa uma crise de Estado e de relações sociais, ou seja, findou uma guerra. Agora o próximo governador precisa construir de novo, a partir do que ficou.

 

MidiaNews – Quando o Taques assumiu, o discurso dele era de acabar com a corrupção do Governo Silval Barbosa. Mas ele sai com a pecha de ser um dos governadores com mais secretários presos. Não é contraditório?

 

Onofre Ribeiro – Eu penso que foi equivocada a tese dele de fazer um governo de transformação partindo da ideia de era preciso acabar com a corrupção do governo Silval. Isso é muito pequeno para o tamanho do Estado e para um mandato de quatro anos, que tem uma responsabilidade universal com a sociedade inteira. Ele na verdade fez um governo que não tinha projeto e não tinha programa. E teve que ir improvisando e, nas improvisações, fez remendos nas costuras. La na minha infância, as pessoas tinham poucas roupas e as remendavam com tecido de outra cor. E ficava, como dizem, uma "marmota". O governo Pedro Taques é um governo com muitos remendos que ele fez ao longo do período para tapar a pobreza do discurso.

 

 

MidiaNews – É um governo, portanto, para se esquecer?

 

Onofre Ribeiro – Não porque nenhum governo é para esquecer. Ele acabou deixando uma crise imensa, não que tenha necessariamente criado essa crise. Na gestão dele, o Estado entrou em crise institucional. Por dentro e por fora com a sociedade. O governo deixou um grande legado para o próximo governo construir diferente. Esse é o grande legado. O legado do caos. O caos não é desordem. O caos é a falta de uma ordem. Está faltando uma ordem no Estado.

 

MidiaNews -  No ano passado, o senhor disse ao MidiaNews que eram grandes as chances de ele vencer a eleição por WO. O que aconteceu de errado neste meio tempo?

 

Onofre Ribeiro – Ele era a única pessoa naquele momento que tinha uma estrutura de poder. A Assembleia decadente. Os partidos decadentes. Os líderes todos decadentes naquele momento, nenhum articulado. Ele era o único, mas precisava consolidar um projeto de sucessão dele mesmo, só que entrou em profundo conflito com o próprio Estado, com os funcionários, com os poderes, com os fornecedores e a sociedade em função da gestão financeira do Estado, que é um problema que ele mesmo gerou, mas que vem também de uma crise nacional maior. Por que ele não ganhou a eleição? O último ano de qualquer governo é um ano de profundas interlocuções. Ele não teve interlocução nenhuma nos primeiros três anos. E no quarto muito menos - ficou administrando crises. Entrou para a eleição em crise e saiu da eleição em crise. Não melhorou a crise e termina o mandato em crise.

 

MidiaNews – A personalidade centralizadora dele permitiu que, de certa forma, isso acontecesse?

 

Ao contrário do que se pensa, o Pedro Taques não é centralizador. O que ele não tem é uma capacidade de interlocução interna no governo, porque ele não tem dentro do governo interlocutores qualificados

Onofre Ribeiro – Ao contrário do que se pensa, o Pedro Taques não é centralizador. O que ele não tem é uma capacidade de interlocução interna no governo, porque ele não tem dentro do governo interlocutores qualificados. Um governante não é um dono do governo. Ele é um magistrado que coordena um grupamento de instituições, de ações e interesses sociais, econômicos e empresariais. Ele tem que ter dentro uma capacidade de filtro muito grande que analise o que está fora, traduz e leva até ele. E da posição de magistrado, com informações muito qualificadas, ele decide. Por isso que ele é um coordenador. Esse meio de campo dele não existe. Ele é o primeiro e a última instância. Então decide pelo choque do momento. Quando se toma decisões isoladas e não conjuntas, as chances de errar são grandes. Faltou uma equipe madura politicamente. Ele, por sua vez, não tinha maturidade política porque não era do ramo.

 

MidiaNews - Taques perdeu a eleição para pessoas que eram de seu grupo. Por que ele foi abandonado?

 

Onofre Ribeiro – Esse grupo tinha muita gente experiente que agregou com ele lá em 2014 porque achava que ele teria capacidade de conduzir esse governo. Mas na hora de montar o secretariado, ele abriu mão desse povo. Abriu mão dos experientes todos e montou um secretariado a seu modo: jovem, inexperiente e, por consequência, arrogante e pouco audacioso. Ele montou uma equipe excludente. E aqueles experientes foram até onde podiam ir numa esperança de que talvez, talvez, talvez... Mas esse talvez não houve, eles saíram e o Pedro Taques perdeu para ele mesmo contra seu ex-aliados. Isso é a típica perda de autoridade.

