Mike Haitiano
O modesto salão de beleza na Avenida Dante de Oliveira, no Bairro Pedregal, não se difere muito de tantos outros que existem nos bairros de Cuiabá. Mas é só pedir por um corte que o sotaque do cabelereiro anuncia: Eniel Gachette é haitiano. Ou melhor, um haitiano que virou cuiabano. E além das fotos de corte de cabelo e espelhos, as paredes do seu salão resgatam sua nacionalidade com seus quadros patrióticos e saudosistas.
“Eu tenho bastante cliente brasileiro, mas o povo que mais vem aqui é haitiano. Eles [cuiabanos] vêm aqui cortar o cabelo e aí descobrem. Às vezes, alguém que não conhece aparece aqui e chega, e descobre. Corta o cabelo e diz: ‘Rapaz, você corta bem, vou voltar mais vezes’”, conta também o artista de 29 anos.
Depois de confeccionar roupas com seu pai no Haiti, uma ilha que ainda sentia os efeitos de um terremoto devastador em 2010, Eniel Gachette buscou a sorte no País vizinho, a República Dominicana. Ainda sob o sol caribenho, o rapaz continuava sonhando com dias melhores. Até que ouviu o conselho ousado de um amigo: mudar-se para o Brasil.
Eniel então atravessou mais de 8 mil quilômetros e veio buscar refúgio no coração da América do Sul. Até o dia 29 de março de 2013, a Capital mato-grossense era desconhecida para ele. Hoje, quatro anos depois, já se tornou um novo cuiabano, que inclusive, vê o nosso calor como uma forma sinestésica de voltar a sentir o clima do Haiti. "Cheguei aqui e não sai mais. Eu tinha ouvido falar que nos outros estados é bem frio, e eu pensei “puxa, eu gostei daqui”, o clima é quase igual o da minha terra, mas aqui é mais quente", comenta.
Alair Ribeiro/MidiaNews
Após ficar desempregado, Eniel juntou dinheiro e investiu no negócio próprio
“Depois do terremoto, nosso País estava em crise de trabalho. As pessoas têm a vida para viver, mas quem tem um pensamento de ter uma vida melhor, sempre pensa no futuro", conta.
Junto com outros 2 mil haitianos, Eniel veio para Cuiabá incentivado pelas obras da Copa de 2014, em busca de uma vida melhor.
“Trabalhei nas obras [da Copa]. No início, quando cheguei aqui, a primeira coisa que a gente tem que fazer é aprender a língua. Se você não sabe falar, é uma dificuldade. Trabalhei dois anos em uma empresa de carpintaria e, graças a Deus, em todas as obras em que trabalhei, eu sempre fui bem recebido”.
“A primeira empresa em que trabalhei, onde passei três meses, não gostei muito do emprego. Então busquei pelo melhor. Na época não dava para mim. O salário era muito baixo. Então eu falei com o patrão e foi tranquilo. Aí eu fui trabalhar em outra empresa e aconteceu a mesma coisa, salário baixo. Me mudei para outra, ainda de construção civil. E pensei: ‘Tudo bem, vou ficar aqui, porque não tem mais o que fazer’”, lembra
Poliglota – hoje fala crioule, francês, espanhol e inglês - , o cabelereiro e artista relembra a principal dificuldade ao chegar em Cuiabá: a língua. Ele, que aprendeu o português apenas ouvindo, concluirá o Ensino Médio no mês que vem, para garantir um diploma nacional.
“Na língua portuguesa, para nós haitianos, o mais complicado é o “r”. Pra alguns de nós, que morávamos na República Dominicana, tem essa dificuldade de pronunciar “r” na hora de falar, porque quem fala o espanhol castelhano na república dominicana, o “r” dele é igual “l”. Aí vem uma dificuldade com as palavras que tem “r”. Hoje em dia, o português é uma das línguas que eu amo. Cada língua que eu aprendi a falar, tenho paixão”.
Passada a Copa, os empregos também cessaram. Foi quando o sonho de um negócio próprio - junto com o dom de desenhar e cortar cabelo - se concretizou. O salão e estúdio de arte é hoje um reduto nostálgico do Haiti, onde quadros de heróis haitianos estão nas paredes. Ele atende a todo público, homens, mulheres, cabelos lisos ou crespos e ainda é especialista em penteados afros, como dreads e tranças.
O jovem, que sempre pensa no futuro, explica que o nome "Mike Designer" e também seu pseudônimo, é, na verdade, o nome que dará a seu filho.
“Acabou o emprego e como eu trabalhei por dois anos sem pegar férias, decidi passar um tempo sem trabalhar, pra descansar. Depois eu falei: ‘Cara, eu vou ter que fazer alguma coisa’. Então quando eu estava procurando emprego novamente, apareceu um rapaz que tinha esse salão aqui, que estava vendendo. Eu disse que era cabeleireiro e artista plástico. Daí comprei o salão e fiquei com ele. Até hoje estou aqui, segurando as pontas”.
Alair Ribeiro/MidiaNews
François Capois, um dos heróis haitianos pintado por Eniel
“Eu sou um cara que gosta de movimentar, não gosto de sentar muito. Como na segunda, terça, quarta e às vezes quinta, não tem tanto movimento, eu abro sexta, sábado e domingo. Tenho bastante cliente brasileiro, mas o povo que mais vem aqui é haitiano”, conta.
Eniel também realiza eventos junto com outros haitianos. Ele revela que, além de pintar, seu sonho era ser apresentador. Com outros colegas, formou o grupo Clenmi Selfie Show, de apresentações individuais de comédia.
Dentre as atividades culturais que o artista participou, estão também as datas comemorativas do Haiti, como o Dia da Bandeira e a Abolição da Escravidão. Eniel já teve até mesmo uma exposição de suas obras no Museu Histórico de Mato Grosso, que durou um mês.
“Desenho pra mim é uma diversão, um dom que Deus me deu e eu faço sempre alguma coisa. Mas meu sonho é ser um apresentador de programa, porque eu gosto de atividades culturais. Eu sou comediante também. Nós temos um show que fizemos aqui, um selfieshow, em que você apresenta e fala sobre você, ao vivo. Já apresentamos em vários lugares, sendo a primeira na UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), no Centro Comunitário do Carumbé e a última vez foi no Cine Teatro”.
“Em 1996, acho que com oito anos, participei de um concurso de desenho e fiquei em primeiro lugar. Em 2002 eu parei de desenhar, porque meu pai não gostava. Ele queria que eu fosse um médico, agrônomo. Voltei a desenhar quando vim para o Brasil. Teve até exposição minha em um museu em Cuiabá", afirmou.
Questionado se pretende ir ou ficar, Eniel é categórico: não tem data definida e por enquanto, gosta da sensação de se sentir parte de Cuiabá.
"Eu sempre respondo que pretender voltar, eu pretendo. Mas eu sempre digo que sou Cristão, então, eu estou dependendo da vontade de Deus, ou de uma família. Se eu tiver uma esposa brasileira, que mora aqui, eu ficarei ao lado da minha esposa. Se ela tem uma visão de morar em outro país, vamos onde ela quiser. Então previsão de ficar aqui no Brasil, por quanto eu não tenho ideia, isso aqui depende de Deus".
Sobre o que mais sente falta do Haiti, o artista responde que são as praias, já que morava em uma ilha e vivia cercado delas. Agora, Eniel em seu salão cercado por pinturas de ídolos da nação Haitiana, busca ser herói da sua própria história, no lugar que é o mais equidistante do mar da América do Sul.
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1 Comentário(s).
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| Jully Esther 07.08.17 10h59 | ||||
| Parabéns...você irmãozinho está dando um show em vários brasileiros. A minha Secretária do Lar também é Haitiana e há 2 anos e meio trabalha em minha casa. Vou dizer damos á ela nota 1000 pirque é muito responsável nunca faltou um dia de serviço, asseada de muita confiança. | ||||
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