Cuiabá, Segunda-Feira, 22 de Abril de 2019
CHEFE DA TROPA
02.02.2019 | 19h50 Tamanho do texto A- A+

"A PM evoluiu e os índices de criminalidade estão sob controle"

Coronel Assis diz ainda que ações são pautadas em estatísticas; ele defende salários da corporação

Alair Ribeiro/MídiaNews

O comandante geral da Polícia Militar, coronel Jonildo Assis

CÍNTIA BORGES
DA REDAÇÃO

O novo comandante geral da Polícia Militar, coronel Jonildo Assis, é o que no meio militar se denomina policial operacional. Ou seja, na maioria do tempo em seus 22 anos de carreira, ele esteve na linha de frente das ações de combate ao crime.

 

Começou como aspirante a oficial em Cáceres, atuando no combate ao tráfico e outros delitos. Depois, já com patentes mais elevadas, comandou o Gefron (Grupo Especial de Fronteira) e o Bope (Batalhão de Operações Especiais). Além disso, foi sub-chefe do Comando Maior e secretário adjunto de Integração Operacional, da Secretaria de Segurança.  

 

Coronel Assis, que assumiu o Comando Geral em janeiro, diz que a Polícia Militar de Mato Grosso evoluiu muito nos últimos anos, tanto no que diz respeito à estrutura, quanto na capacitação do pessoal. Porém, ele reconhece que não se pode baixar a guarda.

Hoje os índices estão controlados. Nós estaremos implementando novas estratégias de policiamento, intensificando algumas ações policiais que nós entendemos como prioritárias

  

“A Segurança Pública, por mais que você tenha um controle, inspira sempre vistas ao crescimento, porque se você não fizer um combate efetivo, uma sequencia de ações efetivas, é natural que a criminalidade tome volume. Mas eu posso garantir para você que Mato Grosso está muito melhor do que outros estados”, disse na entrevista que concedeu ao MidiaNews nesta semana, em sua sala no Comando Geral. 

 

Ele também explica que as ações de combate ao crime em Mato Grosso se baseiam em dados precisos, que auxiliam na definição de estratégias. "Todo nosso policiamento hoje é orientado pelo centro de pesquisa e estatística criminal", afirmou.

 

O coronel ainda comentou sobre os salários dos policiais de Mato Grosso - que é apontado como um dos estados que melhor pagam militares no Brasil. 

 

“A questão salarial é muito importante, mesmo porque você trabalha com vidas, a todo momento. E o policial, por vezes, tem que entrar na lama social e tem que sair limpo. Ele precisa ter um salário bom. Eu não vejo como sendo o melhor salário do Brasil, porque não é. Mas o salário é justo". 

 

Confira entrevista na íntegra:

 

MidiaNews – O senhor já comandou importantes batalhões, como o Bope e o Gefron. Com base na sua experiência, como está a situação da Segurança Pública em Mato Grosso neste momento, levando em consideração a situação da fronteira?  

 

Coronel Jonildo Assis – Nós chegamos nesse posto, mas perfiz um caminho de 22 anos dentro da instituição, sempre conhecendo várias realidades e vivendo vários momentos históricos. Vivi uma época, na década de 90, em que não existia Gefron. A fronteira era quase “mítica” para nós. Nós, que trabalhávamos em Cáceres, nem autorização para ir lá tínhamos. 

 

E aí veio o advento do Gefron. Houve uma mudança na região. A terra lá não valia nada. Se analisarmos antes do Gefron e após o Gefron, vamos ver que houve uma valorização do alqueire de terra. Existiam fazendeiros que não iam em Cáceres. E se iam, iam com uma Toyota velha ver a fazenda deles. Por quê? Porque se ele baixasse o avião na região, ele sabia que seria roubado. O pessoal cresceria o olho e roubaria a fazenda. Se esse fazendeiro tivesse um trator novo, por exemplo, a turma iria roubar. 

 

Com a chegada do Gefron, é uma ação fixa e presente de força policial na linha divisória. Faz a diferença, muda muita coisa. Tem que melhorar? Tudo tem que melhorar. Da mesma forma, a Segurança Pública.

 

Hoje, para se ter uma ideia, temos 7,5 mil homens dentro da Policia Militar prontos para o serviço. Nosso quadro ideal - ou esperado - chega em torno de 12 mil. Mas sabemos que essa é uma realidade muito distante.

 

Mas se pegarmos os índices criminais... Vamos pegar o ano de 2014, que foi um ano em que nós tivemos um crescimento alarmante da criminalidade no nosso Estado. Nós tivemos o maior índice de homicídios da história do nosso Estado. Para você ter uma ideia, Várzea Grande era conhecida por um termo um tanto quanto pejorativo: "VGquistão", fazendo alusão ao Afeganistão, onde era uma guerra declarada. Ali existia um grande número de homicídios. Hoje os índices estão controlados. Nós estaremos implementando novas estratégias de policiamento, intensificando algumas ações policiais que nós entendemos como prioritárias. Alguns programas novos de policiamento que nós estamos buscando com a União, através de financiamento. 

 

Enfim, nós temos um plano de comando muito bem definido.

   

 

MidiaNews – É possível dizer que a Segurança Pública está sob controle?

 

Coronel Jonildo Assis – Com certeza! Mas a Segurança Pública, por mais que você tenha um controle, ela inspira sempre você se pautar com um nível de alerta acima. Sempre com vistas ao crescimento. Porque se você não fizer um combate efetivo, uma sequencia de ações efetivas, é natural que a criminalidade tome volume. Mas eu posso garantir para você que Mato Grosso está muito melhor do que outros estados.

 

Vamos a um exemplo: o Ceará. Durante todo o ano de 2017, foram 963 homicídios em Mato Grosso. No Ceara, só em janeiro e fevereiro daquele ano, foram 438 mortes. Isso é um nível de alerta que tem que ser observado. Eu participei de um encontro com secretários de Segurança Pública e a gente viu o discurso do secretário de lá dizendo que o Estado investiu em bolsistas da Universidade Federal do Ceará para se criar software de identificação visual. 

 

Para se ter uma ideia, o software que tem lá identifica o modo como a pessoa anda. Então, a pessoa pode fazer plástica, emagrecer, mas pelo andar a câmera vai dar um alerta.

 

MidiaNews – O Ceará vive um problema muito grave, que são as facções criminosas. E nós também temos facções criminosas em Mato Grosso.

 

Coronel Jonildo Assis – Realmente é um problema, mas está sob controle. Para se ter uma ideia, existem estados em que polícia não entra em bairro que está sob domínio de determinada facção criminosa. E aqui, não! Em qualquer bairro aqui a polícia entra. Qualquer ocorrência que a polícia é chamada, vai entrar. E consegue entrar sim e atuar de uma maneira legal, sem problema nenhum. No Rio de Janeiro você não consegue atuar se não tiver um blindado, uma força física grande.

 

Hoje, a Secretaria de Segurança Pública, através de um gabinete de combate lá dentro, possui uma força-tarefa que monitora diuturnamente as organizações criminosas que atuam no Estado. Essa força-tarefa é composta por nós, policiais militares, policias civis, policiais federais - e isso traz grandes resultados.

 

No ano passado houve uma descapitalização desse ramo do crime - e isso é um monitoramento constante. A inteligência do sistema prisional também trabalha em conjunto dentro dessa força-tarefa. E existe esse monitoramento constante.

 

MidiaNews – Podemos dizer que há uma continuidade nos trabalhos que vêm sendo feitos nos últimos anos?

 

Coronel Jonildo Assis – Segurança Pública não é um cargo político, é um cargo de Estado. Seria até um atentado contra a sociedade se nós não déssemos algumas soluções de continuidade em um ramo de ação de segurança que vem se fazendo. Lógico que nós podemos implementar algo, podemos potencializar algo, mas não tem como você descartar tudo o que foi feito em oito anos. Não tem como.

  

 

MidiaNews – O que o senhor destacaria de experiência bem sucedida ao longo dos últimos anos?

 

Coronel Jonildo Assis – Eu gosto muito de falar que nós, da Segurança Pública, temos que estar pautados em quatro pilares. O primeiro pilar: o investimento. Que é o aumento de efetivo, de viaturas. Eu sou da época que se andava de Fiesta sem ar-condicionado, duas portas. Eu ainda peguei a época em que se andava de Chevette Júnior. Sou dessa época.

 

E hoje nós temos caminhonetes com camburão, cela. Eu sou da época em que se pensava que viatura policial era um Gol quatro portas, sem receptáculo para o preso – e isso também é um atentado aos direitos humanos, se você olhar bem. Por que eu vou pegar o cara e jogar no porta-malas? Não dá. Isso é um absurdo! Hoje nossas viaturas são boas, adaptadas para o serviço policial. Então todo esse investimento faz parte e perfaz para a evolução da Segurança Pública dentro do Estado. 

 

Segundo pilar: a inteligência. Nós evoluímos muito. Para você ter uma ideia, a Polícia Militar possui um sistema de inteligência. Para que um policial militar ingresse em uma agência local, que é a nível batalhão e regional, ou diretoria geral, ele tem que passar por uma investigação social. É produzido um relatório, essa pessoa é avaliada.

 

Outra coisa: a integração. Como eu falei: existe o sistema da Polícia Militar, que é integrado com o da Polícia Civil, que é ligado com o Bombeiro, com as Forças Armadas e com a Abin [Agência Brasileira de Inteligência]. Hoje o presidente do nosso Gabinete de Gestão Integrada de Inteligência é o diretor da Abin aqui em Mato Grosso.

 

Eles fazem reuniões mensais, onde vêm representantes das grandes instituições decidirem questões estratégicas de inteligência. E lógico, abaixo disso existem as reuniões de trabalho, operacionais da parte de inteligência. 

 

Então temos a inteligência, o investimento, a integração e, por fim, o homem. O policial militar. Ele evoluiu muito. Nós temos o Batalhão de Operação Especiais (Bope), por exemplo, que hoje envia homens para dar cursos em outros estados. Um grupo de três policiais do Bope está indo para Rondônia para dar curso de sniper [atirador de elite].

 

MidiaNews – Quantos sniper temos? Como eles atuam?

 

Coronel Jonildo Assis – Cerca de 12. É uma atividade bastante restrita. Há dois tipos de atuação. Eles trabalham com tiro de comprometimento, que é em situação de refém, onde você tem uma distância x para fazer a utilização desse recurso. E eles fazem também tiro patrulha, onde há operações no mato, a exemplo do que acontecia no Novo Cangaço. 

 

MidiaNews – Atualmente, vemos muita fake news circulando nas redes sociais e aplicativos, relatando a ocorrência falsos crimes. A Polícia Militar tem algum trabalho voltado para a prevenção e combate aos boatos?

 

Coronel Jonildo Assis - Às vezes se vê na imprensa, ou se vê em grupos de WhatsApp... Eu digo que hoje nós vivemos a ditadura do aplicativo de celular. E aliado a isso temos o terrorismo do WhatsApp. É importante dizer para sociedade: não acredite em tudo que se posta. Procure saber qual a fonte. Um caso recente foi o da maconha ao lado de uma farmácia em Cuiabá. Não era maconha! Outro caso foi um cara com fuzil na avenida. Aquilo era airsoft! 

 

Nesse último acontecimento do fuzil, foi localizada a pessoa. Ele se apresentou na delegacia, mostrou o armamento de airsoft e ficou tudo bem esclarecido.

  

 

MidiaNews – O senhor falou da evolução dos policiais militares. Mas não podemos esquecer que são seres humanos e erram. Como a Polícia Militar atua na questão de desvio de conduta do militar?

 

Coronel Jonildo Assis – Uma das minhas metas de plano de comando é a valorização dos bons policiais, das boas práticas. E é como você disse: somos seres humanos, sujeitos ao erro, a todo tipo de situação. Hoje nós temos uma Corregedoria bastante célere e forte. A corregedora [coronel Ridalva Reis de Souza] hoje é uma oficial de carreira nossa. E com certeza, a Polícia Militar não se furta em punir e cortar na própria carne coisas erradas que venham a acontecer. Mas eu quero valorizar o bom policial.

 

MidiaNews – Como está a situação de Mato Grosso em relação ao combate da criminalidade? Há um mapeamento dos principais pontos?

 

Coronel Jonildo Assis – Com certeza! Todo nosso policiamento hoje é orientado pelo centro de pesquisa e estatística criminal. Então, eu tenho um acompanhamento diário que me orienta para que eu possa realizar atividades. Esses dados às vezes são sujos. E por que eu digo isso? Porque às vezes tem um crime que começa como feminicídio, mas na verdade não é. Mas eu sei que ali houve uma morte. 

