Cuiabá, Sábado, 4 de Abril de 2026
A PANDEMIA E O ISLÃ
14.06.2020 | 12h05 Tamanho do texto A- A+

“Vírus é provação de Deus; homem estava se achando capaz de tudo”

Líder religioso disse que islamismo não vê doença que atingiu o mundo como castigo divino

Gilberto Leite/Estadão-MT

O sheik Abdussalam Almansori, líder da Mesquita de Cuiabá

O sheik Abdussalam Almansori, líder da Mesquita de Cuiabá

BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO

Apesar do que alguns pensam, os muçulmanos não acreditam que a pandemia seja um castigo de Deus. Segundo o sheik Abdussalam Almansori, líder da Mesquita de Cuiabá, o momento é uma maneira de mostrar que a humanidade se distanciou de Deus.

 

“Essa pandemia, nós acreditamos que é uma provação de Deus, porque o ser humano já está achando que é capaz de fazer tudo. Mas isso mostra a fraqueza da humanidade. Ele está precisando voltar para Deus”, afirma o líder religioso em conversa com o MidiaNews nesta semana.

 

O sheik, que é natural do Iêmen e vive em Cuiabá há cinco anos, explica que a religião não enxerga a doença como uma forma de punição. Ela também pode ser uma provação e até mesmo purificação.

 

“Às vezes, a doença é uma forma de punição, mas pode ser de purificação dos pecados. Pode ser uma forma de Deus falar para voltar para ele”, disse.

 

Além disso, o líder ainda relata que o profeta Muhammad, também conhecido como Maomé, já havia alertado aos fiéis sobre pandemias e como agir há 1.400 anos. Naquela época, os muçulmanos já foram orientados a ficarem em casa em isolamento social em caso de doenças se espalhando.

 

“Nós já sabíamos desse sistema de quarentena naquela época, porque o profeta disse: ‘quando vocês ouvirem que tem uma pandemia, uma doença espalhando, não entrem nesse lugar. Se vocês estão naquele lugar, não é o melhor para vocês sair’. Ele diz que se você sair, você vai espalhar a doença para outras pessoas. Se você quer entrar, você vai pegar a doença”.

 

O sheik também conversou sobre caridade, um dos pilares da religião, e como tem sido a prática do islamismo durante a pandemia, visto que a Mesquita está fechada.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - Como a religião muçulmana enxerga essa pandemia que tanto sofrimento tem trazido ao mundo?

 

Sheik Abdussalam Almansori - O islã é uma religião que sempre acompanha a vida humana. Nossa religião não é só dentro da Mesquita ou só uma relação entre nós e Deus. Nossa religião é um sistema de vida. Há 1.400 anos, já falamos sobre precauções, pandemia, como vamos preservar as vidas das pessoas. O nosso profeta Muhammad falou sobre essa situação. Nós já sabíamos desse sistema de quarentena naquela época, porque o profeta disse: ‘Quando vocês ouvirem que tem uma pandemia, uma doença espalhando, não entrem nesse lugar. Se vocês estão naquele lugar, não é o melhor para vocês sair’. Ele diz que se você sair, você vai espalhar a doença para outras pessoas. Se você quer entrar, você vai pegar a doença.

 

Essa pandemia, nós acreditamos que é uma provação de Deus, porque o ser humano já está achando que é capaz de fazer tudo. Mas isso mostra a fraqueza da humanidade. Ele está precisando voltar para Deus.

 

Nós também sempre incentivamos as pessoas a pesquisarem. Nós precisamos, hoje, de pesquisa cientifica e a religião islâmica incentiva isso. Agora, com o coronavírus, quais são as soluções? Como podemos preservar a vida das pessoas na pandemia? No Alcorão tem muitos textos sobre cuidado e proteção da vida humana. Nós estamos precisando dessas pessoas especialistas em cada campo da ciência.

