Cuiabá, Quarta-Feira, 22 de Maio de 2019
DISPUTA
09.03.2019 | 20h10 Tamanho do texto A- A+

“Episódio do paletó não desgruda mais e Emanuel terá dificuldade”

À frente do Procon, Gisela Simona admite ser candidata a prefeita de Cuiabá na próxima eleição

Bruna Barbosa/MidiaNews

A superintendente do Procon, Gisela Simona, que admite disputa à prefeitura de Cuiabá

CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

“Acredito que essa história do Paletó não desgruda mais do Emanuel Pinheiro. A população hoje está muito mais esclarecida e procura gestores com uma trajetória de vida de trabalho prestado e que não seja manchada por qualquer ato como esse que nos envergonhou”.

 

A declaração é da superintendente do Procon, Gisela Simona, eventual pré-candidata à Prefeitura de Cuiabá, e faz referência ao episódio em que o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) foi flagrado recebendo maços de dinheiro no Palácio Paiaguás – supostamente de propina – à época em que era deputado estadual.

 

Na avaliação de Gisela, que concedeu uma entrevista ao MidiaNews nesta semana, se optar por sair candidato à reeleição no ano que vem, o prefeito encontrará grande dificuldade em razão desse episódio.

 

A população procura gestores que não tenham trajetória manchada por qualquer ato como esse que nos envergonhou

Ela, que foi considerada uma das surpresas na última eleição, tendo recebido mais de 50 mil votos para deputada federal, já é citada como "fato novo" na política.

 

Muito disso ocorre em função da expressiva votação recebida na Capital, mais de 33 mil votos, transformando-a na mais votada em Cuiabá.

 

“Sou filiada ao PROS, ficamos com uma primeira suplência (na Câmara Federal). Meu maior desejo era que eu conseguisse assumir como deputada federal. Mas, se for vontade do meu partido, eu serei candidata a prefeita de Cuiabá”, admitiu ela.

 

Ainda durante a entrevista, Gisela fez uma avaliação da atual administração - que, segundo ela, tem muitos projetos e poucas realizações -, e falou um pouco de sua atuação à frente do Procon, bem como quais as principais demandas do órgão.

 

Veja os principais trechos da entrevista:


MidiaNews – Atualmente a senhora ocupa um cargo de confiança no Governo Mauro Mendes, depois de ter recebido uma votação expressiva para deputada federal, especialmente aqui em Cuiabá. Já passou pela sua cabeça ser a candidata a prefeita com o apoio do governador em 2020 - embora tenha apoiado o candidato Wellington Fagundes na eleição para o Governo em 2018?

 

Gisela Simona – Não passou pela minha cabeça. O que existe hoje, até nas redes sociais, é todo um movimento, um grupo falando: “Futura prefeita de Cuiabá”. E eu reconheço isso, pois foram mais de 33 mil votos na Capital, a mais vota aqui, 12% dos votos válidos. Número muito expressivo e isso faz com que as pessoas de alguma forma façam essas especulações com meu nome à Prefeitura de Cuiabá. Mas digo que nem há uma certeza de ser candidata, muito menos me aliar a qualquer partido. Hoje, o que tenho muito claro é que do partido em que estou eu não saio.

 

Sou filiada ao PROS, ficamos com uma primeira suplência (Câmara Federal). E meu maior desejo era conseguir assumir como deputada federal, até porque existem alguns colegas de coligação que estão com problemas [na Justiça Eleitoral]. Por conta disso, acredito que o grande presente para quem votou em Gisela Simona seria me ver assumindo como deputado federal.

 

MidiaNews – Mas os 33 mil votos não lhe dão aquela esperança de que pode ser prefeita de Cuiabá?

 

Gisela Simona – Pensar a gente pensa. Saber se isso vai se concretizar, acho que ainda é cedo.

 

 

MidiaNews – Com relação à atual administração, qual a avaliação da senhora a respeito da gestão do prefeito Emanuel Pinheiro?

 

Gisela Simona – Na verdade, vejo que na administração do Emanuel existem muitos projetos – projetos muito bons, por sinal – mas que ainda não consegui ver concretude na realização desses projetos.

