Cuiabá, Segunda-Feira, 20 de Maio de 2019
ANDRÉ LUIZ BARRIENTO
24.04.2019 | 07h42 Tamanho do texto A- A+

Leia antes de morrer

Temos a obrigação de sermos a melhor versão possível de nós mesmos

Esse recado é para você. Sim, sabe bem que é para você. Você tem cargo, status, esposa, estudo, filhos e considera-se, de longe, o cara mais sortudo e bem-sucedido do antigo grupo das crianças da sua rua.

 

Também, não poupou esforços. Sangrou, chorou, suou, desistiu. Retomou, reergueu, tentou de novo e perdeu. Fez o que não queria, aquilo que podia, o que nunca teria coragem de admitir, mas fez. Jogou, perdeu, aliou-se e ganhou.

 

Agora, uísque, vinho e champanha. Sorrisos, favores e manchetes. Remédio para dormir, para acordar e para suportar. Arrasta-se com o peso dos apertos de mão que foi obrigado a dar, das reuniões nauseantes que foi coagido a fazer e das promessas insuportáveis que teve de cumprir. Aquele dinheiro nem era para você, era apenas para continuar no jogo, aquele que você nem queria mais jogar.

 

Começar de novo? O que os outros vão pensar? O que a imprensa vai dizer? E meus filhos, o que irão falar? E o partido? A empresa? A instituição? Como vou parar agora?

Não vou te julgar, apesar de fazer sofrer, sei que também sofre. Vivemos no mesmo pedaço de pedra que se movimenta a 100 mil quilômetros por hora ao redor do sol. A gravidade da política, dos negócios e do poder, no entanto, é que é diferente. Ficar de pé é um esforço hercúleo para quem vive obrigado a fingir ter opções.

 

Contudo, inoportunamente, a consciência trai a estratégia. A voz materna do tempo de criança surge suave e efetiva, faz o grande homem sentir-se pequeno, com medo. Então, você se questiona: existe algo que transcenda esse pequeno feudo escuro e sujo em que se meteu?

 

Nosso planeta é uma grande embarcação. Entramos e saímos dela em pouco tempo. Ficamos um pouco aqui, depois voltamos para casa. Morrer é voltar pra casa. A gente leva somente histórias e lembranças. Talvez te reste pouco tempo, sinceramente espero que não. Temos a obrigação de sermos a melhor versão possível de nós mesmos.

 

Começar de novo? O que os outros vão pensar? O que a imprensa vai dizer? E meus filhos, o que irão falar? E o partido? A empresa? A instituição? Como vou parar agora? São tijolos atirados nas vidraças da fachada que se vê obrigado a manter.

 

A casa, o carro, os investimentos, a poupança, o dinheiro guardado e aquele escondido, tudo isso não é seu, só está com você. O presente é o seu único ativo. Sei que é inteligente. Então, reflita sobre a grandeza do Universo e perceberá que tudo isso é pequeno, não passa de poeira. Entendera que somos como crianças distraídas brincando, acreditando ter controle sobre a fantasia.

 

Em breve você vai voltar pra casa. O que vai contar para sua mãe, para aquele amigo que ainda sente a falta do seu abraço? Talvez, seja uma daquelas crianças da sua rua, que verdadeiramente conhecia você e confiava no seu talento.

 

Olhe para dentro. Peça ajuda para pessoas de bem. Acredite, isso é libertador. Talvez decida recomeçar. Você pode até sangrar, chorar, suar e desistir. Retomar, reerguer, tentar de novo e ainda assim perder. Mas, desta vez, escolher fazer o que queria, o que facilmente admitiria e, quem sabe assim, jogar de um jeito em que todos possam ganhar.

 

ANDRÉ LUIZ BARRIENTO é jornalista, mestre em estudos de cultura contemporânea e graduando em Direito.




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