Para uns a hipnose é conversa de charlatões e não passa de encenação, outros enxergam como um negócio lucrativo. Para o psicólogo e hipnoterapeuta Andreas Diesel, de 43 anos, o assunto é coisa séria e tem como função libertar as pessoas das suas amarras e traumas.
A hipnose vem ganhando notoriedade no tratamento de problemas psicossomáticos, como depressão, transtornos de ansiedade, estresse, vícios e até problemas de libido. A fama se deve ao tempo recorde em que a prática demonstra resultados positivos e assertivos.
Quando usada em um processo terapêutico, a hipnoterapia se torna uma importante ferramenta psicológica que, como explica o especialista, permite se chegar à causa do problema com facilidade, diminuindo assim drasticamente o tempo de tratamento.
“Geralmente, no processo terapêutico tradicional, a causa tem que ser lembrada pelo paciente ou conduzida pelo profissional até que isso seja lembrado. Um dos maiores erros dos terapeutas é tratar sintomas, por não conseguir chegar à causa”, disse Diesel.
Confirma os principais trechos da entrevista:
MidiaNews - Como descreveria a hipnoterapia para os leigos no assunto?
Andreas Diesel - É uma ferramenta psicológica que faz com que a gente consiga chegar à causa de um problema com muito mais facilidade, diminuindo o tempo de tratamento com uma assertividade muito maior. Geralmente, no processo terapêutico tradicional, a causa tem que ser lembrada pelo paciente ou conduzida pelo profissional até que isso seja lembrado. Um dos maiores erros dos terapeutas é tratar sintomas, por não conseguir chegar à causa. Lembrando, ela não é uma terapia, é uma ferramenta usada dentro do processo terapêutico.

MidiaNews - Em que casos são recomendados o uso da hipnoterapia?
Andreas Diesel - Quando se trata de problemas psicossomáticos, uma depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico, fobias, traumas, gagueira, estresse excessivo, procrastinação. Ela pode ser pautada em qualquer tipo de problema emocional, independente de idade, ou de sexo. Não é justo que pessoas fiquem anos e anos sofrendo, e não é justo que precisem aprender a lidar com o sofrimento, as pessoas precisam ser livres e a hipnoterapia tem essa função.
MidiaNews - Que benefícios a hipnoterapia proporciona aos pacientes?
Andreas Diesel - Dentro do procedimento terapêutico, a ferramenta da hipnose clínica pode ser utilizada em diversas situações como concentração, foco, procrastinação, enquanto uma pessoa se preparar para o vestibular, por exemplo, porque é a ansiedade que não deixa ela lembrar aquilo que estudou.
Ajuda a largar vícios, em problemas no âmbito sexual e na libido. No âmbito sexual ela é fantástica, uma vez que a maioria dos problemas são emocionais e só depois passam ao fisiológico – o corpo. Além disso ela é preventiva, a pessoa não precisa gerar o problemas pra procurar um grupo de terapeutas.
Muitos aspectos psicossomáticos são entendidos de forma errada, gerando gatilhos mentais, como se a pessoas tivesse nascido com aquilo. O que é um erro, nenhum aspecto emocional é hereditário, tudo foi adquirido em algum momento da vida, e esse momento pode ser inclusive dentro da barriga da mãe.
Em crianças, por exemplo, ela é fantástica. Como o software [mente] delas está sendo montado, se você tiver boas estratégias e ferramentas ela vai comer bem e estudar bem, desde que todo mundo faça o seu papel, tanto o profissional quanto os pais. Aqui em Cuiabá nós tivemos casos de crianças de 13 anos que se mutilavam, que tentaram suicídio, que tiveram problemas graves de violência, sexual inclusive. Mas isso pode ser pode ser resignificado com um trabalho breve e de alto impacto em até três sessões.
MidiaNews - Existe alguma contra-indicação para o seu uso?
Andreas Diesel - A experiência do profissional. Você tem que conhecer o profissional e ele tem que de fato ter experiência. É como se você abrisse uma caixinha de abelhas e depois tivesse que colocá-las de volta, bem organizadas. Essa caixinha fica no subconsciente e só é acessada de forma fácil através dessa ferramenta – a hipnose clínica.

