14.08.2016 | 15h:55

FENÔMENO


"Pokémon Go" conquista público, mas também vira caso de polícia

Aplicativo que tornou-se febre em todo o mundo chegou a Mato Grosso há dez dias

Marcus Mesquita/MidiaNews

Aplicativo chegou ao Brasil em 3 de agosto e se tornou sucesso em todo o país

As criaturas do jogo “Pokémon Go” invadiram cidades de todo o mundo e são procuradas por milhares de “caçadores” que tentam capturá-las. Em Cuiabá, o fenômeno mundial atrai diversos fãs, que se reúnem em variados pontos para procurar, no mundo real, os animais que outrora se restringiam à dimensão virtual.

 

Charmander, Bulbasaur, Pikachu e outros seres que fazem parte do game podem ser encontrados em diversas regiões de Mato Grosso desde 3 de agosto, data em que o jogo foi lançado no Brasil. Para encontrar os bichos virtuais, o caçador deve buscá-los por diversas regiões.

 

Durante a procura dos jogadores, o celular apita e surge a informação: há pokémons nas proximidades. Pela câmera do celular, há a possibilidade de o jogador ver o bicho virtual vivendo em uma realidade aumentada. A partir de então, inicia-se a busca para capturá-los.

 

Parques como o Tia Nair e o Mãe Bonifácia, assim como blocos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e praças da Capital, são lugares onde diversos jogadores costumam ir para procurar por pokébolas e bichos virtuais, ou para realizar duelos entre as criaturas.

 

Rodrigo Rizzo/Arquivo Pessoal

Jogadores de Cuiabá costumam se reunir na UFMT para procurar pokémons

Os locais onde há grande concentração dos monstrinhos são chamados de pokéstops. Há também, pela cidade, regiões onde existem ginásios, lugares em que ocorrem batalhas entre as criaturas.

 

Entre os caçadores que estão em busca de pokémons, em Cuiabá, está o universitário Rodrigo Rizzo, de 25 anos. Ele relata que é fã de “Pokémon” desde que conheceu o desenho animado baseado no game, há 17 anos. A partir de então, se tornou um apaixonado pelo tema.

 

Logo que se encantou com o desenho, ele passou a colecionar diversos games da animação. Para ele, o aplicativo que traz as criaturas para o mundo real é um dos melhores lançamentos relacionados ao assunto.

 

“O que torna a experiência do ‘Pokémon Go’ ainda mais divertida é o cenário dele ser o próprio mundo real. Além disso, existem várias modalidades e funções que podem ser exploradas nele”, explica.

 

Rodrigo tem 81 pokémons capturados, de um total de 151 criaturas que foram disponibilizadas até o momento. Ele costuma realizar buscas todos os dias na UFMT, onde cursa engenharia civil. O universitário inicia a caça pelos pokémons a partir das 19h, quando terminam suas aulas.

 

“Há dias em que começo a procurar mais cedo, quando as aulas terminam antes. Também há vezes em que vamos de manhã. Mas o foco mesmo é depois das 19h e permaneço pelo tempo em que durar o carregador portátil do celular”, diz.

 

As buscas de Rodrigo são feitas sempre acompanhadas por um grupo. Há dias em que a quantidade de caçadores de pokémons chega a vinte pessoas.

 

“Escolhemos a UFMT para procurar os pokémons porque aqui tem muitas pokéstops, então podemos pegar muitos itens, principalmente as pokébolas”, afirma.

 

O que torna a experiência do ‘Pokémon Go’ ainda mais divertida é o cenário dele ser o próprio mundo real

O grupo de caçadores costuma marcar o encontro para procurar as criaturas por meio de aplicativos de conversa. Logo que eles identificam uma área em que pode haver grande número dos monstrinhos, combinam de se encontrar no lugar. Um item fundamental durante as buscas dos caçadores é o “Kit Mestre”.

 

“O ‘Kit Mestre’ contém água, comida e carregador portátil para celular. São itens fundamentais para que a gente consiga procurar os pokémons. Também é importante sempre termos o maior número de pessoas que conseguirmos, para ajudar durante a caçada”, comenta Rodrigo.

 

Admiração de infância

 

As criaturas do Pokémon alcançaram a fama quando foram lançadas no Game Boy, da Nintendo, nos anos 90. A ideia de capturar um monstrinho em uma “pokébola” atraiu diversos admiradores. O sucesso aumentou quando foi produzido um desenho sobre o jogo, fazendo com que ele se tornasse uma febre mundial no fim dos anos 90.

 

Muitos dos jogadores do “Pokémon Go” possuem mais de 20 anos. Grande parte desse público admira o game desde a infância. O universitário Ayrton Senna do Amaral, que cursa Rádio e TV, revela que é apaixonado pelas criaturas virtuais desde que era criança. Atualmente com 21 anos, ele lembra que não tinha televisão a cabo e descobriu o desenho por meio de fita VHS.

 

“Acompanho ‘Pokémon’ desde a primeira temporada, mas somente por VHS. Quando eu soube que tinha uma versão dele para videogame, vendi meu playstation para comprar um Game Boy Advance, para poder jogar”, relata.

 

De acordo com Ayrton, os pais dele sabem da paixão do filho pelo “Pokémon” desde a infância e nunca implicaram com isso.

 

“Meu pai não se importa, nem deve saber o que é o Pokémon. A minha mãe fica comentando que era um ‘porre’ quando ia me levar aos cinemas para assistir duas horas de Pokémon. Mas ela me apoia e, inclusive, acha bacana o fato de eu ter uma pokébola pendurada no retrovisor do meu carro”, diz.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Parque Mãe Bonifácia também é um dos pontos utilizados por caçadores de pokémon em Cuiabá

O universitário declara que não passa muito tempo do seu dia utilizando o aplicativo. Ele classifica como “parada” a sua rotina como caçador de pokémons.

 

“Eu jogo quando posso e quando sei que não vai me atrapalhar em outras coisas. É mais para relaxar. Quando algum amigo quer jogar, porque tem um celular que não consegue rodar o aplicativo, eu empresto o meu”, comenta.

 

Tempo dedicado ao “Pokémon Go”

 

A rotina controlada para não perder muitas horas capturando as criaturas faz parte do dia a dia da publicitária Viviane Brito, de 26 anos. Apaixonada por “Pokémon” desde a infância, quando conheceu o desenho animado, ela acredita que o game recém-lançado foi uma oportunidade para realizar o sonho de criança e capturar os bichos virtuais no mundo real.

 

No entanto, para que a busca pelas criaturas não prejudique o trabalho, ela afirma que tenta conciliar o uso do aplicativo com o emprego.

 

“Não dá para dividir a atenção com o jogo, serviço e outras tarefas, por isso estou jogando apenas nas horas vagas. Há um pokéstop ao lado do meu trabalho, então, quando não estou trabalhando, sempre que possível dou uma olhadinha lá”.

 

Mesmo tendo que se controlar para não passar muitas horas jogando, ela assegura que capturou mais de mil criaturas desde o lançamento do game no Brasil. Para conseguir encontrar mais pokémons, ela costuma frequentar diversos pokéstops de Cuiabá.

 

“Normalmente vou à UFMT, ao Parque Mãe Bonifácia ou à Praça Popular, porque o volume de pokéstops e ginásios é bem grande nesses lugares”, explica.

 

Normalmente vou à UFMT, ao Parque Mãe Bonifácia ou à Praça Popular, porque o volume de pokéstops e ginásios é bem grande

Apesar de Viviane afirmar que controla os horários para jogar o Pokémon Go, a psicóloga Beatriz Bruehmueller alerta que nem todos os jogadores conseguem ter domínio sobre o tempo dedicado ao aplicativo. Para Beatriz, é importante que o caçador não crie uma dependência.

