Cuiabá, Quinta-Feira, 25 de Abril de 2019
CASO VERDUREIRO
14.04.2019 | 08h33 Tamanho do texto A- A+

Um ano depois, família pede que o caso não seja esquecido

Francisco Lucio Maia morreu no dia 14 de abril do ano passado, na Avenida Miguel Sutil

Alair Ribeiro/MidiaNews

Francinilda da Silva Lucio, uma das filhas de Francisco, que morreu há exatamente um ano

KARINA STEIN
DA REDAÇÃO

“A única coisa que resta para a gente que não tem condições é correr atrás de justiça. A gente está tentando não deixar o assunto morrer, para que as pessoas não se esqueçam”, diz Francinilda da Silva Lucio, uma das filhas do verdureiro Francisco Lucio Maia, 48 anos, que foi atropelado e morto há exatamente um ano pela médica dermatologista Letícia Bortolini, 38, na Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá.

 

Na noite do dia 14 de abril do ano passado, Francisco atravessava a avenida com o carrinho que usava para transportar as verduras quando foi atingido pelo Jeep Compass conduzido pela médica.

 

Naquela noite, Letícia saía com o marido, o médico urologista Aritony de Alencar Menezes, de uma festa open bar. Ela deixou o local do acidente sem prestar socorro a Francisco, que morreu na hora. Uma testemunha seguiu o carro até um condomínio no Bairro Jardim Itália.

Foi o primeiro Natal que a gente passou sem ele. A ausência dele dói muito

 

 

Depois da morte de Francisco, a sua ex-esposa, Maria do Carmo Cesária da Silva, 48 anos, deixou o emprego e assumiu o ponto de venda de verduras dele, no Bairro Cidade Alta. A rotina pesada de acordar às 3 da manhã todos os dias para comprar os produtos, embalar e levá-los no carrinho até o ponto de venda foi dividida entre as filhas. Entretanto, a atividade não durou muito tempo.

 

“A gente teve que arrendar o local. Como é um trabalho que meu pai fazia pelas madrugadas, eu acordava todo dia às 3 horas da manhã para ir para à feira, chegava em casa, ajudava minha mãe embalar e sete horas eu tinha que me arrumar para vir trabalhar”, diz Francinilda, que conversou com o MidiaNews nesta semana.

 

A vida desde o acidente mudou bastante para a família de Francisco. Além de lidar com os trâmites do processo, as filhas enfrentam a dor de ter perdido o pai tão cedo. "Foi o primeiro Natal que a gente passou sem ele. A ausência dele dói muito”, conta.

 

Francinilda contou que nem Letícia nem ninguém ligado a ela procurou a família nesses 12 meses. “Não foi por falta de encontro não, a gente já teve uma audiência. Muito pelo contrário, mas acho que até foram frios”, afirma.

 

A audiência em uma ação de indenização citada foi realizada no ano passado e tinha como objetivo estabelecer uma conciliação entre as partes, porém eles não chegaram a um acordo. “Ela [Letícia] mandou a advogada e uma representante. Não fizeram proposta nenhuma. Nós entramos com pedido de indenização. Está ainda na fase inicial, não teve avanço nenhum”, conta. Há ainda uma ação criminal contra a médica. 

 

A família de Francisco recebe o amparo da Associação dos Familiares Vítimas de Violência (AFVV), organização não-governamental que dá assistência jurídica e psicológica gratuitos. O presidente da AFVV, o advogado Wantuir Pereira, está como assistente de acusação na ação penal.

 

Além do processo criminal no MPE, a família de Francisco entrou com pedido de cassação do registro da médica no Conselho Regional de Medicina (CRM-MT), em janeiro deste ano, pela omissão de socorro. No julgamento do CRM, caso constatada a culpa da médica, ela pode ter o registro médico cassado e perder o direito de exercer a medicina.

 

Depois de tanto tempo, a única coisa que Francinilda espera é que seja feita justiça. “O que me dói mais, acho que em mim e na família, é saber que a pessoa matou a outra e não está presa. Se fosse ao contrário, se fosse o meu pai que tivesse atropelado a médica, acha que meu pai estaria onde hoje?”, questiona.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Francinilda Maia

Francinilda: família também quer cassação do registro no CRM

Desde abril de 2018 até agora, Letícia Bortolini não falou com a imprensa sobre o assunto. A reportagem do MidiaNews procurou o advogado Giovane Santin, que defende a médica no processo criminal, porém ele preferiu não falar sobre o caso por telefone.

