Cuiabá, Segunda-Feira, 21 de Janeiro de 2019
ROSANA LEITE
09.01.2019 | 07h48 Tamanho do texto A- A+

Princesa Aqualtune

Ela sofreu a dor imensurável do estupro, ao ser “comercializada”.

Em MaceióAL é parada obrigatória a Serra da Barriga, que abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. E lá, com toda energia sentida por seus visitantes, conhecer um pouco mais da história brasileira.

 

Em 1597, os quilombolas chegaram ao Quilombo dos Palmares, com esperança de liberdade e dias melhores. Aqualtune, mãe de Ganga Zumba e avó materna de Zumbi dos Palmares, foi princesa africana em sua terra natal, já que era filha do Rei Congo. Esta importante mulher, liderou uma força de dez mil homens na Batalha de Mbwilla (cidade localizada na atual Angola), entre o Reinado do Congo e Portugal, e só foi capturada com a derrota congolesa.

 

Tendo Aqualtune sido aprisionada, foi trazida para o Brasil, mais especificamente para a cidade de Recife, e vendida como escrava reprodutora. Ao ficar gestante, foi vendida para o engenho de Porto Calvo, onde ficou sabendo da existência do Quilombo dos Palmares. É narrado historicamente que a princesa, além de Ganga Zumba, também deu a luz a Gana (que mais tarde se tornou chefe de dois mocambos de Palmares), e Sabina, que é a genitora de Zumbi, o grande líder dos Palmares.

 

A Princesa Aqualtune, por sua trajetória de luta pelas mulheres negras e liberdade, recebeu vários títulos, se tornando figura feminina de muita relevância

Aqualtune não aceitou calada o destino que lhe foi imposto. Buscou a liberdade de forma incessante. Sofreu a dor imensurável do estupro, ao ser “comercializada”. A escravidão, com todo o sofrimento já imposto, foi enfrentada por mulheres como elas, juntamente com o machismo. Por ser uma ex-princesa, foi vendida para um fazendeiro explorador, que a entregou nas mãos de um escravo reprodutor violento, onde foi torturada sexualmente. Quando ouviu falar sobre o Quilombo dos Palmares, para o local se dirigiu. Com toda sua força e resistência, contribuiu de maneira extrema na luta, outrossim, com discursos destemidos, exercendo a coragem na consolidação da república.

 

Ao subir a Serra da Barriga, localidade que, ainda em tempos atuais, é repleto de vigor positivo, é possível imaginar os negros e negras a escalarem, em romaria, a busca pela tão sonhada paz. Chegando ao lugar que abrigou o Quilombo dos Palmares, na cidade de União dos PalmaresAL, a história do Brasil fica completa. Lutaram e conseguiram provar que raça não pode, e nem deve, definir capacidade humana.

 

Qual o motivo de tanta discriminação e preconceito aos irmãos e irmãs? Na contemporaneidade, dizer que a diferenciação é falácia é o mesmo que afirmar desconhecer o mundo em que vivemos. Não tiveram e não possuem as mesmas oportunidades. A obstinação deve ser marca por longos anos, pelo que se desenha nos dias que estão por vir...  

 

A Princesa Aqualtune, por sua trajetória de luta pelas mulheres negras e liberdade, recebeu vários títulos, se tornando figura feminina de muita relevância. Juntamente com Dandara, Tereza de Benguela, Tia Simona, Luisa Mahin, essas mulheres não aceitaram a dupla discriminação na época da pré-abolição do Brasil.

 

A literatura de cordel, através de Arraes, homenageou a princesa: “Foi vendida como escrava Chamada reprodutora Imagine o pesadelo Que função mais redutora (...) Quando penso em Aqualtune Sinto esse encorajamento A vontade de enfrentar De mudar nesse momento Tudo aquilo que é racismo E plantar conhecimento.”

 

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual.




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1 Comentário(s).

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Heitor  09.01.19 09h49
Parabéns pelo resgate histórico
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