A jornada de trabalho dos agentes prisionais pode ser um dos fatores que ajudam a explicar o grande déficit de mão-de-obra no setor e a atual crise do sistema penitenciário de Mato Grosso.
De acordo com a Lei Complementar nº. 389, de 31 de março de 2010, que estabelece a carga horária dos agentes, a cada 24 horas trabalhadas, eles descansam 72 horas – além de ter direito a mais um dia de descanso por mês.
O resultado é que o agente só trabalha seis dias por mês, informação que foi confirmada pela Secretaria de Estado de Gestão.
Como o trabalho não pode deixar de ser feito, o Governo precisa contratar cinco agentes se quiser contar com o serviço de apenas um.
Para piorar a situação, dos 2.500 agentes prisionais de Mato Grosso, em média, 400 entram de licença ou saem de férias todos os meses.
O Governo do Estado já anunciou que lançará, ainda neste primeiro semestre de 2016, um concurso público para contratar novos agentes prisionais.
Segundo uma fonte do governo, o Executivo também já trabalharia para revisar a Lei nº. 389, pois, segundo ela, “nem os policiais militares, que têm um serviço muito mais estressante e extenuante, têm tantas folgas quanto os agentes prisionais”.
Mato Grosso tem hoje 57 unidades penais onde se espremem 10.800 presos. São 6,5 mil a mais do que a capacidade máxima.
Na Penitenciária Central do Estado, em Cuiabá, que é a maior unidade, os atuais 1.800 presos se apertam nas 900 vagas disponíveis.
O número de agentes penitenciários está diretamente relacionado à segurança nos presídios, uma vez que uma quantidade maior sempre acaba inibindo fugas e rebeliões – além da entrada de drogas, celulares e até armas brancas.
Em razão da pressão que sofrem no dia-a-dia, os agentes marcaram paralisações como uma forma de forçar o governo a contratar mais gente.
Em Mato Grosso, mais de 60% dos 10,8 mil presos são “provisórios”, ou seja, estão na cadeia ou na penitenciária aguardando julgamento pelos mais diversos crimes. O percentual é bem superior à média nacional: segundo o Ministério da Justiça, 41% dos presos brasileiros são provisórios.
De acordo com o secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Márcio Dorilêo, o número de presos de Mato Grosso é muito flutuante devido a esse fator, mas a “falta de investimentos em gestões anteriores” deixou o sistema estagnado.
“Vamos criar mais de duas mil vagas nos próximos dois anos, mas o déficit hoje é 6,5 mil”, afirmou.
Segundo ele, o problema só não é maior em razão de medidas judiciais alternativas à prisão, como o uso de tornozeleiras eletrônicos e liberdades condicionais.
As audiências de custódia, em que um juiz decide pela liberdade ou não de presos “menos perigosos”, também minimizaram a situação desde que foram implantadas em Mato Grosso, em julho do ano passado.
“As audiências de custódia são muito importantes no contexto brasileiro, já que somos o quarto país do mundo que mais encarcera”, afirmou.
Para Márcio Dorilêo, essa lógica não vai mudar tão cedo, em razão dos altos índices de criminalidade. "A segurança pública é uma prioridade da nossa gestão, então estamos nos preparando para aumentar os investimentos não apenas nas polícias, mas na qualidade do encarceramento”, afirmou.
A comparação dos orçamentos das secretarias de Segurança, que é a que combate o crime, com a de Justiça, que é a que cuida dos presos, mostra isso claramente. Enquanto a primeira tem hoje R$ 2,2 bilhões para gastar, a de Justiça tem R$ 400 milhões.
Parcerias
Segundo ele, o Governo do Estado estuda fazer novas parcerias com a iniciativa privada para utilizar a mão-de-obra de presidiários e tentar diminuir os custos com cada “reeducando”, que hoje é de R$ 2,5 mil por mês.
Há hoje, em Mato Grosso, cindo presídios em construção: em Peixoto de Azevedo (260 vagas); Porto Alegre do Norte (300 vagas); Sapezal (300 vagas); Juína (170 vagas); e Várzea Grande (1.008 vagas).
Quando pronta, dentro de dois anos, a unidade de Várzea Grande será a maior de Mato Grosso. Ela vai custar R$ 24 milhões, sendo R$ 19 milhões do governo federal e R$ 5 milhões dos cofres estaduais.
Outro lado
De acordo com o presidente do Sindicato dos Servidores Penitenciários do Estado de Mato Grosso (Sindspen-MT), João Batista, é preciso ponderar que, se somar as horas trabalhadas dos agentes, “vai dar 40 horas semanais, como todo trabalhador comum”, afirmou.
“Trabalhamos 24 horas diretas, sob a ameaça de morte dos presos. Temos a 2ª profissão mais estressante do mundo, segundo a ONU”, disse o sindicalista. “Por isso o alto número de licenças e a necessidade de um novo concurso na área”.
Segundo ele, em Mato Grosso os agentes penitenciários não ficam apenas na portaria dos presídios, como acontece em alguns estados. E haveria situações em que cinco ou seis agentes chegam a cuidar de 400 presos. “Só não temos rebeliões por causa do sacrifício dessas pessoas. Aqui nós fazemos revistas, serviço de inteligência, escolta para audiências e tratamento de saúde, além de escoltas de presos que trabalham”, afirmou.
Na Penitenciária Central, diz ele, há, em média, a movimentação de 300 presos por dia.
Não há novas paralisações previstas, segundo João Batista, uma vez que o governador Pedro Taques “compreendeu a necessidade da realização de um novo concurso e já se comprometeu em dar celeridade”.
Serão abertas, em todo o estado, cerca de 800 novas vagas.
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51 Comentário(s).
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| gracieli 11.03.16 09h50 | ||||
| É fácil falar vai viver a realidade,trabalhando em 3 no corredor, e depois tirar torre. | ||||
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| Maxmiliano Meira Brito Bezerra 09.03.16 18h10 | ||||
| Nessa matéria é importante deixar claro que trabalhamos numa carga horária de 24 por 72 hrs, ou seja em plantões, ou seja a carga horaria de 8 hrs diárias por 3 dias é concentrada em um plantão de 24 horas, por esse motivo folgamos 3 dias, esses 3 dias é pra recuperar os danos emocionais e a tensão de manter-se por 24 numa penitenciaria, um estabelecimento deste nunca para, se o plantão cai no natal estamos lá, virada do ano (01/01) de cada ano estamos também, não tem feriado pra plantonista, se a carga horária fosse menor o numero de efetivo seria grandiosamente maior, além dessa folga ser necessária pra recuperar a mente do trabalhador, tenho certeza que quem fez essa matéria tem que rever informações, só não foi pior graças ao presidente do sindicado que apesar da pouca fala na matéria, porém ele conseguiu na sua acertada e minima fala, passa ideia sobre como funcionar a carga horaria e quão grande, estressante, insalubre e arriscado, é, trabalhar em penitenciarias e cadeias. o agente merecia sinceramente ganha no minimo 5 mil reais inicial, isso seria o minimo do minimo. | ||||
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| Gilson severino da silva 09.03.16 17h22 | ||||
| essa falta de agente é considerado,se tivéssemos uma escala de oito horas trabalho e só fazer a conta de quantos agente o estado tinha de contratar o triplo de agente foi uma forma do governador economizar com funcionário. | ||||
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| Gilciney mendes gomes 09.03.16 09h56 | ||||
| bom dia, primeiramente gostaria de saber quem esta por traz desta matéria, visto que não conhece a realidade dos servidores penais que trabalha em uma jornada de 40 horas semanais junto a vários problemas da sociedade, aqui deixo o meu convite a quem fez esta publicação e ao secretario de justiça e DH.. ao invés de falar mal da categoria, pegue um colete entre no pavilhão faça uma intervenção, faça igual o secretario de segurança publica ao qual muito admiro, vai as operação, conheça o trabalho de seus subordinados, pare de inventar e comece a trabalhar para um pais melhor, a população espera mais dos senhores. | ||||
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| Douglas 09.03.16 09h28 | ||||
| Senhor Rogério, engraçado, o trabalho da PM era tão bom que após os Agentes Penitenciários assumirem a função armada e a guarda das Unidades Penais, diminuiu-se substancialmente o numero de fugas, os percentuais de apreensões de substâncias entorpecentes e outros ilícitos no interior das unidades vem sendo coibido com maior eficácia, além de permitir a execução do trabalho precípuo da execução penal que é o de rehabilitação do ser humano, dentro do que é exigido pelas leis, convenções e acordos internacionais atinentes à dignidade humana. A Administração Penitenciária compreende fronteiras de proporções infinitamente maiores do que a função ostensiva da qual se ocupa a Polícia Militar, até pelo caráter de suas funções, que são completamente diferentes, e é claro, necessárias, do que a tipicidade do exercício do poder de polícia contenciosa e educativa exercida pelo Servidor Penitenciário. Resumindo: Ado, ato, cada um no seu quadrado! P.S. Senhor Repórter, faça-nos um imenso favor, quando buscar informações, antes de veícular uma matéria, as faça em fontes seguras e precisas. A mídia tem papel de suma importância na formação de opinião e fator preponderante de resposta aos anseios sociais nesse mister, por esta razão a informação precisa necessariamente ser tratada com maior cuidado. Não obstante, agradeço à Redação pela preocupação de estar divulgando e informado nossa sociedade, abraços! | ||||
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