Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
EMAGRECIMENTO
01.06.2025 | 10h00 Tamanho do texto A- A+

Médico: dieta "pública" de Abilio incentiva pessoas a se cuidarem

Responsável pelo tratamento do prefeito, que perdeu 15 kg, Samuel Quinteiro defende mudanças de hábitos

Victor Ostetti/MidiaNews

O médico Samuel Quinteiro: pessoas reconhecem o esforço do prefeito

O médico Samuel Quinteiro: pessoas reconhecem o esforço do prefeito

PIETRA NÓBREGA
DA REDAÇÃO

Nos últimos meses tem sido comum o prefeito de Cuiabá Abilio Brunini (PL) publicar em seu Instagram, onde tem mais de 660 mil seguidores, vídeos falando da dieta que o fez perder cerca de 15 quilos. Em quase todas as postagens ele está ao lado do médico Samuel Quinteiro, que o acompanha no tratamento. 

 

Muita gente o segue no Instagram, muita gente o respeita por ser prefeito, por ser uma figura importante no nosso meio. E isso acaba impactando bastante

Nesta semana o MidiaNews recebeu Quinteiro para uma conversa sobre emagrecimento. O médico falou um pouco sobre o tratamento, a visibilidade que o prefeito deu os cuidados com a saúde e o desafio de emagrecer com uma rotina tão intensa quanto a do chefe do Executivo.

 

"Muita gente o segue no Instagram, muita gente o respeita por ser prefeito, por ser uma figura importante no nosso meio. E isso acaba impactando bastante", disse o médico que, por questões éticas, não entrou em detalhes sobre o tratamento de Abilio.

 

Na conversa, Quinteiro falou ainda sobre canetas emagrecedoras, proteínas e os influencers da saúde.

 

Em outro trecho contou por que, antes mesmo de cursar Medicina no Univag, onde se formou, já sabia que queria atuar na área de emagrecimento e hipertrofia.

   

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - Você é o um médico a quem o prefeito Abilio Brunini recorreu para emagrecer, o que lhe deu bastante visibilidade nas redes. Pode nos falar um pouco do tratamento? 

 

Samuel Quinteiro - O que eu posso dizer é aquilo que é público. Então, aquilo que ele fala nas redes sociais, enfim. Mas o Abilio veio com obesidade. Então, com alguns fatores ali que vinham junto com a obesidade que estavam prejudicando, que ele queria que realmente melhorasse. Enfim, principalmente de saúde. E ele me recorreu pra isso, pra que a gente fizesse um tratamento da obesidade, claro, também pensando na estética, mas principalmente pensando na saúde, que é o que é mais importante para ele. E também outras coisas que a obesidade acaba afetando.

 

MidiaNews - A exposição do prefeito trouxe à tona a importância de figuras públicas darem exemplo na busca por uma saúde melhor. Na sua opinião, como isso impacta a conscientização da população sobre cuidados preventivos?

 

Samuel Quinteiro - Superimpacta, porque de maneira recorrente ele vem postando nos stories no Instagram: "Gente, estou aqui, estou fazendo isso, hoje a gente foi lá e teve que ver a vitamina D pra ver como que estava". Ou posta a questão da dieta dele com salada, legumes... Muita gente o segue no Instagram, muita gente o respeita por ser prefeito, por ser uma figura importante no nosso meio. E isso acaba impactando bastante. Tanto outras pessoas, e essas outras pessoas também, de maneira colateral, impactam mais pessoas. Mas ele por si só impacta muita gente. Então, as pessoas veem: "Poxa, o prefeito está fazendo isso aqui, estou vendo que pode ser importante fazer pra mim também". Às vezes é uma coisa que eu não estava pensando em fazer, uma coisa que estava ali em stand by, mas poxa, ele está me inspirando. Então isso é muito bacana.

 

 

MidiaNews - Essa visibilidade com o prefeito fez aumentar a procura por seu consultório? Notou um interesse maior em tratamentos similares ao de Abilio?

 

Samuel Quinteiro - Sim, isso é inevitável. Percebi, sim. Principalmente porque as pessoas veem que está dando certo com o prefeito. E é bem bacana ver que as pessoas reconhecem o esforço dele. Mas também reconhecem que ele tem um suporte por trás e tem algo que vai em conjunto com o esforço para que o resultado venha.

 

MidiaNews - O prefeito tem uma agenda de trabalho extensa com jornadas até de madrugada. É possível se alimentar bem com a rotina tão puxada?

 

Samuel Quinteiro - Olha, realmente a rotina do prefeito é muito puxada. Eu agora, tendo mais convívio com ele pessoalmente, vejo que é mais ainda do que a gente vê na mídia, no Instagram. Realmente ele trabalha bastante, bastante mesmo. Sai de madrugada, de noite, da Prefeitura, enfim. E tem essas questões da UPA também. Então acaba sendo mais difícil, mas dá para conciliar sim. É um desafio muito maior, às vezes, preparar a comida ou a logística. Isso acaba sendo mais difícil. Mas se não der para fazer perfeito, pelo menos que seja feito como pode ser feito.

 

 

MidiaNews - Como descreveria o Abílio como paciente? Ele segue as orientações à risca ou enfrenta dificuldades comuns como deslizes na dieta?

 

Samuel Quinteiro - Como paciente é exatamente aquilo que ele fala no Instagram. Então, ele está se esforçando, está melhorando a alimentação, está até apostando ali de comer melhor, mais verdura, alface, tomate, enfim. Mas ao mesmo tempo, ele gosta muito do baguncinha. Então, às vezes, vai mais pro baguncinha uma vez ou outra, mas ele, na medida do possível, está seguindo muito bem. Ele está mais seguindo bem do que às vezes saindo da dieta.

 

MidiaNews - E você liberou uns dias pra ele comer um baguncinha? Acha que é importante ter esse dia de poder comer algo de que a pessoa gosta? 

 

Samuel Quinteiro - É importante, porque quando é muito restritivo, chega um momento que não aguenta mais. Então é mais importante a sustentabilidade da dieta, fazer por muito tempo uma coisa que talvez não fosse o perfeito, mas muito bom, [é melhor] do que fazer o perfeito por um tempo, não aguentar mais e bagunçar tudo.

 

MidiaNews - O tratamento dos seus pacientes inclui apoio psicológico. Como a saúde mental interfere no sucesso do emagrecimento. Você aconselha os seus pacientes a buscarem um auxílio psicológico quando necessário?

 

Samuel Quinteiro - Sim, aconselho. Vale muito a pena. Inclusive, eu abordo muito isso na minha consulta. Tem pacientes muitas vezes que, ou porque a obesidade causou, ou porque está em conjunto - ou por "n" motivos - podem estar mais depressivos, com uma depressão associada, um processo ansioso associado. E isso acaba também sendo associado e piorando muito o processo de emagrecimento. Mas eu digo assim: às vezes tem outras patologias associadas, que é importante abordar, tanto para tratamento, se precisar medicamentoso, como também psicológico. 

 

MidiaNews - Muitas pessoas com obesidade resistem a procurar tratamento, mesmo em situações críticas ou até piores que a do prefeito, por exemplo. Na sua experiência, quais são as barreiras psicológicas ou culturais por trás disso?

 

Samuel Quinteiro - Acho que a maior parte são fatores culturais. Temos uma certa doutrinação cultural da sociedade de que obesidade, na verdade, existe porque a pessoa é desleixada, relaxada, preguiçosa. E a própria pessoa com obesidade começa a ter isso para si. ‘Ah, não, eu estou assim porque sou preguiçoso’. Isso acaba desmotivando mais ainda, é uma coisa muito ruim. E muitas vezes a pessoa não busca ajuda de um profissional médico porque ela não consegue se identificar como doente. "Eu sei como tratar, tenho que fechar a boca e fazer atividade física". De maneira geral, esse é o caminho. Só que na obesidade existe uma doença, que é uma doença que não é o visual externo. É uma coisa lá do cérebro, que tem hormônios desregulados e essa desregulação causa obesidade.