 

Ali eu tenho as metas a serem cumpridas de redução. Há três índices criminais que acabam influenciando na sensação de insegurança: homicídios, roubos e furtos. Por exemplo, no ano passado, nós tivemos um aumento no número de homicídios entre julho, agosto e setembro na região de Tangará da Serra. Então nós chamamos o comandante [da área], o delegado regional, traçamos algumas estratégias e passamos outubro, novembro e dezembro em uma calmaria. 

 

Os nossos recursos são limitados. Então eu preciso trabalhar com essas ferramentas para poder otimizar o que tenho nas minhas demandas. Isso aí eu tenho muito bem. Nós acompanhamos todas as questões dos índices criminais. Como eu disse, em 2014 nós estávamos em 39 mortes por 100 mil habitantes em Mato Grosso - e isso é uma taxa muito alta. No ano retrasado, foram 29 por 100 mil. 

  

 

MidiaNews – O maior percentual de homicídios ocorre na Baixada Cuiabana?

 

Coronel Jonildo Assis - A tendência é onde existe a maior quantidade de pessoas. Em 2014 mesmo, o grande vilão foi Várzea Grande. E acabou que isso puxou a nossa estatística.

 

MidiaNews – Quais as principais causas dos homicídios?

 

Coronel Jonildo Assis – Geralmente são crimes relacionados a drogas, crimes passionais, rixas.

 

MidiaNews – Como o senhor disse, muitos crimes estão relacionados à droga, que chega pela fronteira. O senhor atuou no Gefron. O que falta fazer para impedir que essa droga chegue ao Brasil?

 

Coronel Jonildo Assis – São 700 quilômetros de fronteira seca, mais 233 de alagados e alagáveis, que têm períodos de seca e cheia. O Gefron possui 150 policiais. Lá na fronteira, nós temos a presença ainda do Exercito brasileiro, que faz um trabalho muito bom. Na época em que eu estava lá, em dois anos e meio, eu desenvolvi diversas operações com eles. 

 

MidiaNews – Mas, mesmo com esse trabalho, acabam passando toneladas de drogas...

 

Coronel Jonildo Assis – Para se ter uma ideia, de 2015 a 2018 apenas no Gefron foram aprendidas 7 toneladas de droga, entre pasta-base e cloridrato [de cocaína]. Estatísticas dão conta que entra muito mais. O Brasil apreende cerca de 20% do que talvez seja produzido lá fora.

 

MidiaNews – Como o senhor enxerga a proposta de legalização das drogas defendida por muita gente?

 

Coronel Jonildo Assis – Eu sou contra. É preciso analisar mais, bem amiúde. Eu entendo que o povo brasileiro não está preparado para a liberação. Se nós formos ver, o cigarro e a bebida alcoólica também são liberados. E acabou o contrabando? Não! O brasileiro não está preparado para isso. Há uma falta de preparo para essa liberação. Então, isso tem que ser um assunto estudado, um assunto que tem que ser trabalhado a nível de base na Educação. Não adianta nós pensarmos que se rechearmos a fronteira com um milhão de policiais, vai mudar alguma coisa. Vai melhorar, mas as pessoas que vivem do ilícito vão achar outra forma para burlar a fiscalização. 

 

Eu acredito que só irá mudar quando houver políticas públicas sérias, para que você possa dar oportunidade às pessoas que estão lá não se interessarem pelo ilícito e buscarem construir a sua vida, pautada dentro de uma linha de honestidade. Porque naturalmente o ilícito é atrativo, porque é rentável. 

 

MidiaNews – Como essa droga entra no País? 

 

Coronel Jonildo Assis – Há diversas modalidades. Há as “mulas” humanas, que trazem nas costas – que nós chamamos de mochileiros. Há também os “mocós”, que são trazidos em veículos, em compartimentos secretos. Ainda há a situação do tráfico aéreo.

