Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
POLÊMICA
19.09.2017 | 11h30 Tamanho do texto A- A+

Obras de artista são retiradas de exposição após crítica

Pinturas do cuiabano Gervane de Paula faziam parte da exposição "Amo Cuiabá", no Pantanal

Divulgação

Gervane de Paula lamenta retirada de sua obra de exposição na Capital

Gervane de Paula lamenta retirada de sua obra de exposição na Capital

VINÍCIUS LEMOS
DA REDAÇÃO

O artista plástico cuiabano Gervane de Paula teve dois de seus quadros retirados da exposição “Amo Cuiabá”, no Pantanal Shopping, após um homem gravar um vídeo criticando as obras e afirmando que as pinturas eram "impróprias".

 

Uma das pinturas retrata dois usuários de drogas nus em um fundo preto, com os dizeres "Crack is Wack" (o crack é loucura), enquanto utilizam entorpecentes.

 

Na outra imagem, que também foi retirada da exposição, há figuras consideradas sexuais, como o retrato de um pênis, que formam uma máscara semelhante à do personagem Batman. Na obra, há a frase "Robin, afaste-se dessa droga de arte".

 

No fim de semana, um homem gravou e compartilhou um vídeo no qual faz críticas às obras de Gervane.

 

“Para vocês verem como o negócio banalizou no Brasil. Dá uma olhada no tipo de quadro que está sendo exposto aqui, no Shopping Pantanal. Há famílias com crianças aqui. Tá entendendo? Então, parece que as coisas banalizaram mesmo”, disse o homem, enquanto filmava os quadros (confira o vídeo abaixo).

 

Na segunda-feira (18), os coordenadores da exposição informaram a Gervane que os dois quadros seriam retirados da mostra, em razão das críticas.

 

O artista plástico, que tem mais de 30 anos de carreira e garantiu que nunca passou por nada parecido, lamentou a decisão.

 

“Depois que esse cliente publicou o vídeo, falando que meu trabalho era ofensivo, pornográfico e fazia alusão ao uso das drogas, a coordenação entrou em contato comigo”, disse.

 

Reprodução

Gervane de paula

Imagem que causou polêmica e foi retirada de mostra exibia dois usuários de crack consumindo a droga

“Os responsáveis pela mostra me perguntaram o que eu achava disso. Então, eles me propuseram que as obras fossem retiradas e substituídas por outras, mas eu não quero fazer isso”, completou.

 

Gervane comentou que decidiu não colocar outras obras no lugar das excluídas, pois as produções dele, que compõem a exposição “Amo Cuiabá”, fazem parte de um contexto e se complementam. Desta forma, não seria possível substituir as pinturas.

 

“Agora, a minha parte na exposição vai ficar defasada, pois não há como incluir outras pinturas. Então, irei pedir para retirar todos os meus quadros que estão na mostra”, afirmou.

 

O artista rebateu as acusações de que a obra sobre os usuários de crack faz apologia às drogas e deve ser considerada imprópria.

 

“O quadro tem um texto que sugere que ‘afastem-se das drogas’ e também tem imagem. Essa obra questiona ela própria. É uma pintura escura, não é colorida. Ela mostra as dificuldades do crack, questiona tudo isso e chama as pessoas para pensar sobre o assunto”, explicou.

 

Ele ainda negou que o quadro com imagens sexuais possa ser um impeditivo para a exposição da obra.

 

"Essa figura é um questionamento da própria arte, é uma autocrítica para provocar. A intenção não é focar nesse conteúdo sexual, mas sim na discussão que esse assunto pode gerar", disse.

 

"Em relação às crianças que podem frequentar a mostra, isso é questão da organização. Além disso, uma criança não vai conseguir enxergar essas imagens, somente se o pai levantá-la para ver", completou. 

 

Para o artista, a falta de conhecimento sobre artes plásticas faz com que muitas pessoas interpretem de modo errôneo algumas produções artísticas.

 

“Sinceramente, acho que um dos pontos que mais devem ser frisados é o isolamento cultural, que faz com que as pessoas julguem as artes visuais de forma preconceituosa e não entendam o papel artístico dela”, afirmou.

 

Gervane comparou as obras retiradas da mostra com o caso da exposição "Queermuseu - cartografias da diferença na arte da brasileira", no Rio Grande do Sul, que foi cancelada após críticas de que fazia apologia à pedofilia e à zoofilia. O cancelamento da mostra gerou diversas críticas.

 

“É lamentável, porque isso está ocorrendo em outros lugares do Brasil. Tenho uma carreira de três décadas, sou conhecido no Brasil e não pensava em passar por isso. Agora, só posso lamentar e seguir em frente”, comentou.

 

Nas redes sociais, o artista cuiabano recebeu apoio de amigos e admiradores. Em seu Facebook, há diversas mensagens de solidariedade a Gervane, além de pessoas que classificaram a decisão da organização da mostra como uma espécie de censura.

