Vivemos um tempo de impaciência estrutural. Refiro-me ao desânimo em sustentar projetos quando eles não aparentam resultados imediatos. Diante da multiplicação das oportunidades — sempre vendidas como liberdade, mas frequentemente geradoras de ansiedade —, da velocidade da informação, da cultura da performance e da comparação permanente, instaurou-se entre nós um novo regime emocional que cobra resultados rápidos e visibilidade constante. Nesse sentido, perseverar tornou-se um ato heroico, pois o nosso tempo catapultou a impaciência a níveis de normalidade!
Nesse cenário, a perseverança — qualidade que a própria antiga cultura romana soube admirar até mesmo em adversários como os resistentes de Numância, cujo cerco e destruição ocorreram em 133 a.C., e cuja obstinação resistente tornava a vitória romana simbolicamente legítima — deixou de ser virtude pública para tornar-se quase uma desqualificação moral. Ela não produz aplausos imediatos, não se ajusta à lógica do impacto instantâneo. E, no entanto, talvez seja precisamente essa disposição o que mais nos falta.
Os antigos ainda têm algo a nos ensinar. Oriunda dos gregos e muito usada pelo Novo Testamento, a palavra ὑπομονή (hypomoné) merece atenção especial. Ela não quer dizer mera resignação, mas firmeza sob pressão — a capacidade de permanecer de pé quando as circunstâncias se tornam adversas. Literalmente, significa “ficar sob” (hypo + moné): sustentar o peso sem ceder ao desespero ou à fuga. Trata-se de uma resistência lúcida, não de passividade néscia.
Na tradição hebraica, perseverar é aprender a habitar o intervalo entre promessa e realização, ou entre o plantio e a colheita. Supõe demora, espera atenciosa, maturação. E a espera é justamente o que nossa época menos tolera. Não se trata de insistir em qualquer direção, e sim de sustentar convicções examinadas e assumidas com responsabilidade em que pesem os desafios.
Nesse ponto, a figura de Kalebe (Kalev), filho de Jefoné, o quenezeu, surge como arquétipo eloquente. Na narrativa hebraica, ele é um dos poucos que mantêm a confiança diante do medo coletivo. Enquanto a maioria, inclusive a liderança, sucumbe ao pânico e à comparação com forças aparentemente superiores, Kalebe sustenta uma leitura distinta da realidade. Sua postura, assumida aos quarenta anos, não foi frívola nem mero entusiasmo passageiro. Quarenta e cinco anos se passaram — e ele permaneceu fiel à mesma convicção. Entre a decisão e a realização houve travessias, frustrações e espera. Quando finalmente reivindica sua herança, declara ter oitenta e cinco anos — e afirma conservar a mesma disposição de outrora.
Kalebe encarna a resistência diante da demora das promessas — e isso possui profundo valor ético-existencial. Na tradição sapiencial hebraica, a perseverança não é atributo de entusiastas ocasionais, mas de quem atravessa o dia mau sem capitular. O livro de Provérbios é incisivo: “Se te mostras fraco no dia da angústia, a tua força é pequena” (Provérbios 24:10). O dia mau não é exceção; é dado constitutivo da experiência humana.
O que se revela decisivo não é sua chegada, mas a postura adotada diante dele. Não há vida consistente nem realizações duradouras sem constância que sobreviva às frustrações. Perseverar, nesse horizonte, não significa negar as adversidades, mas agir apesar delas. A instabilidade é permanente; o que varia é a espessura moral com que a atravessamos.
Se outras épocas ensinaram pedagogias da constância, a nossa parece ter institucionalizado a instabilidade. Para entender melhor como isso se deu, em primeiro lugar é preciso dizer, como percebeu Byung-Chul Han, que vivemos em uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito já não é apenas disciplinado por normas externas, mas pressionado por exigências internas de produtividade — como se o novo “carrasco” fosse o próprio sujeito. Nessa sociedade o conceito de existir significa produzir. Cada indivíduo torna-se empreendedor de si mesmo, permanentemente comparado, avaliado e exposto.
