Crime e Castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski, é um dos romances mais influentes da literatura mundial e um marco do romance psicológico. A obra narra a história de um estudante que comete um assassinato e passa a lidar com as consequências de seu ato, fruto da teoria que desenvolveu sobre uma pessoa, sendo “extraordinária”, ter o direito de transgredir, inclusive, as leis morais.
Atualmente, estamos assistindo a um caso também atípico, mas que não trata do assassinato de um personagem, e sim da submissão de uma instituição, apenas nisso diferente do que aconteceu com a pessoa morta na história do livro, naquele caso, uma agiota.
Como dito na introdução, trata-se de uma influente publicação da literatura mundial — um thriller em sua essência — que mistura romance com psicologia e narrativa policial, uma das especialidades de Dostoiévski.
O que temos hoje, aqui e agora, apresenta cada vez mais nuances de um épico de não ficção que nada tem a ver com romance, apesar da psicopatia adquirida pelos atores de nossa justiça que, em vez de atuar na defesa da ordem jurídica, se submetem a seus próprios egos.
Cito, neste parágrafo, o resumo do pensamento comum aos nossos “personagens” sobre o assunto justiça mais em voga no país, quiçá no mundo, sem a necessidade de identificação dos autores, certo de que já são conhecidos devido à publicação da gravação “clandestina” da reunião havida para tratar da questão.
A começar pelo fato de que, para um deles, parece não haver problema em um ministro cometer uma falha técnica — ou seria ética, quem sabe moral? — envolvendo uma “merreca” de milhões, porque a causa sub judice envolveria alguns bilhões de reais.
Para outro, o trabalho técnico da PF está sob suspeita de ser um ato de vingança daquela instituição; houve também a alegação de que basta ter fé pública para um ministro poder fazer o que achar certo. Alguém disse que a investigação da PF sobre um seu colega foi ilegal e que “tudo” não passa de um “nada jurídico”; outros, que se tratava de “lixo jurídico”, portanto nulo e, pasmem, até a população está contra eles e, por isso mesmo, é preciso pensar na constitucionalidade. Mas a afronta final ficou por conta de quem menos se esperava. Disse ele: “a investida da PF pode acontecer com qualquer um de nós”, não dando a subentender como se justa ou injustamente.
É ou não é uma trama psicológica e policial? Falta algum ingrediente hediondo para se tornar um clássico da literatura tupiniquim? Pois é, Dostoiévski, com um enredo desses à mão, teria muito material para escrever mais um de seus clássicos, desta vez de literatura brasileira “raiz”, com tudo para ser sucesso, se a censura deixar publicar, é claro.
Cabe a pergunta: terão eles — como Raskólnikov, o estudante que cometeu a atrocidade em São Petersburgo/Russia — a coragem de assumir seus erros e, quem sabe, repará-los? Ou continuarão na busca pela remissão da punibilidade, sabendo que não correm o risco de parar na Sibéria (ou na Papuda?) Terão a coragem de pagar por seus abusos, voltar para suas casas e viver o resto de suas vidas no ostracismo moral autoimposto?
Considerações finais:
Sobre a “agiota”: No livro, o estudante mata uma velha senhora, que era de fato uma usurária (agiota). No entanto, ele também mata a irmã dela, uma pessoa bondosa e inocente, o que agrava o peso psicológico e o “castigo” do protagonista.
Sobre o “Direito de Transgredir”: Segundo a teoria de Raskólnikov a humanidade está dividida entre “ordinários” (que devem obedecer) e “extraordinários” (como Napoleão, que teriam o direito moral de cometer crimes em nome de um bem maior).
Sobre o Desfecho: Raskólnikov não assume o erro imediatamente por “coragem moral” pura; ele é levado ao colapso mental pela investigação psicológica de um juiz, e pelo amor redentor de sua paixão.
Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.
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