Cuiabá, Quarta-Feira, 22 de Maio de 2019
EXPECTATIVA
16.03.2019 | 19h28 Tamanho do texto A- A+

"A paciência do eleitor está curta; Mauro deve dar respostas logo"

Deputada ainda fala da renovação na AL, do poder das mídias sociais na política e de seus planos

Alair Ribeiro/MidiaNews

A deputada Janaina Riva (MDB), que concedeu entrevista nesta semana em seu gabinete

CÍNTIA BORGES
DA REDAÇÃO

A deputada estadual Janaina Riva (MDB) avalia que o governador Mauro Mendes (DEM) acertou ao adotar medidas de controle de gastos nos primeiros dias de sua gestão, em razão da forte crise econômica. 

 

A parlamentar diz ainda que o atual chefe do Executivo assumiu o Governo em um momento ruim e com pouca margem para adiar as entregas que o eleitor espera. E isso, conforme a deputada de segundo mandato, se deve ao atual momento político nacional e aos problemas herdados do ex-governador Pedro Taques (PSDB), de quem foi opositora.

 

"A cobrança que o Mauro vem sofrendo é muito maior do que o Pedro sofreu nos seus primeiros seis meses de gestão. O Pedro não sofreu tanto quanto o Mauro já está sofrendo, com a cobrança da população", avaliou a deputada, que nesta semana concedeu uma entrevista ao MidiaNews em seu gabinete, na Assembleia Legislativa.  

 

"Talvez pelo momento político. E as condições financeiras de Mato Grosso naquele momento eram muito melhores do que as condições em que Mauro assumiu agora. Então, ao invés de hoje termos uma paciência maior da população, é o contrário. Creio que por termos ficado quatro anos em situação de piora, a paciência das pessoas está muito curta. Então, o Mauro vai ter que dar essa resposta a curto prazo". 

Creio que por termos ficado quatro anos em situação de piora, a paciência das pessoas está muito curta

 

A relação pessoal e política com seu pai, o ex-presidente da Assembleia José Riva, também foram abordadas pela deputada. Ela ainda fala sobre o preconceito por ser mulher e da possibilidade de ser candidata a prefeita de Cuiabá em 2020. Algo que Janaina, por ora, não coloca como objetivo de vida.

 

"Não seria o melhor momento pessoalmente para mim. Eu sempre digo isso porque tenho um projeto de ter mais um filho, quero poder organizar minha vida".

 

Apesar disso, diz que está chegando a hora de encerrar o ciclo como deputada estadual.

 

Confira entrevista na íntegra:

  

Midianews –  Estamos no terceiro mês de gestão Mauro Mendes. Como está vendo as medidas de contenção de gastos adotadas neste início de governo?

 

Janaina Riva – Existe sim um retorno disso e temos acompanhado, analisando os dados orçamentários do Estado. Para se ter uma ideia, em fevereiro investiu-se R$ 20 milhões aproximadamente na Saúde, segundo o próprio Governo. E nesse mês de março abriu a possibilidade de quase R$ 40 milhões. Isso é quase o dobro. Então já demonstra uma recuperação do Estado. E a maior parte disso graças ao Fethab [Fundo Estadual de Transporte e Habitação], que em fevereiro nós ainda não tínhamos essa receita para somar ao orçamento do Estado.

 

 

 

MidiaNews – A senhora poderia fazer um comparativo entre o início do governo Mendes e o mesmo período da gestão Pedro Taques?

 

Janaina Riva – Eu acho que o Pedro Taques começou com um apoio e apelo popular muito maior. O Pedro era um semideus quando ganhou a eleição. As pessoas viam ele dessa forma, como sendo um salvador da pátria. Dessa vez já é muito diferente. As pessoas estão com o pé no chão, mesmo. E a cobrança que o Mauro vem sofrendo é muito maior do que o Pedro sofreu nos seus primeiros seis meses de gestão. O Pedro não sofreu tanto quanto o Mauro já está sofrendo, com a cobrança da população. 

 

Talvez pelo momento político. E as condições financeiras de Mato Grosso naquele momento eram muito melhores do que as condições em que Mauro assumiu agora. Então, ao invés de hoje termos uma paciência maior da população, é o contrário. Creio que por termos ficado quatro anos em situação de piora, a paciência das pessoas está muito curta. Então, o Mauro vai ter que dar essa resposta a curto prazo. 

