Cuiabá, Quinta-Feira, 2 de Abril de 2026
O QUE COMEMORAR?
08.04.2024 | 08h07 Tamanho do texto A- A+

Cuiabá chega aos 305 anos vivendo déficit urbanístico e descaso

Cidade convive com buraqueira, deterioração do Centro Histórico e com transporte público ineficaz

Mayke Toscano/Secom

Vista aérea da região central de Cuiabá, que completa 305 anos nesta segunda

Vista aérea da região central de Cuiabá, que completa 305 anos nesta segunda

GIORDANO TOMASELLI
DA REDAÇÃO

Cuiabá faz aniversário nesta segunda-feira (8) vivenciando um de seus momentos mais críticos em termos urbanísticos, o que levanta uma dúvida em muitos moradores: "Afinal, há o que se comemorar?"

Já há um bom tempo que nós não temos o que comemorar, nem quando Cuiabá fez 300 anos

  

Do ponto de vista urbanístico, não. Pelo menos é o que dizem especialistas ouvidos pelo MidiaNews. A cidade que completa 305 anos hoje tem ruas esburacadas, praças mal cuidadas, caos na Saúde, Centro Histórico abandonado, mobilidade urbana ruim e arborização precária.

 

Na semana que antecedeu o aniversário da cidade, a reportagem entrevistou especialistas em arquitetura, urbanismo e arborização, áreas chaves de um Plano Diretor da cidade, e é unanimidade entre eles: sob o ponto de vista desses setores, não há o que comemorar.

 

“Já há um bom tempo que nós não temos o que comemorar, nem quando Cuiabá fez 300 anos. A cidade está muito sofrida e não merecia esse desleixo do poder público com a qualidade de vida das pessoas”, lamenta a arquiteta e urbanista Cassia Abdalla.

 

Para a profissional, o principal problema é a mobilidade urbana. “É muito triste o descaso com os ônibus. Mas quando falamos em mobilidade, eu não vou falar só de veículos automotores. Temos as nossas pernas. E é muito difícil caminhar em Cuiabá, porque nós não temos calçadas”.

 

A urbanista, que participou da criação do primeiro Plano Diretor de Cuiabá, propõe que na mobilidade uma das soluções seria a uniformização das calçadas. E a outra a implantação da nova alternativa de transporte público, que já está sendo feita, o BRT (sigla em inglês para ônibus de trânsito rápido).

 

A questão também é de preocupação da arquiteta e presidente do CAU-MT (Conselho de Arquitetura e Urbanismo), Elisangela Fernandes Bokorni. “Um dos maiores problemas que nós temos na cidade é a malha viária, que acaba sobrecarregando regiões como o Centro”.

 

Para a presidente, outra questão urgente é a revitalização do Centro Histórico. “Para mim é o ponto que mais depõe contra a cidade. A restauração do Centro Histórico traria um grande impacto positivo”, avalia.

 

“Se você andar pelo Centro Histórico, vai ver que havia ali um comércio muito ativo e hoje são várias lojas fechadas. Isso contribui ainda mais para a depreciação, e não há uma manutenção do poder público”, completa.

 

Bokorni explica que, arquitetonicamente falando, pouco tem a se fazer no local por já ser uma área construída e antiga, mas uma revitalização e uma forma de uso diferente do atual, diminuindo o tráfego de veículos, já seriam um bom começo.

 

Já Abdalla lamentou o abandono. “O Centro Histórico tem lugar de venda [de entorpecentes], que até a Polícia sabe, mas ninguém faz nada. Quem é dono dos imóveis se sente totalmente desprotegido. Os valores dos imóveis e dos aluguéis cada dia para baixo, entre outras situações. É um total descaso do poder público, que faz de conta que não vê, que aquilo não existe”, diz.

