Às vésperas da celebração da Páscoa, o diácono Pedro Henrique, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, chama atenção para aquilo que considera um esvaziamento do sentido religioso da data entre parte dos fiéis. Para ele, a principal celebração do calendário cristão tem sido cada vez mais associada apenas ao descanso prolongado e aos compromissos do feriado.

“As pessoas viajam, muitos católicos vão embora para outro lugar, pensam: “É o feriadão, vamos curtir o feriado”, e se esquecem de que todo o nosso tempo litúrgico, toda a vida da Igreja, gira em torno do sagrado Tríduo Pascal, da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor", disse em entrevista ao MidiaNews.
Segundo ele, embora ainda exista participação nas celebrações, muitas pessoas já não compreendem plenamente o significado espiritual do período. "A Páscoa, para nós cristãos, não é só uma representação. É reviver os seus últimos passos de Cristo nesta Terra".
A poucos dias de ser ordenado padre, em cerimônia marcada para o próximo dia 11, o diácono também falou sobre o papel da Igreja diante das mudanças sociais e do comportamento contemporâneo, especialmente no modo como a fé precisa ser comunicada a diferentes públicos.
Ele ainda comentou sobre a presença católica nas redes sociais, avaliou fenômenos recentes de evangelização digital, defendeu maior proximidade da Igreja com os jovens e refletiu sobre como tradição e comunicação precisam caminhar juntas para que a mensagem religiosa continue alcançando quem está fora dos espaços habituais de celebração.

MidiaNews - O que a Páscoa representa para os católicos nos dias de hoje? Na sua avaliação, há risco de a data estar perdendo o sentido cristão?
Diácono Pedro Henrique - A Páscoa, para nós cristãos, não é só uma representação. É reviver os seus últimos passos de Cristo nesta Terra. Então somos nós, junto de Cristo, sobretudo na Semana Santa, a Quaresma como um todo, o tempo litúrgico como um todo, estarmos com Ele e vivermos com Ele os seus últimos passos.
Na quinta-feira, quando Cristo inicia a sua paixão, digamos assim, na sexta-feira, quando Ele morre por nós, e no sábado, naquela espera silenciosa, do silêncio sepulcral, em que aguardamos, com a Igreja, a ressurreição de Cristo. E existe o risco, sim, de estarmos perdendo isso, ou melhor, de o mundo estar perdendo um pouco disso. Podemos ver isso de modo bastante amplo.
As pessoas viajam, muitos católicos vão embora para outro lugar, pensam: “É o feriadão, vamos curtir o feriado”, e se esquecem de que todo o nosso tempo litúrgico, toda a vida da Igreja, gira em torno do sagrado Tríduo Pascal, da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor.
MidiaNews - Como a Igreja tem buscado aproximar os jovens do significado espiritual da Semana Santa?
Diácono Pedro Henrique - Tem um movimento na Igreja que cresce, não é novo, mas também é novo, que é a Pascom, com a Pastoral da Comunicação. Isso tem impulsionado os jovens a voltarem para a Igreja, a participarem mais ativamente dela. É um movimento em que, sobretudo na Semana Santa, os jovens se dedicam ao máximo para transmitir e registrar cada passo, cada momento desse período. Então, esse seria um dos meios que a Igreja busca para aproximar.
E os jovens que gostam, que amam tecnologia, eu sou jovem, então também gosto, se dedicam bastante a isso. É um meio que a Igreja encontra para acolhê-los, trazê-los e mantê-los na Igreja.
MidiaNews - Como enxerga a forma como os cuiabanos vivem a Quaresma e a Páscoa? São mais fervorosos? É diferente de outras cidades?

Diácono Pedro Henrique - Eu sou cuiabano de chapa e cruz, por isso sou suspeito para dizer, mas Cuiabá tem uma piedade popular muito forte. Nós acompanhamos, por exemplo, a procissão do Senhor dos Passos, que se encontra com a Virgem das Dores, e isso é muito forte na nossa cultura cuiabana, na fé do povo.
Conheço uma ou outra cidade, conheço algumas práticas religiosas da Semana Santa, mas para mim, com toda certeza, Cuiabá tem um destaque, porque é a minha cidade, mas também porque esse movimento é bonito, é forte, todo mundo para e se dedica a isso, a contemplar junto da Virgem das Dores e de seu Filho, que se entrega por nós para morrer e ressuscitar.
MidiaNews - Como os pais podem ensinar os filhos, ainda pequenos, a enxergar o sentido cristão da Páscoa?
Diácono Pedro Henrique - Eu sempre digo às pessoas que nós ensinamos muito pelo testemunho. Tem uma frase atribuída a um santo, não me lembro agora qual, que diz: pregue o Evangelho; se necessário, use palavras. Nós precisamos ensinar os outros pela prática da fé, pela prática do Evangelho, não necessariamente só com palavras. Os pais, com os filhos, também precisam falar.
Mas acredito que o primeiro meio para que os filhos cresçam conscientes da fé é, de fato, verem pais que testemunham a fé, que vivem a fé. Pais que vão para a igreja, por exemplo, na Quinta-feira Santa, e ali testemunham isso para o filho. Depois, conforme o tempo vai passando e os filhos vão crescendo, eles explicam a razão de cada coisa. Mas cada coisa ao seu tempo.
Enquanto estão na primeira infância, digamos assim, ou na segunda infância, o principal é que os pais testemunhem a fé.
MidiaNews - Temos visto sinais de crescimento da fé católica em diferentes regiões do Brasil. Percebe esse movimento aqui em Cuiabá e no Estado?

Diácono Pedro Henrique - Com toda certeza. Cuiabá, desde que me entendo por gente, sempre teve uma expressão de fé católica muito forte. E nos últimos anos isso também tem crescido muito por figuras que nós conhecemos, por padres do nosso clero que contribuem para isso, que colaboram para que a fé seja propagada.
As pessoas aderem à fé por verem o padre que também testemunha essa fé. Então, como o nosso clero também tem crescido, graças a Deus, as pessoas veem padres que se doam, que se entregam, e entendem o porquê dessa doação e dessa entrega, passando também a desejar, a seu modo e a seu tempo, se entregarem a Deus.
MidiaNews - O Frei Gilson se tornou um fenômeno nas redes sociais, especialmente na época da Quaresma com a transmissão do Santo Rosário em suas páginas na internet. Como avalia esse tipo de evangelização digital?
Diácono Pedro Henrique - É maravilhoso, porque nós, enquanto Igreja, precisamos ocupar todos os espaços. Precisamos alcançar todas as pessoas. O convite dado por Jesus Cristo é ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a todas as pessoas. Então, precisamos alcançar todos. E as redes sociais são um meio em que ainda falhamos muito, na minha percepção. Ainda falta bastante presença nossa nesse ambiente.
E o Frei Gilson é um exemplo claro de que, quando alguém se propõe a fazer algo, no caso dele rezar com o povo, adorar Nosso Senhor com o povo, rezar o Santo Rosário, as pessoas abraçam isso. Temos acompanhado isso nos últimos anos. A cada ano, o número de pessoas que acompanham as lives cresce, aumenta, sempre batendo um novo recorde. Então, isso é muito bom, porque precisamos alcançar todas as pessoas. E as redes sociais são um meio que precisamos cada vez mais ocupar, usando o termo no bom sentido.
MidiaNews - O senhor falou agora da importância das redes. Como planeja colocar mais a Igreja nas redes para alcançar pessoas?

Diácono Pedro Henrique - Pensando nisso, precisamos investir a formação das pessoas. Porque é aquilo que disse anteriormente sobre pregar o Evangelho com testemunho. Se nós, católicos, começarmos a testemunhar a nossa fé, sem proselitismo, mas simplesmente em uma publicação ou outra, mostrando com nossas vidas e ações que somos católicos, o movimento já começa a acontecer.
E, claro, também precisamos investir em pessoas dedicadas a isso. Como eu falei da Pascom, é importante oferecer formação para que eles propaguem a fé por meio da pastoral da comunicação. Acho que seriam meios eficazes.
MidiaNews - O tema da Campanha da Fraternidade deste ano é "Fraternidade e Moradia". Qual associação podemos fazer com esse período que estamos vivendo?
Diácono Pedro Henrique - Nosso Senhor, quando os fariseus perguntam qual é o maior mandamento, Ele responde: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças. E diz também: o segundo é este, amarás o teu próximo como a ti mesmo.
E São João, na primeira carta, capítulo 4, versículo 20, diz: aquele que afirma amar a Deus, a quem não vê, e não ama o próximo, a quem vê, é mentiroso. Temos que entender, de uma vez por todas, que o nosso amor a Deus também acontece no amor ao próximo. Não podemos separar uma coisa da outra. Amamos a Deus na Santa Missa, nas adorações, nos santos rosários, mas também devemos amar o próximo, porque Cristo está no próximo.
A Campanha da Fraternidade vem com esse tema, Fraternidade e Moradia, para nos propor uma reflexão especial sobre a moradia. Há tantas pessoas que não têm onde morar e o nosso dever, enquanto cristãos, é também contribuir, de algum modo, para que elas tenham moradia. E não apenas moradia, mas moradia digna, porque às vezes a pessoa até tem onde morar, mas não tem dignidade. Então é nosso dever como cristãos.
MidiaNews - A reflexão dessa campanha trata da moradia como direito fundamental. Um estudo divulgado este ano, feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG, apontou que mais de 365 mil pessoas vivem nas ruas. De que forma a comunidade cristã pode trabalhar para reverter esse cenário?

Diácono Pedro Henrique - Na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, não me lembro agora qual bispo propôs, acho que foi Dom Jaime Spengler, e também o nosso bispo, Dom Mário, falou algo semelhante. Uma prática concreta seria cada paróquia buscar um irmão da comunidade e verificar se ele tem moradia. Se tiver, amém. Mas, mesmo assim, verificar se há dignidade nessa moradia.
Se não houver, unir forças para ajudá-lo a conquistar essa dignidade. E, se não tiver casa, buscar meios concretos para ajudá-lo a conquistar a própria moradia. Acho que seria uma forma eficaz de praticarmos o amor ao próximo de modo concreto, não só no discurso.
MidiaNews - O mundo vive tempos de violência, guerra e ódio, principalmente na terra onde Jesus nasceu e viveu. Nesse cenário, qual reflexão a Páscoa traz?
Diácono Pedro Henrique - O Papa Leão XIV tem pedido constantemente paz, que cessem as armas, que cessem as guerras. Então, a Páscoa, com Nosso Senhor Jesus Cristo, vem nos convidar à paz. O primeiro convite que Cristo ressuscitado faz aos apóstolos, ao entrar na sala onde estavam, é: a paz esteja convosco.
Então o convite da Páscoa é esse. Aquele que é o príncipe da paz, Jesus Cristo, é o primeiro que quer paz. Ele quer paz para todos os seus filhos. Mais uma vez, a Páscoa reforça isso: paz para todos, paz para o mundo, para que as guerras e as armas se calem.
MidiaNews - Como manter a fé em meio a tanta violência e sofrimento global?
Diácono Pedro Henrique - Somos chamados a entender que Nosso Senhor veio trazer a paz, mas isso não significa que tudo aquilo que é violência e ódio desaparecerá de imediato. Somos chamados, em primeiro lugar, a abraçar as nossas cruzes de cada dia. Tomar a cruz de cada dia significa acolher os sofrimentos, tudo aquilo que é permitido por Deus em cada dia.
E também somos chamados a testemunhar Cristo na sociedade, sobretudo os leigos, que têm possibilidade de chegar a mais lugares. Se fizermos esse movimento de levar Deus, mesmo sem falar, mas deixando que nossas vidas revelem em quem acreditamos, a paz vai vencendo e a violência vai perdendo espaço.
MidiaNews - O senhor nasceu em Cuiabá e iniciou sua caminhada muito jovem. Como foi o despertar da sua vocação?

Diácono Pedro Henrique - Nasci em Cuiabá, como você disse, e entrei para o seminário com 17 anos. Antes disso, fui coroinha na paróquia de origem, em Santo Antônio de Várzea Grande, colaborei com a Pastoral da Criança, fui acólito e catequista. E sempre ouvi: você tem cara de padre, vai ser padre. Mas eu dizia que não queria ser padre.
Minha mãe até conta que, quando eu era pequeno, eu dizia que queria ter duas esposas. Mas Deus vai me dar uma só, daqui a alguns dias: a Santa Igreja. Eu sempre fugia disso. Mas um dia, quando o Seminário Cristo Rei anunciou um encontro vocacional, eu fui pensando apenas em desencargo de consciência. E foi lá que Deus me alcançou.
Havia uma oração musicada de São João Maria Vianney, o Ato de Amor, e naquele momento eu entendi que Deus me chamava a uma entrega total. Não com o coração dividido, mas inteiro. Foram oito anos de caminhada. Entrei no seminário em 2018, fiz o Propedêutico, depois Filosofia e Teologia, concluída no ano passado. Não foram anos fáceis, mas foram anos gratificantes.
Anos em que pude ver a presença de Deus, a bondosa mão de Deus conduzindo tudo, e também a bondade dos irmãos, dos padres formadores e do nosso arcebispo Dom Mário. Foi ele quem me acolheu no rito de admissão entre os candidatos às ordens sacras.
E, com a graça de Deus, será ele quem vai me ordenar padre no próximo sábado, dia 11.
MidiaNews - Como o senhor já disse, na próxima semana será ordenado padre. Qual é o sentimento neste momento?
Diácono Pedro Henrique - Estava conversando hoje com um seminarista e a sensação é que o coração acelera cada vez mais. Agora estou a dez dias de ser ordenado padre. E o coração acelera porque é um mistério que vai além de nós. O sacerdócio não é nosso, é de Cristo. Nós apenas tomamos parte dele, chamados por Cristo. No meu caso, isso acontecerá no próximo sábado, dia 11. Existe, de fato, um certo temor. Não medo de Deus, mas temor de muitas vezes não dar conta.
Porque o mistério é grande e sabemos que os esforços serão muitos. Pode ser que em algum momento eu falhe, mas existe uma certeza no meu coração: a graça de Deus vai me sustentar em todo momento.
E o lema que escolhi para conduzir meu sacerdócio é: Jesus, olhando para ele, o amou. Isso recorda o Evangelho do jovem rico, quando Jesus olha para ele e o ama. Mas também recorda o início da minha caminhada, quando Jesus me chamava a amá-Lo de todo o coração e a dar tudo a Ele. Então é um sentimento de temor, mas também de confiança. Confiança em Deus, que me chama e que vai me sustentar.
Veja a entrevista completa:
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