O Banco Central está fazendo, desde o fim do ano passado, uma investigação interna para analisar a condução do processo de fiscalização envolvendo o Banco Master, desde a expansão do conglomerado de Daniel Vorcaro até a liquidação da instituição em novembro de 2025.
O processo, iniciado a pedido do presidente Gabriel Galípolo, está sendo conduzido sob sigilo pela corregedoria do BC. Ainda não há prazo para o término da investigação. Havia a expectativa de que um primeiro relatório fosse elaborado até o fim de fevereiro, mas a área tem total autonomia no caso, e a análise pode levar mais tempo em caso de desdobramentos e novas sindicâncias.
A informação sobre a investigação foi divulgada pelo jornal O Globo e confirmada pela Folha.
O ex-diretor de Fiscalização do BC, Paulo Souza, que ocupava o cargo de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária, foi afastado do posto cerca de uma semana depois da liquidação do Master. Ele estava no comando da área de fiscalização em 2019, quando foi concedida a Vorcaro a autorização para compra do banco Máxima, posteriormente rebatizado de Master.
Há pouco mais de uma semana, já afastado do cargo há cerca de dois meses, Souza pediu para deixar a função comissionada (equivalente a um cargo de confiança) e teve a saída confirmada nesta quinta-feira (29) em portaria no DOU (Diário Oficial da União).
Integrantes do BC relatam que lançamentos do balanço do Master foram motivo de divergência entre Souza e Galípolo, que chegaram a ter discussões acaloradas sobre o assunto. Souza atuou como diretor de Fiscalização até 2023, na gestão de Roberto Campos Neto, e depois seguiu atuando no BC, como supervisor do Master e de outros bancos, mesmo tendo recebido ofertas da iniciativa privada para deixar a autarquia.
Caminho semelhante ao de Souza foi trilhado pelo então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. Até a véspera da formalização, a agenda pública dos chefes de unidade indicava que ele estava "ausente". Até o momento, não há acusações formais contra os dois servidores do BC.
Em depoimento prestado à Polícia Federal, o atual diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, mencionou o nome de Santana ao comentar sobre um ofício recebido pela autoridade monetária em junho de 2025, no qual o então presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, sinalizou o início da busca de ativos no balanço do Master. O banco do Distrito Federal comprou R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito que, segundo investigadores, eram fraudadas.
Com a investigação interna, o BC busca dar mais transparência à própria atuação do órgão ao longo do caso Master, como forma de prestar contas à sociedade, e usar o episódio para aperfeiçoar procedimentos de fiscalização e de supervisão se eventos semelhantes vierem a ocorrer no futuro.
Mas alguns riscos foram mapeados pelo presidente do BC, como o desgaste no próprio corpo funcional, uma vez que envolve servidores com quase 30 anos de trabalho na autoridade monetária e respeitados pelos colegas. Isso pesou para que o pedido tenha partido do próprio chefe da autarquia.
Também foi levado em consideração o risco de a defesa de Daniel Vorcaro usar conclusões da sindicância interna para contestar decisões tomada ao longo do processo. Embora exista essa possibilidade no radar, a autoridade monetária não quis se omitir, e Galípolo decidiu solicitar uma "autópsia" do caso Master.
Essa análise "post mortem", de verificação da governança, é uma prática mais corriqueira em empresas de setor privado.
A atuação do BC no processo que levou a liquidação do Master também tem sido analisada pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Como mostrou a Folha, segundo pessoas a par da investigação, a tendência é o ministro Jhonatan de Jesus dar parecer favorável à conduta do regulador.
A expectativa de ministros do TCU é que o plenário também referende o trabalho do BC, colocando fim ao episódio que dividiu a corte e desgastou a relação entre as instituições.
Uma análise preliminar da auditoria do TCU apontou que não houve inação ou falta de monitoramento contínuo no Master em atos realizados desde meados de 2024. Jhonatan deve seguir o parecer dos técnicos, se confirmados os fatos relatados pelo BC à corte de contas e não houver novos elementos.
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