 

Giordano Tomaselli/MidiaNews

Cuiabá 305 anos

A presidente do CAU-MT, Lise Bokorni

 

Outrora Cidade Verde

 

Um problema sentido na pele pelos cuiabanos nos últimos anos foi a perda de árvores, naquela que já foi chamada "Cidade Verde". Com alta incidência solar o ano todo e com ondas de calor cada vez mais frequentes, os moradores se viram desprotegidos em viver em uma cidade sem sombra e frescor que só as árvores podem oferecer.

 

É por isso que para o engenheiro florestal e paisagista Marcelo Pissurno, sob o ponto de vista da arborização a cidade, também não vê razão para se comemorar. “Pelo contrário, a gente tem que ficar muito preocupado e agir. Há mais de um ano está sendo discutido o Plano Diretor de Arborização Urbana e não sai do papel, ninguém age, só reclamam do calor”, desabafa.

 

O Plano foi apresentado em abril de 2023, mas até agora não foi votado na Câmara de Vereadores.

 

A presidente do CAU também lamenta. “A execução [do Plano] seria maravilhosa para a cidade e todo mundo ganharia, não só na parte do embelezamento das vias, mas principalmente na melhora da qualidade de vida”.

 

Em novembro do ano passado a Prefeitura de Cuiabá anunciou que plantaria na Avenida Miguel Sutil aproximadamente 300 árvores da espécie Ipê e que naquele mês havia plantado 150 mudas frutíferas em outros pontos da capital.

 

O engenheiro, porém, destaca que só plantar não é suficiente. É importante o cuidado após o plantio para que a muda não morra. E é igualmente essencial que haja um cuidado para manter as árvores que já existem.

 

Arquivo Pessoal

Especial Cuiabá 305 anos

O engenheiro Florestal e paisagista Marcelo Pissurno

“Depois de plantar tem os devidos cuidados, como qual é o manejo que vamos ter com essa árvore dentro do ambiente urbano, com poda e etc.. Outra preocupação importante é a preservação das árvores que já existem, que muitas vezes não são cuidadas e acabam vítimas da poda drástica”, explica Marcelo.

 

Desmonte no planejamento

 

Para Cássia Abdalla, outro problema foi o desaparelhamento do IPDU (Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano) do município, setor da Prefeitura que elaborava projetos urbanísticos.

 

“Uma cidade como Cuiabá, que já é uma metrópole, ter desmontado esse órgão... Eu falo que a gente andou para trás. Infelizmente nós não caminhamos pra frente em termos de planejamento urbano, fomos para trás”, iniciou.

 

“Tudo que nós conquistamos, nós perdemos. Eu culpo quem? Os gestores. Não vou falar que é só agora, com Emanuel, mas ao longo de quatro gestões pra cá”.

 

Abdalla opina que o que mais falta no Município é gestão. “Acho que a Prefeitura está sem mando nenhum. Sem ninguém pra gerenciar e, infelizmente, sem nenhuma credibilidade na área de planejamento urbano. A cidade está se auto-suportando”.

 

Giordano Tomaselli/MidiaNews

Especial Cuiabá 305 anos

A arquiteta e urbanista Cássia Abdalla

 

Para todos os entrevistados, parece unanimidade que em uma cidade pensada para veículos e não para pedestres e com um transporte público ineficiente, é preciso projetar um futuro em que a lógica seja invertida. Uma metrópole com mais ciclovias, ruas com calçadas e arborizadas e um transporte público de qualidade e com outras alternativas para além do ônibus.

 

“Espero que o  próximo prefeito que entrar tome a mobilidade urbana e o transporte público como uma coisa primordial”, pede Cássia.

 

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Visionário   09.04.24 11h22
Cuiabá não evolui devido a sua política de oligarquia pertencentes aos mesmo grupo e classe familiar prefeito atual já pertenceu ao grupo do governador, governador de 2014 pertenceu ao grupo andaram juntos também, veja os nomes dos secretários assessoria nunca mudou não vai mudar agora lança outro que tem a mesma maneira de trabalhar para prefeito de Cuiabá não vai mudar uma Cidade explorada pelos mesmos grupos que não preciso tirar nomes a anos.
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