
Eu já fui assaltada, amarrada e deixada no mato. Me lembro até hoje
Há uma década na profissão, Solange Menacho, de 59 anos, presidente da Associação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores por Aplicativo (ANSTAPP), contou já ter passado muito perrengue nas ruas e, entre seus relatos, está um episódio traumático.
“Eu já fui assaltada, amarrada e deixada no mato. Me lembro até hoje, foi na madrugada do dia 2 de novembro de 2023. Levaram meu carro, o celular e me obrigaram a fazer pix. Graças a Deus aconteceu somente uma vez e espero nunca mais passar por isso”, afirmou.
“A gente que está na rodagem sabe que vai sair para trabalhar, mas não sabe o que vai acontecer durante o dia ou à noite”, completou.
Esse é o risco enfrentado por 16 mil motoristas cadastrados nas principais plataformas somente em Cuiabá e Várzea Grande — mais da metade do total em Mato Grosso, que, segundo a presidente, é de aproximadamente 30 mil.
Yasmin Silva/MidiaNews
Marcelo Evaristo, ex-instrutor de autoescola, que hoje é motorista de aplicativo
O número engloba desde trabalhadores esporádicos, que veem nas corridas um complemento à renda, até aqueles que se dedicam exclusivamente à profissão, como é o caso de Marcelo Evaristo Pedroso de Barros, de 41 anos, ex-instrutor de autoescola.
Há cerca de sete anos, ele deixou de dar aulas para turbinar sua renda e hoje fatura até R$ 9 mil por mês. “Varia muito, não tem um valor exato, é entre R$ 6 e R$ 9 mil”, disse.
Na tentativa de “escapar do perigo” das ruas, Marcelo optou por trabalhar somente durante o dia e, antes das seis da manhã, ele já está rodando a Capital. “Para pegar quem trabalha cedo, eu tenho que estar na rua mais cedo ainda”, disse.
Do que ele não conseguiu se livrar foi dos folgados. Desde quem vai ao Parque Mãe Bonifácia fazer caminhada e se recusa a atravessar o estacionamento a pé, a quem quer descer fora do ponto de desembarque ou tenta entrar com comida no carro.
Por conta deles, parou até de trabalhar com dinheiro ou Pix como forma de pagamento. “A pessoa chega no local de desembarque e a gente até já conhece os argumentos: ‘meu banco não tá abrindo’, ‘tô sem internet’, ‘tem como jogar para a próxima corrida?’”, contou.
Marcelo às vezes pensa em abandonar as corridas, mas disse que, ao colocar as contas na ponta do lápis, ainda são mais vantajosas. “Na minha profissão não vou ganhar mais que R$ 3 mil, posso trabalhar o tanto que for. Com o aplicativo eu tenho liberdade e consigo fazer meu horário. Eu tenho o privilégio de buscar meu filho na escola todos os dias”, disse.
Se para Marcelo o aplicativo é estratégia e liberdade, Valquíria Pinheiro Miranda, de 41 anos, o enxerga como missão. Maranhense, em Cuiabá há 24 anos, ela começou a dirigir em 2018, após enfrentar o colapso do próprio negócio e uma sequência de perdas pessoais.
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Valquiria Pinheiro, criou podcast e entrevista passageiros durante as corridas
Endividada e emocionalmente fragilizada, ela disse ter chegado ao fundo do poço. “Teve um momento em que pensei em tirar a minha vida”, relembrou. Enquanto estava na pior fase, Valquíria se aproximou de Deus e comprometeu-se a “fazer jus à palavra Dele”.
O carro virou um espaço de acolhimento, e ela viu nas corridas de aplicativo a oportunidade de cumprir esse propósito. “Aqui eu me ressignifico todo santo dia. É sobre ser aquela diferença que o outro necessita. É muito gratificante”, disse.
“É também um desafio constante, você lida com uma diversidade de pessoas. Passageiros que chegam aqui estressados, bravos, até mesmo já não querendo mais viver, isso é rotineiro”, afirmou.

Aqui eu me ressignifico todo santo dia. É sobre ser aquela diferença que o outro necessita
Com sensibilidade, Valquíria aprendeu a perceber, no olhar, quem quer silêncio e quem precisa desabafar ou receber um conselho. Dessa relação nasceu o PodVal, um podcast em que ela entrevista passageiros durante as corridas. “Ser motorista de aplicativo não deixa de ser um psicólogo”, disse.
Valquíria, que já ficou até 12 horas por dia atrás do volante, hoje concilia a profissão com um cargo fixo na área comercial de uma empresa. Assim também faz o instrutor de autoescola Edicarlos Severino dos Santos, de 42 anos, que concilia aulas, produção de conteúdo para seu canal no YouTube e as corridas como forma de complementar a renda.
A experiência de já ter largado um emprego fixo para viver somente das corridas e ter ficado sem nada quando o carro quebrou virou lição. “Uber não é renda fixa. Não cometo esse erro de novo”, disse.
Natural de Rondônia, ele mora em Cuiabá desde 2021, e foi o amor pela direção que o levou tanto à sala de aula quanto às ruas, além de criar conteúdo para preparar seus alunos para o exame prático da CNH. “Eu amo o que eu faço. Eu amo dirigir e aí juntei as duas coisas”.
