General Rondon com a tripulação
Há exatos 94 anos, no dia 12 de junho de 1931, uma expedição norte-americana encontrou-se com o “herói nacional” Marechal Cândido Rondon para solicitar seu apoio durante uma jornada por territórios indígenas de Mato Grosso. Como parte do auxílio prestado, o mato-grossense realizou seu primeiro voo, sobrevoando o território estadual.
O relato dessa experiência foi registrado por Hans Frederick Due, operador de rádio designado para acompanhar Expedição Matto Grosso, que havia começado em janeiro daquele ano.
Hans integrava um grupo formado por pesquisadores, antropólogos, médicos e cineastas que viajou dos Estados Unidos a Mato Grosso com o objetivo de filmar o documentário "Matto Grosso: The Great Brazilian Wilderness", considerado o primeiro documentário sonoro do mundo.
Uma reportagem do MidiaNews, publicada na semana passada, mostrou trechos do filme (veja AQUI) e relatou a saga dos exploradores.
Atualmente, o filme é objeto de estudo do grupo de pesquisa “Memória e Preservação do Cinema e Audiovisual em Mato Grosso: Acervo, História e Cineclubismo”, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A pesquisa é coordenada pela professora de cinema da instituição, Letícia Capanema.
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O Marechal Rondon com a tripulação do avião
Com o objetivo de registrar imagens em vídeo da vida indígena no interior de Mato Grosso, a expedição, patrocinada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, chegou de barco ao município de Corumbá (então pertencente ao estado de Mato Grosso) e seguiu em direção à região Norte.
Entre os tripulantes estavam o russo Vladimir Perfilieff, o letão e guia Alexander "Sasha" Siemel, o antropólogo italiano Vincenzo Petrullo, o empresário Fenimore Johnson, o pesquisador James A.G. Rehn, o repórter David Newell, o cineasta Floyd D. Crosby, o cinegrafista John S. Clarke e o fotógrafo Arthur P. Rossi.
A autorização
Diante da falta de permissão para entrar em terras indígenas, o grupo se instalou em um acampamento em Cáceres, e manteve as tratativas para solicitar autorização ao Governo Federal para acessar territórios ocupados pelos Bororo.
Na época, o acesso a terras indígenas exigia permissão oficial. Isso porque, em 1910, havia sido criado, com o apoio do próprio Marechal Rondon, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com o objetivo de proteger os povos originários diante do aumento de expedições e invasões não autorizadas.
A expedição chegou a passar por Cuiabá, conforme relatos do antropólogo Vincenzo Petrullo. Ele detalha que a equipe buscava obter autorizações oficiais concedidas pelo SPI para visitar comunidades indígenas.
“Ao chegar a Cuiabá, descobri que era proibido visitar qualquer tribo indígena sem uma permissão especial do governo. Constatou-se que, nos últimos anos, várias expedições estrangeiras, sob o pretexto de fins científicos, publicaram posteriormente artigos sensacionalistas sobre as dificuldades enfrentadas. Os resultados científicos raramente foram divulgados ao público, exceto por meio de palestras populares ou livros de aventura”, escreveu Petrullo.
Sem resposta governamental, o grupo decidiu entrar em contato direto com Rondon, uma figura de grande prestígio e influência, para interceder e viabilizar o contato da expedição com os povos indígenas.
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Voo do Marechal Rondon mostrado em vermelho
As negociações foram registradas por meio de correspondências trocadas entre o Marechal e os pesquisadores.
Como forma de agradecimento, os pesquisadores ofereceram a Rondon um assento em seu avião — descrito no relatório como o primeiro voo realizado por ele. O Marechal partiu de Corumbá com destino a Porto Jofre, Cuiabá e Rondonópolis. O convite foi aceito, principalmente porque a viagem aérea economizaria semanas de deslocamento por terra.
Após Rondon aceitar o convite, Johnson, empresário responsável pela expedição, solicitou dois voos: o primeiro de Corumbá a Porto Jofre e o segundo de Porto Jofre a Cuiabá. Ao todo, em quatro dias de viagem, Rondon percorreu aproximadamente 800 milhas aéreas por Mato Grosso.
Grato pela viagem, Rondon assinou as autorizações necessárias para que o grupo pudesse seguir com a expedição. Um artigo publicado pela Universidade da Pensilvânia, em 2018, descreve a surpresa de Johnson diante da atitude do Marechal.
“Johnson se admirou com o fato de Rondon 'ter conseguido até mesmo a cooperação da Inspetoria', instruindo a equipe do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) a traçar uma rota para a bacia do rio Xingu. Rondon, então, corrigiu os mapas da expedição".
Com o apoio de Rondon e as autorizações em mãos, os pesquisadores puderam acessar diversas áreas do território mato-grossense, incluindo aldeias indígenas de difícil acesso.
Povos visitados
Todo o processo foi cuidadosamente documentado por Vincenzo Petrullo. Fotografias tiradas na época, hoje disponíveis no site da Universidade da Pensilvânia, mostram os pesquisadores em meio às florestas do norte do Estado.
Em seu relatório publicado nos Estados Unidos após o retorno, Petrullo descreveu Mato Grosso como um estado isolado, com baixa densidade populacional e presença marcante de culturas indígenas tradicionais.
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Expedição em direção a área indígena Bororo
“Este relato do meu trabalho de campo em Mato Grosso, Brasil, durante 1931, é oferecido aos interessados em povos primitivos e, especialmente, em arqueologia e etnologia sul-americanas”, escreveu na introdução.
No texto ele analisou que o isolamento do restante do Brasil, devido às barreiras geográficas, contribuía para a lenta colonização de Mato Grosso.
“Na literatura popular, [Mato Grosso] é frequentemente referido como a terra das civilizações perdidas, das cidades douradas, das minas de ouro, dos diamantes, da morte, das dificuldades, dos perigos terríveis e dos aborígenes invencíveis. Em suma, continua sendo, em grande parte, a terra da fábula, e não da realidade".
Segundo relatórios de Petrullo, o curso dos rios era determinante para a organização e assentamento das culturas indígenas.
“A quantidade de peixes parece determinar a densidade populacional. Aldeias indígenas estão ao longo dos rios, próximas umas das outras. Esta é a parte do Mato Grosso pouco explorada e, em algumas áreas, totalmente desconhecida”.
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