 

As mulas vão até de bicicleta, moto... Uma vez nós fizemos um trabalho em conjunto com a PF e a parte operacional coube a Gefron. Lá, havia a famosa “gangue das Pop”. Porque com a Honda Pop, que é uma motinha mais leve, era mais fácil de andar no meio do pasto, de passar sob as cercas dos fazendeiros. É que se eles cortarem [a cerca], o fazendeiro terá um prejuízo e haverá um vestígio ali. Para transpor um curso d’água também é mais fácil, por ela ser leve. Nessa ação nós tivemos êxito. Se não me engano foram [apreendidos] 84 kg de cocaína e prendemos as pessoas. 

 

MidiaNews – E como se combate isso? Porque a lei permite o abate de aeronaves, não é mesmo?

 

Coronel Jonildo Assis – Com inteligência. No ano passado, para se ter uma ideia, houve várias operações em conjunto. A Polícia Federal, Gefron, Ciopaer e a Força Aérea conseguiram pegar seis aviões no ano passado. Dois foram abatidos porque a Força Aérea interveio. Os outros, as aeronaves pousaram e o helicóptero pegou. E isso tudo feito com a inteligência.

 

MidiaNews – E essa cocaína que entra pela fronteira de Mato Grosso geralmente vai para qual mercado?

 

Coronel Jonildo Assis – Existem várias rotas: as principais são Sul e Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro. Há ainda uma rota que vai para o Nordeste. Depende do que o cara quer fazer. Geralmente, é feito de forma mista: faz-se um voo pequeno, coloca esse entorpecente uma propriedade rural qualquer, algum veículo terrestre o pega e toca para o mundo.

 

MidiaNews – O senhor acredita que a legislação acerca de tráfico de drogas é branda? Poderia ser mais dura? 

 

Coronel Jonildo Assis – A lei tem que ser mais dura. Antes de se falar em liberar [as drogas], temos que melhorar a questão da lei. Eu acredito que na atual conjuntura do Brasil isso deve ser alvo de discussões. Algumas colocações que devem vir por parte da sociedade. A sociedade vive um novo momento. Nós elegemos um presidente [Jair Bolsonaro] que é de uma linha totalmente diferente do que se vinha sendo praticado no Brasil ao longo de quase 16 anos. 

Eu sou contra. É preciso analisar mais, bem amiúde. Eu entendo que o povo brasileiro não está preparado para a liberação

 

MidiaNews – Como o senhor vê o decreto, assinado recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro, que altera alguns pontos da legislação para a posse de arma de fogo?

 

Coronel Jonildo Assis – Eu tenho um posicionamento institucional a esse respeito. Nós, da Polícia Militar, iremos cumprir o que a lei determina. Eu entendo que o direito de se ter uma arma de fogo tem que ser muito bem estruturado. Os parâmetros não foram mudados. E, lógico, para nós caberá cumprir a lei. Se é a posse, a gente vai trabalhar em cima da documentação da posse. 

 

MidiaNews – Qual seria o impacto se, efetivamente, aumentasse o número de armas em posse da população? Poderia haver um aumento de mortes?

 

Coronel Jonildo Assis – Não. Se levarem a sério - e cumprirem todas as etapas que a pessoa que vai lá tentar buscar ter a posse dessa arma, dentro do que rege a lei -, acredito que não irá influenciar muito nesses dados. 

 

MidiaNews – O senhor, como comandante da PM, é favorável ao decreto?

 

Coronel Jonildo Assis – Eu sou um cumpridor da lei. Se é para ter, a gente vai fazer com que a lei seja cumprida. Dentro desse parâmetro, de que a pessoa cumpra todos os requisitos para ter a posse dessa arma, com certeza ele tem que ter essa arma. 

 

MidiaNews – O senhor não acha que, se o assaltante que entra em uma casa e aterroriza uma família, não poderia se inibir se soubesse que ali tem uma arma de fogo?

 

Coronel Jonildo Assis – O armamento ainda é muito caro. Só 10% da população aproximadamente terá condições de comprar uma arma. Acredito que uma facilitação seria baixar o preço. Geralmente, essas mesmas pessoas que têm condições de possuir uma arma moram em casas monitoradas, com cerca elétrica, concertina, em condomínios fechados...

 

MidiaNews – O senhor não acredita que a “bandidagem” está muito à vontade?

