Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
MARCO DO CINEMA
01.06.2025 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Expedição dos EUA que fez filme em MT teve ajuda de Rondon

Grupo se aproximou da icônica figura de Mato Grosso para acessar aldeias indígenas no interior

Reprodução

Marechal Rondon e Fenimore Johnson na aeronave utilizada durante o voo

Marechal Rondon e Fenimore Johnson na aeronave utilizada durante o voo

ANDRELINA BRAZ
DA REDAÇÃO

Há exatos 94 anos, no dia 12 de junho de 1931, uma expedição norte-americana encontrou-se com o “herói nacional” Marechal Cândido Rondon para solicitar seu apoio durante uma jornada por territórios indígenas de Mato Grosso. Como parte do auxílio prestado, o mato-grossense realizou seu primeiro voo, sobrevoando o território estadual.

 

O relato dessa experiência foi registrado por Hans Frederick Due, operador de rádio designado para acompanhar Expedição Matto Grosso, que havia começado em janeiro daquele ano.

 

Hans integrava um grupo formado por pesquisadores, antropólogos, médicos e cineastas que viajou dos Estados Unidos a Mato Grosso com o objetivo de filmar o documentário "Matto Grosso: The Great Brazilian Wilderness", considerado o primeiro documentário sonoro do mundo.

 

Uma reportagem do MidiaNews, publicada na semana passada, mostrou trechos do filme (veja AQUI) e relatou a saga dos exploradores.

  

Atualmente, o filme é objeto de estudo do grupo de pesquisa “Memória e Preservação do Cinema e Audiovisual em Mato Grosso: Acervo, História e Cineclubismo”, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A pesquisa é coordenada pela professora de cinema da instituição, Letícia Capanema.

Reprodução

General Rondon com a tripulação

O Marechal Rondon com a tripulação do avião

 

Com o objetivo de registrar imagens em vídeo da vida indígena no interior de Mato Grosso, a expedição, patrocinada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, chegou de barco ao município de Corumbá (então pertencente ao estado de Mato Grosso) e seguiu em direção à região Norte.

 

Entre os tripulantes estavam o russo Vladimir Perfilieff, o letão e guia Alexander "Sasha" Siemel, o antropólogo italiano Vincenzo Petrullo, o empresário Fenimore Johnson, o pesquisador James A.G. Rehn, o repórter David Newell, o cineasta Floyd D. Crosby, o cinegrafista John S. Clarke e o fotógrafo Arthur P. Rossi. 

 

A autorização  

 

Diante da falta de permissão para entrar em terras indígenas, o grupo se instalou em um acampamento em Cáceres, e manteve as tratativas para solicitar autorização ao Governo Federal para acessar territórios ocupados pelos Bororo.

 

Na época, o acesso a terras indígenas exigia permissão oficial. Isso porque, em 1910, havia sido criado, com o apoio do próprio Marechal Rondon, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com o objetivo de proteger os povos originários diante do aumento de expedições e invasões não autorizadas.

 

A expedição chegou a passar por Cuiabá, conforme relatos do antropólogo Vincenzo Petrullo. Ele detalha que a equipe buscava obter autorizações oficiais concedidas pelo SPI para visitar comunidades indígenas.

 

“Ao chegar a Cuiabá, descobri que era proibido visitar qualquer tribo indígena sem uma permissão especial do governo. Constatou-se que, nos últimos anos, várias expedições estrangeiras, sob o pretexto de fins científicos, publicaram posteriormente artigos sensacionalistas sobre as dificuldades enfrentadas. Os resultados científicos raramente foram divulgados ao público, exceto por meio de palestras populares ou livros de aventura”, escreveu Petrullo.

 

Sem resposta governamental, o grupo decidiu entrar em contato direto com Rondon, uma figura de grande prestígio e influência, para interceder e viabilizar o contato da expedição com os povos indígenas.

 

Reprodução

O voo do General Rondon (mostrado em vermelho) decolou de Corumbá, pousou em Porto Joffre, sobrevoou Parigara, pousou em Cuiabá e retornou a Porto Joffre

Voo do Marechal Rondon mostrado em vermelho

As negociações foram registradas por meio de correspondências trocadas entre o Marechal e os pesquisadores.

