Cuiabá, Sexta-Feira, 19 de Abril de 2019
DESASTRE EM MG
10.02.2019 | 08h30 Tamanho do texto A- A+

Cuiabano registra tragédia em Brumadinho: "Cenário caótico"

Lucas Ninno passou três dias registrando a destruição causada pelo rompimento da barragem da Vale

Lucas Ninno

Morador de Brumadinho caminha entre os destroços que sobraram de sua casa

BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO

“Era bem desoladora a visão. Foi de arrepiar, muito impressionante”. Essa foi a primeira impressão que o fotógrafo cuiabano Lucas Ninno teve ao se deparar com a lama tóxica em Brumadinho (MG).

 

Ele passou os três primeiros dias após o rompimento da barragem fotografando e conversando com as vítimas.

 

No dia 25 de janeiro, o rompimento da barragem de rejeitos da Vale deixou 157 mortos, 182 pessoas desaparecidas e 103 desabrigadas. Os números referem-se a atualização feita até sexta-feira (8).

 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirmou que a tragédia de Brumadinho é o pior desastre em uma barragem no mundo inteiro na última década.

 

O fotógrafo, que atualmente reside em São Paulo, estava na rua quando viu a primeira notícia sobre o desastre pelo celular. Até aquele momento, não havia a dimensão da grandiosidade da fatalidade.

 

Quando chegou em casa, já à noite, Ninno percebeu que precisava registrar esse momento. Movido pelo instinto de fotojornalista, ele passou a fazer contatos para viabilizar sua viagem para Brumadinho.

Lucas Ninno

Brumadinho - MG

Córrego do Feijão foi devastado com a lama de rejeitos

 

“Só pelo primeiro número que deram, já sabia que era uma coisa muito importante, mesmo sem saber o número de mortes ou exatamente o que tinha acontecido lá”, disse.

 

Com apoio de uma agência de comunicação de Cuiabá, o fotógrafo conseguiu uma carona já na madrugada de sábado (26). No carro, ele conheceu outro fotógrafo, Felipe Beltrane, que passou a acompanhá-lo na jornada.

 

Foram cerca de oito horas de estrada para a dupla chegar em Brumadinho. Nos arredores, havia uma estrada que passava pela comunidade Piedade do Paraopeba, e essa estrada foi cortada pela lama. “Foi a primeira visão que a gente teve do desastre”, relatou.

 

Foi nesse momento em que ele se deu conta da proporção do caso. Lucas revelou que ficou espantado com a lama de rejeitos interditando a estrada.

 

“Até os bombeiros se impressionavam com a dimensão”, completou.

 

O local estava repleto de bombeiros e viaturas, helicópteros sobrevoando e agntes da Defesa Civil. Os militares logo alertaram os fotógrafos de que eles estariam por sua própria conta e risco ao entraram para registrar o fato. A dupla ainda foi informada de que havia a possibilidade de uma segunda barragem se romper.

 

“Se acontecesse alguma coisa, um alarme, era para sair correndo porque tinha o risco de uma segunda barragem estourar”, contou Lucas.

 

Segundo Ninno, o Córrego do Feijão de cerca de 4 metros de largura passava ali do lado. Após o desastre, o local virou um rio de lama quase da largura do Rio Cuiabá.

 

“Não tinha água. Era uma lama meio viscosa, tinha de tudo dentro, pedaço de cerca, colchão, tambor, antena parabólica, de tudo. Dava para ter uma boa dimensão da força da lama”, descreveu.

Se acontecesse alguma coisa, um alarme, era para sair correndo porque tinha o risco de uma segunda barragem estourar

 

No primeiro dia, o fotógrafo ainda estava tentando entender a geografia do lugar e por onde a lama tinha passado. Ao voltar para Brumadinho, ele decidiu ir fotografar no Rio Paraopeba.

 

Havia um grupo de funcionários uma empresa que já tinha trabalhado em Mariana. Eles foram contratados pela Vale e estavam recolhendo amostras do rio. Neste momento, o fotógrafo ouviu um homem falando para o outro: “isso aqui já era. Está cheio de metal pesado e nada vai sobreviver aqui”.

 

No final da tarde, a dupla de fotógrafos seguiu para as instalações da Vale. Porém, ao chegarem ao portão, os seguranças os mandaram embora.

 

Na volta, eles passaram por um vilarejo e se depararam com um homem já de idade pedindo carona. Meio bêbado, o senhor logo disse que não era ladrão, que só estava procurando o irmão, que trabalhava na Vale.