 

Acho que esse é o maior desafio. Como a pessoa não consegue, não sabe, porque geralmente não é disseminada essa informação. Ela não consegue ver: "Poxa, eu tenho uma desregulação no cérebro, tenho um problema hormonal, neuroendócrino, que preciso tratar". Seja primeiramente com dieta, atividade física, acompanhamento psicológico. Não deu certo? Depois com medicações. Mas existe um ecossistema, que vem com uma dificuldade maior do que eu e você que não temos obesidade. A relação com a comida é muito mais difícil, seja de comer mais quantidade, ou seja, de comer pouca quantidade, só que alimentos mais calóricos. Acho que esse é o principal fator que faz com que a pessoa demore pra perceber que ela realmente precisa de uma ajuda.

 

 

 

MidiaNews - Uma das grandes sensações do momento são as canetas emagracedoras. Como elas atuam no corpo?

 

Samuel Quinteiro -  O que a gente tem de opções? Vamos começar lá do começo, por assim dizer. Lá em 2010, lançou-se uma medicação chamada Liraglutida, que veio como nome comercial de Victoza, inicialmente desenvolvida para diabetes. Em 2014, essa mesma Liraglutida foi aumentada a dose para ser adaptada para obesidade, que era a Saxenda. Muita gente conheceu a Saxenda. Depois [vieram] o Ozempic e o Wegovy. São medicações que são análogos de GLP-1, que é um hormônio que a gente produz. Só que ele é degradado muito rapidamente pelo nosso corpo. E a medicação faz com que esse GLP-1 fique ativo por uma semana como meia-vida. E qual que é a ação dele? Ele vai lá no cérebro. Lembra que eu falei que a obesidade, a pessoa tem uma desregulação neuroendócrina? 

 

E o que ele faz? Ele regula essa desregulação. Então, os hormônios que estão aumentados da fome, ele diminui, e os que estão diminuídos da saciedade, ele aumenta. Vamos colocar de maneira geral assim. Então, ele gera uma saciedade que a pessoa não teria sem o uso da medicação e que ela tem essa deficiência por estar com obesidade. Esse é o principal mecanismo. Também faz com que a gente tenha uma diminuição da velocidade do trânsito do trato gastrointestinal. O alimento fica mais tempo no sistema digestório. A pessoa tem maior tempo de saciedade, sensação de saciedade por isso. Esse é o principal mecanismo positivo. E já o famoso Ozempic, que aí virou o Wegovy, com uma dose maior pra obesidade, é a mesma coisa. O mesmo mecanismo de ação, só que ele tem uma potência maior do que a Saxenda lá atrás, e a posologia é diferente. A Saxenda era uma administração diária. Todo dia tinha que fazer aplicações. O Ozempic é uma aplicação por semana. Então fica muito mais tranquilo de aplicar. Esse é o principal mecanismo.

 

 

MidiaNews -  O Mounjaro virou um fenômeno. Tem observado o aumento da prescrição dele? E qual a diferença do Mounjaro para o Ozempic?

 

Samuel Quinteiro -  Em 2010 foi a Liraglutida, Victoza. Em 2014 a Saxenda, em 2017 o Ozempic. Já em 2021 nos Estados Unidos o Wegovy, que é a mesma coisa que a Semaglutina. O Ozempic era para aplicação de até 1mg, que era para diabetes, mas também tinha efeito na obesidade. Em 2021, essa mesma substância, Semaglutina, foi aumentada a dose para obesidade, de até 2,4 miligramas, mas é a mesma substância. E aí em 2022, nos Estados Unidos, agora esse ano no Brasil, oficialmente nas farmácias, foi lançado o Mounjaro, que é a Tizerpatida. Qual que é a diferença deles? É que esses todos que eu falei são análogos de GLP-1, cujo efeito eu tinha explicado. Já o Mounjaro, a Tizerpatida, é um análogo duplo. Foi a primeira medicação que, além desse análogo de GLP-1, também é análogo de uma outra substância chamada GIP. E o GIP consegue ativar enzimas que degradam o tecido adiposo. Então, ele estimula a lipólise, a perda direta de gordura.