 

MidiaNews - Acredita que possa ser algum castigo de Alah?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Não. A filosofia do islã é totalmente diferente. Não é porque alguém está doente que é castigo de Alah, não. Deus tem sabedoria em todos os acontecimentos na nossa vida. Às vezes, a doença é uma forma de punição, mas pode ser de purificação dos pecados. Pode ser uma forma de Deus falar para voltar para ele. Pode ser castigo para as pessoas pecadoras, para os injustos, quem está prejudicando outras pessoas, pode ser castigo. Mas para as pessoas boas, virtuosas, que não prejudicaram ninguém, não é castigo.

 

Não é porque alguém está doente que é castigo de Alah, não. Deus tem sabedoria em todos os acontecimentos na nossa vida

MidiaNews -  Assim como nas outras igrejas, a Mesquita de Cuiabá também permaneceu fechada? Já abriu ou tem previsão para abrir?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Antes de fecharem todas as igrejas por meio de decreto, nós já cancelamos todas as visitas das escolas, universidade, na mesquita, junto com as aulas e orações. Isso ficou mais difícil para nós no mês do Ramadã, há um mês. No mês do Ramadã, nós nos reunimos na mesquita, jantamos juntos, fazemos muitas atividades, orações noturnas, fazemos caridade, jejum. Mas este ano não fizemos, ficou mais dolorido nos nossos corações.

 

Mesmo depois de permitir abrir as igrejas, nós discutimos o assunto com os médicos que pertencem a nossa comunidade. Eles recomendaram que permanecêssemos com a mesquita fechada mais um pouco. Até hoje a mesquita está fechada.

 

Por outro lado, fazemos nossas atividades através da internet. Fazemos palestras, aulas.

 

MidiaNews - Um dos pilares do islamismo é a caridade. Neste período, o senhor tem percebido a comunidade islâmica de Cuiabá com um sentimento ainda maior de caridade ao próximo?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Sim. A caridade é mais valiosa perante Deus nas situações difíceis. Quando você tem dinheiro, quando está mais fácil, quando estão trabalhando, todo mundo é generoso, mas na pandemia, quem continua generoso são as pessoas fortes, são as que acreditam na recompensa de Deus. No islã, a caridade é um sistema econômico. Tem muitos tipos de caridade no islã e depende do poder aquisitivo de cada um.

 

MidiaNews - Como o senhor tem feito para se proteger e à sua família do coronavírus?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Nós estamos em casa, só saímos para coisas necessárias. Tenho um filho e uma esposa. Não deixo eles saírem para qualquer lugar. E também não queremos sair. Se caso saímos para algo necessário, saímos com máscara, álcool em gel, com cuidado. E logo voltamos. Nós, como muçulmanos, acreditamos no decreto de Deus, que nunca vai acontecer nada se não aquilo que Deus prescreveu para nós.

 

MidiaNews - O que tem a dizer aos fiéis que estão angustiados dentro de suas casas, temendo a doença?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Nós incentivamos as pessoas a terem coragem, mas não significa que você deve sair sem precauções, que pode ficar brincando com essa doença. Ao mesmo tempo, não pode ter medo mais do que deve. Tem que ter equilíbrio na vida. Não queremos colocar o medo nos corações das pessoas.

 

O profeta também disse que devemos preservar as vidas ajudando as pessoas. Quando você está ajudando os outros, de qualquer forma possível, você está protegendo a si mesmo, protegendo a sua saúde.

 

MidiaNews - Ramadã terminou agora no final de maio. Qual o significado deste período para os muçulmanos?

