Cuiabá, Sexta-Feira, 3 de Abril de 2026
GRÁVIDA
26.09.2025 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Surfista interrompe carreira em alta após esgotamento mental

Tatiana Weston-Webb, 29, fez história nas Olimpíadas de Paris 2024 ao trazer para o Brasil a primeira medalha do surfe feminino

Reprodução/Instagram

Tatiana Weston-Webb está à espera da primeira filha

Tatiana Weston-Webb está à espera da primeira filha

HELOÍSA BARRENSE
DO UOL

Tatiana Weston-Webb, 29, fez história nas Olimpíadas de Paris 2024 ao trazer para o Brasil a primeira medalha do surfe feminino, conquistando o 2º lugar no pódio.

 

A surfista vinha de uma temporada de vitórias: um ano antes, no Pan-Americano, foi a vez de trazer o ouro para o país.

 

Mas a contínua ascensão teve uma parada brusca. Por esgotamento mental, Tatiana decidiu que ia dar um tempo na carreira.

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).

A pausa, anunciada neste ano, levou a surfista a encarar uma outra a onda: a da maternidade.

 

Gestando a primeira filha há cinco meses, Tatiana conversou com Universa para contar como está esse novo momento, como foi a decisão do hiato e quais os planos para os próximos meses, que inclui uma mudança internacional e a construção de uma residência fixa no Brasil.

 

Você nasceu em Porto Alegre, mas mora no Havaí desde sempre, adquirindo a cidadania brasileira desde 2018. Como que essas duas identidades influenciou em quem você é hoje, tanto pessoalmente como no esporte?

 

Sou superbrasileira, mas sinto que meu coração mora nos dois lugares. A gente tem uma cultura tão especial no Brasil, e também no Havaí. Só que é um pouquinho diferente porque sei que Brasil é a minha cultura. Sou brasileira, não havaiana.

 

Acho que sem o Comitê Olímpico Brasileiro eu não seria metade da atleta que sou hoje. Com o COB consegui ter esse contato mais com o Brasil. Acho que isso mudou completamente minha carreira.

 

E falando um pouquinho sobre o surfe brasileiro... A primeira mulher que competiu na modalidade foi a Brigitte Mayer, nos anos 1990. Trinta anos depois a gente viu essa modalidade sendo reconhecida como um esporte olímpico.

 

Você começa a sua carreira nesse intervalo. Na sua opinião, desde então, quais foram as conquistas e quais os desafios que as mulheres têm para se manter nesse esporte?

 

Vejo que agora o esporte está crescendo muito, principalmente pelas Olimpíadas. Acho que o governo em si está dando mais valor. Então isso acaba proporcionando muito mais evolução.

 

Hoje em dia vejo muitas mulheres surfando e ficando empolgadas para melhorar no esporte e encontrar o espaço delas na água, ou mesmo sentir aquela confiança.

 

Para mim é sempre sobre isso: encontrar o seu espaço, ter respeito pelos outros e entender que o surfe é para todo mundo, não só pessoas que conseguem competir. É para todo mundo curtir. Realmente o acesso hoje em dia está só crescendo. É muito legal de ver.

 

E você se tornou uma referência para muitas mulheres nesse sentido, com grandes conquistas. Você trouxe a medalha de prata do surfe feminino nas Olimpíadas de Paris no ano passado e em 2023 ainda teve o Pan-Americano, que você ganhou a medalha de ouro.

 

No entanto, esse ano, você anunciou que faria uma pausa na carreira. Como foi para você perceber que, mesmo nesse lugar de sucessivas vitórias, era momento de dar um passo para trás?

 

Na verdade, foi super difícil. Senti que tinha me esforçado muito nesses últimos anos e que tinha dado certo. A gente tava lutando atrás de um objetivo e conseguimos.

 

E falo no plural porque não foi só o meu sonho, mas o sonho do meu marido, da minha família, de todo mundo no Comitê Olímpico, de quem estava me acompanhando, ajudando.

 

Então, para mim foram anos com muita dedicação, muito tempo focada numa coisa só e com certeza foi muito trabalho bem feito, mas uma hora a gente cansa.

 

Chegou um ponto nesse ano que comecei a conversar mais com minha psicóloga. Eu falava: 'Olha, tô sentindo que na hora que entro na bateria [de ondas] estou com um plano claro, mas me dá um branco. Meu cérebro não está funcionando e sinto que estou até fazendo o oposto do que era para fazer.' E ela já meio que deu um passo para trás e falou que não era um bom sinal.

 

Para mim, nesse estado em que eu estava, até que atuei bem, mas não teve resultado. Depois rolou torneio em Portugal e eu falei para ela que não estava me sentindo dedicada.