 

“Há o risco de as pessoas criarem dependência, começarem a viver em função do jogo e esquecer suas funções. Esse é um grande perigo, como em qualquer jogo, pois a pessoa pode perder a noção de que a vida não é só a competição e acabar se esquecendo de que ela precisa dividir o seu tempo com outras coisas”, declara.

 

A psicóloga aconselha que o modo correto de utilizar o aplicativo é saber controlar os momentos de jogar.

 

“É importante jogar o Pokémon, mas também é fundamental ter tempo para fazer outras coisas, como ler, estudar e se divertir. A pessoa precisa utilizar o seu tempo de uma forma equilibrada”, orienta.

 

Caminhada para capturas

 

Entre os benefícios trazidos pelo game, a psicóloga Beatriz Bruehmueller destaca o fato de o aplicativo fazer os seus usuários se locomover.

 

“Uma coisa boa do ‘Pokémon Go’ é que ele está conseguindo tirar de casa pessoas que estavam o tempo todo em frente ao computador. É uma interação com o mundo ainda limitada, porque estão saindo sem buscar olhar nos olhos, pois estão indo em função de uma máquina. Mas é um bom começo”, comenta.

 

Um dos modos que o aplicativo faz o usuário caminhar é por meio dos ovos de pokémons capturados pelos jogadores. Para que os itens se choquem e surja o monstrinho, o game solicita que o caçador ande por uma determinada quantidade de quilômetros.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Aplicativo é gratuito e está disponível para celulares com Android e para iPhone (iOS)

A jornalista e ilustradora Juliana Fernandez conta que não é adepta de longas caminhadas. No entanto, durante este fim de semana, para conseguir chocar um ovo de pokémon, ela decidiu andar três quilômetros.

 

“O ovo precisava de 10 quilômetros para chocar, mas eu tinha deixado ele incubado e já tinha conseguido andar sete quilômetros desde que o capturei. Eu estava sem tempo para andar o suficiente, mas neste fim de semana chamei o meu irmão e andamos os três quilômetros que faltavam e o pokémon surgiu”, relata.

 

Casos de polícia

 

Apesar da diversão proporcionada pelo “Pokémon Go”, houve circunstâncias em que o jogo tornou-se caso de polícia. Uma dessas situações aconteceu na tarde de 5 de agosto, quando um adolescente de 17 anos teve o celular roubado no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, enquanto tentava chocar um ovo de pokémon.

 

De acordo com a mãe do jovem, a mestre em linguística Helany Morbin, o filho havia saído de casa para comprar refrigerante. Um amigo, que mora ao lado da casa do adolescente, teria entregado seu celular ao jovem e pedido que, durante o trajeto ao supermercado, ele tentasse conseguir quilômetros suficientes para chocar um ovo que havia capturado.

 

“O meu filho ainda estava conhecendo o jogo, porque tinha sido lançado há poucos dias. Durante o caminho para comprar o refrigerante, ele ficou prestando atenção no celular e se distraiu”, explica.

 

Segundo Helany, no momento em que o adolescente passou em frente a um terreno baldio, dois rapazes o abordaram.

 

“Eles anunciaram o assalto, levaram o celular, que era do amigo do meu filho, e foram embora andando. Meu filho não soube dizer se eles estavam armados”, relata.

 

Eles anunciaram o assalto, levaram o celular, que era do amigo do meu filho, e foram embora andando

O adolescente voltou para casa assustado e contou sobre o crime ao amigo, à mãe e também chegou a fazer uma publicação em seu Facebook sobre o caso. O jovem optou por não registrar boletim de ocorrência sobre o roubo.

 

Para a mãe do adolescente, o “Pokémon Go” é um aplicativo que deve ser utilizado com parcimônia e os jogadores devem estar atentos ao seu redor.

 

“Acho que a tecnologia traz contrastes, porque há o avanço da modernidade e também acontece o aumento da alienação”, argumenta.

 

Outro caso policial envolvendo o "Pokémon Go" aconteceu na madrugada de terça-feira (8). Dois jovens estavam caçando pokémons em frente a uma delegacia da Polícia Civil, no bairro Jardim das Américas, em Cuiabá, e foram alvos de truculência de dois policiais. Um vídeo que mostra a abordagem sofrida pelos jovens viralizou nas redes sociais. Nas imagens, eles são obrigados a se deitar no chão e, em seguida, são revistados.

 

No vídeo, os dois são repreendidos pelos policiais. "O que estão fazendo correndo na frente da delegacia a uma hora da madrugada?", questiona um policial. "Catando Pokémon? Vai tomar no seu c..., seu F.D.P. Tem medo de morrer, não?".

 

Em entrevista ao MidiaNews, dias depois do ocorrido, a mãe de um dos jovens que aparecem no vídeo, a professora Imar Domingos Queiroz, afirmou que ficou “indignada” com a atitude dos policiais.

 

“Essa é uma prática, infelizmente, ainda recorrente dentro da Segurança Pública. É uma prática inaceitável. Ninguém deve compactuar com isso porque a função da Segurança Publica é proteger o cidadão. Queremos fazer com que essa discussão seja feita no âmbito da polícia, e, mais do que isso, provocar mudanças mesmo”.

 

Reprodução

Dois jovens foram alvos de truculência enquanto procuravam pokémons nas proximidades de delegacia, em Cuiabá

Os pais dos jovens registraram um boletim de ocorrência sobre o caso.

 

O coletivo LGBT Manicongo se pronunciou sobre a situação e repudiou a atitude dos policiais. A organização questionou a abordagem e os termos utilizados durante a ação.

 

"Esse episódio nos traz uma série de questionamentos: É crime andar na rua? É crime jogar Pokémon Go? E violar Direitos Humanos, não? Será que jogar Pokémon Go é uma prática "afeminada", e que homem de verdade é aquele que fala grosso, ofende, humilha e violenta? O que tem a ver a sexualidade das pessoas na hora das abordagens (afinal, sequer temos acesso à sexualidade dos garotos abordados)?", diz trecho da nota do coletivo.

 

Na sexta-feira (12), o corregedor auxiliar da Polícia Civil, delegado Geraldo Magela, afirmou que houve transgressão disciplinar na ação dos dois policiais civis que aparecem no vídeo.

 

Por meio da assessoria de imprensa, Magela informou que deve abrir uma sindicância para investigar a conduta dos policiais. Eles foram identificados e serão autuados para prestar esclarecimento sobre o caso.

 

Medidas de segurança

 

A segurança dos caçadores de pokémons foi tema de um comunicado divulgado pela Polícia Militar de Mato Grosso na última quarta-feira (10). A PM alertou sobre riscos de roubos, invasão a propriedades privadas e acidentes durante buscas pelos animais virtuais.

 

Na postagem de alerta, os jogadores foram orientados a não perder a atenção com o jogo, pois "os criminosos preferem vítimas distraídas".

 

O perigo de andar na rua é inevitável, visto a quantidade de assaltos que acontecem

A Polícia Militar ainda aconselhou os jogadores a não entrar em todos os locais onde possam estar os monstrinhos, para evitar riscos de invasão a propriedades privadas ou ser atraídos por criminosos.

 

Apesar das orientações de segurança, a publicitária Viviane Brito acredita que o “Pokémon Go” não aumenta os riscos de crimes.

 

“O perigo de andar na rua é inevitável, visto a quantidade de assaltos que acontecem. Se você estiver jogando ‘Pokémon Go’ ou usando o Whatsapp, os riscos são os mesmos”, afirma.

 

Para o universitário Rodrigo Rizzo, algumas medidas devem ser adotadas pelo caçador de pokémons para poder aproveitar o jogo sem ter problemas.

 

“Querendo ou não, a maior parte dos locais no mundo real são perigosos. Então, nunca vá caçar sozinho e, caso marque com amigos, vá a locais movimentados”, orienta.


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