 

MidiaNews – E o Mauro está conseguindo dar essa resposta?

 

Janaina Riva –  Eu acho que ele começa agora, já com o Fethab 2, que, apesar de impopular, a sua aprovação já traz reflexos. E também com relação às próprias modificações que foram feitas na estrutura do Governo do Estado. Isso dá para ele um certo fôlego, mas é claro que tem muita coisa para avançar. 

 

O que as pessoas esperavam é que se iniciasse um governo com investimentos, mas não se sabia o quadro real - não pela população - de que o Estado, antes de qualquer investimento, teria que colocar as contas em dia. É uma coisa meio óbvia, mas ninguém fez essa conta. No dia que eu sentei com o secretário de Saúde, Gilberto Figueiredo, fiquei estarrecida com o débito da Secretaria. O débito é próximo de R$ 500 milhões. Como que você supera isso, se você tem um investimento por mês de R$ 40 milhões agora, e em fevereiro R$ 20 milhões?.

 

Tem muita coisa ainda para sanar. Tem que melhorar muita coisa: deve vir aí a reforma tributária, devemos mexer na questão dos incentivos. Mas de forma inicial, muito mais surpreendente do que o governador Pedro Taques, que não tomou nenhuma atitude, e nós começamos a passar por momentos de dificuldade logo após um ano, e não conseguimos sair dela. Nós temos um Governo que é muito mais cobrado e você não tem tanta credibilidade para poder aprovar qualquer tipo de proposta nesse sentido.

 

MidiaNews – Qual a sua posição sobre a taxação do agronegócio?

 

Janaina Riva – Tem que ser analisado com muita cautela. Existem casos e casos. O momento para o agro também não é dos melhores. Nós estamos entrando em um período de chuva completamente anormal. Agora há pouco, ouvi um colega deputado dizer que em Lucas do Rio Verde muitas das lavouras já foram comprometidas pela chuva.

 

Eu acho que tem que fazer uma análise muito criteriosa com economistas, com o próprio setor, para ver onde ainda tem uma gordura para queimar. Eu acredito que ainda há setores que têm muito a contribuir. E piores são aqueles que não contribuem com nada. Principalmente os que sonegam. 

 

Por isso tenho dito da importância da CPI da Sonegação e Renúncia Fiscal para se identificar quais são os sonegadores de impostos hoje no Estado, que declaram principalmente exportação, para não pagar o ICMS, e em verdade comercializam esse produto dentro do País.

 

MidiaNews – Na sua visão, ainda prevalece a submissão do Legislativa ao Executivo?

 

Janaina Riva – Muito menor que no passado. Os primeiros quatro anos que vivi na Assembleia, eu vi essa submissão incondicional. Tudo que o governo mandava era como se tivesse uma obrigatoriedade de ser feito. Agora eu vejo uma Assembleia muito mais cautelosa, até por ter as redes sociais muito fortes, a mídia muito forte, o envolvimento da população muito forte. Eu vejo os deputados muito mais cautelosos com relação às votações, pedindo vistas, querendo ver antes o que vão votar.

 

Aqueles tempo de votar tudo de forma célere, sem ler, “porque o governador quer que faça”, como eu vi aqui nos primeiros quatro anos, acabou. Isso é bom para a população, mas talvez não seja tão bom para o Governo, de não encontrar tanta facilidade. Mas é bom para o Estado. Porque essa análise mais fria é muito importante.

Muito menor que no passado. Os primeiros quatro anos que vivi na Assembleia, eu vi essa submissão incondicional

 

Há pouco nós estávamos na Comissão de Orçamento e fomos fazer uma votação. E havia uma alteração tributária ainda do governador Pedro Taques. Dei uma olhada e disse: "O que é isso aqui? Está aqui até hoje por quê? Porque se fosse algo relevante teria sido aprovado ainda na gestão passada". Quando a gente abriu, estava tirando recurso que era específico das taxas do Corpo de Bombeiros e Polícia Militar e colocando na Fonte 100. 

  

Quando vi, mostrei aos deputados e disse: "Isso é complicadíssimo de mexer. Já tem pouco recurso, você ainda tira a obrigatoriedade de investimento no Bombeiro, Polícia Militar etc. Qual o reflexo disso?" Então as pessoas estão pensando mais antes de tomar qualquer decisão acerca daquilo que vem enquanto mensagem do Executivo, ou até mesmo do Judiciário, do Ministério Público, que agora também enfrentaram muita resistência aqui dentro, devido às pautas que contrariam o momento econômico do Estado.

 

MidiaNews – Que pautas seriam essas?

 

Janaina Riva – Constantemente nós recebemos pautas tanto do Poder Judiciário quanto do Ministério Público no que tange à sua autonomia orçamentária. Isso quer dizer criação de cargos, aumentos, auxílios, Revisão Geral Anual (RGA).. . Todas as vezes analisamos isso aqui com muita celeridade, por entender que eles têm autonomia. Mas agora eu vejo que tem uma frente de deputados – e não é pequena – que questiona o fato deles conseguirem fazer tudo isso com orçamento, em detrimento ao Executivo, que se encontra abalado financeiramente. Haverá muito mais discussões, mas não vejo isso como negativo. Para população é muito bom, não perde nada.

 

MidiaNews - Na última semana o Governo vetou as emendas impositivas apresentadas pelos deputados. Isso pode dar início ao primeiro imbróglio entre o Executivo e a Assembleia?

 

Janaina Riva – Não acredito que seja um imbróglio. Na minha opinião, os deputados vão defender sua prerrogativa. A maioria dos deputados já sinaliza pela derrubada do veto, até porque é uma prerrogativa do parlamentar a indicação da emenda na sua complexidade, 100% das emendas. 

 

A interpretação que o governador deu a uma das emendas, que dizia da possibilidade do não pagamento dos 50% das emendas, dependendo da situação financeira do Estado comprovada a incapacidade de pagamento, fez com que ele vetasse acreditando que poderia fazer isso a qualquer momento. Mas a interpretação não é essa.

 

A interpretação é que isso seja feito com o orçamento em vigência. E se existe esse veto, o orçamento ainda não está vigente. Então, não existe essa possibilidade de veto parcial da emenda impositiva. O nome dela já diz que ela é impositiva. Então nós vamos buscar a derrubada desse veto, inclusive com apoio da base do Governo, os deputados de oposição, junto aos independentes para defender essa autonomia. 

 

Nós não estamos dizendo que vamos obrigar o Governo a pagar as emendas. Até porque isso é improvável, é impossível. Mas que se faça essa negociação, se só puder pagar 50% - que nem isso eu acho que o Governo vai conseguir pagar, porque a proposta é pagar R$ 1 milhão – mas que faça isso diante da totalidade do direito do deputado de indicar emenda. Não precisa vetar. Até porque fica muito ruim pro Legislativo permitir que uma lei que nós mesmos elaboramos, para garantir o trabalho do parlamentar, seja vetada, justamente na sua essência, que é de ser de caráter obrigatório.

 

 

 

MidiaNews - O MDB vive um momento de certa turbulência e até de troca de farpas entre o deputado federal Valtenir Pereira e o prefeito Emanuel Pinheiro. Como a senhora avalia essa briga pública?

 

Janaina Riva – O MDB só é o partido que é por conta disso, porque ali dentro nós respeitamos a opinião de cada um e cada um tem a liberdade para se posicionar. Eu disse por várias vezes que talvez o Valtenir não tenha escolhido a melhor forma. Acho que primeiro a roupa suja você lava em casa. Não resolveu, você externa isso – que é uma forma até de você defender a sua posição. A princípio faltou isso ao Valtenir, de fazer isso com a gente internamente.

 

Isso aconteceu comigo quando o partido resolveu apoiar o Mauro Mendes [a governador em 2018]. E eu gostaria que o partido tivesse apoiado o Wellington Fagundes, que é meu sogro. Nem por isso eu criei dentro do partido um clima de animosidade. Pedi a minha liberação, não ofendi o candidato do partido em qualquer momento, mas segui o meu caminho porque eu não queria sair do MDB. 

 

Porque o MDB e o PT também são partidos que têm anos de militância partidária e isso é muito normal de acontecer. Mas normalmente essas questões ficam restritas aos diretórios, às discussões dos membros. Por isso que falei da postura do Valterir. Acho que ele tem todo direito de fazer essa defesa, mas que ele possa fazer isso junto com a gente, e tentarmos resolver essa situação, que é de desentendimento dele pessoal com o Emanuel.

