Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
CANETAS EMAGRECEDORAS
11.05.2025 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Médica defende fornecimento gratuito: "Doenças seriam evitadas"

Maria Luiza Trabachin diz, no entanto, que distribuição precisaria ser feita com critérios

Victor Ostetti/MidiaNews

A médica Maria Luiza Trabachin, presidente da Associação Mato-Grossense de Endocrinologia e Metabologia

A médica Maria Luiza Trabachin, presidente da Associação Mato-Grossense de Endocrinologia e Metabologia

ANDRELINA BRAZ
DA REDAÇÃO

Com o aumento na procura por medicamentos para emagrecimento, a presidente da Associação Mato-Grossense de Endocrinologia e Metabologia, Maria Luiza Trabachin, defendeu a disponibilização desses remédios  para o tratamento da obesidade por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

A gente tendo a possibilidade de usar essas medicações, percebe como vários tipos de patologias eriam evitados

De acordo com a endocrinologista, a utilização de medicamentos para tratamento médico pode garantir resultados eficazes e prevenir doenças associadas ao excesso de peso, como infarto, diabetes e AVC.

  

“A gente tendo a possibilidade de usar essas medicações, percebe como vários tipos de patologias seriam evitados. Até a nível de serviço público”, afirmou.

 

Apesar dos benefícios, Maria LuizaTrabachin faz um alerta sobre a compra de substâncias ilegais e o uso de medicamentos sem prescrição médica, o que pode acarretar efeitos colaterais e perda de massa magra.

  

“Quem mais mantém o nosso metabolismo se chama massa magra. Se eu diminuo minha massa magra, vai cair meu metabolismo. Ou seja, aí sim eu vou ter um problema sério de facilidade de ganhar peso no futuro.”

  

Em conversa com o MidiaNews, a médica também abordou temas como a decisão da Anvisa de exigir a retenção de receita para a compra de medicamentos voltados ao emagrecimento, além das especificidades dos pacientes que podem impactar nos resultados dos tratamentos para perda de peso.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Uma nova caneta emagrecedora está chegando oficialmente ao Brasil, apesar de já estar sendo amplamente utilizada por pessoas que conseguem comprar no exterior, que é o Mounjaro. O que há de tão bom neste medicamento para tanto alarde?

 

Maria Luiza Trabachin – O Mounjaro é uma substância que se chama tirzepatida. Ela é mais potente do que a medicação que a gente tinha no Brasil, que é a semaglutida. O nome pelo qual o pessoal conhece é Ozempic. A tirzepatida, o Mounjaro, é mais potente ainda, exatamente porque ele tem uma dupla ação. Então, ele age em duas regiões; a gente chama de duplo agonista.

 

MidiaNews – Qual é a diferença entre o Mounjaro e o Ozempic?

 

Maria Luiza Trabachin – O Ozempic é um agonista de GLP-1 (hormônio intestinal que desempenha um papel importante na regulação dos níveis de glicose no sangue e na ingestão alimentar). Ou seja, ele tem atuação nesse GLP-1. Agonista significa é uma ação igual, parecida, então ele vai lá e age no GLP-1. O Monjaro age no GLP-1 e atua como agonista em outro receptor, o GIP (também hormônio intestinal). Portanto, isso dá muito mais potência. Vai dar uma saciedade maior, vai também diminuir o esvaziamento gástrico e esse fato de diminuir o trânsito intestinal, que a pessoa se sente tão saciada, tão cheia. E, com isso, a gente consegue aí sim fazer aquelas propostas de dieta, porque também não adianta eu estar sem apetite, cheia e não fazer uma dieta adequada. 

 

 

 

 

MidiaNews – E quando é recomendada a utilização desses medicamentos?

 

Maria Luiza Trabachin – Por bula, mesmo o Mounjaro e o Ozempic são pra diabetes tipo 2. Mas nós temos o Wegovy e o Zepbound, que não têm no Brasil, mas que é a tirzepatida exclusiva para obesidade. Mas, como é a mesma tirzepatida, ela funciona para a perda de peso. Ela melhora muito níveis de glicose. Para obesidade, é indicada quando o índice de massa corpórea é maior que 30 ou para quem tem um IMC acima de 27, que seria um sobrepeso, mas que têm complicações da obesidade, como hipertensão, artrose, colesterol alto...

