A exposição precoce à violência pode deixar marcas profundas e duradouras no desenvolvimento infantil, com reflexos que ultrapassam a vida privada e alcançam toda a sociedade. É o que alerta a neuropsicopedagoga Eliane Medeiros, ao explicar que experiências traumáticas na infância tendem a ser internalizadas e, mais tarde, reproduzidas, seja em comportamentos autodestrutivos, seja na relação com o outro.

“Essas crianças estão gerando e organizando conteúdos que mais tarde virão para a sociedade. Então, o impacto não é só para ela, é para a sociedade também, porque, de certa forma, ela vai reproduzir essa violência, seja contra si mesma, com comportamentos autolesivos, ou contra o outro”, disse em entrevista ao MidiaNews.
De acordo com a especialista, a mente infantil funciona como uma esponja, absorvendo tudo o que está ao seu redor. O cérebro da criança, que ainda está formando conexões neurais, quando exposto a estímulos intensos e fora do tempo adequado, pode sofrer sobrecargas que comprometem áreas como linguagem, cognição e o equilíbrio emocional.
A violência, seja ela presenciada ou vivenciada como alvo direto, pode gerar traumas para toda a vida. Eliane comparou o fenômeno a uma “lesão invisível” que, diferentemente de um machucado físico, o trauma psíquico “é uma lesão subjetiva que a gente não consegue pegar, não consegue mensurar”.
A especialista também abordou temas como o papel da família no desenvolvimento emocional, os sinais de alerta no comportamento infantil, a relação com transtornos e até a influência da internet e dos jogos na formação psíquica dos jovens.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews - O que acontece com a mente de uma criança que cresce exposta à violência dentro de casa ou na comunidade em que vive? Pode alterar o desenvolvimento do seu cérebro?
Eliane Medeiros - A mente da criança, que está em pleno desenvolvimento, é como se fosse uma esponja: ela vai absorvendo tudo o que está ao redor. Suponha, por exemplo, que ela absorva conteúdos inapropriados para a idade e para as sinapses neurais em desenvolvimento. Isso vai sobrecarregando a mente e o emocional dessa criança, e vai gerar prejuízos diversos.
A estrutura cerebral, assim como todo o corpo, está em desenvolvimento. Essas sinapses neurais têm uma quantidade para absorver. Se esse cérebro em desenvolvimento absorve coisas fora do tempo, informações massificadas, densas, e isso pode, de certa forma, alterar esse desenvolvimento. Essa criança pode desenvolver um transtorno que estava ali e, de repente, deu um start nessa mente que, às vezes, tinha capacidade de evoluir e pode encontrar barreiras no desenvolvimento. Podemos falar de linguagem, cognição, intelectual e emocional. Então, esse cérebro vai travando, vai tendo prejuízos e consequências muito sérias.
MidiaNews - Esses transtornos são gerados por essa realidade à qual a criança é exposta ou ela já nasce com uma predisposição?
Eliane Medeiros - Existe muito desconhecimento e mitos sobre transtornos. Costumo dizer que, muitas das vezes, o transtorno já está ali por uma condição genética, por exemplo, uma deficiência intelectual (DI), e aquele estímulo estressor, ela absorve, trava e dá o start. A genética contribui nesse sentido: ela já tem o gene e pode dar o start, gerar transtornos e deficiências, ou ele pode ficar quietinho ali a vida toda. O que vai estimular é sempre o ambiente, a comunidade, a casa, a escola, onde essa criança estiver interagindo. Existem alguns tipos de transtornos que são predispostos e outros adquiridos, e a criança está suscetível e vulnerável o tempo todo, desde o momento em que nasce.
MidiaNews - Em diversos casos que noticiamos, crianças de diferentes idades presenciaram os pais sendo assassinados. Como isso pode impactá-las?
Eliane Medeiros - Não dá para mensurar os inúmeros impactos. De acordo com a OMS, para elaborar o luto, são quatro anos, e a nossa sociedade não permite elaborar isso. Mas há impactos emocionais, nas relações, na sociabilidade entre a escola e a família. O pior de tudo é negligenciar e não olhar para esse impacto; aí haverá inúmeras consequências.
De imediato, é importante ter essa sensibilidade, principalmente quando a criança presencia isso. Temos visto hoje em dia muitos casos que nos deixam chocados, em que os pais são assassinados na frente das crianças, principalmente as mulheres vítimas de violência doméstica. Essas crianças já estão ali fomentando algumas coisas, gerando e organizando conteúdos que mais tarde virão para a sociedade. Então, o impacto não é só para ela, é para a sociedade também, porque, de certa forma, ela vai reproduzir essa violência, seja contra si mesma, com comportamentos autolesivos, ou contra o outro.
MidiaNews - Com o que os pais, responsáveis e educadores devem ficar atentos? Essas mudanças de comportamento são um alerta?