São coisas simples, que a gente poderia já ter resolvido, e que o prefeito muito ocupado, acabou deixando a questão partidária de lado

 

MidiaNews - O prefeito está tendo dificuldade para se manter no MDB? Ele pode ser rifado da sigla? 

 

Janaina Riva – Na minha opinião houve um afastamento do Emanuel do partido. Em nenhum momento eu senti o risco [de rifar], até porque o MDB é historicamente um partido de poder. O MDB dificilmente não é base governista. Na gestão Pedro Taques foi uma das poucas vezes em que o MDB ficou fora da base. Historicamente, na Câmara, no Senado é partido de base de Governo. Está tentando compor com Jair Bolsonaro, mesmo tendo apoiado o Fernando Haddad. 

 

Então, eu nunca vi essa possibilidade de rifar ou de alguma forma prejudicá-lo. Ali cada um tinha um pouco de culpa - tanto o Emanuel quanto nós do partido - por esse afastamento. E agora vejo isso solucionado. É claro que o partido gostaria de contribuir mais com a gestão. E agora sente que está contribuindo com a presença do Luiz Antônio [Possas de Carvalho, secretário de Saúde Municipal].

 

São coisas simples, que a gente poderia já ter resolvido, e que o prefeito muito ocupado, acabou deixando a questão partidária de lado. Dizem que santo de casa não faz milagre: ele priorizou um pouco os outros partidos por entender que ele próprio já simboliza o MDB. 

 

Acho que essa reaproximação é muito maior. Acho que ele já sente essa segurança. Não considerei justo o partido querer eleger um presidente sem que fosse um presidente ligado ao prefeito, sendo que o prefeito é uma das figuras mais fortes no partido dentro do Município. Acho que existia aí uma mea culpa partido e Emanuel. Acho que isso foi sanado e o Emanuel já trabalha com mais tranquilidade se quer ou não ser candidato. 

 

Por isso que o Valtenir está dando murro em ponta de faca, porque não tem como um vencer seis ou sete deputados federais e estaduais que possuem um mesmo entendimento.

  

MidiaNews – Em entrevista ao MidiaNews, a suplente de deputada federal Gisela Simona afirmou que o caso do paletó [em que o prefeito foi filmado recebendo maços dinheiro quando era deputado] será uma mancha eterna na imagem de Emanuel. Como a senhora analisa esse caso? 

 

Janaina Riva – Toda imagem como aquela é muito forte. A denúncia - ainda que não comprovada - sabemos que para qualquer político é, sem dúvida, um desgaste. O Emanuel, se não tivesse desenvolvendo um bom trabalho, inclusive, já poderia ter sido prejudicado muito antes disso. Se fosse um governo frágil, poderia ter sofrido uma maior perseguição da Câmara dos Vereadores, como aconteceu em Juara.

 

Lá a Luciene Bezerra [também filmada recebendo dinheiro quando era deputada] estava em uma situação muito mais debilitada. E somando o vídeo com outras denúncias, acabou sendo cassada. Vejo que o Emanuel ainda tem essa oportunidade de fazer uma grande gestão, e ser candidato mostrando o trabalho que ele fez.

 

É obvio: nem ele e nem nós do MDB pensamos que o vídeo tem que ser ignorado, que é uma coisa que não faz diferença. A gente sabe o efeito que isso tem. O que buscamos demonstrar é que o grande gestor pode superar o que aconteceu no passado porque não era uma questão só do Emanuel Pinheiro. Era uma cultura que os políticos de Mato Grosso em sua grande maioria participavam. A própria Assembleia, na mesma delação da qual o Emanuel faz parte, praticamente 100% foi delatada. Se não me engano só um deputado não participou. Eu acredito sinceramente que ele pode tentar superar isso com o seu trabalho. É difícil, mas é possível. 

 

 

MidiaNews – O Emanuel chegou a falar que pode não ir à reeleição em razão da resistência da esposa, Márcia Pinheiro. E a senhora disse que, caso ele não se candidate, seu nome estaria à disposição do partido.  

 

Janaina Riva – A Márcia já tinha colocado isso para mim há muito tempo. Ela não queria nem a primeira. É claro que, depois da eleição do Emanuelzinho, que já foi uma eleição difícil, que expôs muito a família, até porque o vídeo era muito usado – assim como eles vão fazer na reeleição. O pensamento dela é de uma proteção familiar, de querer resguardar a família. Não acho que seja tanto o medo e o desafio das urnas, porque ela faz isso desde menina, inclusive a família dela é de políticos. Acho que é uma questão pessoal, porque quatro anos à frente do Executivo não é fácil, principalmente passando por tudo isso que passaram.

 

Quando eu coloquei que meu nome poderia ser uma opção do partido, é que eu penso que sim. Não seria o melhor momento pessoalmente para mim. Eu sempre digo isso porque tenho um projeto de ter mais um filho, quero poder organizar minha vida também porque, depois da eleição, até hoje eu não consegui relaxar.

 

Não é o que eu gostaria para mim, para meu marido e meus filhos, mas talvez seja uma alternativa para o partido. Eu apareço bem colocada, o Emanuel também aparece bem colocado. A estrutura da Prefeitura, da máquina, contribui muito, sim. Como contribui a máquina do Governo em uma eleição de Governo do Estado. Mas eu seria mais um nome dentro do partido, como Valtenir também colocou o dele.

Eu não interpreto dessa forma. Talvez no lugar dele eu faria o mesmo

 

Teria que fazer uma análise pelo grupo e pela defesa do que a gente acredita que tenha que ter continuidade. Acho que nenhum prefeito de Cuiabá recebeu tanto recurso federal quanto o Emanuel recebeu. Momento muito favorável, presidente Michel Temer, do MDB também, uma Câmara muito fortalecida. Vamos ver como será daqui para frente, com o Bolsonaro presidente, se Cuiabá vai continuar a ter esse respaldo. Aí eu terei que fazer uma análise muito fria se é viável politicamente.

 

Mas não seria o plano, por isso brinco que é o plano B. Tem muita gente que chega em mim e pergunta o que eu sonho em ser. Óbvio que todo mundo gostaria de ser prefeita da sua Capital, mas não no início da carreira. Eu ainda estou no início da minha carreira. Hoje represento tantos municípios que eu não gostaria de, neste momento, fazer isso.

 

MidiaNews –  A senhora participou ativamente das articulações para a escolha do conselheiro do TCE, na vaga de Humberto Bosaipo, e foi contra o nome de Guilherme Maluf. Nos bastidores, dizem que o governador quase implorou para que o presidente Eduardo Botelho não assumisse a vaga no TCE, já que a senhora assumiria a presidência do Legislativo. Procede?

 

Janaina Riva – Houve, não na intensidade que as pessoas colocam. E eu acho muito natural. Primeiro, você tem um presidente da Assembleia que é do seu partido, seu amigo de dentro da sua casa. E você tem uma vice-presidente que você não tem contato nenhum. Com certeza existe o receio do governador de uma mudança tão drástica. Ele ainda não me conhece, ele está no primeiro mandato, e talvez tenha o receio do que vai enfrentar. Eu acho isso muito compreensível. As pessoas às vezes querem criar: “Ah, porque ele não gosta de você”. Eu não interpreto dessa forma. Talvez no lugar dele eu faria o mesmo.

 

Com relação ao apoio do Governo ao Guilherme, também foi público. Até porque tinha um interesse que o Carlos Avalone (PSDB) assumisse, porque o suplente do Max Russi (PSB) é um servidor público. Então havia um interesse direto do Governo, dos secretários... Não sei se exatamente a vontade do Mauro, mas a impressão que me deu é que o Mauro gostaria muito que tivesse sido o Dilmar Dal’Bosco (DEM). Mas eu vi um trabalho muito forte, principalmente do Mauro Carvalho [secretário da Casa Civil], para que fosse o Guilherme.

 

O Guilherme conseguiu fazer 11 votos aqui, mas foi com muito apoio. Usaram de todas as armas que o Guilherme fosse para o TCE. Mas também não acho que isso seja um crime. É natural que você queira seus aliados como presidente, conselheiro, secretário. 

 

MidiaNews –  A vaga do TCE está judicializada. Acha que Maluf ainda corre risco de perdê-la?

 

Janaina Riva – Acredito que ainda haja o risco do Guilherme ser afastado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), e isso seria muito ruim. Não só para ele, mas para Assembleia e para o Estado. Essa vaga fez muita falta ali dentro do TCE. Você tem que saber separar o joio do trigo. Não dá para penalizar um Município que é muito humilde com uma multa extremamente abusiva. Com uma multa para um presidente de Câmara que não condiz com o salário que ele recebeu em quatro anos. Tem que ter essa razoabilidade e eu acho que o Guilherme terá lá. 

