MARCIO CAMILO
DA REDAÇÃO
De um ano em meio até agora, os agentes de trânsito de Cuiabá, mais conhecidos como “amarelinhos”, registraram mais de 50 Boletins de Ocorrências (BO’s) contra as agressões sofridas no trânsito.
A informação é do vice-presidente do Sindicato dos Agentes de Trânsito de Cuiabá, Sandoval Vieira.
Segundo ele, ocorrem agressões de todos os tipos, seja verbal ou física.
“Tem motorista que xinga a gente de filho da p..., vagabundo. 'Vai caçar o que fazer, seu ladrão, ao invés de ficar dando multas", por exemplo é a ofensasmais comuns”, diz Sandoval.
O agente, que atua no trânsito durante a noite, afirma que quase foi agredido por um motorista, recentemente, na região do Pantanal Shopping Center, na Avenida do CPA.
“Estava com a equipe fazendo operações de trânsito na região. Nisso, tivemos que autuar um motorista que estacionou em local proibido. Na hora, ele não estava no local e chegou no momento em nós aplicávamos a multa. Ele já veio enfurecido para cima da gente, dizendo que nós éramos vagabundos e que não pagaria multa nenhuma. Nisso, ele tentou agredir o meu colega com um soco no rosto. Só não acertou porque eu entrei na frente. Depois disso, chamamos a Polícia Militar e, só depois, ele se acalmou”, relata Sandoval.
O agente de trânsito disse que os pontos mais críticos, que provocam mais stress nos motoristas, são os desvios das obras para a Copa do Mundo. Ele cita a Avenida XV de Novembro, no Porto, que teve um estreitamento na via, em função das obras do VLT, a Avenida Fernando Correia e a Avenida Juliano Costa Marques, ao lado do Pantanal Shopping.

Tem motorista que xinga a gente de filho da p..., vagabundo... 'Vai caçar o que fazer, seu ladrão', costumam dizer"
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Pedro Alves/MidiaNews
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Amarelinhos na Praça Alencastro: trabalho orientativo de trânsito.
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Sandoval explica que nesses locais há muito fluxo de trânsito. Por isso, os ânimos dos motoristas ficam muito mais acirrados. Nessas horas, qualquer multa ou autuação pode ser a "gota d’água".
Um exemplo disso aconteceu na Avenida Miguel Sutil, no ano passado, quando um agente de trânsito levou uma marretada na cabeça, por ter multado um motorista. O trabalhador sofreu afundamento de crânio, mas hoje passa bem.
“Para mim, esse foi o caso mais chocante. Eu não estava no local. Mas acompanhei toda a situação pelo rádio”, conta Sandoval.
O agente de trânsito também cita casos de motoristas que sacaram armas contra os amarelinhos, por não aceitarem o fato de o carro ser guinchado.
“Isso costuma acontecer no pátio de apreensão da Secretaria Municipal de Trânsito (SMTU). Teve uma situação de um motorista que parecia ter se conformado com o guincho. Ele nos acompanhou normalmente até o pátio da SMTU. Mas, na hora de o carro ficar retido, ele inventou uma desculpa de que precisava pegar um documento no carro, foi no porta-luvas e voltou com uma arma. Nessas horas, a gente não tem muito o que fazer e a pessoa acaba saindo com o carro”, conta Sandoval
Ele observa que já teve motorista que sofreu medidas socioeducativas por agredir ou ofender um agente de trânsito.
“Já teve motorista que comprou cestas básicas e realizou serviços comunitários. Eu sempre oriento os colegas para que eles registrem o B.O., sempre quando forem agredidos”, afirma Sandoval.
Ele reclama que os agentes não dispõem de nenhum dispositivo de segurança, o que provoca “a coragem dos condutores para enfrentar os agentes”.
“Acho que uma arma de fogo é complicado, pois envolveria um treinamento mais especifico. Mas, por exemplo, em alguns estados, os agentes usam taser (arma de choque) ou spray de pimenta. Em Brasília, que tem um trânsito bem mais calmo do que Cuiabá, os agentes usam arma de fogo, por exemplo”, citou.
Praça Popular Um dos pontos mais problemáticos, em que os motoristas não respeitam as normas de trânsito, é a Praça Popular, um dos mais movimentados
points noturnos da Capital.
No local são guinchados, pelo menos, 15 carros por noite, mesmo com todo trabalho de orientação que houve, durante quatro meses.
“Antes de multar, nós fomos à região e fizemos todo um trabalho orientativo à população. Conversamos, explicamos insistentemente com os motoristas sobre os locais proibidos para se estacionar, mas, infelizmente, muitas irregularidades ainda são cometidas na Praça Popular”, lamenta Sandoval.
