Cuiabá, Domingo, 26 de Maio de 2019
GONÇALO ANTUNES DE BARROS
13.03.2019 | 07h16 Tamanho do texto A- A+

Da democracia, pela tirania

Nas democracias, é o demagogo que cumpre o papel de lisonjeiro

A tirania, na literatura grega antiga, é uma forma de governo incompatível com o ‘dizer-a-verdade’. Seria um terreno formatado e medido pelo silêncio e pela lisonja.

 

Sempre nos vêm à mente a imagem do tirano como aquele que encarna e personifica o poder, não aceitando a verdade, porque a ele só interessa o que lhe apraz. Cercado de bajuladores, ainda que quisesse ouvir a verdade, ninguém ousa dizê-la.

 

Mas a democracia seria um lugar propício para a ‘parresía’, para o dizer a verdade?

 

Em A Coragem da Verdade (tradução de Eduardo Brandão), Michel Foucault pensa que não. E por quê?

 

O pensador francês nos remete à interessante passagem da ‘Política’, em que Aristóteles escreve que o tirano envia e distribui espiões na cidade para lhe dizer o que verdadeiramente acontece, e o que verdadeiramente os cidadãos pensam.

 

De tudo, se a ética for o que se faz da moral, simplesmente, um é melhor que muitos

Aristóteles comenta que essa estratégia leva a um resultado oposto ao que o tirano almejava, pois, sabedores disso e desconfiadas, as pessoas, obviamente, escondiam o que pensavam, e ele ficava sem a verdade.

 

Mas se difícil na tirania, por que seria improvável, aos olhos de Foucault, na democracia?

 

Responde o autor de ‘Vigiar e Punir’ - a impossibilidade para o campo político da democracia de dar lugar e espaço à diferenciação ética-. Nas democracias, é o demagogo que cumpre o papel de lisonjeiro, porque ele é uma espécie de ‘cortesão do povo’.

 

E acrescenta: ‘... na relação entre o Príncipe e o que diz a verdade, entre o Príncipe e seus conselheiros, se reconhece um lugar para a prática parresiástica. E a relação entre o Príncipe e seu conselheiro constitui um vínculo no fim das contas muito mais favorável à parresia do que existe entre o povo e os oradores’.

 

Claro que, isso tudo, num contexto em que o tirano, apesar da concentração de poder, tem ética e boa virtude; senão, também não.

 

Independentemente da forma e sistema de governo, a vida, então, está doente? A vida é doente, na ‘gênesis’? Há autoridade moral e superior que possa desafiar a lógica dos acontecimentos?

 

No derradeiro momento de sua morte (Fédon), Sócrates se volta para Críton, ‘devo um galo a Esculápio (Deus da medicina e da cura)’. Ou o sentido disso seria - ‘Críton, a vida é uma doença’-, como pareceu querer Nietzsche?

 

De tudo, se a ética for o que se faz da moral, simplesmente, um é melhor que muitos. Mais fácil dele, tirano, esperar superioridade ou mesmo que faça, dela (ética), introjeção.  Ou não?

 

É por aí...

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz em Cuiabá.




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