Cuiabá, Segunda-Feira, 10 de Dezembro de 2018
ROSANA DE BARROS
12.01.2018 | 20h00 Tamanho do texto A- A+

Violência doméstica cotidiana

Em muitos momentos, as vítimas se culpam pela prisão do agressor. E em outros, eles a culpam pelas agressões

Em dezembro passado, o Brasil presenciou a história de "amor" de um cantor e uma bailarina. Segundo narrou a mulher, o relacionamento amoroso de sete anos foi de extrema violência doméstica.

 

O funkeiro acabou respondendo por porte ilegal de arma de fogo e agressão. Foi preso e solto mediante o pagamento de fiança.

 

A Prefeitura do Rio de Janeiro cancelou a participação do cantor no Réveillon de Copacabana e a TV Record rescindiu o contrato em que ele participaria de um programa televisivo de grande audiência.

 

A mulher ficou em dor emocional intensa, mesmo não sendo esse o primeiro ataque sofrido, buscando apoio junto a familiares, amigos e amigas.

 

No dia dos fatos que originaram a busca por ajuda do poder público, a mulher foi agredida com garrafa, socos, chutes e puxões de cabelo, por ciúme.

 

O cume da briga aconteceu quando o homem pegou o celular da esposa, enxergando situações que somente ele podia perceber. A mulher é proprietária de uma loja de roupas que anuncia também via Instagram.

 

Em razão do comentário de um homem em uma das fotos na referida rede social, a violência foi a única solução encontrada para "ensinar" a amada. Ele apanhou o celular da esposa e quebrou, quebrando, ainda, o box do banheiro.

 

Afinal de contas, se normalmente sempre tudo se resolvia com tapas, xingamentos, beliscões, quebra-quebra e empurrões, porque agora seria diferente?

O ciclo da violência doméstica fica evidente. A tensão como primeiro estágio, onde as partes não conseguem manter contato. A explosão vem logo em seguida, quando os empurrões e lesões corporais ficam frequentes

 

Quando a mulher resolve buscar ajuda, a sociedade toma conhecimento da real situação do casal. Acontece o chororô do agressor.

 

No caso narrado, o cantor grava um vídeo tentando explicar o inexplicável. Chora, pede perdão, tenta se explicar, e se "queima" ainda mais.

 

Em suas palavras: "Quero, incansavelmente, pedir perdão à minha mulher. Eu amo muito a minha esposa. Quem me conhece sabe o cara de bem que eu sou, o quanto estou buscando me cuidar com profissionais, com situações que ela mesma falava para mim (...)".

 

Não há vídeo ou carta que explique as agressões às mulheres. Tem sido muito comum, também, em caso de assédio sexual escancarado publicamente, explicações do agressor, como se houvesse elucidação suficiente para o episódio.

 

Rememorando a colonização do Brasil, Naymme Moraes dilucida: "A ideologia patriarcal que estruturava as relações sociais no Brasil Colônia dava aos homens poder irrestrito sobre as mulheres, que justificava atos de violência cometidos por pais e maridos. Isso disseminou entre os homens um sentimento de posse sobre o corpo feminino, atrelada à ideia de honra masculina.

 

Cabia aos homens disciplinar e controlar os corpos femininos para garantir a ordem. Por exemplo, o Código Filipino, a legislação do período colonial que permaneceu até o século XIX, permitia que o marido assassinasse a mulher em caso de adultério.

 

Era facultado, aos pais e maridos, o enclausuramento forçado das esposas e filhas, e o recolhimento em ordens religiosas e sanatórios.

 

Nascia assim no Brasil o lar como um lugar privilegiado para a prática da violência contra a mulher e seus filhos.

 

A esposa, mesmo após as lesões corporais que marcarão indelevelmente o seu corpo e alma, resolve voltar a viver maritalmente com o homem.

 

Narrou que ele é para ela um filho, que precisa de tratamento. Para a vítima, apenas ela poderá "curá-lo", se sente responsável pelas atitudes dele.

 

Em muitos momentos, as vítimas se culpam pela prisão do agressor. E em outros, eles a culpam pelas agressões.

 

O ciclo da violência doméstica fica evidente. A tensão como primeiro estágio, onde as partes não conseguem manter contato. A explosão vem logo em seguida, quando os empurrões e lesões corporais ficam frequentes.

 

Os feminicídios acontecem na fase explosiva. A lua de mel fecha o ciclo, com perdões e promessas de jamais repetir os abusos.

 

O essencial é diagnosticar o relacionamento abusivo...

 

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual em Mato Grosso.




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