 

O efeito colateral do GLP-1 é aumentar a náusea. Então todos esses [medicamentos] para trás davam muita náusea. Já o Mounjaro também dá náusea por conta do GLP-1. Só que o efeito colateral do GIP é diminuir a náusea. Por isso o Mounjaro tem um efeito melhor de tolerabilidade. É mais fácil você ter uma boa adaptação com menos efeitos colaterais. Isso é muito visto na prática clínica. Nos pacientes eu vejo que eles têm pouquíssimos efeitos colaterais. Já do Ozempic é mais dificil, é um pouco mais chatinho para iniciar o uso, geralmente.

 

MidiaNews - Existe algum perfil ideal de um paciente para responder bem às canetas de emagrecimento?

 

Samuel Quinteiro - Isso é muito individual. Claro, tem indicações e contraindicações, mas em relação à resposta. Então vamos colocar como a sensibilidade da pessoa a responder os efeitos positivos e a capacidade dela de resistir aos colaterais. É muito individual. Geralmente quem é mais sensível tem uma melhor resposta positiva, mas também tem uma pior resposta negativa. Geralmente é mais ou menos por aí. De maneira geral, todo mundo tem uma tolerabilidade muito boa, principalmente o Mounjaro. Então começa com uma dose baixinha, vai aumentando bem devagar. A tendência é ter poucos efeitos colaterais. Mas vamos colocar assim: a gente observa isso na primeira dose. Então, começou com uma dose baixinha, teve algum efeito colateral mais evidente, então a gente deixa uma dose menor por mais tempo. Começou com uma dose baixinha, não teve nenhum colateral, a gente consegue aumentar um pouco mais rápido. Mas é muito individual.

 

MidiaNews - E quais são as contraindicações?

 

Samuel Quinteiro - Tem somente duas contraindicações absolutas aos análogos de GLP-1. Seria uma pessoa com histórico prévio pessoal ou um histórico familiar prévio de carcinoma medular de tireoide. No caso, é um câncer de tireoide muito específico. É um dos mais raros. Não é qualquer câncer. Se tem histórico pessoal prévio ou familiar desse tipo de câncer, a gente tem uma contraindicação absoluta. Ou também histórico pessoal prévio ou familiar de uma doença um pouco mais rara que é neoplasia endócrina múltipla do tipo 2. Para esses fatores pessoais ou familiares prévios, a gente contraindica de forma absoluta. Existem outras contraindicações relativas, mas aí vai depender muito se tem sintomas, se a pessoa... como estão os exames dela.

 

MidiaNews - Já teve que interromper um tratamento por efeitos colaterais graves? Pode me citar exemplos?

 

Samuel Quinteiro -  Até hoje - e eu tenho bastante paciente em uso - não precisei. São medicações realmente muito seguras. Com o tempo pode ser que venha a acontecer. Mas por mais que eu tenha um número grande de pacientes em uso, ainda não precisei, não teve nenhum paciente. O que já aconteceu foi, em uso de Ozempic, que tem mais efeitos colaterais, o paciente começar com muito colateral, muita náusea, muito vômito... Já aconteceu. No Mounjaro, não tive nenhum caso de muitos colaterais, é bem tranquilo de forma geral. O Ozempic já tive esse caso, foi um caso bem isolado, mas muito fácil de resolver. A gente diminuiu a dose, depois foi subindo gradativamente, depois super se adaptou, super teve resultados. De maneira geral são indicações muito seguras, mas claro, sempre fazendo exame, acompanhando. É importante.

 

MidiaNews - E qual a sua opinião de pessoas que querem usar a caneta sem um acompanhamento médico?

