Cuiabá, Terça-Feira, 3 de Março de 2026
NOVO ARCEBISPO DE APARECIDA
03.03.2026 | 07h00 Tamanho do texto A- A+

Chamado de esquerdista, Dom Mário minimiza reações: "Foco na fé"

Novo arcebispo de Aparecida diz que será questionado, mas prega acolhimento e comunhão em nova fase

Victor Ostetti/MidiaNews

O arcebispo de Cuiabá, Dom Mário Antônio da Silva, que foi remanejado para Aparecida

O arcebispo de Cuiabá, Dom Mário Antônio da Silva, que foi remanejado para Aparecida

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

O arcebispo Dom Mário Antônio da Silva, de 59 anos, nomeado pelo Papa Leão XIV para assumir a Arquidiocese de Aparecida, em São Paulo, minimizou as críticas que tem recebido de grupos de fiéis sobre a sua nomeação. Ele afirmou não sentir raiva ou aversão daqueles que o criticam e o acusam de ser “esquerdista”.

 

Certamente serei muito questionado e interpelado, como já está acontecendo nas redes sociais. Mas esse não é o meu foco

Em entrevista ao MidiaNews, disse ter recebido com surpresa a nomeação, comentou sobre os próximos passos, deixou uma mensagem aos católicos e falou sobre as possíveis críticas da ala conservadora com a mudança.

 

“Certamente serei muito questionado e interpelado, como já está acontecendo nas redes sociais. Mas esse não é o meu foco no momento, e sim acolher a todos e propor um caminho em que todos os que são de boa vontade para viver o Evangelho de Jesus Cristo possam caminhar juntos”, afirmou.

 

“Eu creio que as opções partidárias e políticas existem, mas não devem ganhar a dianteira na vivência da nossa fé e da nossa religião”, completou.

 

Ele disse já ter ouvido alguns comentários, mas afirmou não ter tido tempo para acompanhá-los. 

 

Dom Mário foi alvo nas redes sociais em 2025 após fazer um convite a fiéis para comparecerem ao ato chamado “Grito dos Excluídos e Excluídas”.

 

A manifestação tinha o objetivo de chamar a atenção para minorias e propor caminhos alternativos para uma sociedade mais inclusiva, principalmente para os mais pobres. O evento é organizado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), mas conta com a participação de movimentos ligados à esquerda.

 

Desde então, tem sido criticado por religiosos de direita. A nomeação dele para Aparecida também tem gerado reação em grupos ligados à igreja, conforme apurou a reportagem. 

 

Nomeado pelo Papa Francisco, Dom Mário assumiu a Arquidiocese de Cuiabá em fevereiro de 2022. 

Claro que o meu sentimento, primeiro, foi de surpresa. Não esperava uma transferência neste início de 2026

 

“Claro que o meu sentimento, primeiro, foi de surpresa. Não esperava uma transferência neste início de 2026, tendo em vista que estou em Cuiabá há apenas quatro anos. Mas, como nem sempre a gente conhece todas as coisas, eu acolhi com obediência, com humildade, com disponibilidade esse chamado de Deus através do Papa Leão XIV para a Arquidiocese de Aparecida”, disse.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - Como soube da transferência? Qual foi a primeira reação ao saber?

Dom Mário Antônio da Silva - O comunicado, primeiro, vem por meio do Núncio Apostólico, que hoje no Brasil é Dom Giambattista. Não faz muito tempo, foi na semana passada que ele me ligou, lendo a nomeação para a Arquidiocese de Aparecida, assinada pelo Papa Leão XIV. Claro que o meu sentimento, primeiro, foi de surpresa. Não esperava uma transferência neste início de 2026, tendo em vista que estou em Cuiabá há apenas quatro anos. Mas, como nem sempre a gente conhece todas as coisas, eu acolhi com obediência, com humildade, com disponibilidade esse chamado de Deus através do Papa Leão XIV para a Arquidiocese de Aparecida. E fiz isso com muita comunhão e respeito a Dom Orlando Brandes, que há quase dez anos está na Arquidiocese de Aparecida. Trabalho maravilhoso, frutuoso. Fiz isso também com muita comunhão, não só com as paróquias e comunidades da Arquidiocese de Aparecida, mas com os romeiros e romeiras de todo o nosso Brasil, nessa devoção bonita que temos à Mãe de Jesus.

 

MidiaNews - Quais desafios o senhor prevê para sua atuação na nova Arquidiocese?

 

Dom Mário - Os desafios da Igreja no Brasil, apesar da diversidade de regiões, continuam sendo identificados, se não como os mesmos, muito semelhantes, à luz do Documento de Aparecida: sermos discípulos missionários de Jesus, cuidar muito bem daqueles que estão conosco na Igreja, nas comunidades, nas pastorais, ir em busca dos afastados — não simplesmente de quem está em outra religião, mas de quem está afastado da nossa Igreja e que continua se nomeando também católico — e acolher aqueles que nos procuram. Creio que o Santuário de Aparecida, bem como a Igreja aqui em Cuiabá, têm como missão realizar essas três dimensões da evangelização: cuidar de quem está conosco, ir em busca dos afastados e acolher os que nos procuram.

 

MidiaNews - O senhor se considera preparado para assumir uma arquidiocese tradicional como Aparecida?


Dom Mário - Eu não me sentia preparado para assumir Cuiabá quatro anos atrás e pedi muito ao Espírito Santo que me concedesse força e sabedoria para aqui atuar de maneira frutuosa. E, com o auxílio do clero, da vida consagrada, dos leigos e leigas, a missão se realizou com bastantes avanços. Com gratidão a Dom Milton, que me antecedeu, e a outros bispos também, conseguimos dar continuidade a um trabalho de evangelização. E lá em Aparecida quero dar continuidade ao trabalho que vem sendo realizado por Dom Orlando, juntamente com todos os arquidiocesanos de lá. Acredito que isso será plenamente possível na medida em que nos colocamos à disposição para, tal como Maria, guardar no coração aquilo que a gente não compreende e agir concretamente naquilo de que a gente tem convicção.

 

Eu ficarei aqui até o dia 12 de abril. Ainda vamos agendar celebrações de envio, um momento de conclusão da nossa missão

É comoção, é nervosismo, é emoção, é um sentimento, às vezes, não digo de incapacidade, mas de receio em relação a algumas dimensões. Mas a gente não vai sozinho, a gente não vai fazer um protagonismo pessoal, senão desempenhar uma missão e caminhar juntos com a Igreja que lá está. Nesse sentido, eu me sinto tranquilo pela escolha, não só pelas minhas capacidades, mas pela escolha e pela soma de todos que lá estão.

 

MidiaNews - Como será sua despedida da comunidade de Cuiabá após esses anos de trabalho?

 

Dom Mário - Eu ficarei aqui até o dia 12 de abril. Ainda vamos agendar celebrações de envio, um momento de conclusão da nossa missão. Até lá, continua tudo normalmente: a programação da Quaresma, Semana Santa. Celebrarei a Semana Santa na Catedral Basílica Senhor Bom Jesus e depois, nos dias 11 e 12, vamos definir um horário para uma missa conclusiva da nossa missão.

 

MidiaNews - Para o senhor, que legado deixou na Arquidiocese de Cuiabá?


Dom Mário - Acho que o nosso grande legado não é meu, é da Arquidiocese: a Assembleia Pastoral que realizamos no ano passado. Nessa Assembleia Pastoral assumimos vários caminhos sinodais, caminhos juntos, e também compromissos de evangelização, seja na comunicação, na catequese, na pastoral, na administração econômica, no cuidado com as pessoas, com as fragilidades, no fomento às pastorais, na liturgia, na vivência dos sacramentos. Então eu creio que não é um legado meu, mas do Espírito Santo no coração desta Arquidiocese da Baixada Cuiabana.

 

MidiaNews - O senhor já tem definida a data de mudança para Aparecida? Quem assume a Arquidiocese de Cuiabá?

