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Entrevista da Semana / 2018 SEM CACIQUE
30.12.2017 | 19h53
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“Taques vai ganhar por W.O. e por demérito de seus adversários”

Analista Onofre Ribeiro avalia que políticos de Mato Grosso formam tribo sem cacique

Alair Ribeiro/MidiaNews

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O analista político Onofre RIbeiro, que criticou o cenário político em Mato Grosso

CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

Uma tribo sem cacique e com muitos “índios" oportunistas. É nessa linha que o analista político Onofre Ribeiro enxerga a classe política em Mato Grosso. Para ele, o cenário de uma forma em geral está fragmentado e com uma série de pessoas atuando de forma isolada e sem rumo.

 

Estes, na avaliação de Onofre, são apenas alguns dos fatores que farão do governador Pedro Taques (PSDB) o vitorioso nas eleições do próximo ano.

 

“Uma pesquisa recente mostrou que não tem cacique aqui no Estado. A considerar isso, Taques é o governador eleito e vai se eleger no absoluto W.O. Isso ocorre nem tanto por mérito dele, mas por demérito dos demais, que não se organizaram”, afirmou o analista, em entrevista ao MidiaNews.

 

Onofre não poupou críticas a uma série de políticos do Estado, como Blairo Maggi, Wellington Fagundes, Mauro Mendes, Jaime Campos e a deputada Janaina Riva, os quais ele classificou como “oportunistas”.

Uma pesquisa recente mostrou que não tem cacique aqui no Estado. A considerar isso, Taques é o governador eleito e vai se eleger no absoluto W.O.

 

Segundo ele, os políticos não mais se organizam e ficam esperando o momento do adversário.

 

“Fragilizou, deu uma brecha, estou entrando. Mas se não der, eu finjo de morto e fico na minha. Isso revela uma absoluta falta de convicção dos papéis. Ou seja, a política – nesse ambiente que estamos falando - tornou-se uma embalagem vazia”, disse.

 

Ainda durante a entrevista, Onofre fala de casos polêmicos envolvendo a gestão Pedro Taques, do primeiro ano de Emanuel Pinheiro à frente da Prefeitura de Cuiabá, entre outras questões.

 

Veja os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – O cenário político para 2018 ainda está um pouco confuso. A gente está vendo a possibilidade, inclusive, de o governador Pedro Taques disputar a reeleição contra aliados, até mesmo o atual vice dele, Carlos Fávaro. A que se deve essa situação?

 

Onofre Ribeiro – De 1997 pra cá, quando foram permitidas as coligações em todos os níveis, nós vimos o fim dos partidos. Foram morrendo gradualmente e chegamos a um ponto em que os partidos não significam mais nada. São meras agremiações e as pessoas se filiam por necessidade burocrática, mas não há propósito e nem princípio.

 

Então, você tem pessoas, corporações individuais, na política. Não se tem um “grupo Campos”, um “grupo Bezerra/Dante”, que envolviam um monte de pessoas afinadas. Hoje cada um é um. O que aconteceu com o governador? Ele chegou ao Governo “um”. “Um” não governa. Numa estrutura de Estado complexa como a nossa, burocratizada, centralizadora, extremamente complexa dentro de um pacto federativo muito confuso, então ele entrou e se tornou o governador dele sozinho. Aí houve vários desgastes, dificuldades de comunicação com a sociedade, com o mundo político, com os Poderes. Está tudo muito confuso, muito fragmentado.

 

Essa situação do governador se deve à fragmentação. Todo mundo se liga apenas eventualmente. Isso ocorre com a Assembleia, com o próprio vice, com o ministro Blairo Maggi, com o senador Wellington Fagundes...

 

MidiaNews – Se a situação fosse de normalidade, não seria a hora desses aliados do governador, por exemplo, convocarem a imprensa e dizerem: “Não vamos tratar do tema candidaturas, porque nosso candidato é o governador”. Isso ocorreria se houvesse, de fato, esse grupo?

 

O próximo mandato do Pedro Taques vai continuar igual, essa fragmentação, esse isolamento e essa dificuldade de comunicação com a sociedade

Onofre Ribeiro – Não sendo um grupo, você tem indivíduos isolados. A política que se faz com individualismo é uma política fragmentadora e aí passa ser um oportunismo e não mais uma filosofia de política. O Mauro Mendes está no oportunismo, esperando a brecha. O Jaime Campos rosnando em Várzea Grande...É oportunismo. Você tem Wellington Fagundes no oportunismo, o Eduardo Botelho, o governador também no oportunismo de circunstância. Então, você não tem um conjunto político.