 

MidiaNews – Quais são os possíveis resultados em termos de perda de peso que o uso desse medicamento pode apresentar?

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Maria Luisa Trabachin

 

Maria Luiza Trabachin – Na média de perda, os pacientes chegam a 15%, até 20% em alguns casos, usando a semaglutida, o Ozempic e o Wegovy. Já com a tirzepatida, essa perda de peso é maior, por ter uma dupla ação, podendo chegar a 22%. Mas a gente sabe, pelo estudo, que teve pacientes que perderam até 30%. Mas, lógico, vejo muitas pessoas falando desse 30%, mas não foi a maioria.

 

MidiaNews – Então não há uma regra para o alcance de perda de peso?

 

Maria Luiza Trabachin – Exatamente. Como teve pacientes que perderam muito pouco, e a gente que trabalha com obesidade sabe que a mesma medicação, pra mim, funciona de um jeito, pra você vai funcionar de outro. Às vezes eu tenho uma perda de peso fantástica, outro paciente não vai ter. Por isso mesmo que as medicações estão aí, mas a gente precisa alinhar com uma consulta muito bem feita, porque não é pra todo mundo. A depender do perfil que a pessoa tem, o hábito de vida e até de quanto de peso ela precisa perder, a gente vai indicar uma ou outra medicação.

  

MidiaNews – O Monjauro é um medicamento bastante caro, o que atrai falsificadores e ladrões de carga. Qual o risco de a pessoa comprar este tipo de medicamento no mercado clandestino?


Maria Luiza Trabachin – Será que, de fato, essas medicações estão vindo para manipulação de uma maneira correta? Os valores que estavam vindo para o Brasil, em muitos lugares muito baratos, nos fazem crer que isso ou estava diluído, ou foi adquirido de uma forma irregular, ou tinha uma mistura de sei lá o quê dentro.


A gente não pode esquecer que essas medicações precisam de uma temperatura muito estável. Então, tem que ficar ali de 2 a 8 graus. E teve vários contrabandos, inclusive que apareceram na mídia, de pessoas trazendo no corpo às escondidas. O nosso corpo chega a 36, 36 graus e meio; no apuro de estar fazendo algo errado, a temperatura sobe. Então, com certeza passou da temperatura dos 8 graus. Isso nos remete a um temor, porque que tipo de substância, ou mesmo que seja a substância verdadeira, que condições estão chegando para a manipulação?

 

 

 

MidiaNews – Existe outra medicação que também é indicada e pode ser mais acessível?

 

Maria Luiza Trabachin – Umas mais antigas, que é o Orlistat. Nós temos também a Sibutramina, que é com receita controlada. Nós temos também uma que é relativamente nova, que chama Contrave e que nos Estados Unidos e na Europa é a medicação oral mais utilizada para perda de peso. E nós temos também um outro análogo de GLP-1, que é mais antigo, que é o Saxenda. Só que a diferença é que o Saxenda é de uso diário, diferente do Mounjaro e do Ozempic, que são de uso semanal. Só que o Saxenda não tem também um preço tão acessível.

 

MidiaNews - Falando um pouco sobre a obesidade, queria saber se há possibilidade desses medicamentos também serem ofertados pelo SUS?

 

Maria Luiza Trabachin – Existe, inclusive, projeto de lei querendo incluir os análogos de GLP-1, que são essas classes mais potentes, no SUS. E, inclusive nós [membros do Conselho Federal de Medicina] tivemos reuniões falando sobre isso, sobre a importância da gente ir junto com esse projeto de lei, porque são medicamentos muito bons, porém pouco acessíveis. A grande maioria da população não vai conseguir fazer uso, que se beneficiaria tanto.

 

Logicamente, vai ter que ter um critério muito definido, e por isso os endocrinologistas, as sociedades, vão ajudar a elencar quem teria indicação. Eu, que atendo em rede pública, vejo essa dificuldade no tratamento. Essas medicações que estão disponíveis ajudam, mas são muito limitadas. Ainda bem que tem a cirurgia bariátrica, que é um recurso muito importante, mas tem uma fila muito grande, é limitada e tem as suas contraindicações. Mas é uma terapêutica adequada. A gente tendo a possibilidade de usar essas medicações, a gente percebe como vários tipos de patologias seriam evitados.