 

Coronel Jonildo Assis – À vontade, não. Mas eu acredito que existe, sim, uma ousadia dos criminosos. Lá atrás, nós não tínhamos certas liberdades que existem atualmente. Hoje se você entra no Youtube, consegue fazer um curso de inglês, de espanhol. E também aprende a montar e desmontar um armamento. E isso acaba gerando nas pessoas mais ousadia... Mas [estar] “à vontade”, não.

 

Porque se eles tivessem à vontade nós estaríamos vivendo o que o Rio de Janeiro e Fortaleza vivem. Não precisamos ir tão longe: Rondônia e Acre. Lá está tomado por algumas ações criminosas.

 

MidiaNews – Na época do Novo Cangaço, a Polícia Militar fez um combate bastante intenso, não é mesmo? 

 

Coronel Jonildo Assis – Na verdade foi um combate bem efetivo, foi uma mudança de comportamento policial. Ali nasceram procedimentos operacionais e aprendemos muito com os erros que a gente cometeu. Foi um trabalho em conjunto com outras instituições, foi fruto de muito trabalho de inteligência. E assim, fica realmente um alerta para que esse tipo de situação não aconteça. Você vê que o Estado possui todo um arcabouço um pouco mais apurado que em outros locais. E isso acaba que a pessoa procura outro local.

 

MidiaNews – Bandido aqui não tem vez?

 

Coronel Jonildo Assis – Não vamos dizer que não tem vez, mas com certeza os órgãos policiais de Mato Grosso não deixam que esse tipo de ação criminosa volte a acontecer. Até porque houve um crescimento técnico muito grande. Tanto é que nosso pessoal do Bope foi dar um curso de policiamento de área rural para policias do Rio de Janeiro. E antigamente, nós saímos para fazer curso fora. 

 

Hoje o Gefron também é referência. O pessoal vem aqui ver como se faz o combate, como que faz, como são os procedimentos. 

     

 

MidiaNews – O Novo Cangaço não existe mais em Mato Grosso?

 

Coronel Jonildo Assis – É um tipo de crime que não ocorre há muito tempo. Mas há outros tipos. No ano passado houve muitas tentativas de intrusão em agência bancárias. Mas, se pegarmos as estatísticas, vocês verão que em todas as tentativas a Polícia Militar prendeu o pessoal. Se dentro dessas ações os criminosos tiveram êxito, a porcentagem é muito baixa. 

 

MidiaNews – Atualmente, qual tipo de crime inspira mais cuidado das forças policiais do Estado? 

 

Coronel Jonildo Assis – Os principais são homicídio, roubo e furto. Esses são o tronco, mas nós temos os acessórios, como o trafico de drogas. A boca de fumo fomenta o furto, o roubo e até o homicídio. 

 

Dentro da nossa linha de trabalho integrado, temos um planejamento de combate efetivo aqui em Cuiabá. Com isso nós queremos também envolver o Ministério Público, o Poder Judiciário, para que possamos fazer um estudo de inteligência e fazer um combate efetivo nos locais onde existe uma maior incidência de roubo e furto. 

 

MidiaNews – Mas as bocas de fumo a voltam a funcionar, não é mesmo? Fecha uma, abre-se outra em outro lugar.

 

Coronel Jonildo Assis – É necessário uma revisão e endurecimento das leis. E se isso ocorrer, é preciso mexer no sistema prisional, porque hoje nós não temos vagas. Realmente, nós temos que achar o ponto de equilíbrio.

 

MidiaNews - Acha que a Polícia está enxugando gelo, quando prende a a Justiça solta? 

A ideia é alocar cerca de 80 homens que farão trabalho de policiamento a pé, de bicicleta e à noite com viaturas

 

Coronel Jonildo Assis - Não é enxugar gelo. Mas se nós não tivéssemos nem enxugando o gelo, estaríamos todos afogados, arrebentados. Isso é importante. Quando se fala: “Ah, está enxugando gelo na fronteira”. Mas e se o Gefron não estivesse lá há 17 anos? Me diz o que seria daquilo ali.

 

MidiaNews – O orçamento da Policia Militar é suficiente?

 

Coronel Jonildo Assis – Já foi pior. Hoje o orçamento nos garante a manutenção das nossas ações e do nosso custeio. Mas a gente sabe que o Governo do Estado está passando por um processo de readaptação da sua vida financeira e orçamentária. E com isso nós temos que buscar algumas alternativas. 