 

O próximo mandato do Pedro Taques vai continuar igual: essa fragmentação, esse isolamento e essa dificuldade de comunicação com a sociedade. E você poderia ter qualquer outro que iria ter dificuldade em razão de não haver partidos, não haver grupos. O “eu sozinho” já não é mais grupo de carnaval.

 

MidiaNews – Do lado da oposição, há dois nomes surgindo com mais ênfase, Wellington Fagundes e Antônio Joaquim. Como o senhor enxerga esses nomes? Eles têm alguma chance dentro de toda essa conjuntura política?

 

Onofre Ribeiro – Não têm! E por um motivo: é uma oposição de oportunismo. A oposição tem que ter um pingo de filosofia, tem que ter um porquê e tem que ser construída. Wellington Fagundes não construiu oposição nenhuma, ele é sempre oportunista no sentido de estar perto do Governo. Quando você não tem um partido que te dá a couraça de proteção, aquela armadura, o indivíduo sozinho é muito vulnerável. O Wellington não construiu em momento nenhum uma carreira de oposição. Quando é individuo, é sempre bom estar perto do Governo, porque ele precisa da estrutura do Estado para negócios, interesses, em razão de o Estado estar muito burocratizado. Os interesses individuais, políticos e negociais se misturam muito. O Wellington não tem uma carreira de oposição, nem antes e nem agora. Ele está na linha do oportunismo.

 

O Antonio Joaquim está na mesma linha. Se der, deu, se não der, “tô” fora. Não há oposição a rigor no Estado hoje. Também uma oposição oportunista é a da Janaina Riva. Não tem oposição no Estado. Não se construiu, não se cuidou de construir.

 

MidiaNews – Mas por que o senhor fala oportunismo? Essas pessoas estão só esperando o momento de “dar o bote”?

 

Onofre Ribeiro – Esperando o momento da fragilidade. Fragilizou, deu uma brecha, estou entrando. Mas se não der, eu finjo de morto e fico na minha. Isso revela uma absoluta falta de convicção dos papéis. Ou seja, a política – nesse ambiente que estamos falando - tornou-se uma embalagem vazia.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Onofre Ribeiro

"Não há uma oposição consolidada no Estado"

MidiaNews – Seria só uma expectativa de poder?

 

Onofre Ribeiro – Exatamente. E não é o poder pela democracia, é o poder para os interesses que estão conexos ao poder. A política aproveitou todo o poder transformador que ela tem e botou no mesmo vagão o oportunismo de interesses e a eventual possibilidade de transformação social.

 

MidiaNews – A última pesquisa do Ibope mostrou o governador Pedro Taques, o ex-prefeito Mauro Mendes e o ex-senador Jaime Campos numa disputa acirrada. Que leitura o senhor faz dessa pesquisa?

 

Onofre Ribeiro – Todo mundo é índio. Não tem cacique. Quem ainda conserva as penas no cocar é o Pedro Taques, porque o Governo tem toda uma estrutura que permite que ele esteja à frente do efetivo poder. É a caneta que assina, que destina orçamento e o Poder Executivo é que toma as decisões possíveis ao Estado. Mas, se não fosse pela caneta, era igualzinho aos demais. A política de Mato Grosso é uma tribo sem cacique.

 

MidiaNews – Falando um pouco dos casos mais polêmicos envolvendo o Governo Pedro Taques. Nós tivemos esse ano o escândalo das escutas clandestinas, em que adversários do Governo foram grampeados. De que forma isso pode ter efeito em uma eventual candidatura à reeleição? Vai haver alguma sequela?

 

Onofre Ribeiro – Não! Para o eleitor, não. Se não tiver na engenharia de candidaturas, não terá no eleitor. Cuiabá é a corte onde o poder reside. Aqui é a casa do poder político do Estado. Aqui, a classe média – que representa 6% do eleitorado, ou 18 mil pessoas – discutiu muito o grampo. Os demais, os outros 320 mil eleitores de Cuiabá, não tomaram nem conhecimento do que é isso. O que reflete é o mecanismo eleitoral mesmo: as promessas, a discussão, a campanha, o discurso, o marketing.