Para Edicarlos, cada corrida é uma história única: tem fofoca, perrengue, desabafo e até passageiros famosos, como Deyverson, jogador do Cuiabá.
“Estava perto da Arena e levei ele ao Hotel Palace, chique demais, muito dez, muito legal, muito divertido. Começamos a conversar e trocar ideia. Gente boa demais”, disse.
Segundo ele, o que mais tem é “história de casal” e, muitas vezes, fica com a “fofoca” pela metade com o fim da corrida. “A gente fica curioso sem saber o final”, disse.
No caminho, ele encontra também histórias inspiradoras, que o fazem repensar a própria vida, como a de uma mulher em tratamento contra o câncer, animada por estar perto da última sessão de quimioterapia. “A fé dela passa pra gente”, disse.
Yasmin Silva/MidiaNews
Edicarlos Severino cria conteúdo para o YouTube e também é motorista de APP
Assim como Solange, os demais motoristas ouvidos pelo MidiaNews já passaram por situações de risco nas ruas. Valquíria recordou o dia em que foi parar em uma boca de fumo, em Várzea Grande.
“Ele tinha colocado parada, mas o endereço divergia. Chegamos em uma estrada de chão e ele desceu. Quando passaram 10 minutos pensei: ‘Deus, tá errado’. Dei uma rézinha e vi pela frestinha do portão: ‘putz, uma boca de fumo’”. Nervosa, ela deu ré, desligou a internet e fugiu do local.
Valquíria recordou ainda o caso macabro de abril de 2024, em que três motoristas de aplicativo foram assassinados em Cuiabá e Várzea Grande, e pensou em abandonar as corridas. O objetivo dos criminosos era matar um motorista por dia.
“Foi impactante, deu um desespero. Eu pensei muito em sair, mas a minha situação financeira não estava das melhores e não tive opção”, disse.
Edicarlos, por sua vez, aprendeu na prática a identificar as corridas de risco. “Receio eu sempre tenho, mas eu já sei os locais de perigo”, disse. Recém-chegado de Rondônia, ele se viu no meio de uma ação policial no Bairro Formigueiro, quando viaturas da Rotam fecharam a via em uma abordagem ao carro que seguia à sua frente.
Os ocupantes do veículo jogaram as armas no chão e se renderam. “Se tivesse confronto, eu estaria na linha de tiro”, relembrou. Desde então, passou a evitar alguns bairros.

Se tivesse confronto, eu estaria na linha de tiro
Em outra ocasião, ele foi confundido com um policial à paisana no bairro Santa Isabel. Ao fazer a verificação do aplicativo, que exige fotos do carro e do motorista, foi abordado por três homens. “Você é polícia? Está tirando fotos da gente”, questionaram.
Ele se apresentou como trabalhador, mas quem o livrou foi a dona de um espetinho próximo, que confirmou sua versão. Liberado, entrou no carro — que ainda falhou ao ligar — e deixou o local às pressas, por volta das duas da manhã.
Edicarlos faz parte de um grupo de motoristas chamado “Anjos da Noite”. Nele, trocam informações por rádio e acompanham a localização uns dos outros em tempo real. Foi assim que ele e outros 10 “anjos da noite” conseguiram socorrer uma amiga que havia sido sequestrada durante uma corrida.
Apesar das situações de risco, Edicarlos garantiu que hoje há mais segurança nas ruas para a categoria, muito por conta da conquista do sindicato: o botão do pânico.
“Desde que nós conseguimos o botão do pânico, hoje o malandro, o bandido, pensa duas vezes ao fazer o assalto. Está sendo em tempo recorde, já teve caso aqui em Cuiabá, de ser acionado e em 3 minutos a polícia estar junto do motorista já pegando o carro”, afirmou Solange.
Entre as delícias e as dores da profissão, as histórias contadas pelos entrevistados revelam o retrato invisível do cotidiano e dos riscos enfrentados pela categoria.
O que pesa no bolso?
Solange hoje roda a cidade usando quatro diferentes aplicativos (Uber, 99 Pop, Urbano Norte e Mob Vip) e uma calculadora de ganhos que a ajuda a escolher a corrida mais vantajosa.
Segundo ela, um conjunto de fatores pesa no bolso do trabalhador, desde as taxas cobradas pelos aplicativos, que em algumas plataformas podem chegar a até 60% do valor da corrida, até os preços elevados do combustível e o desgaste do veículo.
“O motorista hoje que faz R$ 400 ao dia, se ele estiver no combustível líquido, vai gastar em torno de R$ 100 a 150. Entre água, um café, um salgado, gasta mais de R$ 30 reais e eu nem estou colocando nessa conta o pneu e a lavagem do carro, que o certo seria ser feita de 3 em 3 dias”, disse Solange.
Marcelo aprendeu na prática que a profissão exige cálculo. Com o carro adaptado ao GNV, reduziu custos e garantiu fôlego no orçamento para seguir. Hoje, ele gasta cerca de R$ 70 por dia com combustível — quase metade do que gastava com etanol. “Se não fosse o gás, eu não estaria mais no aplicativo”, afirmou.