 

MidiaNews – Para senhor, então, ele não pode reclamar dos que viraram as costas?

 

Onofre Ribeiro – Consciente ou inconsciente, foi a oposição que ele fez. Talvez se ele tivesse tido, por exemplo, um chefe da Casa Civil mais experiente, capaz de coordenar... E eu posso dar dois nomes que seriam capazes de ter feito isso: Julio Campos e Osvaldo Sobrinho, que até foram citados na época. São pessoas que, quando chega um fato, têm muitas leituras, traduzem aquele fato na leitura real e objetiva e a partir dali constróem alternativas. Das alternativas, montam estratégias. Quando chega ao governador, o fato chega mastigado, filtrado e sintético. O governador opina em cima da coisa pronta e a mesma fonte [Casa Civil] levaria aquilo de volta numa linguagem para as pontas.

 

Então, o Pedro Taques pecou por essa falta de um secretariado mais experiente. Ele recebia no peito a bola, tinha que matar a bola, colocar no pé, armar a jogada e jogar para a pessoa certa. Se ele escorregasse, perdia o equilíbrio e perdia a bola. Ele perdeu quase todas as bolas que caíram no pé por falta de uma interlocução política dentro do governo. E os amigos foram saindo fora e saíram magoados por não terem sido ouvidos.

 

MidiaNews – Para todos esses confrontos que o senhor está prevendo no governo Mauro, encontrar uma Assembleia Legislativa cheia de caras novas será bom ou ruim para ele?

 

Onofre Ribeiro – A Assembleia era domesticada quando tinha o José Riva [como presidente]. Ele sintetizava todos os interesses e os levava ao Governo. Mas o Riva tinha uma visão estratégica. Ele levava sempre em conta a governabilidade. Ele sempre manteve um comportamento de respeitar a governabilidade. Em momentos difíceis do Dante [de Oliveira], do Blairo [Maggi], do Silval [Barbosa], ele sempre garantiu a governabilidade. Os métodos dele são uma outra história. A Assembleia que ficou empobreceu 90% e piorou os mesmos 90%. Ela agora piora mais, porque ela renova e tira alguns com mais experiência. Entra agora uma Assembleia de adolescentes políticos, cheia de hormônios e que não sabe o que fazer. Renovação não significa maturidade. E os que ficaram não têm maturidade e não têm desejo de perda de espaços. Lutam pelo corporativismo do poder.

 

 

MidiaNews -  E a Câmara Federal. O deputado Carlos Bezerra falou que a nova Câmara está cheia de 'cacarecos' [candidatos extravagantes eleitos com o voto de protesto]. Concorda?

 

Onofre Ribeiro – A bancada federal vai se dividir em dois caminhos: um tradicional, que é o de despachante, e um novo que vai tentar se situar dentro de um governo que está mudando tudo lá.

 

Os deputados em Brasília terão que votar muita coisa do que eles não têm a menor noção do que é. Os que sobraram também não têm muita noção. O Congresso Nacional vai se tornar um caos.

 

Respondendo objetivamente: vejo na bancada federal uma pequena capacidade de ajudar o Estado e de ajudar o Mauro Mendes.

 

MidiaNews – Para o senhor essa renovação política que veio pela internet não foi tão boa quanto pode ter parecido?

 

Onofre Ribeiro – Aventureira e imatura. Na década de 40, quando Winston Churchill assumiu como primeiro-ministro da Inglaterra, ele disse: “Só posso oferecer sangue, suor e lágrima”. Uma Assembleia e uma bancada federal agora tinham que dizer a mesma coisa. O que estamos vendo são pessoas muito jovens, lutando por espaço de poder.

 

MidiaNews -  Como vê a polêmica em torno da taxação do agronegócio? Acha que é a única forma de o Estado sair da crise?   

 

Quando o Dante de Oliveira criou o Fethab 1 lá atrás houve uma chiadeira. Veio o Pedro Taques e criou o Fethab 2 para cobrir o rombo das contas públicas. Está se querendo criar um Fethab 3