 

Samuel Quinteiro - Acabar se expondo a um risco muitas vezes desnecessário. A gente tem que ver se tem essas contraindicações absolutas. Primeiramente, tem que ver se tem indicação. Qual que é a indicação? Paciente ou com obesidade, IMC [Índice de Massa Corporal] maior ou igual a 30. Ou IMC maior ou igual a 25, 27, depende da referência, que seria um sobrepeso associado a comorbidades. Por exemplo, diabetes, hipertensão, apneia obestrutiva do sono, dislipidemia. Então, tem essa indicação, vamos ver se não tem uma contraindicação. A gente vê se não tem nenhuma absoluta, tem algum sintoma, tem algum exame alterado de algumas coisas que podem vir a acontecer. A gente tem que fazer uma análise geral. São medicações seguras? Sim, na maioria dos casos. Só que acho que é um risco desnecessário você não analisar com um profissional habilitado e adequado pra isso quando você tem essa oportunidade. Acho que não vale a pena você correr um risco muitas vezes desnecessário, sendo que você pode fazer com uma segurança muito maior.

 

MidiaNews - A Anvisa passou a exigir receita para as canetas de emagrecimento. Acredita que essa medida é suficiente para evitar o uso indiscriminado?

 

Samuel Quinteiro -  Definitivamente nunca vai ser, nunca vai ter algo que vai resolver tudo, mas isso tende a melhorar bastante, porque hoje, acho que vai entrar em vigor metade de junho, pouco antes, algo assim. Ainda dá pra comprar de forma sem receita. Isso é um problema, porque qualquer pessoa, sem conhecimento, sem saber se não tem contraindicação, sem saber qual é a indicação, pode ir lá e comprar. Então é bacana, porque dessa forma, pelo menos a gente tem um controle maior de que o médico vai receitar, pra quem tem indicação, não tem contraindicação, realmente é um caso que precisa ser usado, e aí o paciente vai comprar com uma receita médica.

 

MidiaNews - E as falsificações das canetas? Já teve algum relato ou conhecidos próximos que relataram? 

Isso é um problema, porque qualquer pessoa, sem conhecimento, sem saber se não tem contraindicação, sem saber qual é a indicação, pode ir lá e comprar

 

Samuel Quinteiro -  Já tive. Já chegou no meu consultório: "Doutor, eu trouxe do Paraguai esse aqui, não tem nem certificação nem nada". Claro que a primeira coisa que eu faço é desorientar o uso e comprar de forma legítima. Mas, sim, já aconteceu. Não acho que vai acabar. E com uma regulação maior, a possibilidade é de aumentar isso. Então, com a regulação maior, as pessoas tendo menos acesso, pode ser que recorram mais a esse mercado paralelo. Infelizmente, é um efeito colateral também. 

 

MidiaNews - Qual é a sua opinião sobre influencers que promovem fórmulas milagrosas de emagrecimento sem estudo científico?

 

Samuel Quinteiro - Depende de qual que seria essa fórmula milagrosa. Mas de maneira geral, não existe nada milagroso. Acaba sendo uma certa sacanagem com a população. Você prometer que existem fórmulas milagrosas e mágicas que na verdade não existem. Infelizmente tem muita gente que ganha dinheiro vendendo coisas ali: "Compra o meu produto, esta marca patrocina, que dessa forma você vai perder esses quilos que você quer. Você vai emagrecer como gostaria". Na verdade não, na verdade são poucas opções que a gente tem no mercado que realmente são bem efetivas para emagrecimento. E não vão ser fórmulas mágicas, milagrosas que vão trazer esse efeito. 

 

MidiaNews - O que te despertou o interesse pela Medicina do emagrecimento? Foi algum caso específico?  

 

Samuel Quinteiro - Tanto emagrecimento, quanto hipertrofia, quanto tratamentos hormonais são assuntos com os quais sempre fui muito curioso. Desde antes de entrar na faculdade, eu era apaixonado por estudar, entender. "Poxa, mas como assim, como que o corpo responde dessa forma? Como que uma medicação vai e age nesse sítio de ligação e faz aquilo ali". Sempre fui muito curioso para saber, entender... E uma coisa que me pegou bastante foi que lá atrás eu era muito magrinho. Antes de entrar na faculdade, antes do ensino médio, eu queria entender como poderia mudar o meu corpo. Para eu entender, eu precisaria entender como funciona esse processo. Só que começando a aprender sobre esse processo, comecei a me apaixonar e cada vez eu queria entender mais como funciona. E queria saber não só pra mim, mas também saber para ajudar outras pessoas. Isso foi me apaixonando cada vez mais e, antes de entrar na faculdade, eu já sabia que queria seguir nessa área. 

