Cuiabá, Quarta-Feira, 11 de Março de 2026
PERSONAGEM DA COMUNICAÇÃO
13.02.2022 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Há 30 anos morria Malik Didier, que revolucionou a TV no Estado

Amigos e familiares relembram com carinho momentos do jornalista Malik Didier, que morreu em fevereiro de 1992

Reprodução/ José Motta

Trecho de entrevista realizada por Malik Didier em 1983

Trecho de entrevista realizada por Malik Didier em 1983

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

Há 30 anos Mato Grosso perdia um de seus mais revolucionários comunicadores, o jornalista Malik Didier. Aos 36 anos, ele foi vítima de um trágico acidente de carro que matou toda sua família na MT-251, entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães, no dia 16 de fevereiro de 1992.

 

O “Chacrinha de Mato Grosso”, como ficou conhecido ainda em vida, partiu cedo, mas antes disso deixou seu nome marcado na comunicação do Estado.

 

Criado em São Paulo e com ascendência francesa e árabe, Malik Didier Nemer Zahafi veio para Cuiabá em 1978 acompanhando os pais, quando ainda tinha 22 anos. Apesar de na época sequer almejar um trabalho diante das câmeras, já dava sinais da sua desenvoltura.

 

“Ele tinha uma facilidade em conversar com as pessoas, era muito alegre e inteligente, já um excelente comunicador”, relembra Yamina Zahafi, de 54 anos, irmã caçula.

 

Malik deu seus primeiros passos no ramo da comunicação em 1981, ao ser contratado como estagiário na produção da TV Centro América. Em pouco tempo, conquistou seu espaço em frente à telinha.

 

“Na época nós não tínhamos o curso de Jornalismo na [Universidade] Federal. As oportunidades eram diferentes. E quando a pessoa conseguia se expressar, a televisão avaliava isso e colocava quem dava conta do trabalho”, relembra o jornalista e produtor de TV José Motta, de 58 anos, amigo e sócio de Malik.

Reprodução

Malik Didier

Malik Didier em pose inusitada durante reportagem

 

Em 1983, Malik e colegas de TV Centro América decidiram montar uma produtora de vídeos, a MBC, onde atuava como repórter e gestor – parte comercial da empresa. Em pouco tempo todos os integrantes saíram da emissora e passaram a se dedicar exclusivamente ao projeto.

 

Um dos inesquecíveis produtos da MBC era o programa “Oito Especial”, veiculado na TV Brasil Oeste. Nele Malik pôde explorar todo o seu perfil criativo e se consolidar na TV como um personagem único.

 

“Era um programa em que ele poderia ser ele mesmo - o Malik Didier. Nesse programa ele poderia estar com o governador do Estado, um senador ou o reitor da Universidade. Mas também poderia entrevistar um carroceiro que estava levando produtos para a feira do Porto”, recorda Motta.

 

A MBC também produziu o programa "Poliesportes", de Macedo Filho, e co-produziu o jornal “Agora”, dirigido pela jornalista Rosana Vargas, além de atuar em campanhas publicitárias e políticas.

 

Uma performance única

 

O jornalista e produtor de TV João Batista, de 54 anos, conhecido como JB, relembra com carinho momentos que passou ao lado de Malik. “Era um cara alegre, irreverente, que tratava todo mundo bem. Tinha as porta abertas em tudo quanto é lugar”, diz.

 

O jornalista foi pioneiro no colunismo social, cobrindo eventos tradicionais como festas de santo e a vida noturna de Cuiabá. Produziu também matérias investigativas veiculadas em rede nacional.

 

O ex-governador Julio Campos o descreve como um “cidadão acima da média, moderno, inteligente e avançado para sua época”.

 

Malik trabalhou ao lado de Júlio em sua campanha ao Senado, e também na de seu irmão Jayme Campos em 1990. “Era uma figura diferente dos demais jornalistas, repórteres e influenciadores da época”, recorda o ex-governador.

 

Uma das tantas histórias contadas por amigos é de sua expulsão de um clube depois de entrar no banheiro das mulheres.

 

JB, que nesse dia era seu cinegrafista, conta que eles estavam no local para cobrir o Carnaval da alta sociedade cuiabana. “No meio da matéria o Malik falou: ‘Vamos entrar no banheiro das mulheres’. Pegamos a câmera e entramos”.

