BRUNO GARCIA E ANTONIO DE SOUZA
DA REDAÇÃO
Em tese, aparentemente, só um caso de suicídio, ocorrido no Portão do Inferno, no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães (40 km ao Norte de Cuiabá), no último dia 29 de abril. No entanto, as investigações sobre a morte da estudante Eiko Uemura, 23, estão conduzindo a Polícia Civil a desfechos impressionantes e que provocam surpresas e reviravoltas.
De uma suposta "queima de arquivo" - Eiko tinha ligações com uma quadrilha que aplicava golpes financeiros no setor de hortifrutigranjeiros, chefiada pelo seu tio, empresário Júlio Uemura -, o suicídio da jovem ganhou contornos de um crime passional, a partir do momento em que as investigações comandadas pelo delegado João Bosco, da Polícia Civil de Chapada, remeteram para a existência de um crime. E, o que é mais interessante, para um suposto pivô desse crime.
Conforme MidiaNews revelou, com exclusividade, na quinta-feira (7), a morte de Eiko Uemura passou a ser marcada não apenas por dois simples bilhetes de despedida (um para uma amiga e outro para uma tia), mas por um complicado relacionamento amoroso com um homem casado, roubo de jóias de familiares e até um plano de fuga pronto para ser colocado em prática.
De acordo com o delegado João Bosco, há fatos novos no caso, mas, para não atrapalhar o andamento do inquérito, ele não revela os rumos do trabalho da Polícia Civil. "Não vamos revelar nada nesse momento, pois a divulgação desses novos fatos pode atrapalhar o nosso trabalho. A realidade é que estamos ouvindo as pessoas ligadas à vítima [num total de 15]", disse o delegado.
Sabe-se, no entanto, que no final da última terça-feira (5), o delegado ouviu o ex-amante de Eiko, um advogado identificado somente pelo sobrenome de Prado. Ele é apontado como o motivador do suicídio da estudante. As primeiras informações apontam que o advogado foi questionado pelo delegado sobre a relação amorosa com Eiko e a respeito da posse de jóias, além de dois relógios Rolex, repassados a ele pela jovem.
Eiko queria fugir com Prado e ele pretendia abandoná-la. Segundo depoimentos de amigas de Eiko, o relacionamento entre os dois já passava de um ano e Prado sempre o manteve escondido da esposa e dos demais familiares. O advogado seria uma pessoa conceituada no seu ramo profissional e prestaria serviços para um grande hospital de Cuiabá.
De acordo com informações, Eiko Uemura teria furtado aproximadamente R$ 100 mil em jóias e dois relógios Rolex, avaliados em R$ 100 mil, de um cofre da família Uemura, na casa do tio, Júlio, apontado pelo Gaeco como chefe de uma máfia. Ela teria contado com a ajuda de uma funcionária da casa para realizar o furto. Os bens foram entregues ao amante, que os venderia em São Paulo, com a finalidade de obter dinheiro para custear a fuga do casal.
A Polícia apura, agora, as verdadeiras razões que teriam levado ao suicídio de Eiko Uemura. Novos fatos no caso devem ser marcados pela prisão dos principais envolvidos no caso.
Reconstituição
Na manhã de quinta-feira (7), os peritos da Polícia Civil, com auxilio do Corpo de Bombeiros Militar, realizaram ações complementares ao trabalho de identificar vestígios do crime, fazendo a simulação da queda de cima para baixo, no Portão do Inferno. A versão inversa foi feita logo após o resgate do corpo de Eiko.
Durante quatro horas, os técnicos trabalharam no local, em duas equipes, uma na parte superior [no mirante do Portão do Inferno] e uma segunda no local onde o corpo caiu, um buraco com 80 metros de profundidade. "Esses exames servirão para apontar com mais clareza as descrições técnicas de como o fato aconteceu", revelou o perito criminal Ernesto Amado.
Ele explicou que, com esses estudos, poderá informar, em um laudo técnico que deve ficar pronto nos próximos 20 dias, se Eiko caiu acordada ou inconsciente ou foi jogada, também nessas duas formas. "Estamos trabalhando na parte técnica, identificando a forma como ela caiu, se pulou, se foi jogada e de que ponto foi feito isso", afirmou o perito.
"Laranja"
Eiko Uemura era sócia-proprietária de várias empresas "laranjas" e dona da empresa Eikon Atacado de Alimentos, também utilizada pela Organização Uemura - chefiada pelo seu tio, empresário Júlio Uemura - para aplicar os golpes. Ela foi incluída no processo aberto pelo Ministério Público, por meio do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), numa denúncia complementar, após investigação de documentos apreendidos durante a realização da Operação Gafanhoto, em março passado. Na ocasião, foram feitas 25 buscas e apreensões.
Em função de seu envolvimento com a quadrilha, segundo o MPE, cogitou-se que o suicídio da jovem fosse uma "queima de arquivo". Além de Eiko, outros parentes de Júlio Uemura estão envolvidos no esquema do crime organizado, conforme apontam as investigações do Gaeco: Mário Márcio Uemura Meira (sobrinho de Júlio Uemura), Gisselma enedita Brito Uemura (filha) e, Benedito Carlos Brito Uemura (filho).
As investigações do Gaeco apontam que uma filha de Uemura, Gisselma, era sócia-proprietária da Transportadora Brito, utilizada como "laranja" no esquema criminoso. O filho de Uemura, Benedito Carlos, conhecido como "Poneis" (abreviatura de japonês), participava ativamente dos "negócios". O sobrinho Mário Márcio foi denunciado por ser sócio-proprietário da MX - Comercial de Alimentos e da Transportadora Crescente.
O grupo responde, judicialmente, na 15ª Vara Criminal, sob comando do juiz José Arimatéia Neves Costa, pelos seguintes crimes: estelionato, formação de quadrilha, corrupção, extorsão, falsificação de documentos, ameaça, crimes contra economia popular (monopólio no setor de hortifrutigranjeiro), tráfico de influência, corrupção passiva e corrupção ativa.
Denunciados pelo Gaeco
1) Kazuoyoshi Uemura (Júlio Uemura) - em prisão domiciliar
2) Renê dos Santos Oliveira - preso
3) Laerte Botelho Feijó
4) Ronaldo Luiz Mateus - preso
5) Lupércio Augusto de Campos (Teco) - preso
6) Durvalino Amaral da Silva
7) Valdomiro Fernandes da Silva
8) Onésimo Martins de Campos (Poconé) - preso
9) Ailton Fernandes de Oliveira (Berimbau) - preso
10) Francisco Lourenço (Chicão) - preso
11) Edivaldo Tavares Vilela (Corda) - preso
12) Francisco Fernandes Sobrinho (Nandinho)
13) Roseli Aparecida de Souza (Rose)
14) José Firmino da Silva
15) José Aparecido Boleta
16) Waldecir Lohn
17) Erivaldo Vicente Pereira Junior
18) José Ferreira dos Santos
19) Ronaldo Alves de Oliveira
20) Rafael Junior da Silva Camargo
21) Lucas Farias de Souza
22) Walter Machado Rabello Junior - ex-deputado estadual
23) Adelbar Castellaro Junior (Leão)
24) José Ferreira Rosa Filho
25) Jader da Costa Carvalho
26) Pedro Singer Kurumiya
27) Mário Márcio Uemura Meira
28) Gisselma Benedita Brito Uemura
29) Benedito Carlos Brito Uemura (Poneis)
30) Eiko Nayara Uemura - morta no dia 29 de abril