 

Vamos pegar um exemplo - talvez mais notório - que é o novo Hospital Municipal. Você tem ali uma situação de grande necessidade do povo cuiabano e mato-grossense. Há uma expectativa com relação a esse hospital. E o que se promete, o que se faz, é muito pequeno diante de tudo que já foi investido. São situações nesse sentido que não nos deixam totalmente satisfeitos com o que o governo municipal está fazendo.

 

Vejo que na administração do Emanuel existem muitos projetos – projetos muito bons, por sinal – mas que ainda não consegui ver concretude na realização

MidiaNews – Então, na avaliação da senhora, é uma gestão de muito projeto e pouca realização.

 

Gisela Simona – Exatamente.

 

MidiaNews – O novo Pronto-Socorro, por exemplo, a senhora acredita no pleno funcionamento da unidade já no aniversário de Cuiabá, conforme anunciado pela administração?

 

Gisela Simona – Pleno funcionamento acredito que não. Como cuiabana, queria muito, mas não vejo possibilidade.

 

MidiaNews – Não há como dizer que o nome da senhora não vá estar em evidência no processo eleitoral do ano que vem. Se for uma vontade do partido, a senhora disputa?

 

Gisela Simona – Se for vontade do meu partido, eu serei candidata a prefeita de Cuiabá.

 

MidiaNews – Numa eventual disputa contra Emanuel Pinheiro, que deve sair à reeleição, a senhora acha que o episódio do paletó [em que o prefeito foi filmado quando colocava dinheiro no bolso, no Palácio Paiaguás, quando era deputado] pode pesar contra o projeto dele?

 

Gisela Simona – Com certeza! Eu acredito que essa história do paletó não desgruda mais do Emanuel Pinheiro. A população hoje está muito mais esclarecida. Nas redes sociais há informações constantes e isso faz com que a população, de certa forma, procure minimamente alguém que tenha a trajetória de vida limpa. Uma trajetória de vida de trabalho prestado e que não seja manchada por qualquer ato como esse que nos envergonhou.

 

MidiaNews – Diante desse cenário, independente de quem venha a ser adversário do atual prefeito, a senhora acredita que ele não tem condição de conquistar a reeleição?

 

Gisela Simona – Não que ele não tenha chance. O Emanuel é um líder político, temos que reconhecer isso. Não tenho nada contra a pessoa do Emanuel Pinheiro, mas acredito que ele terá grandes dificuldades de conseguir uma vitória em função desse fato.

 

MidiaNews – Ele acabou de eleger o filho numa eleição para deputado federal. Que leitura a senhora tem sobre a vitória do Emanuelzinho? Os eleitores dissociaram a figura do pai e do filho?

 

Gisela Simona – A leitura que faço é que as pessoas em Mato Grosso não compreendem, em sua grande maioria, a importância de um deputado federal para o Estado. Se a gente comparar a eleição para federal e para vereador, você vê níveis de dificuldade muito diferentes. Por exemplo, quando é federal percebo as pessoas mais distantes, elas falam assim: “Ah, não é pra cá, vai ficar lá em Brasília, não vai mudar o meu dia-a-dia”. Não há a compreensão como um todo. Quando você fala daquele que resolve seus atos diários, você tem uma atenção maior. Para vereador, a campanha é mais difícil. Para prefeito a mesma coisa, já que as pessoas sentem na pele a dor e a alegria de ter um bom ou mal gestor. Por isso que acredito que se fosse uma eleição “local”, os números seriam diferentes.

 

 

MidiaNews – Em termos númericos, a senhora ficou entre os oito mais votados na eleição, mas acabou ficando fora por causa do coeficiente eleitoral. Isso lhe traz uma frustração?

 

Gisela Simona – Isso traz certa frustração porque, na verdade, você vê que não é a vontade da maioria. Essa questão de formas de coligação ainda é muito frustrante. Acredito que, não só para mim, mas para grande parte do eleitorado brasileiro. Você vê uma pessoa em que você votou com muitos votos, mas que não chegou lá. Isso é muito ruim. Mas as regras eleitorais começam a mudar e é uma esperança que a gente tem. Embora a gente saiba que, infelizmente, o sistema de regras ainda é feito por quem tem mandato. E, quem tem mandato faz as regras pensando em si.

 

Nossa campanha foi um desafio gigante. Tínhamos 20 segundos para TV e, mesmo assim, você não sabia em que dia ia aparecer. Isso ficou tudo muito na mão do partido e o partido nem sempre acredita em você. Aí tem o desafio das mulheres. Enfrentamos muito preconceito.

 

Infelizmente, o sistema de regras ainda é feito por quem tem mandato. E, quem tem mandato faz as regras pensando em si

Hoje estou reparada harmonicamente com meu partido, mas na campanha em si eu cheguei a brigar, dizendo que entraria com mandado de segurança para bloquear o dinheiro do fundo partidário, para repassar o que era cota das mulheres. Então, foi um período que você tinha que pensar na campanha, mas eu não tinha santinho para distribuir nas ruas, porque não tinha auxílio. Então, isso demorou para chegar, o que é muito ruim. Às vezes você vê pessoas do seu partido com potencial menor do que o seu, mas com voto de confiança muito maior do que o que dão para você. Nossa coligação fez quatro deputados, exatamente por conta da força das mulheres que estavam nessa coligação. Tínhamos a deputada Rosa Neide, que se elegeu, além da ex-senadora Serys [Slhessarenko], a professora Edna Sampaio, eu, mulheres que tiveram acima de 30 mil votos. Foi bastante significativa a força que nós proporcionamos à coligação

 

MidiaNews – Essa foi a primeira eleição da senhora. Qual foi o saldo dessa disputa? E esperava receber tantos votos?

 

Gisela Simona – Foi surpreendente! Eu esperava que teria uma votação expressiva, mas não tanto. Na verdade, isso no início da campanha, porque no decorrer, foi possível ver a recepção das pessoas. Era incrível como nas redes sociais, pessoas de todos os cantos de Mato Grosso pediam nosso material para distribuir. Dos 141 municípios de Mato Grosso, tive votos em 111. Realmente as redes sociais nos ajudaram muito. Quando saímos aqui em Cuiabá, estávamos sendo cercados nas ruas. Às vezes eu falo que se fosse mais uma semana de campanha, a gente ganhava (risos). Ao mesmo tempo eu tenho a certeza de que tudo está nas mãos de Deus e Ele sabe a hora certa que as coisas acontecem. Acredito que todo o grupo que trabalhou por Gisela Simona saiu vitorioso desse processo.

 

MidiaNews – E pode encarar novas disputas?

 

Gisela Simona – Podemos. Sempre com o pé no chão, sabendo que uma disputa é diferente da outra. Sempre com o pé no chão é possível.

 

MidiaNews – Existe um acordo para alguém da coligação tirar licença da Câmara e a senhora assumir ainda que temporariamente?

 

Gisela Simona – Nenhuma conversa nesse sentido. Na verdade só existe uma ação contra o deputado Neri Geller, em que o próprio Ministério Público Federal fez um pedido de cassação. Meu partido se habilitou com litisconsorte nesse processo. E às vezes fico torcendo para o deputado José Medeiros, que tem uma ligação com o presidente Jair Bolsonaro, assumir algum cargo [na esfera federal] que nos possibilitaria entrar. Mas enfim, fica tudo nas mãos de Deus.

  

 

MidiaNews – A senhora tem um histórico de defesa do consumidor, tendo sempre atuado nessa área. Pela sua experiência, dá para dizer quais são os setores que mais desrespeitam o consumidor em Mato Grosso?

 

Gisela Simona – Em Mato Grosso, sem dúvida alguma, são os serviços essenciais. A energia elétrica, por exemplo, é um grande problema dentro do Estado. Na sequência, temos a questão da água e os serviços de telecomunicações. E aí entra tanto a telefonia móvel como a internet. Hoje são os problemas maiores que temos aqui.

 

MidiaNews – Isso ocorre porque as empresas não respeitam mesmo ou porque há muito desacordo comercial?

 

Gisela Simona – Na verdade a qualidade do serviço é ruim e, ao mesmo tempo, você tem um problema regulatório. No Brasil os maiores problemas, os gargalos, estão nos serviços que são regulados pelo poder público federal. Quando temos uma agência reguladora, que deveria, em tese, trazer o equilíbrio contratual, hoje, na verdade, elas têm trazido brechas para o não cumprimento do Código de Defesa do Consumidor.

 

A energia elétrica, por exemplo, é um grande problema dentro do Estado. Na sequência, temos a questão da água e os serviços de telecomunicações

Então aí você vê as empresas, no âmbito administrativo, por exemplo, alegando essas resoluções [das agências] para não cumprir o Código de Defesa do Consumidor. Um exemplo claro: pelo Código do Consumidor, você paga por um serviço efetivamente prestado. Mas quando você vai na resolução de energia elétrica, se ela [a empresa] não consegue fazer leitura [do relógio de consumo], ela estima essa leitura. A internet, você contrata determinada velocidade e, pelo Código de Defesa do Consumidor, você deveria cumprir 100% do contratado. A resolução diz que se a empresa cumprir 70% daquilo que ela divulgou, ela está dentro da norma. Então, vejam aí que há contradições no âmbito regulatório que prejudicam o cumprimento e a efetividade do Código de Proteção e Defesa do Consumidor.

 

MidiaNews – Então as agências regulatórias estão aparelhadas pelas empresas?

 

Gisela Simona – Sem dúvida nenhuma! Hoje, as agências no Brasil estão dominadas pelo mercado, por grandes grupos de fornecedores e que, na verdade, têm impedido que o consumidor tenha efetivamente seus direitos respeitados.

 

MidiaNews – E essa prática das agências é algo que pode sofrer mudanças?

 

Gisela Simona – Hoje, a presidência dessas agências depende do Poder Executivo e da sabatina do Congresso Nacional. E, por outro lado, precisamos de deputados federais que tenham um olhar para os órgãos reguladores. Tudo isso é discutido no Congresso Nacional, mas, infelizmente, não temos representação consumerista no Congresso. Você tem ali lobby de vários segmentos econômicos, ora das instituições financeiras, do sistema de telecomunicação, mas do consumidor em si pouquíssimas pessoas carregam essa bandeira.

 

MidiaNews – Sobre o serviço de energia elétrica, o que uma empresa pode e não pode fazer, por exemplo, em relação ao corte no fornecimento? Há muitas queixas relacionadas a isso no Procon?

 

Gisela Simona – Tem! Por exemplo: Mato Grosso hoje tem uma lei que proíbe que os cortes sejam feitos às sextas-feiras, vésperas de feriado ou final de semana, exatamente por ser um serviço essencial. Essa lei estadual vem de alguma forma sendo desrespeitada porque o setor elétrico entende que uma lei estadual não poderia regular seus serviços.

 

Agora, nós sabemos que uma lei vigente, que passa por todo um trâmite legislativo, vigora sim. Se uma empresa entende que ela é ilegal, tem que tentar anulá-la. Então, é por isso que o Procon defende que o corte de energia e água não pode acontecer com menos de 60 dias da data que está vencida essa conta. Como também não pode acontecer o corte às vésperas de final de semana e feriado.

  

 

MidiaNews – E os cortes estão acontecendo no prazo de quanto tempo?

 

Gisela Simona – Depois de 15 dias têm empresa fazendo cortes, seja água ou luz. Isso ocorre porque algumas legislações municipais falam em 15 dias, porque a resolução da Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] fala que energia, desde que você tenha um reaviso com 15 dias de antecedência, você já poderia ter o corte. Como o reaviso vem na própria conta, então ela se vê numa situação de poder fazer esse corte em 15 dias.

 

Quando isso acontece, o cidadão chega ao Procon e nós verificamos que não está respeitando a lei. Então o Procon determina a religação imediata.

 

MidiaNews – E as empresas acatam?