Onofre Ribeiro – Você vê como esse Estado é interessante. Quando eu falo Estado, é a estrutura de Estado. Ele ficou muito caro, não há dinheiro que chegue. Quando o Dante de Oliveira criou o Fethab 1 lá atrás, houve uma chiadeira. Veio o Pedro Taques e criou o Fethab 2 para cobrir o rombo das contas públicas. Está se querendo criar um Fethab 3, só que não têm coragem para isso. O presidente da Aprosoja [Antônio Galvan] disse que não há dinheiro que chegue, é um saco sem fundo. E aí quem é que está alimentando essa necessidade de mais dinheiro? É o Estado que gasta 99% e só sobra 1% para investimento. Diante disso, o Estado quer mais dinheiro e, com isso, pressiona o setor do agronegócio, que é o setor mais forte. E faz isso demonizando o setor. O Estado está demonizando o agronegócio, mas o agronegócio está fazendo a parte dele: está produzindo bem, está fazendo economia girar, movimenta por ano R$ 50 bilhões na economia, tem um imposto direto e indireto e lá em cima contribuiu na balança de pagamentos nacional. Eu não estou dizendo que não haja um espaço para alguma coisa a mais, mas o espaço que há não é no agro e nem em outro setor. É no Estado, cortar o Estado para adequar o Estado à receita real. A receita de Mato Grosso é muito boa. O Estado que é muito ruim. Eu tenho certeza absoluta que a economia está disposta a colaborar quando for dinheiro novo para produzir desenvolvimento. Agora, dinheiro para pagar conta do Estado ninguém vai pagar.

 

O setor do agronegócio é muito forte e ele é nacional, não é só local, ele tem uma Frente Parlamentar em Brasília com deputados de todos os Estados. E o agro de Mato Grosso financiou deputados no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul porque lá é mais barato do que financiar aqui. Então a Frente Parlamentar de Agricultura tem o potencial de botar o dedo aqui no Estado. E essa questãozinha interna fica nacional e o desgaste a Mato Grosso fica muito grande.

 

Então, se o governador não fizer cortes significativos nas contas do Estado, ele não vai obter nenhum tipo de colaboração privada para aumentar imposto. A questão não é taxar o agronegócio, é mexer na estrutura do Estado.

 

MidiaNews – Há despesas que são difíceis de cortar. O que se deve fazer?

 

Onofre Ribeiro – Vamos voltar em 1987. O Dante de Oliveira tinha, para cada R$ 1 arrecadado, uma dívida de R$ 2 com fornecedores, funcionários públicos, estatais. Quer dizer: o Estado estava completamente quebrado. O que ele fez? Entrou em um programa do Governo Fernando Henrique Cardoso de estabilização nacional decorrente do plano real e resolveu o problema. Eu penso que com o Mauro, sozinho aqui, isso não será possível. Vai precisar de uma interferência nacional. De repente a bancada federal pode ajudar, mas é uma bancada muito pequena. Se a União não der uma condição mínima de organizar essas contas do Estado, eu não vejo condição de governabilidade para o Mauro Mendes.

 

MidiaNews – Para o senhor então, o Governo Federal precisa ajudar Mato Grosso.

 

Onofre Ribeiro – Ajudar todos os Estados. E Mato Grosso, em particular, por uma razão: o Estado de Mato Grosso contribuiu demais nas contas da balança de pagamentos e o Estado tem muito a ver com a ideia de que o País é viável. Mato Grosso mostra que o Brasil é viável. Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Nordeste estão decantes. Goiás e Mato Grosso são exemplos de que o País é viável. Isso é uma carta na manga que o Mauro tem. Agora, a nossa bancada dá conta de discutir esse tipo de coisa? Eu duvido um pouco.

 

Então, o Mauro precisa ter esse respaldo da sociedade que nós falamos lá atrás para ir para Brasília com uma frente que não tenha apenas respaldo de parlamentar, mas respaldo de federações, instituições privadas. Se ele não tiver essa frente, ele vai ser um dos 27 governadores que vão se sentar com o presidente da República para chorar as pitangas.

 

 

MidiaNews – Para finalizar, como é que o senhor enxerga a gestão do prefeito Emanuel Pinheiro?

 

Onofre Ribeiro – Passante.

 

MidiaNews – Em qual sentido?

 

Onofre Ribeiro – Passou.

 

MidiaNews – O senhor acha que ele não vai para a reeleição?

 

Onofre Ribeiro – Irá se o ambiente político continuar com a mesma mediocridade que está. Qualquer respaldozinho que o ambiente tenha, ele não deixa uma razão para ficar.

 

MidiaNews- Como o senhor enxerga essas obras para os 300 anos de Cuiabá?

 

Onofre Ribeiro – Festa de foguetório. Isso era muito bom há 20, 30, 40 anos atrás com fanfarra, banda de música tocando na rua. Mas passou, as pessoas não escutam mais banda de música, né?  

 

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CLAUDIO DE OLIVEIRA ALVES  31.12.18 09h35
O funcionário público é um egoísta. A ALMT não serve para ser interlocutora com a sociedade. E o agronegócio é altruísta. Valha-me Deus e me poupe, por favor. Com todos os defeitos que tem o governador Pedro Taques ( não é uma pessoa fácil), dizer que o governo dele deixou um legado de caos, também é demais pra minha cabeça. Qtos km de estrada? Hospital S. Benedito, CRIDAC, conclusão de trincheiras, Salgadeira, pontes, recuperação de créditos... tem coisa boa para além do caos, discordo da análise é claro
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Joao  31.12.18 08h45
Respeito muito o professor! Mas “colocar o servidor no seu devido lugar”, soa como se esses, fossem os responsáveis pela crise que se instalou no país! E isso é desviar o foco do verdadeiro problema, que foi a corrupção que está enraizada em todos os poderes, de todas as esferas. O servidor paga pela péssima imagem que alguns demonstraram durante anos e anos, mas mesmo em um estado mínimo, colocá-los em seu devido lugar, não é atacá-los com o não cumprimento de seus direitos básicos, como a reposição inflacionária aos seus vencimentos, e salários em dia! Isso não é nenhum privilégio. Isso é direito e dos mais simples, prioritários até para trazer tranquilidade ao leito familiar destes profissionais, para se refletir aí sim em serviços de qualidade para a sociedade. Se deve atacar sim os privilégios desses trabalhadores. Que não são poucos: licença prêmio, verbas indenizatorias, diversos penduricalhos... mas deve-se combater nos três poderes, pq o que vemos hj, é judiciário e legislativo tem tudo, e executivo não tem nada. E essa discrepância raramente é colocada por pessoas “pensantes” como o nobre professor, que deveria sair em defesa dos seus, que sofrem nas mãos dos poderosos!
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Esperidião Costa Marques  30.12.18 19h26
Só pra lembrar ao mestre Onofre Ribeiro que Dante assumiu o governo em 1995 e não 1987. A não incidência de 6 bilhões por ano nas exportações e a renúncia de 4 bilhões em 2019 ,(LDO) em operações internas somam quase 10 bilhões ao ano. Tudo isso na receita estadual do ICMS. É prausivel isso??? Análise isso mestre. Ou concorda???
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WALTER/Brasília  30.12.18 17h55
3) Afora esses detalhes, penso que se o Estado de MT tem uma receita muito boa, então existe um gargalo, uma razão, um motivo pelo qual o Estado não está conseguindo equilibrar suas finanças. Será que os recursos do FEX não estão retornando ao Estado na mesma proporção de sua produção? Atrasado nem se diga, porque temos conhecimento de que o Governo Federal sempre atrasa o repasse dos recursos devidos a MT e a seus municípios! Os secretários e assessores do próximo governador, Mauro Mendes, especialmente os da Fazenda e de Gestão e Planejamento, precisam apresentar os números e prioridades do Estado, identificando os reais problemas, as alternativas e saídas para viabilizar a gestão do governo. Muitos estados estão com as finanças em déficit, outros não – e dentre estes muitos estados considerados mais pobres que MT. É impossível que o Estado de Mato Grosso, que produz muito mais riquezas que outros, não consiga se viabilizar economicamente, ao ponto de não poder honrar seus compromissos como Estado! Existe algo errado nisso aí, o governo precisa identificar o “x” da questão e resolvê-la!
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WALTER/Brasília  30.12.18 17h54
2)Mas mesmo se soubéssemos que as finanças do Estado de MS estivessem equilibradas, tal informação serviria apenas como um parâmetro comparativo de dados, mas nunca um diagnóstico final, pois acredito que os dois estados possuem realidades diferentes. Mato Grosso tem uma fronteira agrícola bastante extensa e que permeia todo Estado, que exige a construção/asfaltamento/manutenção de muitas estradas para o escoamento da produção, além de outras obras de infraestrutura para dar suporte a essas atividades. O Estado convive com um déficit muito grande de construção de rodovias asfaltadas, e muitas delas praticamente intransitáveis na época das chuvas. Um olhar superficial indicaria que MS, focado mais na produção pecuária, não enfrentaria, por exemplo, esses problemas cruciais enfrentados por MT, pelo menos no mesmo grau. Não devemos esquecer, também, como é sabido pela população, que, em governos passados, muitos recursos aportados para a construção de rodovias em MT foram desviados. Rodovias que no papel já estariam asfaltadas tiveram seus recursos desviados, mas não foram efetivamente asfaltadas.
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