 

Sheik Abdussalam Almansori - O mês do Ramadã é um mês de jejum, que Deus prescreveu o jejum para todos os muçulmanos como foi prescrito pelos povos antepassados. Mas as nações antepassadas, os cristãos, judeus, Deus não os obrigou a jejuar por um mês específico como os muçulmanos. São 29 dias, no máximo 30. Jejuamos da alvorada até o pôr do sol. É proibido comer, beber, ter relações sexuais desde a alvorada até o pôr do sol. A partir do pôr do sol, é permitido comer e beber, quebramos nosso jejum. Esse mês é para sentir aquelas pessoas pobres, necessitados, que tem fome, que estão sofrendo e para poder ajudá-los. Jejuar também é para você ficar saudável, quanto mais comida você comer, isso prejudica sua saúde. Também é para organizar a vida das pessoas, economizar nos gastos para si mesmo e gastar para ajudar outras pessoas.

 

Gilberto Leite/Estadão MT

sheik Abdussalam Almansori

O sheik diz que caridade feita pela comunidade muçulmana aumentou na pandemia

MidiaNews - Fale um pouco do senhor. Qual é a sua origem e desde quando está no Brasil?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Eu sou estrangeiro, sou do Iêmen, na Península Arábica. Estou no Brasil há cinco anos. Eu estava no Equador antes de vir para cá. Fiquei lá um ano estudando espanhol e a comunidade muçulmana me convidou para vir aqui ensinar a religião e fazer as atividades na mesquita como sheik, como líder religioso. O papel do sheik é ensinar as pessoas, educar, tem a posição de resolver alguns problemas dentro da sociedade.

 

MidiaNews - Antes das orações, o muçulmano faz a purificação com água das mãos, rosto e outras partes do corpo. E ele ora com o rosto no chão. Na pandemia, houve alguma mudança nesses procedimentos?

 

Sheik Abdussalam Almansori - Nós colocamos nosso rosto no chão, é uma obrigação, mas nós estamos trazemos para dentro da nossa casa. Tem que ter um lugar específico para a oração, não pode rezar no caminho, não entramos com sapatos dentro da nossa casa, deixamos para fora. Se nós passamos com o sapato, então esse lugar não é bom para fazer a nossa oração.

 

MidiaNews - Depois do 11 de setembro, os muçulmanos passaram a ser visto com certo preconceito. Esse preconceito, na opinião do senhor, ainda existe?

 

Sheik Abdussalam Almansori - O mundo injustiçou o islâmico. Depois do 11 de setembro, nós perdemos muitos países islâmicos, como Afeganistão, Iraque, Síria, que os Estados Unidos atacou e destruiu o país. Atacou o Iraque por causa de armas químicas e depois falou que não tem, destruíram o País. É injustiça. Nossa religião é de paz, de justiça, não somos terroristas, não prejudicamos ninguém. Nós estamos fazendo o bem para a comunidade em qualquer país e acreditamos que Brasil, por exemplo, é nosso país. Não que sou estrangeiro.

 

É obrigação do muçulmano, quando viver em qualquer país, considerar esse país como o dele, como origem dele. Não pode fazer coisas contra a lei, fazer coisas erradas, prejudicar as pessoas.

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COMENTÁRIOS
4 Comentário(s).

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Flavio Augusto de Amorim Ferraz  15.06.20 09h04
Um Bom Pai jamais coloca doença no filho p/ prová-lo ou p/ castigar!! Esta escrito: Cristo Jesus carregou as nossas dores e nossas enfermidades na cruz! o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele e pelas suas pisaduras fomos sarados!! aquele que tem fé pra crer nisso está a salvo de todos esses males!
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Graci Ourives de Miranda  14.06.20 15h00
MT ofereceu oportunidades para o politico MAGGI, que ele doou para COVID?
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Gideon Leite De Paula  14.06.20 14h13
O meu amigo me desculpa mas a vossa excelência fala coisa por coisas, isso que tá acontecendo é algo que o homem prantou, lê a bíblia e vê o que é prova de Deus,e outra esistem muito homem e mulher de Deus ainda não terra o prazer de Deus é que todos sejam salvo
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mariana  14.06.20 13h29
Doenças existiam desde a época dos Dinossauros a milhões de anos atrás!
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