Cuiabá, Quinta-Feira, 21 de Fevereiro de 2019
LUIZ HENRIQUE LIMA
08.02.2019 | 07h30 Tamanho do texto A- A+

Nelly, uma professora

Sua história representa uma geração de mulheres corajosas e trabalhadoras

Neste sábado, dia 9, no distante município de Concórdia, SC, a 1.739 km de Cuiabá, será inaugurada uma pequena escola na periferia, no Loteamento Bussolaro. Será denominada Grupo Escolar Municipal Professora Nelly Muller de Lima.

 

Só esse fato já merece aplausos. Há por aí tantas escolas com nomes de ditadores ou de controversas celebridades que pouco contribuíram para a educação. A regra geral deveria ser que os nomes das escolas homenageiem professores, de preferência que tenham atuado nas localidades onde estão situadas, ou, em alguns casos excepcionais, cientistas como Oswaldo Cruz ou autores como Machado de Assis, cujas obras são objeto de estudo nas salas de aula. Que os atletas sejam celebrados nos estádios, os militares nos quartéis e os artistas nas salas de espetáculo. As salas de aula devem reverenciar os grandes professores.

 

Nelly foi uma grande professora. Não pela sua estatura mediana, nem pelo número de alunos que teve, limitado pela pequena dimensão do universo onde lecionou, mas pela enorme e profunda influência positiva que exerceu naqueles que tiveram o privilégio de tê-la como mestra.

 

Mulher de temperamento forte, destacou-se em inúmeras atividades comunitárias, cooperando sempre para o compartilhamento de conhecimentos, o desenvolvimento de oportunidades e o progresso de todos

Sua história é representativa de uma geração de mulheres corajosas e trabalhadoras, que deram inestimável contribuição ao Brasil. Nascida em 1916, no interior do Paraná, filha de um modesto funileiro alemão, foi a caçula de seis irmãos. Casou-se muito jovem com Domingos, um simpático e inteligente catarinense, que conheceu como ajudante de ordens de seu irmão mais velho que era capitão nas tropas de Getúlio Vargas  durante as Revoluções de 1930 e 1932.

 

Ao seu lado, foi uma das pioneiras na fundação e instalação de Concórdia, na região do Contestado, à época um povoado poeirento com menos de 100 pessoas e hoje uma das cidades de melhores índices de desenvolvimento do país, contando com mais de 70 mil habitantes.

 

Foi pioneira também ao desenvolver atividades profissionais independentes, o que não era usual para as mulheres naquela época em nosso país.

 

Foi uma das primeiras professoras de Concórdia, lecionando numa pequena escola de madeira, em que todas as classes estudavam num único ambiente. Nelly alfabetizou praticamente todas as crianças da cidade entre 1935 e 1945, tendo exercido o magistério por cerca de quatro décadas, inclusive ministrando aulas particulares para os que se preparavam para o disputado Exame de Admissão.

 

Seus alunos dela guardam as melhores recordações, do zelo para com todo o processo educacional até a paixão por ensinar,  bem como o inesgotável carinho com as crianças, disfarçado por uma capa de disciplina austera, herança de sua ascendência alemã.

 

Atuou também na Coletoria Estadual, granjeando unânime respeito por seu zelo e dedicação ao interesse público. Apoiou seu esposo na vida política, como vereador e prefeito, dos mais queridos na história do município.

 

Após sua aposentadoria, continuou ativa, organizando cursos de bordados e trabalhos manuais e participando do Clube do Livro, pois sempre foi uma leitora entusiasmada, transmitindo o amor pelos livros aos filhos e netos.

 

Mulher de temperamento forte, destacou-se em inúmeras atividades comunitárias, cooperando sempre para o compartilhamento de conhecimentos, o desenvolvimento de oportunidades e o progresso de todos. É incontável o número de pessoas que acolheu, auxiliou e aconselhou, tendo muitas dúzias de afilhados de batismo e de casamento. Praticou a caridade, participou de campanhas solidárias e sempre teve grande fé religiosa.

 

Tinha grande paixão por seu jardim, cujas belas rosas atraíam a atenção de todos que passavam pela rua Pinheiro Machado, que hoje tem o nome do seu companheiro de vida, Prefeito Domingos Machado de Lima.

 

Viveu 97 anos, amada pela família, querida pelos vizinhos, alunos e amigos, respeitada e admirada por todos que a conheceram. Nelly Muller de Lima, minha avó professora, a homenagem que recebe hoje, também é para inúmeras professoras e mulheres de fibra e de caráter que, educando com amor, forjaram o que essa nação tem de melhor.

 

LUIZ HENRIQUE LIMA é conselheiro substituto do TCE-MT.




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Renato dos Santos Zanella  09.02.19 07h22
Justa homenagem.
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