 

MidiaNews Como é a relação com seu pai [ex-presidente da Assembleia, José Riva] do ponto de vista político? No início da sua carreira a senhora disse que dialogava muito com ele sobre estratégias e tendências. Isso ainda acontece? 

 

Janaina Riva – Acontece, até porque é pai, e pai acha que tem que dar palpite em absolutamente tudo. Não só na vida profissional, mas na pessoal também. Mas não é tudo que eu acato. Ele fica muito bravo comigo e eu fico muito brava com ele - e às vezes ficamos sem nos falar alguns dias. 

 

Mas ele já me respeita muito mais hoje enquanto líder política. Porque ele não acreditava que aquilo que eu tinha feito daria certo porque o formato de trabalho dele era completamente diferente. Sempre foi base, muitos cargos, muito espaço, e eu não tenho esse perfil, ao contrário, esse perfil me incomoda muito. Ele tinha muita dúvida, e essa eleição foi um teste. Depois de sair vitoriosa dessa eleição, eu conquistei não só a confiança dele, mas também mudei a cabeça de muitas pessoas que achavam que esse perfil político de trabalho não daria certo.

 

Tinha gente que achava que só fazia voto o deputado que era governo, só o deputado que tinha emenda, muitos cargos... Ao contrário, vimos muita gente que tinha espaço em governo, muita emenda, muito cargo, perder eleição. Então, a política mudou bastante. É claro que para o meu pai isso também é muito novo. Ele tem essas dúvidas às vezes, mas tem muita coisa que ele traz para mim que eu vejo a necessidade de eu melhorar, principalmente essa presença maior no interior, que é uma coisa que ele valoriza muito. E isso eu tenho que aprimorar.

 

Ao mesmo tempo, eu dou para ele o exemplo do Ulysses Moraes [deputado de primeiro mandato], dizendo que há sim a corrente que diz que tem que estar presente, mas há essa nova, que faz um trabalho pelas redes sociais, que é mais econômico, que não é preciso gastar tanto. Então é preciso fazer essa compensação para fazer um bom trabalho. Isso é novo para a gente também.

 

 

MidiaNews – Fazer política hoje, com o advento das redes sociais, ficou mais difícil?

 

Janaina Riva – Ao contrário, é mais fácil. Exige-se menos a presença física e mais atuação parlamentar - porque é impossível estar presente nas redes sem uma boa atuação parlamentar. Você não vai postar um discurso que é horroroso, que você não consegue transmitir o que você pensa. Eu acho que isso favorece o novo parlamento.

 

MidiaNews – Mas por outro lado existem também os desgastes políticos em razão de postagens nas redes, como os vivenciados recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro. 

 

Janaina Riva – É claro que um erro nas mídias e eles já te crucificam. Só que, quando você sabe fazer uma compensação dessas críticas, eu acredito que você ganha muito. Será que no passado, se as pessoas tivessem oportunidade de saber o que a população está pensando sobre elas, talvez não cometessem menos erros? E isso é uma coisa que eu gosto. É claro que tem tipos de críticas e críticas. Às vezes eu estou meio sem paciência e vem um crítica burra, que eu já quero bloquear e excluir e nunca mais ler. Mas há críticas que realmente fazem eu pensar que posso fazer diferentes determinadas coisas.

 

Mas ainda existe muita desinformação. O problema hoje das redes são as fake news. Sites que não têm credibilidade, que criam notícias para poder ter acessos, que induzem ao erro. Isso é o que atrapalha. Eu vejo colegas divulgarem coisa que não é verdade, e eles sabem que não é verdade, mas fazem isso para obter aplausos, serem vangloriados. Então isso é o preocupante. Mas quando a notícia é boa, a crítica é bem-vinda.

 

MidiaNews – No início da sua carreira, usavam muito o histórico de seu pai para prejudicar a sua imagem. Isso ainda acontece?

 

Janaina Riva – Acontece quando convém. Eu brinquei que tenho vídeo de quase todos os deputados me elogiando, mas quando, de certa forma, eles se sentem ameaçados com alguma posição minha, isso volta à tona. Já aprendi a filtrar isso. Para mim já virou “mimimi”. Já estou blindada em relação a isso. Não me influencia mais. 

 

MidiaNews –  Há comentários de que o seu pai estaria negociando uma delação. A senhora tem conhecimento disso?