 

Dom Mário - Até o dia 12 e até eu tomar posse lá em Aparecida, continuo respondendo como arcebispo da Arquidiocese de Cuiabá. Depois nós temos o Colégio de Consultores, e cabe a esses padres escolher o administrador diocesano, aquele que ficará respondendo pela Arquidiocese até a nomeação do novo arcebispo pelo Papa Leão XIV. Ainda estamos definindo, nesta semana, a data para assumir lá.

 

MidiaNews - O senhor recebeu críticas de alguns bolsonaristas por conta do ato “Grito dos Excluídos”. Teme não ser bem recebido em Aparecida por essa ala mais conservadora?


Dom Mário - Eu não diria não ser bem recebido, mas certamente muito questionado e interpelado, como já está acontecendo nas redes sociais. Mas esse não é o meu foco no momento, e sim acolher a todos e propor um caminho em que todos os que são de boa vontade para viver o Evangelho de Jesus Cristo possam caminhar juntos. Eu creio que as opções partidárias e políticas existem, mas não devem ganhar a dianteira na vivência da nossa fé e da nossa religião.

 

Aos que me acompanharam em Cuiabá, gratidão. E peço que perseverem na fé, na esperança e na caridade

Tenho ouvido alguns comentários, mas, na verdade, não tive tempo de acompanhar. Digo isso pelo natural das questões que às vezes se encaminham hoje no Brasil. Isso não me incita nenhum sentimento de raiva ou de aversão, pelo contrário, de oração por todos, para que sejamos um, como nos pede Jesus Cristo no Evangelho.

 

MidiaNews - Que mensagens tem recebido da nova comunidade?

 

Dom Mário - Muitas mensagens. Até preciso encontrar tempo para responder ou interagir com as mensagens que estão chegando. E a minha assessoria de comunicação também está me ajudando para que aqueles que mandam mensagens, que manifestam apreço e suas orações, também sejam considerados.

 

MidiaNews - Há algo que o senhor gostaria de pedir aos fiéis que acompanharão sua caminhada em Aparecida? E que mensagem deixa aos fiéis de Cuiabá?

 

Dom Mário - Aos que me acompanharam em Cuiabá, gratidão. E peço que perseverem na fé, na esperança e na caridade. A minha saída é apenas um elemento, um detalhe da caminhada que continua, porque o Bom Jesus de Cuiabá permanece com todos.

 

Em Aparecida, peço esperança e confiança, como Maria viveu ao lado do seu Filho Jesus, do seu esposo José, e continua sendo fonte de esperança e confiança para toda a nossa Igreja, de maneira especial para os devotos de Nossa Senhora Aparecida. Que isso nos ajude a vencer os desafios, a superar as tristezas e a fazer com que os momentos não agradáveis não tomem a dianteira na nossa vida, mas que encontremos sentido e significado em tudo aquilo que vamos fazer. É isso que nos fortalece, nos encoraja, é isso que nos faz viver dia a dia de maneira mais frutuosa e santificadora.

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Jesus carlos venancio  03.03.26 08h02
Bom dia srs e sras. Ficomo muito chateado com criticas infundadas referente a questão politica do Arcebispibo de Cuiaba Dom Mario Antonio. Gente politica se faz pela democracia e nao imposição como e feita pela em querer discriminar a posição e opção denocratica do Arcebispo de Cuiaba. Respeitem a opniao dele e sua posição politica. Ele e uma pessoa que nao sai ai fazendo criticas ou comentarios sobre posicionamento politico de qualquer pessoa que seja. Ele e simplesmente a favor da vida , contra a fome luta e combate a pobresa. Ele homen do bem onde luta contra a desigualdade social entre outras atvidades as familiasce pessoas menos favorecidas neste pais e pelo mundo. Nao e um opositor a nada sempre busca o cinsenço e a paz. Mas a midia provoca falandi que e esquerdista entre outras frases. Lembre-se um sacerdote e fiel a Deus a paz e ao bem de todos o seu partido aqui na terra e Deus.
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