 

Se houvesse algum risco de interferir, seria na hora de composição da candidatura. Você coloca ali na mesa os pretendentes todos: Mauro, Jaime, Blairo, Taques, Fávaro, Botelho... Todos têm pecados. Pode não chamar grampo, mas todos têm pecado. Ninguém suporta uma auditoria mais profunda. Aí, como o homem é muito solidário, vem aquela história: “Não mexe com meu rabo, que não mexo com o seu”. Daí o eleitor não toma nem conhecimento.

 

MidiaNews – Então, nesse caso, dentro desse cenário, o governador Pedro Taques é o favorito?

 

Onofre Ribeiro – A considerar a pesquisa que mostrou que não há cacique, ele é o governador eleito e vai se eleger no absoluto W.O.. Isso ocorre nem tanto por mérito dele, mas por demérito dos demais que não se organizaram. Como lá atrás, se elegeu Jaime Campos contra Agripino Bonilha. Como se elegeu Dante de Oliveira contra Oswaldo Sobrinho. Vai eleger por W.O..

 

MidiaNews – Mas o senhor não enxerga que pode estar havendo uma união do grupo do governador contra ele?

 

Onofre Ribeiro – Não. É o oportunismo. Se der, vamos. Se não der, não vamos. Dá tapinha nas costas olhando para frente. Vou ser bem cruel: estamos saindo do campo da política para entrar no campo do oportunismo, onde o maior risco são as traições. Quem trai é quem está perto. Quem está longe não trai, oposição não trai. O único perigo ao Pedro Taques seriam as traições.

Quem trai é quem está perto. Quem está longe não trai, oposição não trai. O único perigo ao Pedro Taques seriam as traições

 

MidiaNews – Se grampo não será definitivo, servidor público insatisfeito e saúde caótica podem ser problemas?

 

Onofre Ribeiro – O servidor insatisfeito é um problema, mas muito limitado e preso a Cuiabá. Porém, o pessoal é conservador. Eles têm a perder o emprego, que num mundo como o de hoje, o serviço público se tornou uma ilha de fantasia: estabilidade, salário no fim do mês, muito ponto facultativo, aposentadoria diferenciada, não há cobrança por produtividade, nem por eficiência e nem por inovação. É uma ilha de fantasia que vai durar alguns anos. Esse pessoal tem muito a perder. Eles são conservadores.

 

O Pedro Taques, apesar de todos os problemas, pagou RGA. O que ele não soube foi negociar com isso, mas pagou. Então, ele é confiável. Você pode não gostar da personalidade dele, mas ele é confiável. O pessoal fala, fala mal, mas vota porque é conservador. O mercado é conservador. E depois dessa crise toda que passamos, o mercado não quer mais correr riscos. O Pedro Taques já se sabe como ele é. O problema dele é a personalidade. Mas, como gestor, ele paga as contas, obedece os princípios.

 

Penso que estamos entrando em uma onda conservadora e aqui em Mato Grosso não é diferente. Somos um Estado conservador, de política conservadora e que vai eleger um conservador.

 

MidiaNews – Mas e se o agronegócio virar as costas para o governador e lançar um candidato próprio?

 

Onofre Ribeiro – O agronegócio teria que ter construído essa candidatura ao longo dos últimos quatro anos.

 

MidiaNews – O vice Carlos Fávaro não é um nome?

 

Onofre Ribeiro – Mas o Fávaro não é unanimidade dentro e ele [o agronegócio] sabe que o Fávaro não tem a maturidade para ser governador. Ele entrou na política ontem, é jovem, não tem experiência partidária, nem é um gestor que mostrou qualificação.

 

Fávaro não tem a maturidade para ser governador. Ele entrou na política ontem, é jovem, não tem experiência partidária

Se há alguém pragmático, é o agronegócio. O agro sabe o dia de plantar, o dia de chuva, controla a meteorologia, tem data de passar veneno, tem data de colher, data de venda. Esse povo não corre risco. Eles não fizeram uma candidatura e não farão agora uma aventura. Vão apoiar no oportunismo pragmático, que é um oportunismo diferente, aquele que apoia quem está melhor. Senta, faz composições, financia e negocia a convivência futura. Para eles, o Pedro Taques também é confiável. Qual o arranhão do agronegócio com o Pedro Taques? A aplicação do Fethab e só. Resolvido isso, beijam na boca.

 

MidiaNews – Uma das queixas dos deputados estaduais, inclusive dos parlamentares da base, é de que o governador não dialoga, é centralizador... Isso não é um problema para quem quer uma reeleição.

 

Onofre Ribeiro – Você reparou que estou usando e vou usar mais duzentas vezes a palavra oportunismo. O deputado trabalha numa linha de oportunismo. A emenda é um oportunismo constitucional. Um distribui dinheiro para Festa de Peão em Lambari D’Oeste, outro para uma pinguela no outro Município e por aí vai. É o varejo deles. O que os deputados sempre quiseram, além disso, é o afago. No discurso, citar “o grande deputado”, o esforço junto ao Governo. Então, o deputado precisa desse afago. O Pedro Taques não sabe afagar, ele não tem essa tradição. Ele tem um pragmatismo de outra natureza. A dialética nesse caso é muito importante. Você vê os governadores políticos. Eles valorizam o deputado, os colocam nos palanques para aparecer na foto... E o Pedro Taques não se liga muito nisso. Ele não conhece essa liturgia. Ele não tem a liturgia política.

 

MidiaNews – Esse ano foi aprovada a lei do Teto de Gastos. Ela vai conseguir dar um efeito positivo do ponto de vista econômico e eleitoral em 2018? Ou será algo mais a longo prazo?

 

Onofre Ribeiro – Melhora a economia já em 2018. Você pega R$ 700 milhões que não vai pagar para a União, vai reduzir a expansão das despesas. O Estado tem algumas coisas horríveis: a folha de pagamento, por exemplo, sobe R$ 10 milhões todo mês por conta dos penduricalhos. Ao final do ano são R$ 120 milhões. É muito dinheiro.

 

Então, com a PEC dos Gastos e com os enxugamentos que tem havido ao longo do tempo, o governador vai ter condição de navegar mais em paz. Com a economia reagindo aqui fora, você adquire uma estabilidade. Vai ajudar na governança.

 

MidiaNews – E falando do cenário econômico de Mato Grosso para 2018: o setor privado também já começa a melhorar?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Onofre Ribeiro

"Com a PEC dos Gastos e com os enxugamentos que tem tido ao longo do tempo, o governador vai ter condição de navegar mais em paz"

Onofre Ribeiro – O agronegócio é uma bolha diferente da indústria, por exemplo, que está muito ligada ao poder aquisitivo, salário, a certa estabilidade social. O agro navega olhando para o horizonte externo e é o carro-chefe da economia, não tem muito a ver com essa dinâmica de PEC do Teto, de gasto com salário. A economia do agro está muito vinculada ao que acontece lá fora. A relação com o Estado é muito superficial. O lá fora vive-se um momento de mudanças. A economia de Mato Grosso deixou de ser doméstica para ser uma economia que sofre pressão externa, porque é exportadora.

 

O que vejo de positivo em 2018 não é aumentar ou diminuir safra, nem só preço de commodities. O que está relevante e me preocupa muito é que o Brasil começa readquirir a segurança jurídica. O mundo nunca teve um estoque tão grande de dinheiro para investir e financiar como agora. E aí começam os interesses para investir em Mato Grosso. A China, por exemplo, está chegando de mala e cuia aqui em Mato Grosso e nós não temos preparo nenhum para lidar com esse pessoal. O agronegócio também não se preparou.

 

O que me preocupa é receber essa influência que vai começar a chegar de fora em 2018 a partir da segurança jurídica. Não temos ninguém estudando isso, nem no agro, nem no Governo. O planejamento de Governo é zero nessa direção. As instituições, federações, estão no zero nessa direção. Vem aí uma avalanche de investimentos, propostas, negócios. Eles [os investidores internacionais] são gafanhotos predadores e nós somos caipiras. Isso me preocupa muito. O futuro passa por aí.

 

MidiaNews – Não preocupa também o fato de termos uma dependência muito grande da China. O dia em que a China tiver uma crise, com queda na demanda, isso não vai ser um problema para Mato Grosso?

 

Onofre Ribeiro – No começo da década exportávamos para União Europeia, através de Amsterdam. Agora é a China. Ela compra basicamente tudo nosso. Mas a China está num momento de crescimento muito grande e vai entrar numa nova era de olhar para dentro. Maior consumo de comida e uma estabilidade social que eles não têm hoje. E eles têm que ter uma coisa chamada segurança alimentar. Vão ter que estabelecer relações duradouras e consistentes com países como o Brasil. Não vai demorar muito e a Índia também vai estar baixando aqui atrás de comida, a Indonésia, a Malásia... Não vejo risco nos próximos 20 anos. Aqui, temos que aprender não só a vender comida, mas processar, industrializar.

 

MidiaNews – Em se consolidando essa invasão de recursos externos e o momento sendo bem aproveitado, será um grande salto para Mato Grosso?

 

Onofre Ribeiro – Um salto absurdo, monstruoso.

 

MidiaNews – Queria que o senhor fizesse uma avaliação do ano de 2017 da Assembleia Legislativa, dessa legislatura, da gestão do deputado Eduardo Botelho.

 

A Assembleia é aquele doente que está vivendo com balão de oxigênio

Onofre Ribeiro – Essa é a legislatura mais pobre entre todas que já houve em Mato Grosso, porque ela vem da fragmentação. Então não tem ninguém lá partidário. Partido é só um rótulo na camiseta. Essa legislatura pegou uma gestão em que a política não é o forte do Governo e a população está de ressaca.

 

A entrada do Botelho na presidência trouxe um pouco de habilidade política para tocar o dia-a-dia, mas só isso e nenhum passo a mais. A Assembleia é aquele doente que está vivendo com balão de oxigênio.

 

MidiaNews – Neste ano tivemos um grande “acontecimento” que foi a delação do ex-governador Silval Barbosa. Essa delação vai mudar as práticas políticas do Estado?

 

Onofre Ribeiro – Não. Essa delação apenas escancarou o que todo mundo sabia. Nossa gestão pública vinha desde sempre com segredos inconfessáveis. O que o Silval fez foi confessar esses segredos. Te digo com muita convicção: a delação dele não muda coisa nenhuma, porque todo mundo sabia que era assim.

 

MidiaNews – E nem vai ter efeito na eleição?

 

Onofre Ribeiro – Não. A não ser que algum político fique comprometido legalmente. Mas se puderem se candidatar, se a lei não impedir, vão se candidatar e se eleger numa boa.

 

MidiaNews – O que é triste para um Estado em que coisas tão graves foram descobertas. Coisas sendo jogadas para debaixo do tapete...

 

Onofre Ribeiro – Em época de transformação, como esta agora, as pessoas querem um propósito, propósitos novos, mas o inconsciente coletivo sabe que isso demora. Como já falei, somos conservadores: “Deixa esse que é melhor do que botar um novo”. Ainda mais que não há um novo. Então teremos uma repetição do mesmo, talvez sem os mesmos defeitos.

 

Metade do que está aí se reelege e metade se renova. Essa metade que se reelege, que é o tradicional, vai ficar muito vigiada. Como não vai haver financiamento de fora escandaloso como antes, estarão vigiados pela sociedade e pela outra metade que não vai entrar. Aí você vai ter um período muito caótico na política e na gestão. Mas o caos, a definição do caos, é o período em que não há uma ordem. Caos não é sinônimo de desordem, mas sim da falta de ordem. O próximo mandato é o período em que vai estar se construindo uma ordem futura.

 

A delação do SIlval apenas escancarou o que todo mundo sabia

MidiaNews – Ainda sobre essa delação do Silval. Ele denunciou propina para cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, algo muito grave para a instituição. Como o senhor vê essa questão?

 

Onofre Ribeiro – Isso se deve ao fato de o TCE ser formado por pessoas que não são de carreira - isso agora está mudando. Pessoas que saem do mundo político e trazem seus interesses, seus vícios. O TCE nunca foi um Tribunal de Contas, mas sim de auditorias. Sabe tudo que está acontecendo. Como é auditoria, não muda, mas sim revela. O TCE é corporativo, não está aí para mudar. Aponta que você gastou mais do que devia, mas a decisão de parar de gastar é sua. O TCE só aponta, mas não mexe. E aí ficou, recebeu dinheiro, fez vistas grossas. Quem vai julgar o TCE, quem vai julgar o Silval, não é a justiça, é a história. Mas quando a história será escrita? Daqui a 30 anos, já teremos todos morrido e não vai acontecer nada. É um julgamento de mídia, de opinião pública. A história demora a julgar.