 

Janaina Riva – Se existe alguma coisa é só para ele, e ele guarda para ele. Lá em casa ninguém nem tem conhecimento disso. Desde o dia em que eu entrei aqui na Assembleia, aprendi a filtrar: que os problemas dele são problemas dele, e as glórias dele são glorias dele. E aqui vou ter que construir tanto as minhas glorias, quanto terei que arcar com os meus problemas. 

 

Tanto é que se eu tivesse sido um fiasco como deputada, eu teria colhido fruto disso. Eu não posso ficar carregando sempre essa bagagem do meu pai, que é muito pesada. Inclusive o espólio político, que eu não dei conta de carregar todo. Não é só as coisas ruins, as coisas boas também são difíceis de você carregar. Ninguém tem a mesma identidade.

 

Se fosse da minha vontade de filha, eu gostaria que as pessoas conhecessem o que aconteceu de verdade em Mato Grosso. Mas meu pai pensa muito diferente de mim e ele prefere não fazer delação, ou pelo menos sempre colocou isso. Então, eu tenho sempre que respeitar e ele arcar com as consequências das escolhas dele. 

 

MidiaNews – Sente preconceito na atividade política por ser mulher?

 

Janaina Riva – Ainda existe, não só por parte dos homens. Talvez o preconceito maior seja por parte das mulheres. As mulheres têm muita restrição com outras mulheres, existe uma competitividade muito grande no seio feminino e isso atrapalha muito o trabalho umas das outras. A gente aqui tenta trabalhar de todos os jeitos a questão da sororidade, de você admirar outra mulher, não importa o que ela seja ou faça e respeitá-la do jeito que ela é. 

 

Muitas vezes, eu sinto um desconforto de alguns políticos, de uma forma meio velada, porque as mulheres sentem ciúmes deles por estarem em uma reunião em que eu estou presente, e isso não deixa de ser preconceito. E me assusta bastante. Não é uma questão de você ser respeitado pela sua mulher e impor respeito, ou mandar na sua casa. É porque é a minha profissão. Dentro da minha casa, meu marido também tem que respeitar. Eu acredito que as mulheres da mesma forma. Jamais o Diógenes [Fagundes, marido da deputada] poderia dar qualquer tipo de sugestão em como eu vou conduzir uma reunião, com quem eu vou estar, do que eu vou falar, porque isso faz parte da minha carreira. E eu só vou ser respeitada por ele se eu agir dessa forma. 

 

MidiaNews – Em algum momento, notou que teve que subir o tom de voz ou ser um pouco mais dura para ser ouvida?

 

Janaina Riva – Várias vezes. Porque a mulher é mais doce, ao menos eu. Sou uma pessoa super tranquila de lidar, e tento tratar a pessoa da melhor forma possível. A mulher é mais simpática, mais cautelosa, preocupada. Às vezes isso é confundido com você ser mole, submissa. As vezes é necessário, sim, falar mais duro, e por várias vezes eu só consegui alguma coisa quando tomei essa atitude.

 

Só que isso é uma coisa que cansa. E eu tenho reclamado disso. Porque emocionalmente vai cansando. Por que um homem não precisa se postar dessa forma para ser temido e nós precisamos? E você ainda ouve aqueles comentários: "desequilibrada". Sendo que um homem quebra uma mesa, um microfone, um computador, e eles nunca serão tratados como desequilibrados, serão apenas homens. 

 

 

MidiaNews – Quais são os planos políticos de Janaina Riva para os próximos anos?

 

Janaina Riva –  Agora o meu objetivo é fazer um bom mandato. Um mandato muito melhor do que foi o primeiro. E eu sei que isso var ser difícil, porque quando você é desconhecido é muito mais fácil de surpreender. Agora eles querem que aquilo que foi surpresa surpreenda ainda mais. O padrão agora ficou mais alto. Você só consegue traçar um futuro em cima disso.

 

Não tem como ser um deputado meio termo, e vejo muito aqui o chamado “deputado meia-boca”, que quer atingir cargos maiores. Esse nunca vai chegar lá. Eu quero fazer um mandato de excelência, e depois fazer uma análise: se cresce ou o que vai acontecer.

 

O que tenho colocado é que não quero continuar como estadual, porque começa a soar como estagnação. E é como eu disse: você não consegue mais surpreender e manter o mesmo padrão de votação, de respeito, que é o que hoje vejo e sinto das pessoas. 