 

MidiaNews - Estudos sugerem que os medicamentos como Mounjaro reduzem a compulsão por álcool. Já observou esse efeito em seus pacientes?

 

Samuel Quinteiro -  Sim, acontece isso mesmo. Porque o Mounjaro, os análogos de GLP-1, também tem uma atividade no que a gente chama de núcleo accumbens. Então ele vai lá no núcleo accumbens, que é o núcleo de recompensa do nosso cérebro, de liberação de dopamina. Ele tem uma capacidade de regular. Então tem uma menor expressão da dopamina em uso de Mounjaro ou em uso de Ozempic. Os dois podem fazer isso. Então o efeito viciante do álcool acaba diminuindo. Os efeitos positivos de quem utiliza álcool, principalmente dopaminérgicos de vício, vem com uma intensidade menor quando em uso da medicação. 

 

MidiaNews - Hoje muito se fala em bater a meta de proteínas na alimentação.  Qual é o papel real desse nutriente na perda de peso e na preservação muscular?

 

Samuel Quinteiro -  A proteína é essencial, precisa de toda forma. No processo de hipertrofia ela é muito importante porque você vai construir um novo músculo ali que não existe. Você precisa de proteína para isso, o substrato do músculo mesmo. Só que no processo de emagrecimento também é muito importante. Por quê? Ingestão de proteína, primeiramente, faz a preservação da proteína que você já tem. Então o seu corpo, em vez de utilizar o que você tem, ele vai utilizar o que está vindo da dieta. Vai preservar a sua massa muscular e isso é muito importante. Também pela possibilidade de poder ganhar massa muscular mesmo em emagrecimento. A proteína é um macronutriente muito interessante, porque primeiramente ela tem uma caloria baixa, 4 calorias por grama. A gordura, por exemplo, tem 9, o álcool tem 7. Só que quando você compara o carboidrato com a proteína, a proteína demora muito mais tempo para ser digerida. Então ela gera muito mais saciedade. Isso auxilia muito no processo de emagrecimento. Além disso, a proteína, para ela ser digerida, um pouco mais de 20% do que ela entrega de energia para o nosso corpo, ela utiliza aquela energia para ser digerida. O carboidrato não, ele gasta pouca energia para ser digerido. Então, a proteína gasta mais energia para ser digerida, menos dela é absorvida como energia. Ela também tem uma capacidade de saciedade maior e faz a preservação da massa muscular.

 

MidiaNews - Qual é o perfil das pessoas que te procuram para tratamento de hipertrofia? Você nota diferença nos objetivos entre homens e mulheres?

 

Samuel Quinteiro -  Me procuram mais para emagrecimento. Eu percebo que os homens buscam uma quantidade muito maior de massa muscular. Eles querem realmente ganhar muita massa muscular, ganhar 10, 15, 20 quilos, seja no médio ou longo prazo, mas é o objetivo que muitos têm. Alguns, claro, pouco, mas eu vejo que tem mais essa necessidade, essa vontade de transformar muito o físico, sabe? Agora a mulher geralmente é algo mais sutil. Ela quer emagrecer, quer ganhar um pouquinho de massa, uma coisa um pouco mais tranquila de certa forma.

 

MidiaNews - Acredita que o uso de hormônios para hiperiorfia está banalizado? Quais são os riscos mais subestimados por quem recorre a essa substância sem acompanhamento?