 

MidiaNews – Entre os cinco que foram afastados por acusação de participação no esquema de corrupção, um quer ser candidato a governador do Estado. Qual a possibilidade de Antonio Joaquim ser eleito governador?

 

Onofre Ribeiro – Quando o Antonio Joaquim quis ser candidato a governador, não havia ainda a delação, nem o afastamento. Ele manteve a ideia e tentou usar a candidatura para sair fora daquele lance pedindo a aposentadoria. Foi uma tentativa, um oportunismo. Não deu certo. Agora não tem mais candidatura. A preocupação dele agora é se aposentar.

 

MidiaNews – Acha que ele não vai ser candidato?

 

Onofre Ribeiro – Não tem a mínima condição. Vai cuidar dos processos, vai ter que se explicar demais. Ele pode até insistir na candidatura, porque é uma decisão pessoal. Mas que morreu, morreu.

 

MidiaNews – Terminando o primeiro ano do prefeito Emanuel Pinheiro, qual sua avaliação?

 

Onofre Ribeiro – Emanuel continuou mantendo o que sempre foi: não tem planejamento. Ninguém governa apagando incêndio todo dia, um dia a água acaba. Vejo uma gestão muito empobrecida.

 

MidiaNews – Ele conseguiu superar a crise criada pelas imagens em que pega dinheiro no Paiaguás e coloca no paletó?

 

Onofre Ribeiro – Não vai conseguir. Têm coisas muito emblemáticas. Aquela imagem vai persegui-lo para sempre. Daqui a 30 anos, quando ele for um senhor, cabelos brancos, fora da política, cuidando dos netos, alguém há de lembrar a história do paletó. Vai ser um estigma da vida dele. Explicando ou não explicando.

 

MidiaNews – Em meio a todos esses casos que aconteceram em Mato Grosso nos últimos anos, o senhor acredita que o Ministério Público falhou?

 

Onofre Ribeiro – Tenho questionado muito isso. O Poder Executivo é uma corporação, não uma instituição. A Assembleia é uma corporação, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, o Tribunal de Contas, todos são corporações que cuidam das coisas coletivas, mas primeiro cuidam dos interesses do grupo, do grupo interno. O social é se sobrar.

 

Isso gerou uma confusão de atribuições em que você tem o Judiciário, o MPE, todos esses órgãos muito empobrecidos de objetivos. O MPE ficou muito militante, o filosófico foi para militância de direitos humanos, militância de mídia. Isso gera uma aparência de serviços realizados e que significa direito de no próximo ano reivindicar mais salário, mais verbas para a corporação. O MPE não fez diferente do que fez o Judiciário, a Assembleia, quer dizer, as corporações tomaram conta do Estado e elas estão destruindo o Estado e se destruindo.

 

 




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Wagner de Andrade Gouvêa  03.01.18 10h59
Onofre Ribeiro,minero de Campos Altos,conhece como poucos os meandros da política matogrossense! Qto.à reeleição de Taques concordo que não terá adversário! Não terá adversario porque sua gestão te sido uma das melhores, em especial na Infraestrutura! Outro ponto forte, além da seriedade com o dinheiro público, é o pagamento em dia dos funcionários!
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Wagner de Andrade Gouvêa  03.01.18 10h58
Onofre Ribeiro,minero de Campos Altos,conhece como poucos os meandros da política matogrossense! Qto.à reeleição de Taques concordo que não terá adversário! Não terá adversario porque sua gestão te sido uma das melhores, em especial na Infraestrutura! Outro ponto forte, além da seriedade com o dinheiro público, é o pagamento em dia dos funcionários!
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EUZE CARVALHO  03.01.18 06h40
ANALISE PERFEITA ONOFRE. SEM TIRAR NEM PÔR!
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Walter  02.01.18 08h36
O que vejo aqui é muito servidor público estadual ressentido e mal agradecido. Tiveram os maiores aumentos de salário e vem aqui chorar as pitangas.
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Alex r  02.01.18 08h35
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