Araquivo pessoal

Malik Didier

Malik (ao centro) acompanhados de colegas de profissão no Bloco Imprensando o Bebum

 

Segundo JB, ele queria saber o por que as mulheres demoravam tanto no banheiro, saber o que elas faziam lá dentro. “Saímos expulsos de lá, quase apanhamos”, recorda, sorrindo.

 

O amigo Chacon recorda também as "entrevistas" com os monumentos erguidos nas ruas de Cuiabá. “Ele entrevistava assim, numa boa. Só a expressão dele fazendo a pergunta e olhando para a estátua imaginando a resposta já era muita coisa”, conta Chacon, um dos antigos sócios do jornalista na produtora.

 

“O que ele fazia como repórter, ninguém fazia; o que ele via, ninguém via. Os detalhes que ele observava eram ímpares”.

 

Estilo marcante

 

A personalidade irreverente de Malik se completava com o visual. De cabelos compridos e óculos de soldador, ele era adepto das camisetas e de calças que não chegavam até os tornozelos. Por vezes era visto com tênis e meias de cores e pares diferentes.

 

“O Malik não tinha máscaras, era do jeito que ele era na câmera, fazendo o programa. Do jeito que ele era entrevistando o governador ou o presidente da República era entrevistando o seu Zé lá na feira. Pra ele não tinha muita diferença”, relembra Motta.

 

O último dia de um personagem que fez história

 

Malik morreu em uma tarde de domingo, no dia 16 de fevereiro de 1992. Ele, sua esposa Elza e o filho Caie, de apenas um ano, seguiam pela estrada de Chapada em direção a Cuiabá quando se envolveram em um acidente.

 

Dentro do veículo havia mais duas pessoas no banco de trás - uma babá e uma funcionária de um banco - que sobreviveram. Eles desciam a saída de Chapada e em uma curva longa o carro se chocou com uma caminhonete que seguia no sentido contrário.

 

A família estava no banco da frente sem cinto de segurança - que na época não era obrigatório. O casal morreu ainda no local e Caie foi levado ainda com vida para o uma unidade hospitalar de Chapada, mas não resistiu.

 

JB relembra bem esse dia e os últimos momentos que passou com o amigo. “Falei pra ele: ‘Vai ter um jogo da imprensa, você vai?’. Era pra ele jogar essa partida”. Malik não confirmou a presença no jogo como de costume, pois estava vendendo uma propriedade em Chapada depois de ter adquirido uma na Guia, à beira do Rio Cuiabá.

 

Aquela era uma despedida. “A impressão que deu da morte dele foi que Chapada não o deixou ir embora”, diz JB. Malik foi enterrado em um cemitério da cidade, lugar que amava de acordo com os amigos.

 

Segundo JB, cerca de 100 pessoas foram para a porta da produtora assim que souberam do acidente. “Para mim naquele dia, eu perdi um pai, perdi um irmão. Foi muito difícil, uma coisa chocante”.

 

Julio Campos também tem a data marcada na memória. “Foi um dos finais de semana mais tristes, uma tragédia! Foi uma comoção total que tomou conta de todo Mato Grosso, porque ele era muito querido”.

 

Para a família, que já não morava em Mato Grosso, mas se mantinha próxima ao jornalista, a notícia foi devastadora. “Foi tão de repente que eu fiquei em choque e não consegui ir para o velório, não tive condições de vê-lo”, recorda Yamina.

 

Paixão 

 

Malik era apaixonado por motos e carros antigos e ajudou a fundar Moto Clube de Cuiabá. Ele participava das competições e levava as irmãs e amigos para assistir.

 

O jornalista ajudou a criar o bloco carnavalesco Imprensando Bebum, em 1987, composto especialmente por colegas da imprensa. Após a sua morte, o bloco desfilou em homenagem a Malik.

 

Motta e JB acreditam que se o amigo ainda estivesse vivo teria trilhado um importante caminho na política do Estado. Não que na época ele demonstrasse interesse pelo assunto, mas a partir do perfil do jornalista. “Ele ia ser o que ele quisesse. Era muito querido e muito capaz”. 

 

Veja:

 

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
1 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Glaidstone José Lira   13.02.22 19h01
Malik Didier foi meu vizinho e amigo, morávamos na Cohab Nova. Gente boa da melhor qualidade!
6
0