Em contrapartida, um outro ponto a observar, como disse Zygmunt Bauman, é que nosso tempo é profundamente ambivalente: ao mesmo tempo em que promove a fluidez dos vínculos e a reversibilidade dos compromissos, naturalizando relações descartáveis, continua a buscar, quase nostalgicamente, referências de estabilidade, de permanência, que já não consegue sustentar. Assim, como se não bastasse a essa inconstância patológica em razão da ansiedade descontrolada, ainda temos que lidar com o ressentimento por não conseguirmos perseverar em nossos projetos. É precisamente nessa tensão — entre o desejo de mobilidade e a necessidade de constância — que se instala o mal-estar contemporâneo.
Hoje em dia não conseguimos esperar em filas, aliás, se soubermos que tem fila já não aparecemos nesses lugares (há leis que nos protegem desse horror!). Com o tempo precificado, perdê-lo é perder dinheiro, é perder a vida. Até mesmo as gestações maternas - esse símbolo divino - precisam ser apressadas e com o mínimo de impacto possível no corpo da trabalhadora, pois seus objetivos não podem esperar. Casamentos, amizades, relações no ambiente de trabalho, na família, no esporte, todas precisam trazer resultados rápidos.
Nesse contexto, perseverar deixa de ser apenas virtude individual e assume a forma de resistência cultural. Torna-se gesto de maturidade — uma guerra silenciosa contra a lógica da comparação estúpida. É a escolha pela excelência como coerência consigo mesmo, a recusa em transformar o sucesso alheio em medida absoluta da própria trajetória e a responsabilidade assumida pelo tempo que cada projeto exige.
A filósofa Hannah Arendt destacou que a estabilidade das instituições depende de pessoas capazes de assumir compromissos duradouros. As sociedades, as civilizações necessitam dessa virtude. Sem essa capacidade de continuidade, a vida pública se dissolve em impulsos momentâneos. Nesses termos, a perseverança tornou-se um capital simbólico cujo valor está cada vez mais alto.
Quem persevera sabe por que faz o que faz. Não trabalha apenas por visibilidade, mas por coerência. Não se guia apenas por métricas externas, mas por critérios internos. Em ambientes institucionais instáveis — sejam empresas, órgãos públicos ou espaços acadêmicos — essa virtude torna-se decisiva. Ela movimenta o espírito em direção ao propósito: revisa, espera, considera, testa outra vez. Projetos sólidos não nascem de entusiasmos passageiros, mas de compromissos sustentados.
Perseverança também não é resistência irracional à mudança. Ela convive com a capacidade de revisão. O que permanece não são necessariamente as estratégias, mas os princípios. Essa distinção é crucial: mudar métodos pode ser sinal de inteligência; abandonar valores ao primeiro obstáculo é sinal de fragilidade.
Em regiões marcadas por ciclos econômicos intensos e transformações rápidas, como o nosso Centro-Oeste brasileiro, a cultura do esforço sempre desempenhou papel estruturante. No entanto, esforço sem reflexão pode degenerar em mera exaustão. A perseverança ética exige equilíbrio: trabalhar com constância, mas sem se deixar consumir pela comparação incessante ou pela pressa de resultados imediatos.
Talvez a pergunta decisiva seja: o que sustenta uma sociedade quando o entusiasmo acaba? Instituições sólidas, relações de confiança e projetos duradouros dependem menos de picos de motivação e mais de continuidade responsável. A perseverança é a virtude que mantém o tecido social coeso quando a novidade perde o brilho. Não é correr mais rápido, mas saber por que se caminha. Talvez o problema não seja a ausência de oportunidades, mas a falta de fôlego para atravessá-las.
Eduardo S. Leite é historiador, escritor e palestrante institucional.
Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).
|
0 Comentário(s).
|