CAROLINA HOLLAND
DA REDAÇÃO
Os irmãos gêmeos Cristopher Henrique e Nicolas Samuel, de onze meses, deixaram a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital das Clínicas de São Paulo. Nascidos siameses, eles foram separados em uma delicada cirurgia de quase 12 horas de duração, realizada no dia 17 de outubro.
Os pais moram em Primavera do Leste (a 240 km de Cuiabá). Os dois bebês, que eram unidos pelo abdôme, continuam internados no Instituto da Criança do hospital, de onde não têm prazo para receber alta, pois precisam de acompanhamento constante dos médicos.
Os dois nasceram na unidade hospitalar paulistana, mas vieram junto com os pais para Primavera do Leste, cerca de dois meses depois. Em Mato Grosso, ficaram até meados de julho.
Após decidirem autorizar a cirurgia de separação, os pais voltaram a São Paulo com os gêmeos para dar início à bateria de exames preparatórios para o procedimento.
Com a cirurgia, os bebês ficaram com uma perna cada um e, agora, precisam esperar a cicatrização, e tomar antibióticos e remédios para dor. Mas, o pior já passou, garantiu o pai, Celso Henrique Santos, de 24 anos.
“Os dois são bem fortes e estão animados, interagem com as enfermeiras. Estão aprendendo a falar papai e mamãe, mostram a língua pra mim e pra minha mulher, são danados”, diz.
A separação provocou emoções distintas na mãe das crianças, Lorraine da Silva Monteiro, de 16 anos. “Fiquei feliz porque meus meninos sobreviveram. Mas, me deu uma tristeza quando vi os dois, tão pequeninhos, entubados, com aparelhos. Foi difícil”.
A adolescente contou que sentiu medo dos filhos não sobreviverem. Tanto que, até os cinco meses de idade, ela resistiu à idéia de submeter Nicholas e Cristopher à separação. “Soube de outros casos em que as crianças morreram e isso me deixou apavorada”, diz.
A decisão de separar os pequenos teve o apoio da família e dos médicos – que nunca esconderam os riscos da operação. A angústia e a ansiedade cresceram à medida que a data da cirurgia se aproximava.
A mãe conta que o nervosismo foi tamanho que não conseguiu dormir na véspera da cirurgia, quando os dois foram internados, e só se acalmou quando soube que a cirurgia tinha acabado e, os gêmeos, bem.
“Eu me lembro que no dia seguinte vi duas irmãs gêmeas, de uns 4 ou 5 anos, nas proximidades do hospital, que também foram separadas e estavam bem. Chorei muito na hora, pois quero que o mesmo aconteça com meus meninos”.
O nervosismo também foi vivenciado por outras pessoas da família. A avó paterna, Railda Almeida Santos, por exemplo, foi internada no dia da cirurgia com pressão alta. “Voltou ao normal [a pressão] quando terminou a operação. Acho que nunca tinha ficado tão tensa na minha vida”.
Descoberta dos siameses
A descoberta da gravidez de gêmeos siameses foi feita no terceiro mês de gestação, por meio de uma ultrassom. O médico, porém, não queria dar a notícia à mãe e pediu para que a tia dela contasse o que estava acontecendo. Na época, Celso e Lorraine viviam em Juara.
A reação de Lorraine foi de susto. “Nenhuma mãe quer isso, mas nunca fiquei muito abatida e nem triste”. Porém, admite que o medo foi inevitável – e não só pela própria saúde e pelo bem estar dos filhos.
“Eu achei que seria abandonada pelo meu marido, e isso mexeu bastante comigo. Mas depois vi que isso não iria acontecer e fiquei mais tranquila”.
O pai dos bebês também ficou bastante assustado. “Na hora eu pensei: Poxa vida, por que isso não aconteceu com uma pessoa com situação financeira melhor que a nossa?”, contou Celso, que após a mudança da família para Primavera, meses depois da descoberta, começou a trabalhar como frentista de um posto de gasolina.
Além das dificuldades de uma gravidez que poderia ter complicações, Lorraine e Celso também tiveram que lidar com outro tipo de pressão, dessa vez por parte de alguns médicos: a de interromper a gestação.
“Uns sugeriram que a gente fizesse isso, porque disseram que ia ser mais fácil pra todo mundo. Mas nós nunca pensamos em fazer isso! Nunca! O que nós estamos passando é difícil, mas o que paga tudo isso é o sorriso dos nossos filhos”, afirma o pai.
Vida em São Paulo
Celso e Lorraine mudaram-se provisoriamente para a capital paulista no sétimo mês de gravidez por conta da proximidade do parto e dos cuidados necessários com a mãe e os bebês. Após o nascimento, a família voltou para Mato Grosso, mas a cirurgia de separação os levou de volta a São Paulo.
Lá, o casal mora em uma pensão nas proximidades do hospital, cujo aluguel custa R$ 1,4 mil. Celso e Lorraine vão para o local mais para tomar banho e dormir. O restante do tempo eles passam no hospital com os filhos.
Parte das despesas da família é paga pelo Estado e Celso continua a receber o salário de frentista mesmo sem ir trabalhar. Entretanto, os valores não são suficientes.
“O que complementa nossa renda é a doação das pessoas, não tem outro jeito. É triste ficar nessa dependência, mas não tem outro jeito”, diz o pai.
Os interessados em ajudar a família podem fazer doações na conta da Caixa Econômica Federal, em nome de Celso Henrique dos Santos. Os dados são: ag. 3927; op. 013; conta 6151-4.