 

“Foi muito marcante o desespero. Ele é de Belo Horizonte e falava que iria se matar, que a vida dele tinha acabado. Ele falava: ‘era o meu irmão mais querido, o que eu vou fazer agora?’”, relembrou Ninno.

 

No segundo dia, os fotógrafos seguiram para o Parque da Cachoeira, onde encontraram um cenário caótico.

 

“Ele [o Córrego do Feijão] estava escuro, vermelho. A água parecia um chocolate derretido. Era super estranho, ele borbulhava de dentro. Começou a aparecer peixe morto. Perto da lama tinha um cheiro esquisito”, relatou.

Estava todo mundo meio em choque. Acabou com a rotina da cidade

 

Nessa comunidade, várias residências foram destruídas pela lama. Em uma casa, Lucas encontrou os rejeitos entrando pelo chão e levantando uma cama, formando um pequeno monte.

 

Na segunda-feira (28), o fotógrafo foi para uma base de operações dos militares. Helicópteros chegavam e saíam a todo o momento. Em poucos minutos, Lucas presenciou cinco corpos sendo deixados no local.

 

Segundo ele, os bombeiros retornavam com lama dos pés à cabeça. Os cães, que auxiliam nas buscas pelas vítimas, voltavam exaustos.

 

Ninno, bastante cansado, se despediu dos colegas da imprensa e retornou para Belo Horizonte para, no dia seguinte, voltar ao lar.

 

“Me interesso pela história das pessoas”

 

Apesar das perdas, das mortes, dos desaparecidos, o fotógrafo percebeu que os moradores da região estavam mais perplexos do que tristes.

 

“Estava todo mundo meio em choque. Acabou com a rotina da cidade. As pessoas estavam sentadas na rua, em cima da ponte, sem saber do que fazer e como vai ser. Apenas esperando”, relatou. 

Lucas Ninno

Brumadinho - MG

Bombeiros voltavam para a base de operações cobertos de lama

 

Para ele, foi muito chocante ter contato com a história dessas pessoas e a incerteza delas de como continuar a seguir a vida.

 

“Acho que elas se sentiam desamparadas. Quem vai fazer alguma coisa? Quem vai cuidar da gente? Eles tentavam resolver com as próprias mãos”, completou.

 

Além disso, Ninno apontou que a maioria das pessoas que morreram foi de operários e pobres. Para ele, o pior foi ver pessoas que passaram a vida trabalhando "acabarem embaixo de um monte de lixo".

 

Responsabilidade da Vale

 

O fotógrafo ainda questionou o tratamento que a empresa está dando para a tragédia. Segundo ele, a Vale tem total responsabilidade pelas vidas que se perderam.

 

“Está óbvio o que aconteceu e eles [a Vale] vão tentar vender isso como acidente, o que não é. Ganância, né. Não quer gastar muito dinheiro para fazer as instalações mais seguras, aí é a novelinha de sempre e quem morre são as pessoas pobres, são os trabalhadores”, afirmou.

 

A Vale é a segunda maior mineradora do mundo e a maior empresa privada do país. No entanto, usava o método de contenção mais barato e que muitos especialistas atestam ser o menos seguro. 

 

Pelo método de alteamento a montante, o próprio rejeito vai crescendo por cima da parte viscosa e líquida.

 

Confira na galeria alguns dos registros feitos pelo fotógrafo Lucas Ninno em Brumadinho:

GALERIA DE FOTOS
Lucas Ninno
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Acervo Pessoal
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Rafael  10.02.19 10h53
Esse cenário com certeza vai se repetir no Brasil, assim como todo ano acontece, foi e é uma politica de Estado Brasileiro de trazer esse tipo de empresa para o Brasil, as empresas poluidoras em nome do Progresso. Se esse Cuiabano fosse a Poconé no Pantanal iria descobrir barragens do mesmo tipo de extração de ouro e Diamante que podem poluir todo o pantanal. Já Já não precisara ir longe. Vocês sabiam que várias PCH explodiram pelo Estado inteiro o Ano passado ? Vcs Sabiam que no Estado das Águas que é o Nosso, faltou água em Alta Floresta, essa é a politica desenvolvimentista predatória de exploração que nós "o homem", achamos que era o certo, esta na hora de revermos isso para o nosso mundo. Imagina uma Barragem dessa matando todos os peixes do Pantanal !! Ou as Lavouras de Soja que Jogam Veneno dentro do Pantanal e Matam Peixes.
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