 

Samuel Quinteiro-  Eu acho que está sendo, sim, banalizado há um tempo, principalmente depois da pandemia de 2020 pra cá. Cada vez está sendo mais banalizado. Tanto é que chegam pra mim muitos pacientes que estão usando muita coisa, muitos hormônios associados, altas quantidades. E você vê que não tem necessidade nenhuma daquilo. Primeiramente o uso já não tem necessidade, mas aquela dosagem, você vê que é muito, é muito, entende? Então, o meu trabalho geralmente é, primeiro, desestimular o uso. Mas pra quem não quer parar de usar, estimular que diminua o máximo possível. Porque não precisa. Muitas vezes entendendo a situação do paciente: "Oh, poxa, você não quer parar de utilizar, eu entendi, você não vai parar. Mas vamos diminuir o máximo que for possível pra que a gente chegue num consens"o.

 

Eu vejo que está banalizado, vejo muito no consultório, prezo por diminuir o máximo possível ou retirar. E os danos principais estão relacionados ao sistema cardiovascular. Tanto é que você vê que geralmente a causa da morte é infarto. Ou infarto, ou alguma doença cardiovascular. O problema do esteroide é: ele aumenta a pressão arterial. Isso daí pode levar a danos cardiovasculares. Ele aumenta a viscosidade do sangue, aumenta o hematócrito. Isso pode gerar um turbilhonamento do sangue, isso pode aumentar o risco de trombose também. E ele faz uma dislipidemia, piora o colesterol do nosso corpo, aumenta o risco, a chance de ter infarto, a AVC, entre outros problemas. 

 

 

MidiaNews -  Qual a sua opinião sobre o futuro do emagrecimento na área da Medicina?

 

Samuel Quinteiro - A gente fala que está vivendo a "golden era" do tratamento de obesidade. Não havia até então o Mounjaro, não havia até então o Wegovy, o Ozempic... Até poucos anos atrás, a gente não tinha muitas possibilidades de medicação. Tinha algumas ali, mas de efeitos limitados. Só que estão vindo novas medicações além do Mounjaro, que já é novo. Uma que está sendo estudada, que é mais potente do que o Mounjaro, se chama Retatrutida. Essa medicação está em fase 3 de estudo, possivelmente vai ser lançada ano que vem nos Estados Unidos, mais pra frente um pouco no Brasil. E qual é a diferença? O Mounjaro tem uma perda média de perda de 20% a 25% do peso, dependendo se tem maior mudança de vida ou não, em cerca de 72 semanas, um pouco mais de um ano. Já a Retatrutida tem uma perda média de peso de 24% em 48 semanas. Ela é bem mais potente, consegue um efeito maior de maneira bem mais acelerada. Ela é um agonista triplo de incretinas, GLP-1, GIP e glucagon. O Mounjaro é só o GLP-1 e o GIP. Tem um efeito maior, mais positivo, mais rápido.

 

Tem outras medicações, tem também a CagriSema, que é a Cagrilintida com Semaglutida. Também tem uma potência bem interessante. Lembra que eu falei que o Ozempic e o Wegovy são a mesma substância? Que é a Semaglutida. Então, o que fizeram? Pegaram essa Semaglutida, que é o componente do Ozempic e do Wegov, e nos estudos associaram com uma nova medicação chamada Cagrilintida. Então eles associam a Cagrilintida com a Semaglutida, tornando assim um efeito sinérgico com maior capacidade de perda de peso. A Cagrilintida com a Semaglutida tem uma perda média de peso de 14% a 17% em 30 semanas, até menos da metade do tempo, possivelmente tão bom quanto o Mounjaro ou talvez até um pouco mais. É uma outra medicação que no ano que vem, ou em 2027, tende a ser lançada nos Estados Unidos também. Tem uma outra bacana também que já é oral. A gente não tem hoje medicações orais muito potentes como as injetáveis. Ela chama Orforglipron, uma medicação que é do mesmo laboratório do Mounjaro, a L.L. Company. Possivelmente ano que vem, ou 2027 também, pode ser lançada. Ela tem uma potência semelhante à do Mounjaro, talvez um pouco menos. Provavelmente um pouco mais que Ozempic, um pouco menos que o Mounjaro, algo nesse sentido. Mas, uma medicação oral é algo nunca antes visto.

 

 

 

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
0 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia