Dois rapazes da cidade de São José do Egito, no sertão de Pernambuco, se chocaram dirigindo suas motos. Os dois, que não se conheciam, vieram para o mesmo serviço de trauma do hospital onde trabalho. Os acidentes foram graves, com politraumatismos e fraturas expostas. Ambos têm apenas 21 anos e o que sofreu lesão da coluna cervical me informou que estava tão alcoolizado que teve um apagão. Não se lembra de nada que aconteceu. Habituado a uma rotina de enfermaria de guerra, me choquei com a irresponsabilidade dos jovens e com a violência como se agrediram. Lembrei dois cavaleiros medievais investindo de lanças em riste, um sobre o outro. Só que os cavaleiros se cobriam com armaduras de ferro e os rapazes apenas com a roupa leve do corpo.
Nosso serviço de traumatologia, que até bem pouco tempo contava com 170 leitos, é um dos maiores do nordeste. Ainda não foi feito nenhum trabalho estatístico sobre os tipos predominantes de traumas e uma análise das circunstâncias em que aconteceram. Isso é lamentável. Numa análise grosseira, sobressaem os acidentes com motos, que chamam atenção pela gravidade e pela faixa etária dos envolvidos, quase sempre homens jovens em idade produtiva.

Motociclista abusa da imprudência, a mais de
100 km por hora, em estrada (foto: Carlos D'Ávila/vc repórter)
Não há estatísticas sobre os casos em que os motoristas dirigiam embriagados, sem capacete, sem os espelhos laterais das motos - que são retirados com frequência -, sem roupas adequadas, em alta velocidade, nem se ultrapassavam o sinal vermelho. Talvez os números revelassem imprudência e descontrole. Basta andar um único dia pelas ruas do Recife, ou pelas cidades do interior de Pernambuco, para constatar o perigo a que se expõem esses motoristas, na maioria das vezes sem habilitação, e o risco em que põem a vida alheia.
Os acidentados se afastam do trabalho e recebem o benefício da previdência. Geralmente ficam improdutivos por muito tempo, com sequelas definitivas e irremediáveis, quando não se tornam inválidos. Não passamos por nenhuma grande guerra recente, mas possuímos o nosso exército de mutilados. Um grande exército, que cresce todos os dias, sem um único herói.
Quem vai pagar a elevada conta da previdência social? Até quando vamos suportar pagá-la. É urgente um levantamento estatístico em todo Brasil para sabermos em que proporção cresce o número de inválidos por acidentes de motos e automóveis. Mais urgente seria prevenir esses acidentes, criar uma política de educação e de punição aos transgressores da lei. Mas não vemos nada parecido com isso e remediamos o que não tem cura.
Os hospitais públicos mudaram seus serviços de ortopedia em traumatologia. Como programar cirurgias eletivas, se não temos leitos suficientes nem para atender a demanda de traumas? O crescimento do poder de compra tornou fácil adquirir uma moto. Ela se tornou um meio de transporte essencial, num país em que o transporte urbano é uma calamidade. E também um meio de ganhar a vida para milhares de brasileiros. Faltam campanhas de educação no trânsito e fiscalização dos motoristas para que as motos não se transformem em instrumentos de guerra e morte.
|
0 Comentário(s).
|