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SUPERAÇÃO EM CUIABÁ
03.09.2023 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Com graves problemas, costureira faz do trabalho sua terapia

Maria da Aparecida Carolino, de 50 anos, tem uma história de vida que serve de inspiração

Liz Brunetto/MidiaNews

Maria da Aparecida costurando peça de cliente em seu ateliê

Maria da Aparecida costurando peça de cliente em seu ateliê

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

Sentada atrás da máquina de costura, Maria da Aparecida Carolino, de 50 anos, recebe com um sorriso largo estampado no rosto um a um dos seus clientes. Quem vê o bom humor dessa mineira de nascimento - e cuiabana por adoção - não desconfia a dor que ela carrega.

 

Apesar de todos os problemas de saúde, não lhe falta vontade de trabalhar e ser cada vez melhor no ofício da costura. 

É uma dor que eu não desejo pra ninguém. Se eu fico muito tempo em pé, parada, me dá como se fosse uma câimbra, só que pior

 

Cida, como é carinhosamente chamada, convive diariamente com dores físicas intensas, em especial no abdômen, devido a diversos cistos espalhados no fígado e em outros órgãos. O maior desses cistos chegou à marca de 11,1 centímetros.

 

“É uma dor que eu não desejo pra ninguém. Se eu fico muito tempo em pé, parada, me dá como se fosse uma câimbra, só que pior. Parece que meus órgãos enrolam todos em um só lugar”, afirma.

 

Cida já teve hérnia, problemas renais e têm cistos espalhados no fígado, rins e no baço (policístico). São várias bolhas de sangue espalhadas que até podem ser aspiradas para diminuírem de tamanho, mas não são operáveis.

 

Ela também já tirou o útero pesando cerca de 700 gramas. O órgão saudável pesa entre 60 e 80 gramas, em mulheres que já tiveram filhos. “O meu era mioma puro”, disse.

 

“O doutor Cor Jesus salvou minha vida”, completou, agradecendo ao médico que a tratou.

 

Atualmente Cida toma diversos medicamentos, incluindo anti-inflamatórios e analgésicos como a Dipirona. Há remédios que, diante do seu quadro de saúde, são contraindicados.

Liz Brunetto/MidiaNews

Maria da Aparecida Carolino

Cida costurando peça de cliente em seu ateliê

 

Cida teve saúde frágil desde pequena e o seu próprio nascimento já foi considerado um milagre. A mãe tinha um mioma no útero e as chances não jogavam a favor. “Ninguém acreditava que eu iria nascer”.

 

“Só que eu nasci, nasci muito fraca, com asma e minha mãe, muito religiosa, fez até promessa”. O nome de Cida é em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

 

A sequência de doenças diagnosticadas veio na última década, quando Cida desembarcou pela segunda vez em Cuiabá, em 2016. “Eu cheguei e fui cuidar da minha saúde. Acabei descobrindo que sou uma obra errada por dentro”, diz ela rindo.   

 

Para Cida, o sorriso estampado no rosto foi uma máscara que ela aprendeu a vestir para camuflar a dor.

 

“Muita gente não acredita, fala para mim, 'Cida, você não tem problema de saúde, você ri, brinca’. Mas o que eu vou fazer? Sair batendo em todo mundo? Não, eu sinto dor constantemente”, disse.

 

Cuiabana de coração

 

Cida conta que já morou em Cuiabá há mais de 30 anos, quando teve a primeira filha. Depois vieram mais três, um rapaz de 27 anos, e um casal de gêmeos, hoje com 21.

 

Ela refez a sua vida com trabalho duro quando voltou a Minas. Mas por problemas pessoais teve que deixar tudo para trás. “Minha casa estava montadinha, tudo novo, do jeito que eu sonhei. Mas tive que vender um pouco e o resto eu doei”.

 

Feliz por voltar a Cuiabá, mas triste pelas circunstâncias em que veio, ela refez a sua vida mais uma vez. Hoje a divide o espaço do seu ateliê, no Bairro Centro Sul, com uma sapataria, e tem de clientes fiéis.

 

Amor pela costura

 

Para Cida, trabalhar com o que gosta tira o foco da dor. “Costurar para mim é uma terapia”. Ela aprendeu o ofício ainda criança, com 4 anos, só vendo a mãe costurar e se metendo no meio para ajudar.

Liz Brunetto/MidiaNews

Maria da Aparecida Carolino

Cida deu uma pausa no trabalho para contar um pouquinho da sua história

 

“Aprendi olhando a minha mãe na máquina. Ela estava cortando eu ia lá e enfiava a a tesoura também”.

 

Na máquina manual “encostada”, Cida começou costurando papel, depois passou a fazer as roupinhas das suas bonecas e nunca mais parou. Mas foi só em Cuiabá que ela enfrentou seus medos e transformou a paixão em renda.

 

A vida toda, antes disso, Cida trabalhou em outras funções. Por último, como cozinheira de uma empresa durante o dia. À noite ela costurava lingeries para incrementar a renda e repassava para outras mulheres revenderem.

 

Maltratada por parentes desde a infância após a morte dos pais, Cida se tornou uma mulher tímida, que ficava apenas nos bastidores.

 

“Eu era tímida para caramba, nunca imaginei estar à frente de uma loja. Para mim o meu negócio era ficar escondida”.

 

Diante dos diagnósticos e dores intensas, ela já não podia carregar peso e teve que, pela primeira vez, sair dos bastidores e assumir o “palco”, estar ela própria em evidência.

 

“Eu não tinha dinheiro não, mas tinha e tenho é muita coragem”, disse orgulhosa de suas conquistas.

 

Até os 100

 

Sem medo de encarar a morte, e sem pressa também, Cida diz que ainda tem muitos sonhos pela frente. “Ainda estou no começo e acho que vou alcançar, porque vou até os 100 anos”.

 

“Eu não quero morrer de jeito nenhum, porque a vida é boa demais. A vida está ruim, mas é bom viver, acordar e ver o brilho do Sol e a chuva caindo”.

 

Ela conta que pretende expandir a sua marca e trabalhar com moda plus size, além de ter uma equipe grande. “Se Deus quiser vão aparecer pessoas boas, que não sejam preguiçosas, que queiram e precisem trabalhar”.

 

Perfeccionista, ela conta que em 6 anos de ateliê já passaram 20 costureiras diferentes, mas nenhuma ficou.

 

Para encomendas basta entrar em contato com Cida pelo telefone (65) 99221-3563.

 

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VANESSA CARRARA  03.09.23 17h12
Cida é uma excelente costureira e, acima de tudo, exemplo de disposição e coragem. Está sempre com um sorriso no rosto! Que Jesus a abençõe sempre!
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