 

Como forma de agradecimento, os pesquisadores ofereceram a Rondon um assento em seu avião — descrito no relatório como o primeiro voo realizado por ele. O Marechal partiu de Corumbá com destino a Porto Jofre, Cuiabá e Rondonópolis. O convite foi aceito, principalmente porque a viagem aérea economizaria semanas de deslocamento por terra.

 

Após Rondon aceitar o convite, Johnson, empresário responsável pela expedição, solicitou dois voos: o primeiro de Corumbá a Porto Jofre e o segundo de Porto Jofre a Cuiabá. Ao todo, em quatro dias de viagem, Rondon percorreu aproximadamente 800 milhas aéreas por Mato Grosso.

 

Grato pela viagem, Rondon assinou as autorizações necessárias para que o grupo pudesse seguir com a expedição. Um artigo publicado pela Universidade da Pensilvânia, em 2018, descreve a surpresa de Johnson diante da atitude do Marechal.

 

“Johnson se admirou com o fato de Rondon 'ter conseguido até mesmo a cooperação da Inspetoria', instruindo a equipe do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) a traçar uma rota para a bacia do rio Xingu. Rondon, então, corrigiu os mapas da expedição".

 

 

 

Com o apoio de Rondon e as autorizações em mãos, os pesquisadores puderam acessar diversas áreas do território mato-grossense, incluindo aldeias indígenas de difícil acesso.

 

Povos visitados

 

Todo o processo foi cuidadosamente documentado por Vincenzo Petrullo. Fotografias tiradas na época, hoje disponíveis no site da Universidade da Pensilvânia, mostram os pesquisadores em meio às florestas do norte do Estado.

 

Em seu relatório publicado nos Estados Unidos após o retorno, Petrullo descreveu Mato Grosso como um estado isolado, com baixa densidade populacional e presença marcante de culturas indígenas tradicionais.

 

Reprodução

Expedição a caminho da aldeia Bororo

Expedição em direção a área indígena Bororo

“Este relato do meu trabalho de campo em Mato Grosso, Brasil, durante 1931, é oferecido aos interessados em povos primitivos e, especialmente, em arqueologia e etnologia sul-americanas”, escreveu na introdução.

 

No texto ele analisou que o isolamento do restante do Brasil, devido às barreiras geográficas, contribuía para a lenta colonização de Mato Grosso. 

 

“Na literatura popular, [Mato Grosso] é frequentemente referido como a terra das civilizações perdidas, das cidades douradas, das minas de ouro, dos diamantes, da morte, das dificuldades, dos perigos terríveis e dos aborígenes invencíveis. Em suma, continua sendo, em grande parte, a terra da fábula, e não da realidade".

 

Segundo relatórios de Petrullo, o curso dos rios era determinante para a organização e assentamento das culturas indígenas.

 

“A quantidade de peixes parece determinar a densidade populacional. Aldeias indígenas estão ao longo dos rios, próximas umas das outras. Esta é a parte do Mato Grosso pouco explorada e, em algumas áreas, totalmente desconhecida”.

 

Leia mais 

 

Há 94 anos, missão dos EUA filmou "vida selvagem" em MT; veja

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).

GALERIA DE FOTOS
Reprodução

General Rondon com a tripulação

Reprodução

Comitiva do General Rondon em Porto Joffre. Fenimore Johnson na extrema direita, ao lado de Rondon

Reprodução

General Rondon e Fenimore Johnson

Reprodução

O voo do General Rondon (mostrado em vermelho) decolou de Corumbá, pousou em Porto Joffre, sobrevoou Parigara, pousou em Cuiabá e retornou a Porto Joffre

Reprodução

Expedição a caminho da aldeia Bororo

Reprodução

Membros da expedição na entrada de uma caverna

Reprodução

Carta escrita por Marechal Candido Rondon

reprodução

Carta de Rondon traçando Rota de viagem




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
0 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia