Cuiabá, Segunda-Feira, 22 de Abril de 2019
ARTUR SALLES
06.02.2019 | 06h55 Tamanho do texto A- A+

Cidadania aeroportuária

A boa notícia é que Brasília hoje está bem mais próxima do Brasil

Menos Brasília, mais Brasil.

 

É fato inconteste que sempre existiu um descolamento entre Brasília e a realidade das ruas brasileiras, embora os senhores(as) parlamentares tenham sido eleitos(as) para representar o clamor dos cidadãos(as). Mas o simbolismo que Brasília carrega é de um lugar distante, freqüentado por pessoas que não enxergam as verdadeiras demandas da população brasileira; tudo que os “nobres” congressistas enxergam são seus próprios interesses. Para muitos brasileiros, a capital federal se resume às manchetes dos jornais que denunciam conchavos, abuso de poder, desvios de dinheiro, funcionários fantasmas, generosas verbas de gabinete e salários exorbitantes.

 

A boa notícia é que Brasília hoje está bem mais próxima do Brasil. Isso, de fato, não ocorreu por livre iniciativa dos parlamentares, mas por exigência da população que encontrou meios de cobrança mesmo à distância. A capital federal continua exatamente onde sempre esteve, mas as mídias sociais e outros meios eletrônicos colocaram os parlamentares numa incômoda posição de sentir o hálito quente do brasileiro indignado em seu cangote. O congressista que outrora votava sob uma pressão limitada de seus eleitores ou grupos específicos da sociedade, atualmente expressa seu juízo por meio do direito ao voto em contextos de cobrança gigantesca por parte de toda a sociedade.

 

A capital federal continua exatamente onde sempre esteve, mas as mídias sociais e outros meios eletrônicos colocaram os parlamentares numa incômoda posição de sentir o hálito quente do brasileiro indignado em seu cangote

É importante destacar que a proximidade da população em relação à Brasília vem minando algumas velhas práticas congressuais, como por exemplo, a do voto no “escurinho” do anonimato. Prática antiga, inclusive respaldada pela Constituição Federal, por diversas vezes a conveniência do voto secreto ou do chamado “escurinho” conduziu antigos “coronéis” aos mais altos postos parlamentares, assim como tal mecanismo também salvou parlamentares enrolados na Justiça de penalidades mais severas. Mas então o que mudou? Hoje o congressista se vê obrigado a lidar com algo que chamo de “cidadania aeroportuária.”

 

Parlamentares precisam trafegar em aeroportos para viajar das “suas bases” para Brasília e vice-versa. Sem contar as viagens oficiais para outros destinos. É nesse momento de trafegar em meio ao público que as mídias sociais vêm fazendo toda a diferença porque nenhum parlamentar—independente de fidelidade partidária—quer ser ofendido ostensivamente em um aeroporto brasileiro. Mesmo porque o efeito cascata é muito relevante; é só o primeiro vídeo da hostilidade a um determinado congressista ser postado no Youtube que o conteúdo se espalha em uma velocidade impressionante. Além disso, o vídeo se torna exemplo e, assim, a abordagem hostil se estende a vários outros parlamentares.

 

Mas não pensem que esse fenômeno da cidadania aeroportuária é algo simplesmente motivado pelo desejo de visibilidade virtual, ou seja, algo cuja intenção são alguns minutos de fama. As pessoas que exercem esse tipo de cidadania têm plena consciência do que esperam da política e, especialmente, estão cientes dos motivos pelos quais a conduta desse ou daquele parlamentar a desagradou. As próprias abordagens, inclusive, embora hostis e com verbalização de palavrões, costumam conter mensagens específicas com relação direta a determinadas bandeiras defendidas por aqueles que exercem a cidadania aeroportuária. O constrangimento parlamentar faz com que as verbalizações sejam ouvidas no ato do voto.

 

O exemplo mais recente desse tipo de cidadania é a derrota do Renan Calheiros em seu pleito para retornar à presidência do Senado. Se não fosse a pressão massiva da população via mídias sociais, o parlamentar alagoano teria se tornado presidente da Casa Revisora pela quinta vez. E o Senado Federal carregaria consigo mais uma mácula: no “escurinho” do voto secreto, os “nobres” parlamentares votam de uma determinada forma enquanto em uma eleição “aberta,” os “nobres” congressistas votam de uma outra forma porque expostos ao julgamento público preferem se alinhar com aqueles que vociferam sua indignação nos aeroportos.

 

ARTUR SALLES LISBOA DE OLIVEIRA é especialista em "Escrita Criativa".




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