Eliane Medeiros - Sempre, independentemente de presenciarem algum tipo de violência ou não. Muitas vezes, o aspecto psicológico é subjetivo e silencioso. O mais interessante é acompanhar o desenvolvimento dessa criança.
A gente compreende hoje uma dinâmica em que, muitas vezes, a escola virou “depósito”. Os pais estão muito preocupados com a rotina, manter todo o funcionamento da casa, o financeiro, e colocam a criança em uma instituição, achando que a escola vai dar conta de tudo — e não: a escola tem que dar conta do pedagógico; a parte emocional, quem tem que ensinar é a família, isso é responsabilidade da família.
É não assisti-las em sua integridade emocional, desenvolvimento de aprendizagem cognitiva e intelectual, se está se relacionando bem com o coleguinha ou não, o que está vivenciando, o que está assistindo na internet. A gente tem que chamar a responsabilidade da família, enquanto formadores de opinião, enquanto mantenedores dessa criança que está em crescimento, em desenvolvimento. Essa família precisa estar consciente disso: que os responsáveis pela criação sejam os primeiros a ensinar sobre o que é a vida emocional, uma perda, sobre o que é elaborar um desentendimento, uma dificuldade, conflitos, brigas. Quando a família tem essa consciência, começa a fazer um trabalho de se auto-observar e de se autoconscientizar, porque, se eu vou ensinar meu filho a lidar com abuso, com briga, com discussão, com desrespeito — que é um abuso psicológico tão sutil e tão negligenciado —, se eu tenho que ensinar isso para o meu filho, eu, como família e responsável, automaticamente vou me autocobrar e vou ter que ser, de fato, o exemplo a ser seguido.
MidiaNews - Um caso que chocou em 2025 foi o feminicídio de uma empresária morta pelo marido em Lucas do Rio Verde. Além de matar a esposa na frente da filha de 7 anos, tentou matar a menina. Como uma violência dessa magnitude pode impactar o desenvolvimento?
Eliane Medeiros - Ela sendo exposta diretamente ou não, não dá para generalizar ou dizer o que vai acontecer. Nesse caso específico, existe o fator de que o pai matou a mãe, são oposições. Ela perdeu alguém que amava muito em detrimento de outro que praticou o assassinato.
Nem tudo é trauma, depende muito da forma como é contado e abordado aquele caso, aquela situação. Por exemplo, se alguém fala horrores desse pai, por mais que seja difícil, horroroso mesmo, mas é o pai dela — isso, de certa forma, precisa ser preservado. Até mesmo para a parte cognitiva e intelectual dela, enquanto mulher. Porque, senão, ela vai para o caminho do trauma mesmo.
A gente começa a intensificar diversos juízos de valor, sendo que, na verdade, ela tem que ser conduzida de uma maneira muito intensa nesse processo para que ela mesma entenda. É diferente de alguém dizer o que aconteceu e trazer a percepção dela; muitas das vezes, o trauma é gerado nesse contexto. Existe a mídia, pessoas e uma série de situações que vão colocá-la, muitas das vezes, contra um, contra outro, e isso vai trazer sofrimento para ela.

O certo é preservá-la de tudo isso, preservar esse cognitivo e dar uma oportunidade para ela escolher como quer lidar com isso.
MidiaNews - Existe diferença no impacto psicológico entre presenciar a violência e ser vítima direta dela?
Eliane Medeiros - Ela sendo exposta diretamente ou não, não dá para generalizar ou dizer o que vai acontecer. Cada pessoa é um universo. Imagine que uma criança tenha acesso a uma leitura ou a um vídeo das condições em que aconteceu e ela não estivesse presente na cena, e que fossem os pais dela. Ela não estaria envolvida, estaria assistindo de fora. O juízo de valor dela seria até diferente, porque tem esse distanciamento emocional. Mas ela pode olhar para toda essa cena, assistir a tudo isso, se envolver de certa forma, se perder nessas emoções e não conseguir lidar, sendo tão traumático quanto estar dentro dessa cena. Então, é muito relativo nesse sentido. Dependendo da idade dessa criança, dos estímulos a que já estava exposta, do que vivenciou, do que vai ouvir, ela tem mais chances de desenvolver transtornos, de perpetuar esse sofrimento, de arrastar esse luto, essa dor, essa tristeza.
MidiaNews - Para uma situação se tornar um trauma, isso depende mais do indivíduo ou do ambiente?