 

Gisela Simona – Na grande maioria, acatam. O que a gente tem - e que é muito comum ainda - é um certo desconhecimento do consumidor sobre o que fazer. E eu entendo. Você está ali numa sexta-feira, com sua água cortada e o desespero de não ter que passar o final de semana nessa situação. Você acaba emprestando dinheiro, fazendo qualquer coisa para reestabelecer o serviço. Agora, esse consumidor que passa por essa situação pode pedir a reparação desse dano via judicial. Às vezes você empresta um dinheiro no caixa eletrônico, com juros altíssimos, para pagar uma conta que poderia aguardar. Empresta dinheiro de um vizinho, passa por todo um constrangimento por conta disso.

 

O que a gente tem - e que é muito comum ainda - é um certo desconhecimento do consumidor sobre o que fazer

MidiaNews – E os consumidores buscam o Procon em casos dessa natureza?

 

Gisela Simona – Nós somos muitas vezes abordados, até pelas redes sociais, pelo 151 (número para fazer denúncias), alguém dizendo: “Cortaram minha luz, pode isso?” Então, há muitas denúncias, mas o registro de reclamações ainda não é tão alto. Exatamente porque acaba tendo o consumidor desesperado no momento em que o fato aconteceu com ele. Mas passou isso, conseguindo resolver, ele não vai até o órgão reclamar.

 

O que a gente vislumbra muito nisso, e até um mea-culpa, porque há uma necessidade de melhorar o acesso também dos órgãos de defesa do consumidor ao cidadão. Os problemas de consumo não acontecem só no horário comercial. Mas temos um órgão que funciona em horário comercial. Há uma necessidade sim de melhoria nesse atendimento, criar aplicativos que você consiga reclamar 24 horas por dia, os 7 dias da semana. Isso faria com que demandas do consumidor chegassem com mais frequência ao órgão.

 

MidiaNews – Com relação a cortes abusivos, vocês do Procon têm ideia de como o Judiciário de Mato Grosso vem entendendo essas questões?

 

Gisela Simona – Com relação a corte, em 2017, aplicamos uma multa em torno de R$ 3 milhões contra Energisa, corte dentro do prazo de 60 dias. A Energisa alegou que seria ilegal a norma, mas o Judiciário não acolheu essa demanda. Estamos entendendo, com isso, que há um aceite do Judiciário com a lei vigente.

 

MidiaNews – A gente observa, por exemplo, que o consumidor de transporte aéreo aciona muito as empresas. Já o consumidor de energia que tem seu direito cassado não vai atrás. Falta conhecimento? 

 

Gisela Simona – Falta conhecimento. E falta, sim - não podemos deixar de dizer -, crença nas instituições. Muitas vezes você fica na dúvida se vale a pena reclamar e, com o corre-corre do dia-a-dia, a gente acaba deixando para depois. E quando vai ver os prazos já expiraram. A gente verifica que há essa necessidade de o consumidor se apropriar um pouco mais desse direito que é dele e ao mesmo tempo ter essa acessibilidade.

 

Hoje, o grande drama do Judiciário é com relação a decisões não tão favoráveis. Um exemplo claro que acabou ficando muito prejudicado, por conta das decisões judiciais, é a questão da fila de banco, que é um problema que todos nós sabemos o quanto aborrece, o quanto nos faz perder tempo, nos dá transtorno. Mas, quando o consumidor passou a reclamar e o Judiciário começou a dizer que isso era “mero aborrecimento”, o consumidor começou a parar de reclamar, a se desmotivar.

 

Em todos os núcleos de pessoas existem aqueles que querem direitos e as que querem levar vantagem. Mas isso é muito fácil de ser detectado

Isso é muito ruim. Embora no âmbito individual isso não dê uma indenização, no âmbito coletivo isso acontece. Então, por exemplo, muitas vezes quando você reclama no Procon você não terá seu tempo resgatado, mas isso, num acúmulo com outros consumidores, gera uma multa muito grande para essa empresa. A lei nos permite, enquanto órgão de defesa do consumidor, multar entre R$ 300 a R$ 3 milhões. São valores significativos, no sentido de você ajustar a conduta da empresa.

 

MidiaNews – Nos últimos tempos surgiram algumas novidades nas relações de consumo. No Procon, há queixas relacionadas a aplicativos como os de transporte e entrega de comida em casa? 

 

Gisela Simona – O que chega muito pra nós são compras pelo meio eletrônico, especialmente quando elas acontecem fora do meio oficial da empresa. Hoje, nós sabemos que como consumidores somos abordados com muita frequência pelo Facebook, Whatsapp, Instagram, com publicidade. Aí, fica nosso alerta ao consumidor. A grande defesa de quem compra pela internet é a prevenção. Hoje há um decreto no Brasil que regula o comércio eletrônico e que vem dizendo que é recomendado comprar via internet, quando você está na página oficial de uma loja, quando ela tem CNPJ. É importante também a compra ser feita em uma loja brasileira. Porque quando você vai para sites estrangeiros, a legislação brasileira não vale naquele local. É válido observar também se há um endereço físico dessa loja, porque se for reclamar via Procon, via Judiciário, é imprescindível que o consumidor leve a esses órgãos o endereço da empresa e o CNPJ dela.

 

MidiaNews – Outro assunto sempre discutido é a cobrança da taxa de 10% dos garçons. O pagamento é facultativo, mas quando estamos nos estabelecimentos, tem-se a impressão de que é obrigado.

 

Gisela Simona – O cupom fiscal que chega para o pagamento deveria vir sem os 10%. E, se o consumidor quisesse pagar, que o fizesse. Mas ocorre o contrário: os 10% já vêm na conta. E aí, muitas vezes quando o consumidor diz que não quer pagar, passa até por constrangimento. O garçom chama o gerente, chama o maître do restaurante para perguntar se você não foi bem atendido, quando o consumidor tem o direito de não pagar. Basta não querer.

 

O que nós do Procon temos que fazer? O cardápio tem que constar expressamente que o pagamento é facultativo. Isso está sendo fiscalizado e é cumprido. Agora, essa abordagem no dia-a-dia, nossa orientação ao consumidor é que se ele for obrigado a pagar os 10%, que peça a nota fiscal do que foi consumido e o que é 10%, porque a exigência dessa cobrança dá a você o direito de receber em dobro o valor cobrado indevidamente.

 

 

MidiaNews – E naqueles casos de queixas infundadas feitas ao Procon, como vocês trabalham com isso?

 

Gisela Simona – O consumidor, quando procura o Procon, passa por uma triagem. A primeira triagem realizada é se aquele fato que ele nos leva é uma relação de consumo. Muitas vezes o consumidor chega lá querendo fazer separação, receber direito trabalhista. Tem de tudo lá. Essa triagem é que barra essa questão do que é ou não relação de consumo.

 

O que é ou não direito, nós tentamos orientar o consumidor daquilo que ele tem direito ou não. No Procon, temos uma CIP (Carta de Investigação Preliminar) que não é o processo propriamente dito. Mas como a Constituição da República prevê o direito de petição, que é o direito de requerer do consumidor, se mesmo com orientação do Procon, ele insiste em querer reclamar contra a empresam, nós abrimos essa CIP onde o fornecedor tem a chance de responder.

 

A localização é muito difícil para o cidadão. A Arena Pantanal, embora seja um local aparentemente bonito, estruturalmente dizendo passa por problemas sérios: elevador estragado, por exemplo. Nós estamos no 3º piso

MidiaNews – Há muitos consumidores também que são mal pagadores, que querem levar vantagem?

 

Gisela Simona – Em todos os núcleos de pessoas existem aqueles que querem direitos e as que querem levar vantagem. Mas isso é muito fácil de ser detectado. O que não pode e o que a lei não permite é que você pressuponha má-fé. Isso nem da parte nossa, enquanto órgão de defesa do consumidor, nem da parte do fornecedor. Já tivemos casos, por exemplo, de consumidor que comprou carro e o carro mesmo novo apresentou problema. Trocou e apresentou problema novamente. Se a pessoa gosta da marca, quer aquele carro e isso ocorreu, não se pode pressupor má-fé.

 

MidiaNews – Fale um pouco de sua história no Procon.

