Muitas mães podem pensar que a amamentação precisa ser feita em uma posição específica para evitar riscos de engasgo e sufocamento do bebê. No entanto, o problema não está durante a amamentação, mas pode estar no após, se os pais não tomarem cuidado. É o que diz a médica pediatra Anny Carvalho em entrevista ao MidiaNews.
"Na posiçãozinha vertical ele tem mais facilidade desse leite descer, passar ali da região do estômago para o duodeno, que acaba melhorando esse refluxo ou esse retorno de leite que pode acontecer", disse, explicando que a chamada "posição do arroto" deve ser feita após toda a amamentação.
Além disso, a fim de evitar o sufocamento, a pediatra alerta para o uso de almofadas, lençóis e travesseiros no berço. O correto é manter a área ao redor do bebê sempre livre de objetos como esses, que podem causar o sufocamento.
Ainda, quando há casos de engasgo, a médica também destaca a necessidade de conhecimento de primeiros socorros e da ligação para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que pode instruir os pais à distância nestes momentos.
Veja a entrevista na íntegra:
MidiaNews - O bebê é mais vulnerável em relação ao engasgo e à broncoaspiração?
Anny Carvalho - Com certeza ele é mais vulnerável, mais suscetível. Por quê? Quando o bebezinho nasce, ele não tem controle de movimento do pescocinho, de tronco, então ele não tem as habilidades que nós adultos ou crianças maiores temos de desviar de um sufocamento, de tossir efetivamente para expelir aquilo que não era pra estar ali na traqueia. Então ele é muito mais vulnerável. Principalmente os casos desses quadros de engasgo e de broncoespasmo, que ocorrem ali em torno de dois a quatro meses de idade, e isso pode acontecer ainda até um ano. Então todos esses bebês desta faixa etária são muito mais suscetíveis que os adultos e crianças maiores.
MidiaNews - E quais são os sinais de que um bebê está aspirando leite, mesmo que não demonstre engasgo visível?
Anny Carvalho - Esse é um pouquinho complicado. Os períodos que o bebê mais fica suscetível a esse engasgo sem identificar seria os períodos da madrugada em que ele está dormindo e os pais também. Mas é muito difícil um bebê não manifestar o engasgo, o barulhinho do engasgo... Porque a nossa via aérea, ali a região da traqueia, ela por si só já tem um mecanismo de defesa, que quando for qualquer corpo estranho, qualquer líquido pra lá, é natural que a gente tussa para poder expulsar. Então, é muito difícil acontecer isso. O que acontece é que, às vezes, os pais estão muito cansados. Porque ali é um período muito difícil, de mudança muito grande na vida dos pais. Antes eles dormiam a noite inteira, agora você malemá dorme, porque o bebê a cada três horas ele mama, praticamente.
Então, é mais isso que fica difícil identificar. Sempre que o bebê for dormir, a posição supina que a gente fala, que é a barriguinha para cima, é a mais indicada e a que menos tem risco desse bebê broncoaspirar. Porque a posição anatômica nossa, quando o bebezinho está deitado de barriga pra cima, a traqueia fica superior e o esôfago embaixo. Então, quando ele regurgita, naturalmente voltaria pro esôfago. Agora, se ele está ao contrário, de barriguinha para baixo, daí esse leite iria para a traqueia. Então, sempre barriguinha pra cima. Evitar também colchões em que o bebê fica muito afundado ali naquele colchão macio demais. Tem que ser colchões mais rígidos, porque o bebê não tem o mecanismo de sufocamento que a gente fala, de defesa. Então, vira o rostinho para o lado, vira o rostinho para o outro para continuar respirando. Se esse colchão for muito fundinho ou muito fofo, ele acaba sufocando. Aqueles berços também. Coisa mais linda que o bebê ganha, com bastante almofada, lençol, travesseiro, também não é adequado. Sempre é adequado um berço limpo, com lençol de elástico, para que esse bebê não enrole ou sufoque com essa almofada, que também pode dar o sufocamento e essa síndrome da morte súbita do lactente.
MidiaNews - E como identificar um caso de engasgo grave?