 

No ano passado protocolamos dois projetos, e fomos contemplados com um. É um projeto de radiocomunicação que liga a fronteira com a Baixada Cuiabana. É uma tecnologia nova, criptografada. Não tem como mais o cara ir ali no “Paraguaizinho”, comprar um radiozinho e entrar na nossa frequência. Nós estamos trabalhando junto à Secretaria de Segurança Pública, que estruturou um escritório de projetos para que a gente possa tentar angariar recursos junto com a nossa bancada federal em Brasília. Já fiz o contato com quatro deputados federais e eles já se propuseram a estar juntos conosco dentro dessa busca. 

 

Eu tenho um outro projeto que é de radio-patrulhamento motorizado a nível de batalhão. A ideia é a gente conseguir com o recurso federal fazer a aquisição de motocicletas, que será um dos nossos programas de policiamento que vamos implantar.

 

Implantaremos outros programas a nível local, como no CR1 [Comando Regional 1], onde nós iremos implantar dois programas. Uma será a força tática, que é um programa de policiamento parecido com a Rotam – que somará esforços com a Rotam. Vamos também trabalhar para implantar uma Companhia Independente de Policiamento Ostensivo. E isso vai funcionar no Centro de Cuiabá. A ideia é alocar cerca de 80 homens que farão trabalho de policiamento a pé, de bicicleta e à noite com viaturas. Em uma escala diferenciada de 6 horas, no intuito de combater o crime e elevar a presença policial para as regiões que são mais afetadas por roubo e furto.

 

 

 

MidiaNews – No início do ano cerca de 500 viaturas das forças de Segurança de Mato Grosso foram recolhidas pelos locadores por falta de pagamento. Como está essa questão atualmente?

 

Coronel Jonildo Assis – Nós temos cerca de 1.200 viaturas, todas locadas. As viaturas que foram retiradas já voltaram. Hoje, nós estamos com um déficit de 20% da frota. Na época, as viaturas foram para manutenção e devido ao imbróglio elas ficaram retidas. O secretário [de Segurança] Alexandre Bustamante foi muito feliz em uma fala, quando chamou todas as empresas para que elas devolvessem grande parte da frota. Tanto é que não há quem tenha ligado para Polícia Militar e não tenha sido atendido. Todos foram atendidos.

 

MidiaNews – Temos visto uma certa insatisfação do servidor público com o escalonamento salarial. Como está isso na Policia Militar?

 

Coronel Jonildo Assis – A Polícia Militar é feita de profissionais maduros, que trabalham pelo bem social. Nós não somos uma instituição política, somos uma instituição do Estado. Nós possuímos regras e legislação própria. E lógico que nós temos as associações que nos representam quando se dão questões classistas da caserna. Mas a tropa está sob controle, ela está bastante motivada.

 

Nós começamos uma operação de 100 dias, no início de ano. A região do Comando de Várzea Grande era nossa maior preocupação, e onde no mês de janeiro do ano passado houve um aumento no índice de homicídios por conta das ocorrências em Poconé - quando falo Várzea Grande, falo toda região do comando. Lá nós conseguimos bater a meta de redução de homicídio, roubo e furto. Estamos terminando de fechar os índices de outras regionais, mas eu acredito que também bateram a meta.

 

Para se ter uma ideia, o mês de janeiro passou 18 dias sem ter um homicídio em Várzea Grande, e isso é muito importante. Quando chegamos aqui, nós chamamos a nossa tropa, os nossos comandantes e expusemos nosso plano de trabalho para que possamos potencializar nossas ações operacionais. E isso está sendo feito. Eu recebo diariamente dos comandantes inúmeras ações policiais – barreira, bloqueios, abordagens, operações em locais de potencial criminalidade. 

 

MidiaNews – Como o senhor responde às noticias que vêm sendo divulgadas sobre altos salários na PM, inclusive maiores que do Exército.

 

Coronel Jonildo Assis – Não tem como comparar. A questão salarial é muito importante, mesmo porque você trabalha com vidas aqui, a todo momento. E o policial, por vezes, tem que entrar na lama social e sair limpo. E isso denota uma valorização da nossa classe política por esse profissional. Ele precisa ter um salário bom. Eu não vejo como sendo o melhor salário do Brasil, porque não é. Mas o salário é justo. Eu trabalho para isso. Eu tenho 25 anos de carreira. Já trabalhei no interior e não tenho adicional de nada. Eu não tenho adicional noturno, periculosidade, insalubridade...