Eliane Medeiros - O aspecto do trauma é ocasionado no momento, por exemplo, em que você recebe uma notícia. A forma como você absorve, interpreta e compreende aquela notícia, como o seu cérebro consegue absorver aquilo, de acordo com os seus recursos internos. Se você já tem diversas dificuldades, transtornos e recebe a notícia de uma tragédia, automaticamente vai lidar com aquilo de uma maneira muito mais pesada, porque o seu recurso interno já está esgotado. Você já está lidando com transtornos que carrega a vida toda e vem mais a notícia de uma tragédia. É um fator individual porque, de acordo com o seu recurso interno, você vai responder àquele estímulo estressor, que pode ser uma notícia, presenciar um crime ou uma briga.
MidiaNews - E em casos de crianças vítimas de abusos sexuais? Como isso costuma afetar o desenvolvimento emocional e psicológico delas?
Eliane Medeiros - O abuso sexual está correlacionado à área da sexualidade, mas não deixa de afetar o psicológico e o emocional. Há ainda o tabu, que é a dificuldade de falar sobre isso, o que traz uma dificuldade de trabalhar o acontecimento de maneira mais precoce para evitar que os prejuízos atinjam níveis estratosféricos ou fora de controle. Não dá para medir ou dizer qual é pior, porque a balança é a mesma. Podem ser traumas tão difíceis, tanto um quanto o outro.
Quando é um abuso sexual, é muito mais tardio chegar à terapia, chegar ao olhar de alguém que está supervisionando, porque a criança tem dificuldade de falar sobre algo que nem entende que é tão ruim e pesado. Existem crianças que conseguem elaborar isso e seguem de uma forma que não tenham traumas em demais áreas. Algumas vão gerar um trauma que talvez dificilmente seja reversível, como dizem alguns especialistas.
Para mim, todo trauma é passível de ser trabalhado, ressignificado e reestruturado. É muito difícil, porém é possível seguir com uma vida apesar de todos os traumas.
Aos pais, sempre que perceberem algum abuso — e abuso é um toque, uma palavra sexualizada, assédio e o próprio ato sexual em si —, perguntem diariamente: “Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Tá andando com quem? Tá fazendo o quê? Quem é fulano?”, investigar a vida do filho e observar o menor sinal de que está acontecendo alguma coisa estranha, não deixar isso tomar uma proporção maior. Infelizmente, às vezes, a gente quer fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo, por não saber o que fazer e ficar paralisado. Aí a gente já rompe a primeira barreira do protocolo, que é a conscientização, e haverá, infelizmente, prejuízos como trauma.
MidiaNews - Falamos em diversos momentos sobre o termo trauma, o que é de fato um trauma?
Eliane Medeiros - Vou dar um exemplo em paralelo à medicina de traumatologia. Um indivíduo sofreu um acidente e gerou um trauma, uma lesão no joelho, na coxa, no quadril. Quando existe um trauma psíquico, é uma lesão subjetiva que a gente não consegue pegar, não consegue mensurar.
É como se a criança fosse uma tigela sensível de cristal e você jogasse nela uma informação que ela não tem condições, recursos internos para lidar, e você trinca aquele cristal, gera um trauma. Agora, se você der essa informação trabalhando com a criança aquela ideia, de uma forma lúdica, dependendo da idade, com bonecos, com recursos, pronto: ela recebe uma informação pesadíssima, mas o cristal está intacto, sem sequelas.
MidiaNews - Muitos acreditam que crianças “esquecem” situações traumáticas. Isso é um mito?
Eliane Medeiros - Sim, elas esquecem, e aí é onde vem o impacto do trauma: o cérebro aciona uma barreira, elas bloqueiam aquela informação e, a partir daquele momento, se não forem estimuladas a falar sobre aquilo, vão vivenciar outros prejuízos. Mas esse bloqueio já é o próprio trauma.
Muitas vezes, a sociedade pensa que a criança está mentindo. Mas, na verdade, não — não é porque ela quer, é automático. Se a informação vem de uma maneira sobrecarregada, que ela não dá conta, não tem recurso para lidar com aquilo, ela vai bloquear instantaneamente.

Pode ser que ela tenha algum transtorno, por exemplo, TDAH, que gera muito esquecimento ou falta de atenção, que não está relacionado ao fato de mentir. Como diferenciar a mentira de um bloqueio: você pergunta uma vez e observa de que forma está perguntando; depois, pergunta novamente. Dependendo da idade, se for mentira, a própria criança se desmente. Se for um bloqueio, ela vai bloquear todas as vezes. Se a criança tiver um comportamento reativo, de repulsa, não é mentira.
MidiaNews - Quais são os sinais mais comuns de que uma criança está sendo afetada emocionalmente pela violência?
Eliane Medeiros - Como diz Freud, o corpo fala. Então, é observar a linguagem corporal, que é muito mais do que a fala, do que a vocalização. É perceber como essa criança está se alimentando: saiu da rotina? Como está o sono? Se já desfraldou, está fazendo xixi na cama? É o que a gente chama de enurese noturna. Ela está mais retraída, mais “amuadinha”, mais silenciosa, chorosa, não quer fazer o que gosta. Esses são os sinais primordiais quando falamos dessa primeira infância.