 

Críticas de deputado

 

O deputado federal Victório Galli (PSC) se pronunciou sobre a decisão da retirada da obra de Gervane.

 

Por meio de seu Facebook, o parlamentar classificou como “lamentável” a mostra do cuiabano e afirmou que irá denunciar possíveis ameaças contra os responsáveis por gravar e compartilhar o vídeo que culminou na retirada das obras.

 

Reprodução

Gervane de paula

Obra com imagens sexuais também foi retirada de exposição na Capital

“Acabei de ficar sabendo que estão querendo perseguir os jovens que denunciaram essa imundície. Se os jovens forem ameaçados por militantes de esquerda, em Cuiabá, irei levar o caso para o Ministério Público e para a tribuna da Câmara”, afirmou.

 

A mostra

 

Em cartaz desde 29 de agosto, a exposição "Amo Cuiabá" reúne obras de diversos artistas da Capital.

 

Além de Gervane, há quadros de Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Dalva de Barros, Jonas Barros, Ruth Albernaz e Vitória Basaia.

 

A entrada é gratuita e fica em cartaz até o dia 29 de setembro, no segundo piso do Pantanal Shopping. Ela funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 20h, e no fim de semana, das 14h às 22h.

 

Espaço

 

Por meio de nota, o Pantanal Shopping esclareceu que não é responsável pela administração da mostra.

 

O estabelecimento afirmou que o objetivo da exposição é "dar espaço aos artistas locais e possibilitar que o público desenvolva senso crítico sobre os temas abordados nas obras".

 

“O shopping informa ainda que a exposição é aberta para visitantes de qualquer idade, mas que já estipulou uma classificação indicativa”, completa a nota.

 

A reportagem tentou contato com os responsáveis pela “Amo Cuiabá”, mas não obteve respostas até a edição desta matéria. 

 

Confira o vídeo no qual homem critica obra de Gervane de Paula: 

 

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COMENTÁRIOS
36 Comentário(s).

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Lindolfo Neto  20.09.17 22h26
Pena que o que a obra quis fazer, que e´ chamar a atencao a problemas recorrentes em nossas cidades na atualidade nao foi atingido. Uma pena. Educacao comeca em casa. Filhos orientados verao nessas obras uma critica e autocritica do artista e da nossa sociedade e dos nossos problemas. A reacao desse deputado e desse pseudo cidadao demostram a sua incapacidade em educar. Em compreender os seus proprios problemas e fraquezas. A reacao dessas pessoas infelizes e mal amadas somente confirma que aquilo que o artista quis chamar atencao existe e São entraves a uma compreensao maior entre as pessoas e dos nossos problemas enquanto sociedade. Nota zero aos organizadores que tambem se mostram desperados para o seu oficio. Vivemos uma sociedade doente que discute mais direito penal que Educacao. Investimos mais em policia e viaturas do que em professores e escolas. E o fim! Pior. Renasce a censura e a patrulha ideologica. Acordem. Nao votem nesse deputado e esse cidadao rezem por ele.
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Adelar  20.09.17 15h49
Se pararmos um minuto vamos perceber que está havendo no Brasil uma ação orquestrada dos defensores da ideologia de genero e derivados para que a sociedade ache normal o que aconteceu em porto alegre e agora Cuiabá.mas vejo que a maioria da sociedade esta contra e atenta a essa barbaridade.
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ROSENIL   20.09.17 12h12
entao ! se eu colocar fotos minhas nù . ta valendo ? ou vai chamar a atençao dos criticos? qual a diferença de fotos minhas e de outras pessoas nuas em publico? se a exposição é amo Cuiabá deveria ter artes do cotidiano cuiabano. não sobre drogas e p#@%to do Batman! pelo amor de deus se isso é arte que me perdoa , mas pare o mundo que quero descer.
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Paulo Henrique  20.09.17 09h54
Cada artista tem sua forma de expor, tentar repassar mensagem para público!! Porém na minha opinião tenho filhos pequenos também, essas imagens poderia está local mais reservado ou aviso etc. Arte é arte quantas imagens nas igrejas em Minas Gerais que seria imprópria para crianças, no entanto ninguém questiona!! Vale vossa educação em casa.
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paulo pandoga  20.09.17 09h38
Na minha casa sou eu que educo meus filhos, não e a tv, radio, revista etc. se eu acho que não e conveniente simplesmente e proíbo acho repugnante o ato de censurar e medieval obscuro, fascismo e nazismo conjugado, depois que inventaram celular e internet todos viraram críticos ficou fácil reclamar porem o agir o que realmente causa efeito ninguém o faz, parabéns ao artista belíssimo trabalho na tv tem coisas piores com muita desinformação passando, não se iluda com estas criticas, são as mesma pessoas que colocaram este pais onde ele esta agora no buraco...
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