 

MidiaNews - E em relação ao armamento e equipamento dos policiais, os que estão em uso são adequados?

 

Coronel Jonildo Assis – Hoje nós temos um programa dentro da Policia Militar, que é o “PM 100%” justamente para tentar chegar a 100% do mínimo para um policial trabalhar, que são: um colete à prova de balas, uma pistola e uma algema. Isso é o básico. E hoje nós ainda não temos uma pistola para cada um. Atualmente, nós trabalhamos em escala. 

 

Ainda existem algumas restrições intrainstituição que me impedem de cautelar a arma para o policial para levar para casa dele. Isso porque quando um sai do serviço, deixa para o outro, que pega para trabalhar na rádio patrulha. Mas nós estamos buscando os recursos. 

 

O Bope conseguiu, através de um recurso extra, pistolas, e está caminhando para reformar toda sua planta de fuzil de precisão, fuzil de assalto, submetralhadora de assalto tático através de um recurso advindo da Justiça. São armas importadas, de primeira categoria. O Gefron também fez o mesmo caminho. Está para chegar a nova planta de fuzil do Gefron.

 

Mas o que digo para você é: não é um armamento de ponta, mas é um armamento que dá para trabalhar. 

 

O que nos salvou, quando estivemos no Bope, foi uma doação de 50 fuzis da marinha feitos em 1968. E se nós não tivéssemos esse fuzil, nós não conseguiríamos combater. É um fuzil grande, pesado, mas eficaz.

 

MidiaNews – Há mais alguma coisa que o senhor gostaria de ressaltar?

 

  

 

Coronel Jonildo Assis – Dizer à sociedade que confie na Polícia Militar. A Polícia Militar nunca deixou de dar respostas positivas, respostas que a sociedade mato-grossense necessitava. Eu posso até citar aqui um fato histórico: a Polícia Militar, no Estado de Mato Grosso, foi quem combateu a Coluna Prestes na década de 20.

 

Então, desde momentos outros a Polícia Militar sempre esteve junto com a sociedade. O nosso plano de comando é tentar aproximar ainda mais a polícia da sociedade. Nós iremos trabalhar a questão, junto com as lideranças comunitárias. Iremos dar uma melhorada na política de gestão da polícia comunitária, por parte da Polícia Militar. Isso nós já estamos desenhando. Eu acredito que, no máximo em maio, já estaremos complementando essa nova roupagem.

 

Acredito que será bom trabalhar a parceria com a sociedade. A sociedade tem que estar junto com a Polícia Militar e, por consequência, essa união irá ajudar a tocar toda a engrenagem da Segurança Pública. Porque quem sabe mais dos assuntos de casa do que as pessoas de casa? Não tem como eu desvincular o policiamento do pessoal da comunidade. Não tem como. É ele que vai me explicar, me trazer algumas informações, falar o que ele realmente necessita, e o que eu posso fazer para que eu possa melhorar.

 

 

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nelson  03.02.19 13h56
nelson, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
Daniel Antonio de Oliveira carneiro  03.02.19 13h15
Com todo o respeito, não estou vendo nada sob controle, a criminalidade tem aumentado e a bandidagem já está ficando sem controle.
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Dr. Laudicério   03.02.19 11h47
Excelente matéria com oportunidade de demonstrar as coisas boas da Polícia Militar que vem sendo desenvolvida com senso de "Justiça Social" E parabéns ao Cmt Geral por mobilizar o início do Curso de Soldado dos alunos que aguardam.
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Aloisio  03.02.19 11h16
Excelente trabalho e desempenho vem apresentando a PM de MT, em favor da sociedade de MT Está de parabéns toda equipe de trabalho da segurança.
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Junior  03.02.19 08h48
Não existe nada sob controle, mas pode melhorar a sensação de segurança se a Instituição passar a se voltar para seu negócio (policiamento ostensivo preventivo), aumentando assim as abordagens e números de policiais voltados a esse fim. Enquanto houver policiais em secretarias, atuando como guardas em outros órgãos e investigando (pós crime), vai faltar no atendimento a população e na prevenção de crimes. O cálculo é simples.
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