MidiaNews - De que forma essas experiências na infância podem impactar a vida adulta dessas crianças?
Eliane Medeiros - É muito difícil dizer sem citar exemplos, mas, se essa criança não tratou o trauma, os bloqueios, “sobreviveu”, venceu tudo sozinha, os impactos serão dificuldade na socialização, irritabilidade, agressividade — que pode ser disfarçada de um espírito “competitivo” —, dificuldade de se relacionar, relacionamento interpessoal, amoroso, conjugal, porque ela vai reproduzir o que vivenciou. Ela pode reverberar todas as violências que vivenciou em seu comportamento. O maior impacto é reproduzir, talvez não literalmente, mas reproduzir o que vivenciou.
MidiaNews - Em casos de adolescentes, que riscos a exposição à violência traz para a saúde mental? Há relação com ideação suicida?
Eliane Medeiros - Tem uma relação direta. Quando é criança, ela vai ficar quietinha, vai alterar ao máximo a rotina dela, porque é o que dá conta de fazer. O adolescente já tem poder de decisão, opinião, gostos, vontades; começa a desenvolver capacidade de percepção, juízo moral, juízo de valor.
Ele não vai mais ficar só amuado; essa capacidade de sofrimento vai ser muito intensa, de maneira que, quando não consegue verbalizar, se não foi ensinado a verbalizar, esse impacto tende a trazer prejuízos nesse sentido.
Ele tem capacidade de pensar, tomar decisões, fazer juízo de valor, mas, muitas vezes, não tem diálogo com aqueles que cuidam. Então, quando existe esse sofrimento intenso, que leva ao pensamento suicida, é porque, muitas vezes, não tiveram acesso à informação sobre o que é um sofrimento intenso e o que fazer com aquilo.
Esse juízo de valor de decidir sobre a própria vida requer orientação e estímulo a um diálogo precoce. Por isso existem oficinas e programas nas escolas falando sobre o suicídio.
MidiaNews - Em que momento uma vítima de violência pode acabar se tornando também um agressor?
Eliane Medeiros - No momento em que ela não é acolhida e compreendida em seu sofrimento. E isso em todas as esferas.
MidiaNews - Em 2025, outros dois casos chocaram o país, nos quais adolescentes foram os autores dos assassinatos dos próprios pais — um em Colíder e outro no Rio de Janeiro. Que fatores podem levar menores a cometer crimes tão extremos?
Eliane Medeiros - Não consigo dizer outra resposta que não seja que eles estiveram, sim, expostos a estímulos de violência na internet. A internet foi essa janela, esse universo dos jogos, principalmente, sem supervisão. Eles não foram assistidos por alguém que pudesse orientar o pensamento. Porque o juízo de valor é exatamente isso: vou receber estímulos de todo tipo de informação o tempo todo. Eu preciso ser orientado, já que tenho poder de escolha, opinião e devo ser respeitado. Ele está consolidando o caráter e precisa ter acesso a esse juízo de valor.

E de onde vem esse juízo de valor? É da escola? Da família? Dos pais? Da igreja? Porque eles estão tendo acesso a muitas informações e hoje sabemos que a internet e os jogos online trazem impactos, alterações nas sinapses neurais — é como se fosse um vício. Aquilo fica tão compulsivo que, muitas vezes, ou eles vão querer sempre mais, de maneira irrestrita, ou fatalmente vão partir para a prática, vão praticar aquilo a que estão sendo expostos.
Sem contar o fator psicológico de uma predisposição genética de um sociopata: estando exposto a esses estímulos e sem orientação, você pode querer colocar em prática.
MidiaNews - A sociopatia é um fator genético?
Eliane Medeiros - A sociopatia tem uma predisposição. Existe a sociopatia e a psicopatia. Na perspectiva freudiana, existem três estruturas: a neurótica, a perversa e a psicótica. São estruturas psíquicas com as quais lidamos na vida, na nossa identidade, no nosso caráter.
A grande maioria, graças a Deus, é neurótica. Tem um ou outro que é perverso — então o sociopata estaria na perversão, que é cerca de 2% da população — e os psicopatas, 1%, uma proporção menor. O psicopata está na psicose, porque vai mais para o lado da perda de consciência, do delírio, da alucinação.
O perverso, muitas vezes, causa sofrimento, e o sociopata é aquele que traz prejuízos, transtornos, mas, de certa forma, não surta; é mais difícil de ser identificado. E, quando é identificado, já fez muita merda, porque está ali, incubado.
O narcisista é um sociopata, consegue conviver muito bem na sociedade. O psicopata, não. O psicopata vai dando sinais desde muito cedo.
Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).
|
0 Comentário(s).
|