 

MidiaNews – Chefe do Executivo seria um possível projeto? Na época da manifestação por parte dos servidores pela derrubada do pacote de medidas de Mendes, a senhora chegou a ser chamada de "Janaina governadora".

 

Janaina Riva – Eu já estou acostumada com isso. Desde a última eleição gerou essa expectativa nas pessoas. Muitas vezes as pessoas falam, mas eu não deixo isso subir à cabeça, porque eu tenho noção que de um dia para outro muda muita coisa. Para eu chegar até lá com viabilidade de uma candidatura, tenho que ter muita cautela nas minhas ações dentro da Assembleia, tenho que andar pisando em ovos. Inclusive foi uma coisa que pesou nessa disputa da Mesa Diretora: é isso mesmo que eu quero? Será que eu irei sair ilesa de uma Mesa Diretora? Porque eu tenho a convicção de qualquer mancha que cair em cima de mim será um verdadeiro estardalhaço – sendo verdadeira ou não. 

 

O próprio Mauro Mendes, que foi eleito governador, sequer imaginava que voltaria à vida pública um ano antes, e tudo contribui para ele ser o candidato.

 

MidiaNews – Como a senhora analisa essa nova legislatura?

 

Janaina Riva – A renovação é boa. Até para gente traçar um parâmetro da velha e nova política. Acho que ela é interessante. Eu comemorei quando fiquei sabendo da renovação. Agora, junto com ela, têm que vir as novas práticas, e eu até agora não vi essa nova prática. 

 

A gente ainda pode melhorar muito: daquilo que a população almeja, deseja da postura dos parlamentares. Só que ainda é muito cedo para gente fazer essa análise. A gente só teve uma votação do TCE, e muito tumultuada.

 

Mas que é positiva para Casa, eu tenho certeza. Porque você vai tirando determinados vícios políticos, inclusive para gente que já estava no mandato, começamos a conseguir mostrar para pessoas o que precisa ser mudado, porque o novo esta aí. Foram 14 novatos. Se a gente não se adequar, somos nós que não voltamos mais. A gente quer sair por querer, não sermos retirados à força pelas urnas.

 

 

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Gutemberg Gomes de Abreu  18.03.19 10h07
O grande problema da política são as eleições de 2 em 2 anos, o gestor assumi pensando na reeleição ou em outro cargo e esquece de entregar os serviços básicos para a população e fica o tempo todo colocando a culpa na gestão anterior, o povo não engole mais isso!
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Vanderley Oliveira   17.03.19 08h50
Bom dia! Meu povo e a nobre deputada, admiro a senhora deputada pela relevância e a sua atuação em defesa das suas causas. Porém, não concordo com sua parcialidade ao falar do atual governador. Ele sabia que o estado estava em dificuldades, mais prometeu que seria o salvador de Mato Grosso, (só lembrar promessas feitas aos servidores em video). E mais depois da eleição ele ficou três meses em processo de transição. O Secretário de Fazenda, é o mesmo. Nunca votei para o Pedro, e muito menos para o Mauro Mendes, agora ser parcial jamais. O Pedro Taques, herdou uma dívida no início, a época do seu governo R$ 2.8, bilhões, vinha de uma tempestade internacional financeira e com perspectiva de outra . Que acabou chegando. Em fim governou o estado com toda as dificuldades durante quatro(4), anos e entregou o estado com uma divida menor R$ 1.5 bilhões, existiu gestão . Aí vem o governador das promessas e salvador do estado. Com dois(2) dias parcela o salário do servidor publico e outras medidas agressivas. Colocando a sociedade contra a categoria, isso é, correto deputada? A senhora falou a verdade, aos poucos o povo está tomando consciência, isso demonstra força social. Sintetizando , o governo do estado de Mato Grosso, é simples e notório, em política econômica, vc tem que atrair investidores, não fazendo os veículos de comunicação enganar o povo. E afastar os investimentos.
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Carlos  17.03.19 06h50
Parabéns deputada, você só gastou R$ 64.990,00 de VI, economizou dez reais para os cofres público
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Maria  17.03.19 04h59
É preciso privatizar a educação pública, pois compensa mais pagar mensalidade por aluno; as escolas pública estaduais são fonte de violência na maioria, além do altíssimo custo desperdiçado
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