 

Ali também estava enfrentando um luto. O meu film maker, quem viajou comigo por três anos, morreu. Foi um momento bem triste das nossas vidas. Então, com tudo isso acontecendo, a minha psicóloga disse que ali eram os primeiros sinais que eu tava tendo um burnout. E ela falou: 'Se você continuar, tem grande chance de que você só vai piorar e nunca mais vai querer surfar e competir de novo'. E me sugeriu parar esse ano e voltar quando eu estivesse pronta.

 

Quando ela me falou isso, entendi que era verdade. Não estava conseguindo fazer o que amo com aquela felicidade de sempre. Foi um momento bem triste porque nunca tive uma "fraqueza mental", vamos dizer assim.

 

Sou muito forte mentalmente. E é uma coisa que acontece na vida que você fica realmente mais triste e emocional. Daí decidi tirar essa pausa porque estava com medo de nunca mais querer competir.

 

Acabou que mudaram o calendário dos torneios do próximo ano. E eu e meu marido [o surfista brasileiro Jessé Mendes] tínhamos o sonho de criar uma família. O meu marido me perguntou se eu estava feliz comigo, com os meus resultados. Eu disse que sim, que gostaria de competir de novo e estava feliz com os meus resultados.

 

Óbvio que vai ser superdifícil voltar e tem fatores burocráticos que estamos esperando. Mas por enquanto tô sentindo que a gente tá vivendo realmente cada momento conforme ele tá vindo e estamos nos sentindo super bem com as nossas decisões. Como surfista e atleta, sou superorgulhosa de tudo que fiz até agora. Se eu conseguir voltar, seria ótimo.

 

E como que tá sendo para você essa questão da maternidade? Como tá a sua rotina?

 

Essa parte é uma loucura para mim, porque obviamente que minha vida, nesses últimos 15 anos, sempre foi muita correria. Agora, eu tenho mais tempo. Só que é diferente. Tô curtindo muito esse tempo porque sei que logo vai retornar esse ritmo bem acelerado. Então tô aproveitando os momentos mais devagar, mas como atleta ainda tô treinando, fazendo entrevista, produzindo conteúdo para os meus patrocinadores.

 

Graças a Deus, todo mundo tá me apoiando muito. Por enquanto tá tudo mais ou menos normal. Tô ainda surfando, mesmo com 5 meses de gestação. E isso é uma benção enorme. O pessoal olha e fala: 'Nossa, como que consegue surfar com esse barrigão'?

 

Sim, foi justamente isso o que imaginei. Como que tá sendo surfar grávida?

 

E como estão os planos agora? Alguns jornais de Santa Catariana deram a notícia que você estava pensando em fixar uma residência em Garopaba. É uma intenção mesmo vir morar aqui no Brasil?

 

Estamos nos mudando para o Brasil agora em novembro! Queremos que a nossa filha nasça no Brasil. Alugamos uma casa, porque a nossa está em construção ainda. Era a única coisa que nos limitava a fazer a mudança. A ideia é ficar no Brasil por um tempo.

 

Óbvio que tudo depende de como vai ser o wildcard [convite especial feito a um surfista para que ele compita sem ter se qualificado por meio do ranking do circuito principal]. Então, dependendo de como for, posso ficar seis meses em Garopaba e depois começar a viajar de novo. Mas é parte dos nossos planos ter uma base lá, com a minha casa aqui no Havaí.

 

E por que escolher o Brasil para dar à luz?

 

Tem várias razões. Foi uma decisão superdifícil porque tenho muitas amigas que trabalham no hospital, no departamento de nascimentos mesmo. Então, poderia ter muitas pessoas especiais em um momento especial. Foi triste de falar sobre a decisão.

 

Mas, mesmo que eu tenha meus pais aqui no Havaí, sentimos que temos um pouco mais de apoio lá no Brasil. E para mim é no Brasil que existe um tipo de medicina que prefiro, que gosto mais.

 

Aqui nos Estados Unidos até deixam você fazer parto natural, mas é muito mais comum ter um "intrometimento", de fazer coisas que você realmente não quer que eles façam, para seguir um protocolo.

 

Então, busquei e encontrei uma médica brasileira que gostei bastante. E ela já está me acompanhando.

 

Além disso, a reabilitação e a fisioterapia, gosto muito mais no Brasil, fora o fato que é junto ao meu time do Comitê Olímpico Brasileiro. São vários fatores, mas principalmente porque a gente sente mais apoio no Brasil.

 

Fonte: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2025/09/25/entrevista-tatiana-weston-webb.htm

 




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
0 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia