“O ser mulher de verdade está na essência, no caráter. Não é na figura que eu represento, mas na forma como me posiciono".

A frase resume a trajetória da miss Isabelle Castro, de 32 anos, que transformou sua história pessoal em símbolo de representatividade e superação.
Terceiro lugar no concurso Miss Equality World 2025, realizado em Bangkok, na Tailândia, Isabelle carrega na faixa não apenas a conquista internacional, mas também o peso de uma caminhada marcada por desafios, descobertas e pioneirismo.
Antes dos aplausos e do reconhecimento, houve uma criança de apenas 7 anos que já não se reconhecia nos papéis que lhe eram impostos. Veio depois uma adolescência de transição vivida quase solitariamente, sem acompanhamento médico e com muitas dúvidas.
A virada aconteceu em 2021, quando Isabelle entrou para a história ao se tornar a primeira mulher trans a vencer um concurso municipal de beleza no Brasil, ao conquistar o título de Miss Cuiabá.
“Desde que me entendo como uma pessoa trans, eu sou mulher para mim. Eu sou a mulher da minha verdade. Não preciso da afirmação de ninguém para ser quem eu sou”, afirmou em entrevista ao MidiaNews.
Representar o Brasil no exterior, segundo ela, foi uma experiência difícil de descrever. “É um sentimento que não cabe no peito poder representar toda uma nação. Quando eu falo ‘toda uma nação’, engloba tanto a minha comunidade quanto todos os brasileiros”, disse, ainda emocionada com a conquista.
O encontro com o mundo

Na Tailândia, Isabelle viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória. Durante o concurso, uma palestra com uma médica endocrinologista reuniu mulheres trans de diferentes continentes, e o que ela descobriu ali ultrapassou fronteiras culturais e geográficas.
“As mesmas dúvidas que eu tenho, a menina da Ásia tem, a menina da Europa tem, a menina da África tem. No fim das contas, somos todas iguais”, reflete. “O maior aprendizado é mostrar que todos nós somos seres humanos".
A experiência também ampliou sua visão sobre a realidade de outras pessoas trans ao redor do mundo.
“Às vezes a gente vive os nossos problemas dentro da nossa comunidade, dentro da nossa bolha. Mas lá fora também existem muitas pessoas que passam por situações até piores que as nossas. Em alguns países elas têm o reconhecimento por serem mulheres, mas muitos outros direitos que nós temos aqui no Brasil ainda são negados”, afirmou.
A coroa e a solidão
Em 2021, Isabelle decidiu se inscrever no concurso Miss Cuiabá por um motivo prático. “Entrei não com o intuito de ser Miss Cuiabá, mas para ter um pouco mais de visibilidade e trazer mais clientes para o meu trabalho como maquiadora”, contou.
Mas a determinação que diz carregar consigo não a deixaria participar apenas por participar. O que veio depois da vitória, porém, revelou feridas que a beleza externa não era capaz de esconder.
“Quando eu estava nos ensaios, participando com elas, estava tudo bem: ‘ah, que legal que você está participando, é muito bom, dá visibilidade’. Mas quando fui eleita, senti que elas não aceitaram. Aquilo me doeu um pouco, porque a gente percebe o quanto a maldade pode estar dentro do ser humano".
Segundo Isabelle, o preconceito que antes era velado tornou-se explícito. “Queriam me denunciar, entrar com recurso para dizer que eu não era mulher de verdade".
Foi nesse momento que ela diz ter recorrido à própria força interior. “Eu pergunto: o que é ser mulher de verdade? Em nenhum momento me deixei abalar, porque desde que me entendo como uma pessoa trans, eu sou mulher para mim".
Quatro anos depois, Isabelle observa alguns avanços com mais lucidez. “Hoje já vejo muitas meninas trans se inscrevendo em concursos de beleza pelo Brasil. Mas eu fui a primeira mulher trans a ser finalista de um Miss Brasil disputado por mulheres, ficando em oitavo lugar no Miss Brasil Supranational. Depois dessa caminhada, até hoje nenhuma outra teve essa classificação entre as doze finalistas.”
Ela reconhece que as portas estão oficialmente abertas, aceitam a mulher trans porque é um direito dela estar ali, mas acredita que ainda há barreiras a superar.
“Precisa abrir um pouco mais essas portas. Hoje os concursos de beleza não são só beleza; são muito mais uma marca, um negócio. Muitas vezes eles já têm quem querem trabalhar para representar essa marca e, talvez, o nosso país".
Início da transição

Antes das coroas, dos holofotes e das passarelas, houve uma criança confusa crescendo em uma família evangélica em Cuiabá. Aos 7 ou 8 anos, Isabelle já percebia que não se encaixava nos padrões que esperavam dela.
“Eu sempre gostei de coisas de meninas: cozinhar, cuidar de animais, cuidar da casa, mudar os móveis de lugar. Mas eu não entendia isso, até porque vim de uma família religiosa. Para mim foi muito difícil”, recordou.
Aos 16 anos, sem apoio médico e sem diálogo com a família sobre o assunto, começou a tomar hormônios por conta própria. A referência vinha do boca a boca com outras mulheres trans.
“Elas falavam que tomavam o famoso Perlutam a cada 15 dias, um anticoncepcional feminino com doses de progesterona e estradiol. Era algo muito arriscado, hoje eu tenho consciência disso".
Hoje, ela faz questão de deixar um alerta. “O melhor caminho é procurar um profissional da área da saúde. O hormônio é algo muito sério. Dependendo da dosagem, você pode ter trombose, parada cardíaca e inúmeros outros problemas".
Ao contrário de muitas histórias marcadas por conflitos e rupturas familiares, Isabelle descreve um processo silencioso, mas respeitoso. Criada pela avó paterna, em um lar protestante, ela nunca chegou a sentar com a família para dizer explicitamente que era trans.
“Até hoje eu nunca precisei falar ‘ah, eu sou’, porque eu sempre fui. A minha família sempre percebeu, sempre viu isso em mim. Eles não julgavam, não falavam nada, porque não cabia a eles intervir".
A fé, longe de ser um obstáculo, tornou-se um pilar interpretado à sua própria maneira.
“Na Bíblia está escrito que você deve amar o próximo como a si mesmo. Um dos mandamentos é não julgar. Quem tem o direito de julgar é Deus. Não cabe a você".
O orgulho da família veio com o tempo e com as conquistas.
“Hoje, com 33 anos, tenho minha casa própria, tenho meu emprego, trabalho em dois lugares. Nunca fui motivo de vergonha para minha família, e sim motivo de orgulho".
Capacitação profissional

Além dos concursos de beleza, Isabelle construiu uma carreira sólida. São 14 anos de atuação como maquiadora. Ela também trabalha como relações-públicas no Garden — uma das baladas mais conhecidas de Cuiabá — e no restaurante japonês Azuri.
Para ela, a capacitação profissional é um dos caminhos mais importantes para ampliar a inclusão e combater preconceitos.
“Quando você é capacitado, as portas não podem ser fechadas para você. Se você é uma mulher trans, se você é gay, se você é lésbica e é capacitado naquilo que faz, você tem todo o direito de estar ali exercendo o seu trabalho”, afirmou.
O recado para as pessoas mais jovens, especialmente aquelas que estão iniciando a própria trajetória, é direto.
“É muito importante que as meninas que estão começando agora não achem que nós temos apenas as ruas ou poucos meios de ganhar dinheiro. Não estou criticando nem julgando a mulher que trabalha como profissional do sexo — cada um escolhe a profissão que deseja —, mas é importante lembrar que não existe apenas esse caminho".
Segundo Isabelle, muitas vezes a falta de oportunidades ou de perspectivas acaba levando a essa escolha.
“Às vezes você está naquela vida porque acredita que não tem oportunidade de ser advogada, de ser veterinária. Mas essa oportunidade existe para todos nós".
“Você não pode abandonar os estudos, por mais difícil que seja. Hoje existem programas que ajudam a concluir os estudos e possibilitam entrar em uma faculdade. Existem vários caminhos, mas também é preciso ter interesse".
Preconceito cotidianos
Yasmin Silva/MidiaNews
"Investir na educação quebra barreiras. Quando você tem estudo, uma formação, consegue se posicionar melhor"
Apesar de viver em uma cidade que considera conservadora, Isabelle afirma nunca ter sofrido violência física. Os desconfortos vieram de outras formas: pronomes usados de maneira propositalmente errada, olhares tortos e pequenas agressões cotidianas.
“Eu sempre tentei cuidar muito da minha saúde mental para que isso não me afetasse. Se a pessoa quer falar ‘ele’, eu posso até dizer ‘não, é ela’, mas não vou entrar em um debate. Esse problema está na pessoa. Se ela não me aceita, é um problema dela, não é meu".
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Isabelle também não romantiza a realidade.
“Ser mulher no Brasil é difícil. Não só para a mulher trans. Nós vemos inúmeras atrocidades contra mulheres também. Essa semana aconteceu o caso da adolescente no Rio de Janeiro, estuprada por quatro meninos. Eu me senti muito mal com isso".
Para ela, a violência que atinge mulheres em geral também dialoga com a realidade das mulheres trans, que frequentemente enfrentam ainda mais vulnerabilidade e invisibilidade.
A saída, na avaliação de Isabelle, passa principalmente pela educação.
“Investir na educação quebra barreiras. Quando você tem estudo, uma formação, consegue se posicionar melhor. Não que uma mulher trans sem estudo não consiga — consegue sim —, mas a educação abre portas.”

Questionada sobre o papel do Estado na proteção de mulheres trans, Isabelle defende a criação de políticas públicas mais específicas.
“Idealizar mais programas para pessoas trans, tanto na educação quanto no esporte. Eu vejo muita crítica sobre mulheres trans no esporte. Se você não quer uma mulher trans competindo com uma mulher, por que não criar uma delegação só para pessoas trans? Antes de criticar, é preciso apresentar uma solução".
Ela também sugere a criação de canais de acolhimento direcionados.
“Assim como existe amparo para mulheres, com números específicos para denunciar violência, algo parecido poderia ser implementado para mulheres trans. Quando você cria um projeto de lei que acolhe mulheres trans em situação de vulnerabilidade, você também capacita pessoas para trabalhar com essa realidade.”
Para jovens trans que hoje enfrentam a falta de apoio familiar, Isabelle deixa um conselho que gostaria de ter ouvido quando era mais nova.
“Em primeiro lugar, nunca desistir dos seus sonhos. Se não tiver apoio da família, busque apoio nos amigos. Sempre vai existir alguém que vai te apoiar".
Ela também lembra que existem redes de acolhimento para quem precisa. “Caso esse apoio não venha, existem casas de acolhimento. Mas o primordial é você não desistir de ser quem você é", finalizou.
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