 

Gisela Simona – Entrei no Procon no concurso público de 2001 na carreira de conciliadora de defesa do consumidor. Em 2008, no governo Blairo Maggi, fui convidada para assumir a superintendência. Fiquei de maio de 2008 até março de 2016, foi quando o governador Pedro Taques me exonerou.

 

MidiaNews – E como se deu esse retorno ao cargo. Foi algum acordo partidário?

 

Gisela Simona – Partidário não, até porque fui candidata nas últimas eleições pelo grupo político que tinha como candidato a governador o senador Wellington Fagundes.

 

O convite inicial era pra que eu fizesse parte da equipe de transição. Servidores públicos de várias áreas são convidados a fazer parte dessa transição, que é o levantamento de dados da secretaria. Nesse transição, acabei tendo acesso a várias pessoas, principalmente ligadas a área de Justiça e Segurança. A transição foi dividida em grupos e, como Procon fazia parte do grupo de Justiça, eu fiquei no grupo que estava sendo liderado pelo hoje secretário da Casa Civil, Mauro Carvalho, e pela empresária Margareth Buzetti. E aí, tive a oportunidade de apresentar como funcionava o Procon e propostas de como o órgão poderia funcionar melhor que hoje. Foi nessa apresentação meu primeiro contato com a equipe do atual Governo. Posteriormente, veio o convite para voltar à superintendência.

 

O convite inicial era pra que eu fizesse parte da equipe de transição

MidiaNews – Do período em que esteve ausente da chefia do Procon até agora, a senhora percebeu mudanças significativas no órgão, seja melhorias ou aspectos negativos?

 

Gisela Simona – Talvez a mais drástica mudança seja o local onde o Procon está situado. Desde que assumi a superintendência em 2008, ele ficava na avenida do CPA e, em 2017, por conta de um laudo que detectou insalubridade no prédio, foi transferido para a Arena Pantanal. Essa localização é muito difícil para o cidadão. A Arena Pantanal, embora seja um local aparentemente bonito, estruturalmente dizendo passa por problemas sérios: elevador estragado, por exemplo. Nós estamos no 3º piso. Para chegar, são cinco lances de escada. Isso dificulta muito o acesso do cidadão.

 

Essa localização fez, por exemplo, que o número de reclamação, que era em torno de 40 mil ao ano, em 2017 caiu para 29 mil. Entendo que é exatamente em função dessa dificuldade de acesso do cidadão. Procons municipais, por exemplo, tínhamos atingido 50 municípios. Hoje há 5 cidades em que o Procon está praticamente fechado.

 

No mais, o órgão manteve o padrão de qualidade de atendimento, porque temos ali servidores concursados, carreiras próprias do Procon. Isso caba mantendo sempre a qualidade das ações realizadas.

 

MidiaNews – Sobre esse aspecto da localização, há um conversa com o governador seja para retornar ao prédio antigo ou mesmo mudar para um local de mais fácil acesso?

 

Gisela Simona – Existe. Desde a transição, mesmo sem saber que eu poderia assumir a superintendência, eu já dizia dessa necessidade de mudança. O que o governador colocou, em razão do estado de calamidade financeira, é que a solução teria que ser caseira, não há dinheiro para locar um novo prédio. Foi nessa situação que buscamos todos os prédios do Estado e qual poderia brigar o Procon. Nesse conceito, localizamos o prédio do Sine, na General Vale. O Procon vai dividir aquele espaço com serviços do Sine. E nossa pretensão - até um pouco ousada, já que temos pressa – é que no mês de março, quando se comemora o Dia Mundial do Consumidor, nós façamos essa mudança. 

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João  16.03.19 10h08
E algum momento ela falou sobre os trabalhadores? Nenhum. Eu sou um trabalhador e voto em candidato de trabalhadores. Não voto em candidatos de empresários.
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Areal  11.03.19 14h52
Voto na senhora de olhos fechados...
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Benhur  11.03.19 14h27
Quanto e quem vai bancar sua Campanha?
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NETO  11.03.19 13h10
Se for candidata tem meu voto.
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Marcos Gonçalves - CPA2  11.03.19 11h58
a verdade é que até agora o prefeito nao se explicou mas vai ter que se explicar logo pq o povo ta cansado de mala
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