Anny Carvalho - Geralmente no engasgo grave o bebê desfalece, desmaia, porque o oxigênio falta tanto que ele não consegue respirar e vai ter essa síncope, vai desmaiar. No engasgo que seria mais leve, o bebê vai tossir, vai ficar tossindo até ele expelir esse líquido ou esse corpo estranho que estiver ali na traqueia. Então, nos mais graves o bebê acaba desmaiando, desfalecendo, ficando roxinho, não respira, aí são casos mais graves mesmo.
MidiaNews - E quais são os primeiros socorros que os pais devem saber, então, nesses casos?
Anny Carvalho - Os primeiros socorros que a gente faz, hoje em dia, a gente pede pra aspirar nariz e boca. Então o pai vai colocar a boca no narizinho do bebê e suga mesmo, tá? É a primeira medida. E a segunda é a de desengasgo. Você coloca o bebê sobre o seu braço, com a cabecinha na sua mão, segurando o pescocinho e a cabecinha dele, e vai fazer esse movimento (tapas nas costas em direção à cabeça) no meio das costinhas, entre as escápulas. Esse movimento é uma medida de desengasgar esse bebê. E chama o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, que fazendo a ligação, você consegue ser orientado pelo médico.
MidiaNews - E quais complicações de saúde o bebê pode desenvolver após um episódio de broncoaspiração ou engasgo grave?
Anny Carvalho - Geralmente, o bebê pode evoluir com uma pneumonia. E essas pneumonias broncoaspirativas são mais graves. Geralmente, elas fazem uma pneumonia importante na região de ápice de pulmão, que a gente fala. E pra um bebezinho, ali é uma pneumonia que vai acometer essa região importante do pulmão. E acaba dando bastante dificuldade pra respirar, insuficiência respiratória, e em alguns casos precisam até de internação em UTI e intubação. Então, teve episódio de broncoaspiração, por mais que o bebê está bem, é sempre bom levar ele ao médico já de imediato, para o médico auscultar esse pulmão e esse coração. E se necessário fazer um raio-x e acompanhamento com o médico pediatra após esse episódio. É importante.
MidiaNews - Como funciona esse tratamento?
Anny Carvalho - O tratamento é com antibiótico. Como o bebezinho lactente ali de 30 dias, 60 dias, é um bebê muito suscetível, muito facilmente ele evolui para formas graves. A gente acaba optando por internação em alguns casos e antibiótico endovenoso. Mas sempre tem que ser avaliado se há essa necessidade mesmo, se essa aspiração do leite ocasionou essa pneumonia, porque nem sempre isso acontece, mas em alguns casos pode acontecer.
MidiaNews - E consequências permanentes podem acontecer?
Anny Carvalho - Podem. A gente vê alguns casos, principalmente que trabalham em UTI, então a gente acaba tendo alguns casos de bebês que pelo engasgo, ou até mesmo pelo sufocamento, acabaram ficando muito tempo sem respirar e acabaram tendo uma parada cardiorespiratória. Então esse bebê teve falta de oxigênio no cérebro e acabou tendo lesão no cérebro. Esse neném fica o que a gente chama de um "bebê neuropata". Aquela criança que, infelizmente, vai ter problemas para desenvolver, problemas motores e outras consequências maiores. O engasgo e o sufocamento são uma causa de problemas neurológicos futuramente nesse bebê se ele evoluir para uma parada cardiorespiratória.
MidiaNews - E há formas de amamentar que sejam menos propícias a esses casos?
Anny Carvalho - Na verdade, a amamentação em si não é um problema, ela é um fator protetor, inclusive, para esses episódios. A posição em si que você amamenta não é um problema, inclusive uma das posições que as mães adoram é a posição deitada na cama com o bebê deitado. O problema é após essa amamentação. Então após o bebê amamentar, sempre colocar ele na posição vertical, que era antigamente chamada aquela “posição do arroto”, que o bebê fica na posiçãozinha vertical e ele tem mais facilidade desse leite descer, passar ali da região do estômago para o duodeno, que acaba melhorando esse refluxo ou esse retorno de leite que pode acontecer. E sempre ficar atento a esses sinais. Se o bebê gorfa muito, é sempre bom acompanhar com o pediatra mensalmente. Todo bebê tem que ser acompanhado pelo pediatra mensalmente, justamente para já identificar esses sinais de um bebê que tem mais refluxo e tem mais chances de evoluir com esses engasgos.
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