A economista e assessora de investimentos Núbia Selhorst avalia que as décadas de instabilidade econômica e inflação moldaram a forma como os brasileiros lidam com dinheiro. Por isso, as pessoas são conservadoras quando o assunto é investimento.
"O histórico de inflação no nosso país fez todo mundo ter receio de investir e de tomar qualquer decisão de risco. Então, naturalmente, o brasileiro tem uma tendência conservadora e não está muito disposto a correr risco, mesmo quando tem bastante capital", diz.
Apesar de enfatizar este perfil conservador, Núbia alerta para o aumento no número de pessoas que fazem apostas e colocam suas economias em risco.
"Se as pessoas tiverem o mínimo de noção de educação financeira, elas vão entender que apostando não é o melhor caminho, elas vão entender que é trabalhando, é uma mentalidade de guardar o dinheiro, e é a longo prazo", diz. Por isso, ela defende que educação financeira seja ensinada nas escolas.
Veja os principais trechos da entrevista (e a íntegra no vídeo abaixo da matéria):
MidiaNews - Quais são os principais erros que as pessoas cometem quando estão começando a investir e como elas pode tentar evitá-los?
Núbia Selhorst - Eu acredito que é mais o desconhecimento de tudo aquilo que nós não somos especialista. É importante você se munir ou de um profissional qualificado ou de uma instituição financeira que tem uma plataforma de conteúdos importante para você. Por algum motivo misterioso, quando trata de dinheiro, todo mundo é meio expert.
Mas antes de fazer isso, pesquise um pouco mais e vá direto às instituições financeiras. No Brasil, nosso sistema financeiro é super-regulamentado. É um exemplo mundial, nesse ponto. Fale de você, quem é você, o que você quer fazer com o seu dinheiro.
MidiaNews - E como os perfis de investidores podem influenciar no investimento escolhido e nas decisões tomadas?
Núbia Selhorst - Nosso país, majoritariamente é composto por perfis conservadores. Nós não temos nem 36% da população brasileira investindo. E, por não ter muita experiência, porque o histórico de inflação no nosso país fez todo mundo ter receio de investir e de tomar qualquer decisão de risco. Então, naturalmente, o brasileiro tem uma tendência conservadora e não está muito disposto a correr risco, mesmo quando tem bastante capital.
Para este perfil o melhor para se fazer é trazer previsibilidade de ganho. Ele precisa saber quanto ele vai ganhar, quanto tempo ele vai poder tirar o dinheiro. O moderado já tem um pedaço do investimento que se dispõe a correr risco. Já o agressivo não, é uma pessoa que tem uma tendência a correr risco. A gente só precisa ter cuidado se ela pode correr risco.
MidiaNews - Para este perfil, é tudo ou nada?
Núbia Selhorst - Sim. Tanto é que tem hoje no Brasil, infelizmente, muitas apostas online, onde as pessoas preferem colocar, nesse caso, 100% do dinheiro em risco porque é tudo ou nada.
Se as pessoas tiverem o mínimo de noção de educação financeira, elas vão entender que apostando não é o melhor caminho, elas vão entender que é trabalhando, é uma mentalidade de guardar o dinheiro, e é a longo prazo.
O duro é ter que aprender a duras penas. Acho que isso é ruim, onde tem que acontecer situações de prisão, de influencers que superestimulam esse tipo de manobra, sendo que ele está ganhando dinheiro nos negócios e não necessariamente nas apostas.
MidiaNews - Neste sentido, você acha importante que haja a educação financeira para crianças desde a escola?
Núbia Selhorst - Acho que sim, porque o dinheiro está na nossa vida desde sempre. Então quando a criança entende que existe uma limitação de recursos que ela precisa valorizar, se torna muito mais agradável.
Na educação, desde casa até na escola, é importante falar o que é o dinheiro, como que é oferta e demanda, o que é economia, como os preços são formados, que se você quer guardar dinheiro pra ter um bem no futuro, você tem os juros que vai te ajudar a chegar lá, ou se você quiser o bem agora, você talvez vai ter que pagar mais caro. Esse tipo de noção econômica é importante.
MidiaNews - Você falou sobre juros na hora de comprar um bem. No Brasil as taxas dos juros são altas e nós vemos muitas reclamações sobre isso. Acha que é interessante a pessoa comprar um bem mesmo que haja juros a longo prazo?
Núbia Selhorst - O juro é o preço do dinheiro no tempo. Então as pessoas esquecem que o país é muito jovem. Se a gente for comparar com a Europa e a Ásia, são sociedades tão antigas que elas levaram muitos séculos, milênios, pra criar riquezas. E essas riquezas hoje facilitam o processo da geração de outras. Como aqui é jovem, a gente não tem toda essa industrialização. Então, para os bens serem mais rápidos, é sempre muito caro.
MidiaNews - E como isso afeta a compra?
Núbia Selhorst - Para a gente ter o bem, a pessoa se dispõe a usar o cartão de crédito, a tomar um financiamento a um juros para ter esse bem mais rápido. Isso não é ruim porque faz a economia girar. Eu acho que o problema é não ter uma contrapartida também de poupança. As vezes parcelar não é ruim, existem produtos que parcelados podem fazer mais sentido do que comprar a vista, desde que você saiba que no mês seguinte tem aquela conta.
Midianews - Muitas pessoas têm receio de investir porque acreditam não ter dinheiro.
Núbia Selhorst - Todo mundo tem que investir. O que acontece com quem vai tendo mais recursos? Essa pessoa vai tendo acesso a mais produtos. Quando a gente está começando, nada nos impede, tem investimento a partir de R$ 30.
MidiaNews - Explique um pouco sobre categorias de investimento?
Núbia Selhorst - A gente pode dividir em duas categorias o investimento: em renda fixa e renda variável. A renda fixa, como o próprio nome diz, é fixa. Então você já sabe desde a hora que você está fixando o dinheiro o quanto você vai ganhar. A variável, como o próprio nome diz, ela varia porque ela depende, por exemplo, se você está investindo em ações na Bolsa de Valores, comprando ações da Petrobras, da Vale do Rio Doce. Você não sabe se essa empresa vai dar lucro.
MidiaNews - Poderia nos dar um visão dos prós e contras para se investir em Tesouro Direto, CDB (Certificado de Depósito Bancário) e de Fundo de Investimento?
Núbia Selhorst - Quando eu empresto o dinheiro por um certificado de depósito, um CDB no banco, eu estou deixando o dinheiro lá e eu sei que dali um tempinho eu vou tirar o que eu coloquei com os juros que o banco está me prometendo. É o título com menor risco no nosso país. O contra é que ele não vai pagar a maior rentabilidade, ele paga a menor taxa que tem no mercado.
MidiaNews – E o que você recomenda para quem está pensando em investir com o foco na aposentadoria?
Núbia Selhorst - Primeiro que a gente está vivendo muito mais. Internamente a gente brinca que INSS é: Isso Nunca Será Suficiente. As pessoas têm que contribuir cada vez mais anos para a previdência pública e depender só da previdência pública não é aconselhável. Quando a gente vai para o mercado privado, isso está indo para um fundo seu e os juros, quando a gente investe, vira uma bola de neve a nosso favor.
MidiaNews - Muitas pessoas também investem em imóveis. A senhora acha que é uma boa ideia fazer esse investimento pensando na aposentadoria?

Núbia Selhorst - Os imóveis são importantes, mas nem sempre é o melhor investimento a depender do momento do mercado. O imóvel aqui no Brasil sempre foi uma ferramenta muito segura, porque a gente já passou por tantas crises que quando se passa na rua e vê que tem aquela casa, a pessoa se sente segura. Mas ele tem uma desvantagem muito grande que é: você não vende rápido. Você precisa também ter uma liquidez, um dinheiro rendendo.
MidiaNews – Com as frequentes incertezas econômicas e políticas no Brasil, o que pode ou não ajudar os investidores?
Núbia Selhorst - Imagina o pequeno empresário que tem que pegar dinheiro no banco para pagar os funcionários e manter a empresa rodando. Para essa pessoa, os juros ficam mais caros. Para quem tem que financiar, também. Mas para quem quer investir, o juro alto é fantástico. A gente ganha meses de um projeto que seria para um ano. A depender do momento, você pode comprar um imóvel barato, você pode investir numa empresa que está barata e que precisa de capital.
MidiaNews - Para quem está começando hoje, como está mercado financeiro?
Núbia Selhorst - Se a gente está falando com uma pessoa que está começando, tem que começar. Não tem jeito! E que bom que vocês vão começar agora. Porque os juros estão alto. A inflação diminuiu. Isso significa que os preços não estão subindo tão rápido quanto antes. O dinheiro que está guardado, valoriza mais rápido do que o bem que você tem que comprar.
Confira a entrevista na íntegra:
Leia mais
Moradores de MT gastam R$ 261 milhões por mês com apostas
Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).
|
0 Comentário(s).
|