A Praça Popular está em um dos bairros mais nobres da cidade, onde se concentram os bares frequentados por jovens ricos e da classe média alta da Capital. Também é a região onde se concentra o maior número de universitários de Cuiabá.
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Divulgação
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A Praça Popular é um dos locais mais frequentado pela burguesia cuiabana. Também é a região onde se tem mais desrespeito às normas de trânsito.
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Muitos desses motoristas acreditam que não serão punidos, pelo alto poder aquisitivo que possuem.
“Pois é, mas já aconteceu da gente ter guinchado carros de luxo na região. Os agentes buscam aplicar a lei igual para todos”, afirma Sandoval.
Ele disse que os agentes já cansaram de receber “carteiradas de playboys”, que não se conformavam com as multas.
“Você sabe quem eu sou? Eu conheço o prefeito, sou filho de delegado, meu pai é senador, eu conheço o governador do Estado. Esses são alguns dos argumentos mais comuns desse pessoal”, destaca Sandoval.
Ele também afirma que tem motorista que não “dá muita bola para a fiscalização” e manda os agentes multar. “Acredito que isso acontece pelo fato de essas pessoas terem muito dinheiro. Daí, eles não ligam muito para as multas”.
Na Praça Popular, um caso que mais chamou a atenção de Sandoval foi de um motorista, que ao ser autuado, tirou o carro do local, “e só de pirraça”, o estacionou em cima da calçada. “Aí, não teve jeito: tivemos que multar o cidadão”, conta.
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Pedro Alves/MidiaNews
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Existem 175 agentes de trânsito em Cuiabá; o ideal seria 400
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Cultura das multas Antes da nova incorporação dos amarelinhos, em 2011, os agentes de trânsito mais multavam do que aplicavam medidas orientativas aos motoristas.
Conforme a legislação da época, as multas contavam como gratificação nos salários dos agentes e, por conta disso foi estabelecida "cultura da multa" em Cuiabá.
“Infelizmente, nós ficamos marcados por isso e, ainda hoje, muitos motoristas acham que os agentes de trânsito só servem para multar. Isso explica por que nós somos hostilizados e para muitos motoristas, nós não somos reconhecidos como trabalhadores”, analisa o sindicalista.
Mas, Sandoval destaca que, a partir de 2011, essa cultura da multa começou a ser mudada e os motoristas começaram enxergar os amarelinhos com bons olhos. “Ainda tem muito gente que critica, mas essa situação melhorou bastante de uns tempos pra cá”, diz.
O agente explica que uma das principais medidas para mudar a cultura da multa é a nova lei, criada pelo sindicato, que prevê as gratificações dos profissionais por medidas orientativas.
“Significa que, quanto mais o agente orienta o trânsito, faz o trabalho de sinalização de um local onde teve acidente, promove a orientação semafórica, mais ele receberá gratificações no salário”, explica Sandoval.
O salário de um agente de trânsito é de R$ 1.172,00. Com a gratificação, esse salário pode chegar a R$ 3.172,00.
Mas, mesmo assim, conforme Sandoval, Cuiabá está muito aquém em relação a outras capitais e, até mesmo, cidades do interior do Estado.
“Por exemplo: em São Paulo, Brasília, Rondonópolis, um agente de trânsito recebe R$ 7 mil. Nós temos um dos piores salários do país, entre os agentes de trânsito", observa.
Atualmente, existem 175 agentes em Cuiabá. O ideal, segundo Sandoval, seriam 400.
Orientação
Para o motorista Manuel Alves, os amarelinhos deveriam fazer um trabalho mais orientativo no trânsito.
“Eu ainda acho que os amarelinhos multam demais e orientam pouco. Acho que, antes de multa, é preciso fazer um trabalho de educação, pois os motoristas brasileiros, realmente, são mal educados no trânsito. Mas, você não vê nenhuma campanha de verdade para conscientizar os condutores”, ressaltou.
Já o motorista Júlio César acha o trabalho dos amarelinhos “louvável”. “Esse pessoal está de parabéns, pois realiza um trabalho importante, principalmente na orientação do trânsito
quando acontece um acidente”., disse
César lembrou um acidente que aconteceu na Avenida do CPA.
“Os amarelinhos foram os primeiros a chegar ao local do acidente. Fizerem todo o trabalho de sinalização e orientação do trânsito, até o Samu chegar e socorrer os acidentados. Você podia notar que os agentes estavam mais preocupados em orientar o trânsito e socorrer os motoristas do que em aplicar algum tipo de sanção”, contou o funcionário público.