Livro arquivo do Palácio do Comércio
O primeiro prédio comercial de Cuiabá, com mais de meio século de história, foi erguido em uma localização privilegiada. Além de marcar o início da verticalização da Capital, conserva até hoje uma das mais belas vistas da cidade, com direito a uma visão panorâmica de 360 graus.

A reportagem do MidiaNews visitou o 15º andar do Palácio do Comércio e foi recebida pelo presidente da ACCuiabá (Associação Comercial e Empresarial de Cuiabá), também subsíndico do edifício, Jonas Alves. Segundo ele, o prédio foi, é e continuará sendo “o prédio ícone da arquitetura de Cuiabá”.
O prédio possui duas sobrelojas, 15 andares e áreas comerciais no nível da Avenida Getúlio Vargas, totalizando 17 pavimentos e 63 conjuntos comerciais, que hoje abrigam advogados, contadores e diversas entidades empresariais.
Rodeada por amplos vidros, a sala deixa Cuiabá “aos nossos pés” e a perder de vista. De um lado, surgem os contornos da Chapada dos Guimarães e do Morro de Santo Antônio. Do outro, é possível ver o alinhamento das paróquias São Gonçalo, Nossa Senhora Auxiliadora e Nossa Senhora do Bom Despacho, além do crescimento assimétrico de Várzea Grande.
Em uma das direções, a vista alcança a escadaria do Morro da Luz. Em outra, de “camarote”, a Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus e a densa arborização da Praça da República. Mais ao longe, entre dois prédios, é possível enxergar parte da Arena Pantanal, o Cemitério da Piedade e o Baalbek Cuiabá, ainda em construção, considerado o prédio mais alto de todo o Centro-Oeste.
Segundo Alves, é possível enxergar até os aviões decolando e taxiando na pista do Aeroporto Internacional Marechal Rondon.
“É uma delícia, eu gosto muito e todas as pessoas que vêm aqui se encantam com essa vista. Você enxerga 360 graus de Cuiabá e, pelo tombamento do Centro Histórico, nós teremos essa vista para sempre no Palácio do Comércio”, afirmou o presidente.
Alves explicou que, como o prédio é alto e toda a região ao redor é tombada como patrimônio histórico e cultural pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nada poderá ser construído no entorno, a menos que a legislação seja alterada, “o que seria um absurdo”, disse.
Para ele, o Palácio do Comércio é um símbolo da verticalização da cidade: “Depois dele, vieram todos os outros”.
“O Palácio do Comércio é o melhor endereço que se tem para se estabelecer. [...] Espero que ele continue atual e siga cumprindo sua função, que é abrigar grandes profissionais dentro do Centro Histórico, porque tudo converge para o centro”, afirmou.

União de esforços
O Palácio do Comércio foi inaugurado em 1975 e nasceu do sonho de uma sede própria para a ACCuiabá — fundada em 1912 e considerada a entidade empresarial mais antiga de Mato Grosso.
Registros da associação mostram articulações que remontam a 1944, quando teve início a arrecadação de recursos para viabilizar o projeto. À época, foi feito um empréstimo junto aos sócios da ACCuiabá, no valor de CR$ 30 mil (cruzeiros), para completar o montante necessário à compra do prédio onde funcionava a sede provisória da entidade.
Para Alves, a Associação sempre teve papel central no desenvolvimento econômico de Mato Grosso. De dentro dela surgiram outras entidades empresariais importantes, como a Federação do Comércio e a Federação da Indústria, formadas por empresários que integraram diretorias da ACCuiabá.
A entidade chegou a fundar a Construtora do Comércio para disputar licitações públicas e garantir que obras fossem executadas por empresas locais, em um período em que construtoras do Rio de Janeiro e de São Paulo dominavam o mercado.
Segundo Alves, a construção do Palácio foi resultado de uma “união de interesses”. O projeto arquitetônico foi elaborado pela Seteplan Serviços Técnicos Planificados Ltda., de São Paulo, e a obra executada pela Companhia de Engenharia Civeletro Ltda.
“O escritório de São Paulo trouxe uma visão muito moderna para a época. Você imagina esse prédio todo com vidro. É só olhar os prédios de antigamente e comparar com o Palácio do Comércio: o formato e a arquitetura embarcada são algo atual”, disse.
Processo degenerativo
Atualmente, o principal desafio enfrentado não apenas pelo Centro Histórico de Cuiabá, mas por centros históricos de todo o país, segundo Alves, é o “esvaziamento”. Para ele, a desocupação gera um “processo degenerativo”, que só pode ser revertido com políticas públicas, incentivos fiscais e a reocupação dos espaços. Nesse contexto, o Palácio do Comércio surge como peça central.
Yasmin Silva/MidiaNews
Vista do 15° andar do Palácio do Comércio, localizado no Centro de Cuiabá
“O Centro Histórico tem sido esquecido nos últimos anos pelo poder público. Existe um compromisso do governo atual em cuidar disso, por meio do secretário Porto Carreiro. Temos discutido muito e feito reuniões constantes”, afirmou.
Entre as propostas debatidas estão a transformação do Morro da Luz em um jardim botânico, a recuperação dos casarões históricos e a ocupação efetiva do Centro Histórico.
“Nós estamos discutindo, inclusive, incentivos fiscais para as empresas que se instalarem aqui, para motivar especialmente setores de serviços, tecnologia e educação, para que venham e ocupem o Centro Histórico, porque essa desocupação está criando um processo degenerativo”, disse.
O Palácio do Comércio não é um prédio tombado, mas, por estar inserido no entorno protegido, segue uma série de restrições impostas pela legislação federal para não impactar a estética do conjunto. As limitações afetam intervenções como letreiros, faixas, cores e exigem autorização prévia para qualquer alteração significativa.
Um exemplo recente foi a troca das esquadrias de aço por alumínio no terceiro andar, processo que levou cerca de dois anos até a liberação do Iphan. Outro é a pintura externa prevista para este ano, na qual a associação poderá escolher apenas entre uma paleta de até seis cores.
“A legislação federal que cuida do patrimônio histórico é bem rígida e, de alguma maneira, precisa flexibilizar, modernizar, atualizar. O patrimônio é superimportante, temos que cuidar mesmo, porque a história está ali, mas a gente precisa facilitar até para que esse patrimônio seja preservado”, afirmou.
“O nosso sonho é fazer um grande retrofit [revitalização e modernização] no prédio, internamente, porque a estrutura é muito boa e a gente consegue atualizar. O prédio está mais judiado por fora do que por dentro. Por dentro, ele funciona muito bem”, disse.
Os planos para o futuro incluem a modernização das redes elétrica e hidráulica, hoje com manutenção em dia, além da substituição das esquadrias de aço por estruturas mais leves em todo o edifício e melhorias na vedação acústica.
Apesar das limitações legais, o prédio passa por manutenções constantes. Nos últimos 15 anos, os elevadores foram modernizados, com troca de maquinários e implantação de sistemas computadorizados, além da adequação às normas do Corpo de Bombeiros, com instalação de portas corta-fogo, sensores de fumaça, hidrantes revisados e sprinklers em áreas maiores. Toda a parte elétrica das prumadas também foi revisada, garantindo segurança e alvará de funcionamento regular.
“O desafio é a ocupação do Centro Histórico, trazer as pessoas e resgatar o interesse. O Palácio do Comércio é um edifício onde as salas são amplas. Hoje, constrói-se salas de 20 ou 30 metros quadrados. Aqui, temos salas de 50, 60, 63 metros. É um espaço muito generoso”, disse.
Para Jonas Alves, o legado do Palácio do Comércio é abrigar grandes profissionais no coração da cidade e manter vivo o Centro Histórico. “Uma cidade funciona convergindo para o centro”, afirmou.
Em pé, firme e ativo, o prédio mais antigo do comércio cuiabano resiste ao tempo e às transformações urbanas.
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