 

Letícia se pronunciou publicamente apenas uma vez, através de vídeos publicados no perfil da sua clínica no Instagram. No desabafo, feito em outubro de 2018, ela contou que “a dor é diária” e que por conta do estresse e do trauma do acidente, ela estava sofrendo de “eflúvio telógeno”, condição dermatológica em que o cabelo enfraquece e cai.

 

Francinilda relembrou a fala da médica durante a entrevista ao MidiaNews e rebateu. “Esses dias ela até postou no Instagram que ela estava preocupada com a queda de cabelo. Meu pai não está tendo a oportunidade de ver o cabelo dele cair e nem ficar branco, porque a vida dele foi interrompida aos 48 anos por uma pessoa que bebeu, dirigiu e matou”, diz.

 

Neste sábado (13) a família realizou a missa de um ano da morte de Francisco. 

 

Relembre o caso

 

Francisco morreu enquanto tentava atravessar a Avenida Miguel Sutil com seu carrinho de verduras, por volta das 20h do dia 14 de abril de 2018. Ele foi atingido pelo Jeep Compass branco conduzido por Letícia. Dentro do carro estava também o marido da médica, Aritony Alencar.

 

Uma pessoa que presenciou o acidente foi atrás do casal e viu o momento em que o carro entrou em um condomínio no Jardim Itália. A Polícia Civil foi acionada e a médica autuada por homicídio culposo no trânsito e omissão de socorro.

 

Segundo a Polícia, marido e mulher apresentavam sinais de embriaguez. Eles tinham passado a tarde de sábado em uma festa open bar no Jardim Ubatã, em Cuiabá.

 

Durante a audiência de custódia, realizada no dia 15 de abril daquele ano, a juíza Renata do Carmo Evaristo Parreira, da 9ª Vara Criminal, converteu a prisão em flagrante em preventiva. A médica então foi encaminhada para uma cela especial na Penitenciária Ana Maria do Couto May.

 

No dia seguinte, o desembargador Orlando Perri acatou o harbeas corpus de Letícia, que desde então responde o processo em liberdade, sob a condição de cumprir algumas medidas cautelares. Ela foi solta no mesmo dia em que o corpo de Francisco era velado pela família na casa dele, no bairro Jardim Beira Rio.

 

Montagem/MidiaNews

leticia viatura

Letícia Bortolini (detalhe), que foi denunciada pelo MPE

Durante as investigações, o delegado Christian Cabral, da Delegacia Especializada em Delitos de Trânsito (Deletran) considerou “fajuta” a justificativa da médica. “Não tem jeito de achar que é um cachorro, não. Ele estava com um carrinho de feira, não foi um negócio simples. É um objeto bem grande para você confundir com um cachorro”, disse o delegado na época.

 

Em depoimento, o médico Aritony de Alencar, afirmou que não tinha visto nada do acidente pois estava dormindo. No dia do atropelamento, ele chegou a ir até a Central de Flagrantes, mas foi embora antes de ser ouvido. Ele alegou que ficou com medo de sofrer um possível linchamento pois se deparou com pessoas revoltadas com o acidente do lado de fora do local.

 

No decorrer das investigações, a principal polêmica foi em relação aos laudos que estudaram a que velocidade estava o carro da médica no momento do acidente. O primeiro documento elaborado pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), em junho de 2018, constatou que o Jeep Compass estava a uma velocidade estimada entre 30 a 40 km/h.

 

Logo após a divulgação do primeiro resultado, o delegado Christian Cabral considerou o laudo “contraditório”. “Ora, um veículo que esta a 30km não tem a mínima condição de lançar esse objeto [corpo de Francisco] na distancia que foi”, disse o delegado em entrevista ao MidiaNews na época.

 

Além deste primeiro estudo, outros dois foram realizados entre junho e julho do ano passado, um deles inclusive feito por um laboratório independente. A perícia particular apontou que Letícia estava dirigindo o utilitário esportivo a 95 km/h e um segundo estudo da Politec afirmou que o carro estava a 103 km/h. A velocidade máxima permitida no trecho que o verdureiro foi atropelado é de 60 km/h.

 

Em agosto, a Polícia Civil indiciou Letícia Bortolini por homicídio doloso, omissão de socorro, fuga de local de acidente e embriaguez ao volante. O Ministério Público Estadual denunciou a médica no mês seguinte. A Promotoria a acusou desses mesmos quatro crimes.

 

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Alair Ribeiro/MidiaNews
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