Qualquer pessoa que aprenda a técnica poderia fazer a hipnose, desde que tenha uma base. Mas eu indico que todo profissional deve ter alguma formação na área da saúde mental, porque existe uma base de estudos. Não é só uma ferramenta para chegar à causa do problema. Através da hipnoterapia isso é fácil, resignificar aquela causa é que exige um estudo, uma técnica.
Outro exemplo, no caso de o profissional não ter experiência, é quando a mulher está gestante. Pois no processo temos que isolar esses dois seres e tratar só um. Caso contrário, pessoas de 0 a 100 anos podem ser atendidas.
MidiaNews - Como é conduzida uma sessão de hipnoterapia?
Andreas Diesel - Primeiro é feito um projeto terapêutico, onde se entende a estrutura do problema, depois, junto com a pessoa, se destrói essa estrutura e se cria uma estrutura nova. Entendendo o problema e tendo ao menos o direcionamento de onde está o trauma, a pessoa é colocada em transe, que é o estado de foco concentração. A pessoa fica de olhos fechados para ter foco absoluto no seu objetivo e, a partir disso, temos algumas técnicas de respiração, comprovadas há mais de mil anos, aonde conduzimos a pessoa a um aprofundamento e relaxamento, tanto muscular como mental. Depois introduzimos sugestões, metáforas, para que seja tirada a importância de algumas coisas, realocando sentimentos de algumas situações no subconsciente, resignificando tudo isso.
Em estado de concentração absoluta, as sugestões do profissional são muito mais absorvidas, colocamos que tem muito mais situações para ter gratidão, que não há necessidade de viver aquele trauma de novo. Porém o aspecto emocional nesse momento é muito marcante, geralmente a pessoa precisa ser levada pelo menos perto do trauma.
Mas não é tão simples, após essa reconfiguração há um projeto de mudança de hábitos, para que a pessoa seja lembrada a todo momento do seu objetivo, esquecendo ou pelo menos tirando a importância daquilo que lhe fazia mal.
MidiaNews - Quanto tempo demora uma sessão e em quantas sessões a pessoa consegue ver resultados? Quanto tempo pode demorar um tratamento?
Andreas Diesel - Depois do projeto pronto e com a ficha de anamnese eu entendo a estrutura e já tenho uma base de quanto tempo demora a sessão e quantas sessões vão ser necessárias e quais os exercícios de mudança de hábito ela vai ter que fazer em casa para que ela atinja sua nova e melhor versão, e acima de tudo se apaixone por ela. Eu trabalho com projetos curtos, no máximo 4 meses, são projetos impactantes. O primeiro e segundo encontro parece muito com o projeto tradicional, de conversa, de entender, porque ninguém faz mágica. Depois disso, diferente da tradicional, a pessoa não fica mais conversando, ela só é sugestionada a criar um projeto de mudança de hábito de uma nova estrutura.
MidiaNews - Existem muitas lendas em torno da hipnose. Diante disso qual costuma ser o principal dúvida das pessoas com relação a hipnose clínica?
Andreas Diesel - O maior questionamento é: “E se eu não voltar mais?”. A gente sempre fala, você vai voltar de onde? Se você não vai sair do lugar, não vai perder a consciência. Você vai rebaixar o fator crítico. Em alguns momentos esse rebaixamento pode ser um pouco mais profundo para que a gente entre com a sugestão e já volte ao normal. A hipnose clínica é um processo de comunicação, na qual a pessoa só está de olhos fechados, mas está falando, respondendo o profissional. A partir do momento que se perde a comunicação, esse processo é parado. Se o hipnoterapeuta sair da sala e não houver comunicação (sugestionamento), em 10 ou 15 minutos a pessoas vai “acordar” como se diz, mas ela não estava dormindo, ela só retorna ao estado normal de consciência.

MidiaNews - Na televisão e no Youtube a gente vê muitos hipnotizadores em ação, fazendo pessoas passarem por situações inusitadas e até engraçadas. Aquilo tudo é real?
Andreas Diesel - É real, comer uma cebola pensando que é maça, não lembrar da fisionomia da mãe ou do filho, aquilo é real. Eu não concordo, não acho algo saudável, a hipnose clínica é uma ferramenta terapêutica e deve ser tratada como tal. Não pode ser usado para brincar com o subconsciente de alguém, até porque quando a gente sugestiona que a pessoa poderia comer uma cebola achando que é maça, nós estamos mexendo no subconsciente dela, em uma sensação dela, isso é grave, é muito sério
MidiaNews - Em relação a transtornos mentais que demandam de medicação temporária ou contínua, a hipnoterapia pode ajudar?
Andreas Diesel - Existem casos psicológicos em que é indicada a medicação, porém a hipnoterapia veio para revolucionar essa situação, a ideia dentro de um procedimento com a hipnoterapia é fazer com que a pessoa não chegue a esse processo e tenha que tomar medicação. Caso ela já esteja tomando, a ideia é diminuir a dose aos poucos, gradativamente, até que a pessoa de fato esteja livre, tanto da vida quanto da medicação, porque quem toma medicação não se sente livre e ela também é um paliativo.
Essa ferramenta pode ser usada em pessoas com TDH, transtorno bipolar, depressão, independente dos níveis. Ninguém precisa tomar remédio para o resto da vida, se a pessoa adquiriu uma depressão, uma ansiedade, e está em um aspecto forte que neste momento precise tomar medicação, com a hipnoterapia nós vamos diminuir isso até chegar ao ponto em que ela esteja livre e não precise mais de remédio.

MidiaNews - O Estado tem números expressivos com relação à violência contra a mulher, que papel a hipnoterapia poderia desempenhar nesses casos?
Andreas Diesel - Os traumas precisam ser resignificados e a violência doméstica cria traumas tão profundos que são difíceis de ser resolvido através de procedimentos tradicionais, o que torna o processo muito lento. Esses traumas envolvem as crianças, a família, geram medos, ansiedade, fobia. Não é só denunciar, não é só se livrar, depois disso tem que se tratar. O trauma que foi gerado é um gatilho mental que precisa ser tirado, problemas emocionais foram adquiridos e se foram adquiridos é possível que sejam retirados.
MidiaNews – Porque mesmo sabendo a possível causa do trauma, em situações de violência contra a mulher, um tratamento tradicional lento ou até ineficaz?
Andreas Diesel - No caso a violência é o sintoma, a causa para que a pessoa não se livrou disso antes de criar um trauma já era uma causa do passado. É um gatilho mental que essa mesma pessoa teve anterior a isso, que não deixou ela ter raciocínio lógico nesse momento da violência para tomar as decisões que precisavam ser tomadas. Então o trauma não foi gerado só nesse momento, existe um gatilho mental que foi potencializado pelo fator da atualidade – a violência.
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