 

Nós estamos falando da obesidade não pela estética, mas pela complexibilidade. Obesidade é doença, ela está agregada a tantos outros problemas de saúde, à qualidade de vida ruim, a uma diminuição da expectativa de vida. Se é uma patologia que implica no surgimento de outras, é importante agir ali. Até para, a nível de serviço público, economizaria tanto com infartos, com pessoas que têm derrame, diabetes... Exatamente porque não viriam a desenvolver se a gente tivesse tratado lá no começo, tratado a doença na raiz. 

 

 

 

MidiaNews - O que a senhora achou da decisão da Anvisa de determinar a venda com retenção de receita?


Maria Luiza Trabachin –  Essa foi uma das grandes pressões que nós endocrinologistas já tinhamos feito à Anvisa, igual quando foi com antibiótico. O Brasil é único lugar que a gente pode comprar sem receita. O que pode acontecer é muitas pessoas sem indicação, sem critério, começar a usar a medicação e aí começa a aparecer um monte de efeito colateral da medicação e até gerar uma suspensão de medicações boas. A retenção de receita é importante nesse quesito, porque teoricamente garante que o paciente vai ser submetido a uma avaliação médica, ver exatamente qual é a dose ideal, o tempo e a manutenção daquilo. 

 

O Brasil é único lugar que a gente pode comprar sem receita

MidiaNews – A senhora já lidou com algum caso de alguém que já usou a medicação sem receita médica, sem acompanhamento e depois teve consequências?

 

Maria Luiza Trabachin –  Tive sim. O que mais me chamou a atenção foi de uma paciente que teve colite, uma infecção do trato, muita diarreia, desidratou e teve uma inflamação no intestino. Ela foi internada, ficou uns três, quatro dias para recuperar.  Ela já era minha paciente, mas não tinha fui eu que prescrevi. Descobri que ela tinha ido na farmácia e foi própria indicação da farmácia.

 

MidiaNews – Para fins estéticos, não é recomendada a utilização de medicamentos, certo?  


Maria Luiza Trabachin – Exatamente, pra fins estéticos, de jeito nenhum. Até porque a gente sabe que toda perda de peso é muito associada com perda de massa muscular. É fato que essas medicações, mesmo bem indicadas, têm um pouco de perda de massa muscular. Só que que quem tem peso normal perde muito mais massa muscular, exatamente porque não tem tanto tecido adiposo. E esse é o problema. Quem mais mantém o nosso metabolismo se chama massa magra. Se eu diminuo minha massa magra, vai cair meu metabolismo. Ou seja, aí sim eu vou ter um problema sério de facilidade de ganhar peso no futuro.

 

 

 

MidiaNews – Há algum efeito colateral na utilização desses medicamentos?


Maria Luiza Trabachin –  Os principais efeitos colaterais são do trato gastrointestinal. Náusea é muito comum. Muitos pacientes chegam a vomitar, pode dar desidratação. O refluxo aumenta muito pela diminuição do trânsito intestinal. E uma ressalva também é para pacientes que querem se submeter a uma cirurgia em pouco tempo, porque tem que suspender a medicação, devido à anestesia. Tem um risco anestésico grande.

 

MidiaNews - Já houve algum caso de o medicamento não funcionar?


 Maria Luiza Trabachin – Vários. Quando a gente começa, a dose tem que ser a menor, e essa dose menor é mais de acomodação do que necessariamente fazendo aquele efeito desejado. O paciente começa há uma semana e já diz: “Não está funcionando pra mim.” E não dá aquele tempo. Tem que usar certo. Tem que associar com a dieta, tem que associar com essa mudança do estilo de vida para que funcione. Só que é fato que, mesmo fazendo tudo isso, tem sim uma quantidade de pessoas que não vai funcionar. E é tão engraçado que, às vezes, não funciona uma tirzepatida e pode funcionar um que é teoricamente inferior, mas teve mais efeito pra aquela pessoa.

 

 

 

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